Em conversa com Courtney Love para a Dazed Magazine, Lana Del Rey conta novidades sobre seu novo álbum

por / terça-feira, 18 abril 2017 / Publicado emEntrevistas

Dazed

Lana Del Rey: Um coração selvagem

”Essa é a misteriosa Lana Del Rey?” — Prestes a lançar o quinto álbum definidor de eras, a rainha do dream pop domina a brisa de Los Angeles com a rebelde grunge Courtney Love

A graciosa voz de Courtney Love é inconfundível na frase junto à voz cantarolada de Lana Del Rey: “Essa é a primeira e única Courtney Love?”

Já faz um tempo que não ouvimos nada vindo de Del Rey. Ela está chamando o Amor em sua casa na Califórnia algumas semanas depois de lançar “Love”, a explosiva música ambiente que é o primeiro single de seu próximo álbum, Lust For Life. Apesar do último álbum, Honeymoon, ter sido lançado somente um ano e meio atrás, foi um espaço de tempo que pareceu eterno. Sendo uma espécie de anti-hino, “Love” leva em conta os tempos turbulentos, oferecendo simpatia ao contrário de chamar para a luta. Versos como “o mundo é seu e você não pode recusá-lo” deslizam sob um refrão circular que proclama, “Você está pronto, você se arruma todo para ir a nenhum lugar em particular.” O clipe mostra um grupo de adolescentes, com dispositivos atuais em mão e um espaço sideral voltado ao vintage.

É uma mensagem que facilmente poderia ser confundida com niilismo. Um mês antes, no entanto, Del antecipou o criticismo ao postar uma frase de Nina Simone em seu Instagram, “O dever de um artista, pelo que sei, é refletir sobre os tempos.

O que é talvez o que Del Rey faz de melhor. Lust For Life poderia ser chamado de o próximo capítulo de uma longa investigação sobre os qualificadores de juventude de várias épocas que começou com o clipe que ela dirigiu para o seu single de estreia, “Video Games”. Isso cristalizou perfeitamente um humor e um momento, misturando uma estética caseira de outrora somente encontrada em vlogs feitos pela webcam com uma imagética dos tapetes vermelhos dos anos 1950, um outdoor do iPod e Paz de la Huerta caindo em frente aos paparazzi. Enquanto Del Rey frequentemente insiste que ela está perdida em devaneios, obcecada pelo passado, sua música é uma pungente reflexão sobre uma geração que continua resistindo às expectativas. Também é um estudo sobre a feminilidade no geral. Se não for a feminilidade em si, ela aparece para perguntar, embebida em anacronismo.

Tanto Lana Del Rey quanto Courtney Love compõem sobre instituições irresistíveis – Hollywood, a aceitação do mainstream e dos homens de poder. A dolorosa mudança de cada narrativa é algo da qual que as cantoras sempre estarão de fora e descreverão como desejosa. Enquanto Love habilmente interpretou a forasteira como a vocalista de Hole durante os anos 90, na era das infinitas notas de rodapé, Del Rey tem assumido o papel de uma desajustada alheia, mais propensa a uma cara emburrada do que um grito.

Duas décadas de diferença de idade, as similaridades entre as duas mulheres (que fizeram oito shows juntas em 2015 para a Endless Summer Tour de Del Rey) são irrefutáveis. E se Love tivesse surgido quando Del Rey surgiu, quando cada passo profissional que ela tomasse fosse registrado pelo Wikipédia em questão de segundos? Ou se Del Rey crescesse em um tempo quando ela teria que pedir por críticas de música, mesmo sendo a esposa de uma grande estrela do rock? Elas seriam comparadas uma com a outra? De um jeito ou de outro, cada uma se tornou uma trágica figura ao estilo Cassavetes em seu mundo, andando na linha entre o distante herói cult e uma reverenciada estrela do pop.

As pessoas me perguntam sobre as nossas similaridades musicais,” Del Rey diz para Love, que está ligando de um set de filmes em Vancouver. “Eu só sei que é o tipo de música que eu escuto o tempo todo: quando estou dirigindo, ou quando estou sozinha, ou quando estou entre amigos.”


Lana Del Rey: Então, a gente pode falar de qualquer coisa… Como aquelas palmeiras pegando fogo que estavam no seu clipe de “Malibu”. Eu não achava que elas fossem reais!

Courtney Love: Antigamente, quando o rock ‘n roll possuía dinheiro, você quis dizer? Meu Deus, Lana, botar fogo em palmeiras era tão divertido. Você achou que elas eram CGI?

Lana Del Rey: Sim.

Courtney Love: Meu Deus, você é tão nova. Eu queimava até o talo as palmeiras. Na minha época, querida, você tinha que caminhar até a escola na neve. Então, desde que saí em turnê com você, eu fiquei meio obcecada e entrei por esse buraco de coelho do País das Maravilhas, só que da Lana Del Rey. E então me tornei – não que eu vá começar a usar coroas de flores, Lana, nem pense nisso – mas eu com certeza amo isso. Eu amo tanto quanto amo PJ Harvey.

Lana Del Rey: Isso é incrível porque, talvez isso já tenha sido um pouco dito, mas eu amo tudo que você faz e tudo que já fez. Eu não pude acreditar quando você veio na turnê comigo.

Courtney Love: Eu li que você passa bastante tempo na masterização e mixagem do som. Isso é verdade nesse novo álbum?

Lana Del Rey: Meu Deus, sim, e está me mantando. É porque eu passo tanto tempo com os engenheiros trabalhando na reverberação. Porque, sendo sincera, eu não amo uma produção muito polida. Se eu quero um pouco de sentimento retrô, tipo aquela energia ou aquele toque meio Elvis, às vezes se você manda isso a um mixador de fora ele pode tentar enxugar as coisas um pouco, aprimorando-as pra soarem realmente pop. E Born to Die tinha essa “polidez”, mas, no geral, eu tenho uma aversão a esse tipo de som – você tem que separar e escolher. E algumas pessoas dizem, “não está pronta para a rádio se não estiver tratada, do começo ao fim”. Mas você já sabe disso. Quem quer que tenha feito a mixagem para você é um gênio. Quem é?

Courtney Love: Chris Lord-Alge e Tom Lord-Alge. Kurt era muito bom na masterização. Ele estava em todas as sessões de masterização como uma ameaça. Eu nunca fui boa nisso, porque é muita dor de cabeça.

Lana Del Rey: É mesmo muita dor de cabeça.

Courtney Love: Eu acho que a minha música favorita de todas – você não vai gostar disso porque é uma antiga – é “Blue Jeans”. Quer dizer, “você não liga para morte e é doentio como câncer”? Quem faz isso?

Lana Del Rey: Eu preciso dizer, essa faixa teve esse cara, Emile Haynie, por toda ela. Eu lembro que “Blue Jeans” tinha uma batida mais Chris Isaak. Então eu trabalhei com ele e ela se tornou o que é hoje. Eu fiquei tipo, “então esse é o poder da pós-produção”. A música estava na rádio britânica, no Radio 1, e eu lembro de pensar “Caralho, isso começou como uma clássica composição simples que eu consegui do meu amigo, Dan Heath”. Foi, tipo, seis acordes que eu comecei a cantar.

Courtney Love: Você tem aquele verso (na música), “Você era meio punk rock, eu cresci no hip hop”. Você realmente cresceu no hip hop?

Lana Del Rey: Eu não achei nada bom musicalmente enquanto eu não saí do ensino médio, e eu acho que é só porque eu vim do norte do país e nós tínhamos country, nós tínhamos NPR (Rádio Pública Nacional) e tínhamos MTV. Então Eminem era a minha versão do hip hop até que eu tivesse 18. Então talvez eu tenha encontrado A Tribe Called Quest (grupo musical).

Courtney Love: Você conheceu Marshall Mathers (Eminem)?

Lana Del Rey: Não. Às vezes ele me cita nas músicas dele. Eu liguei para o CEO da minha gravadora (Interescope) John Janick e eu estava tipo “Ok, na última música dele (Big Sean’s “No Favors”) quando Eminem diz ‘Eu estou prestes a atropelar uma garota, ouvindo o CD de Lana Del Rey’. Ele quis dizer que queria me atropelar ou estava ouvindo meu CD enquanto atropelava alguém?”. E John disse “Não, não. Ele estava ouvindo você enquanto atropelava alguém” e eu fiquei tipo “Ok, legal.”

Courtney Love: Você foi citada pelo Eminem? Oh meu Deus, isso é uma joia na coroa.

Lana Del Rey: Só um pequeno rubi.

Courtney Love: Sim, não é um diamante, mas é um rubi.

Lana Del Rey - spring/summer 2017

Lana veste vestido Prada de chiffon e penas de avestruz, brincos Gillian Horsup.

Courtney Love: O que eu ouço em sua musica é que você criou um mundo, você criou uma persona, você criou um tipo de enigma que eu nunca consegui criar mas se eu pudesse voltar atrás eu criaria.

Lana Del Rey: Você está realmente falando serio? Não sei nem se o seu legado pode ficar maior. Você é uma das poucas pessoas cujo legado as precede. Só o nome Courtney Love é… Você é grande, querida. Você é Hollywood (risos). Sair em turnê com Courtney Love foi pra mim, tipo, o diamante de Elizabeth Taylor.

Courtney Love: Sabe, eu conheci Elizabeth Taylor. Eu estava com a Carrie Fisher na festa de Páscoa (da Taylor) e ela demorou seis horas para descer pro primeiro andar.

Lana Del Rey: Eu amo isso.

Courtney Love: Eu olhava pra Carrie e dizia, “Isso não vale a pena,” e Carrie disse, ”Oh, isso vale.” Então nós fomos escondidas pro andar de cima e, Lana, quando eu me lembro do pintura que o Warhol fez da Elizabeth Taylor enquanto está se esgueirando para o andar de cima e nela está escrito ‘001’, você começa a ter arrepios. E então você vê o quarto dela e ele é repleto de lavanda, assim como os olhos dela. E ela está no banheiro arrumando o cabelo com esse cara chamado José Eber, o qual está usando um chapéu de cowboy e tem um longo cabelo, e eu fiquei tipo, ”O que estou fazendo aqui? Eu não sou uma realeza de Hollywood.” E as primeiras palavras que saíram da boca dela são, tipo, ”Vai se foder, Carrie, como você está?” Ela era tão maliciosa, mas uma deusa ao mesmo tempo.

Lana Del Rey: Ela era tão maliciosa. O fato de ela ter se casado com o Richard Burton duas vezes – e todas as histórias que você ouve sobre aquelas famosas e loucas brigas públicas – ela estava pronta pra isso. Pronta pra encrenca.

Courtney Love: Sabe de uma coisa querida? Eu comecei realmente muito cedo. Eu comecei a stalkear Andy Warhol antes mesmo que eu pudesse sequer pensar nisso. E você meio que fez o mesmo no meu entendimento. Essa coisa de ‘Eu quero fazer isso’. E não tem nenhum problema nisso.

Lana Del Rey: Não, não tem. Não tem nada de errado com você fazer o que tiver que fazer pelas razões certas. Se a música esta realmente em seu sangue e você não não quer fazer nada além disso, você sé se preocupa com dinheiro depois. É mais sobre o sentimento, sem querer sem clichê. E sobre as pessoas. Eu acho que temos isso em comum. É querer ir em shows, querer ter seu próprio show – vivendo, respirando, comendo tudo isso.

Courtney Love: Posso te perguntar sobre seu tempo em Nova Jersey? Foi um tempo para a procura de si mesma?

Lana Del Rey: Oh, eu nem sei se deveria ter contado pra alguém que eu vivi em um trailer em Nova Jersey, mas, estupidamente, eu fiz uma entrevista direto do trailer em 2008.

Courtney Love: Eu vi isso!

Lana Del Rey: Foi vergonhosa, foi vergonhosa (risos).

Courtney Love: Você está tão fofa, apesar disso.

Lana Del Rey: Eu pensei que estivesse meio rockeira. Eu era loira. Eu pensei que tivesse conseguido do meu jeito.

Courtney Love: Eu entendo completamente.

Lana Del Rey: A única coisa que eu desejava ter feito era ir a Los Angeles em vez de Nova York. Eu estive tocando por aí durante uns quatro anos, somente shows de microfone aberto, e consegui um contrato com essa gravadora indie chamada 5 Points Records, em 2007. Eles me deram 10 mil dólares e eu encontrei esse trailer em Nova Jersey, depois do rio Hudson – Bergen Light Rail. Então eu me mudei pra lá, terminei meus estudos e fiz aquele álbum (Lana Del Rey a.k.a. Lizzy Grant), o qual esteve arquivado por dois anos e meio, e então foi lançado por, tipo, três meses. Mas eu estava orgulhosa de mim mesma. Eu sentia como se tivesse chegado lá do meu jeito. Eu tinha minha própria perspectiva e era meio apelativa e eu sabia que ia meio que influenciar o que estaria vindo a seguir. Foi definitivamente uma fase. (risos)

Courtney Love: Mas você tem músicas sobre ser uma ”Garota do Brooklyn’. Você pode compor sobre Nova York habilmente e eu não. Eu tentei compor uma música sobre uma trágica garota em Nova York, andando pela Bleecker Street – essa garota não podia bancar uma vida em Bleecker Street, então a música não fazia sentido, certo? (risos) Eu aproveitei meu tempo lá, mas isso me perseguiu. Eu não podia fazer isso porque eu não era uma cantora solo. Eu tinha que ter uma banda.

Lana Del Rey: Eu queria tanto uma banda. Eu sinto que eu não teria tido medo do palco se tivesse começado tocando em shows maiores caso (eu tivesse) um grupo de verdade e se nós estivéssemos juntos. Eu realmente queria essa camaradagem. Na verdade, eu diria que não havia encontrado isso até dois anos atrás. Eu tenho estado com a minha banda há seis anos e eles são ótimos – eu fantasiava sobre Laurel Canyon.

Lana Del Rey - spring/summer 2017

Lana veste minivestido drapeado Balenciaga, brinco de lágrima Found and Vision.

Courtney Love: Eu queria uma camaradagem. As bandas alternativas da minha vizinhança eram os (Red Hot Chili) Peppers e Jane’s (Addiction). Eu conhecia o Perry (Farrell, vocalista do Jane’s Addiction) e eu frequentei o ensino médio por, tipo, dez segundos com dois membros do Peppers e um cara chamado Romeo Blue que se tornou Lenny Kravitz. Eu me lembro de fazer uma participação em um clipe dos Ramones e dele ter passado por lá, quando ele estava namorando a Lisa Bonet do The Cosby Show e que isso era uma grande coisa.

Lana Del Rey: Viu só? Você não imaginava isso em Nova York. Quando eu cheguei lá, os Strokes tinham estourado, mas era meio que só isso. Eu sinto que Los Angeles sempre foi o epicentro da música.

Courtney Love: Los Angeles é mais fácil. As pessoas têm garagens. E então quando você vai para o litoral de Washington e Oregon, as pessoas têm casas maiores e garagens maiores, e as pessoas têm pais. Eu não tinha pais, e você – bem, você tinha pais, mas você estava por conta própria.

Lana Del Rey: Sim. Sabe aquela música sua (‘Awful’) que diz, “(Simplesmente cale a boca,) você tem apenas 16 anos”? Eu acho que existem dois tipos diferentes de pessoas. Existem as pessoas que escutam, ”Do que você sabe? Você é apenas uma criança,” e então existem pessoas que têm muito apoio, tipo, “Vá fundo, siga seus sonhos.” (risos) Eu acho que quando você não tem isso, você meio que fica preso a uma certa idade. Aleatoriamente, nos últimos anos, eu sinto como se tivesse amadurecido. Talvez eu apenas tive tempo de pensar sobre tudo, de processar tudo. Eu tive que seguir em frente e penso em como é agora, cantar músicas que eu compus dez anos atrás. É diferente. Eu estava praticamente me aliviando desses sentimentos no palco até recentemente. É estranho ouvir minhas coisas antigas. Hoje, eu estava assistindo a alguns dos meus clipes antigos e a essa filmagem de você tocando em um grande festival. A plateia era toda feminina – apenas jovens garotas por fileiras e fileiras. Eu fiquei me lembrando do quanto essa influência foi grande nos adolescentes. E – voltando ao enigma e à fama e ao legado – você sabe, daquelas garotas que cresceram e das garotas que têm 16 anos agora, elas se refletem em você da mesma forma que se refletiam quando você começou. E esse é o poder do seu ofício. Você é uma das minhas compositores preferidas.

Courtney Love: Você é uma das minhas, então, cheque-mate (risos).

Lana Del Rey: O que você fez foi a definição de “legal”. E tem um monte de música diferente surgindo, mas adolescentes continuam sabendo o que vem autenticamente do coração de alguém. Pode não ser a música que mais vende, mas quando as pessoas ouvem, elas sabem. Você é fã do John Lennon?

Courtey Love: Quando eu ouço “Working Class Hero”, é uma música que eu pediria a Deus que eu pudesse ter escrito. Eu jamais faria um cover dela. Quer dizer, Marianne Faithfull fez um cover lindamente, mas eu jamais faria porque eu acho que Marianne fez um ótimo trabalho e é tudo que precisa ser dito.

Lana Del Rey: Eu me senti assim quando fiz o cover de ‘Chelsea Hotel (#2)’, a música do Leonard Cohen, mas conforme eu ia fazendo mais shows acústicos, eu não poderia deixar de cantá-la.

Courtey Love: Eu nunca teria seu alance. Eu tentei cantar “Brooklyn Baby” e “Dark Paradise” enquanto ouvia e essa nova, “Love”. Seu tom vai alto, querida.

Lana Del Rey - spring/summer 2017

Lana usa todas as roupas e cinto Chanel, brincos e broches Gillian Horsup usados no ombro direito , broche Louise Ferdinando usado no ombro esquerdo.

Lana Del Rey: Eu tenho alguns mais baixo para você. Você sabe o que seria bom? Aquela música “Ride”. Eu não canto ela nas suas oitavas originais durante os show porque é muito baixo para mim. Mas eu estava pensando sobre fazer algo com você por um instante. Bem depois que fizemos a Endless Summer Tour, estávamos pensando que deveríamos pelo menos escrever, ou deveríamos apenas fazer qualquer coisa e talvez você pudesse vir para o estúdio e ver o resultado.

Courtney Love: Quando estávamos em turnê, nossas conversas pré-show foram bem produtivas para mim.

Lana Del Rey: Para mim também. Foi um verdadeiro momento de contar bênçãos. Eu apenas queria me lembrar disso o tempo todo, porque foi muito incrível.

Courtney Love: Da mesma forma. Foi muito legal entrar no seu camarim. Minha parte favorita da turnê foi em Portland, pegando um vinil para você, que eu senti que você precisava (risos).

Lana Del Rey: Quando você deixou o camarim, eu estava passando minha mão por todo o vinil como se fosse pequenas pedras preciosas, tipo “Eu não acredito que eu tenho esses vinis que a Courtney me deu, é muito foda”. E nós estávamos em Portland também. Achei surreal.

Courtney Love: Sim, Eu não gosto de ir muito lá mas eu fui lá com você. Nós temos isso em comum também: nós duas fugimos para o Reino Unido. Se eu pudesse viver em qualquer lugar do mundo, viveria em Londres.

Lana Del Rey: Se eu pudesse viver em qualquer lugar do mundo além de Los Angeles, viveria em Londres. No fundo, sempre senti que eu poderia talvez acabar lá.

Courtney Love: Eu sei que eu acabarei lá. Eu sei o bairro no qual eu acabarei vivendo, e eu sei que eu gostaria de estar no Thames. Eu assinei uma revista chamada Country Life, que é apenas um “pornô” de imóveis e caça à raposa. É incrível. Tudo bem, então, se você não estivesse trabalhando com si mesma, com o que trabalharia?

Lana Del Rey: Você tem uma resposta clara para isso, para si mesma?

Courtney Love: Sim, eu trabalharia com adolescentes. Garotas que estão em ascensão.

Lana Del Rey: Isso toma você totalmente. Eu sou egoísta. Eu faria algo que me colocaria na praia. Eu seria como uma salva vidas ruim (risos). Mas eu viria ajudar você nos fins de semana.

Courtney Love: Você prefere estar em Malibu que estar na cidade?

Lana Del Rey: Eu gosto da ideia. As pessoas não vão sempre te visitar em Malibu. Então é a maior parte do tempo sozinha, que é meio como, hmm… Eu não estou em Silver Lake (enclave do indie-rock) mas eu gosto de tudo lá. Eu acho que tenho que dizer que prefiro a cidade, mas eu gosto em uma parte do tempo da minha fantasia em Malibu.

Courtney Love: A única coisas ruim que pode acontecer em Malibu é realmente entrar no Etsy e gastar demais.

Lana Del Rey: Oh meu Deus, mulher… (risos) Conte-me sobre isso. Tive madrugadas de insônia na gandaia do Etsy.

Courtney Love: Gandaias pesarosas do Etsy. Tudo bem, então, liricamente, você tem algumas ambiguidades e uma delas é a a cor vermelha. Vestidos vermelhos, escarlate, esmalte vermelho… Eu meio que quero roubar isso.

Lana Del Rey: Você precisa assumir o controle disso, porque eu acho que quero me livrar do vermelho.

Courtney Love: Bem, eu uso demais a palavra “vadia”.

Lana Del Rey - spring/summer 2017

Lana usa vestido lamé Saint Laurent por Anthony Vaccarello, brinco Louise Ferdinando.

Lana Del Rey: Você pega ‘vermelho’. Eu vou trocar por ‘vadia’. Sou tão sortuda.

Courtney Love: Amo essa música (Love).

Lana Del Rey: Obrigada. Amo a nova música também. Estou feliz que seja o primeiro single. Ela não soa tão retrô, mas eu estava ouvindo muito as Shangri-Las e queria algo maior, algo mid-tempo, que soasse “com cara de single”. Nos últimos 16 meses, as coisas estavam um tanto quanto malucas nos Estados Unidos, e em Londres quando eu estava lá. Eu estava simplesmente sentindo que eu queria uma música que me fizesse sentir mais positividade quando eu cantasse. E tem um álbum chegando na primavera (do hemisfério norte) chamado Lust for Life. Eu fiz algo que nunca tinha feito, o que não é tão difícil assim, mas eu tenho algumas colaborações nesse álbum. Falando de John Lennon, eu tenho uma música com Sean Lennon. Você o conhece?

Courtney Love: Eu o conheço, gosto dele.

Lana Del Rey: Se chama “Tomorrow Neve Came”. Eu não sei se você já se sentiu assim, mas quando eu escrevi isso, eu senti que não era exatamente para mim. Continuei pensando sobre para quem essa música era ou quem toparia fazê-la comigo e percebi que ele seria a pessoa certa. Eu não sabia se eu deveria chamá-lo porque, na verdade, tem um verso onde eu digo “Eu gostaria que pudéssemos voltar para a nossa casa de campo, ligar o rádio e ouvir nossa canção favorita de Lennon e Yoko“. Não gostaria que ele pensasse que eu estava chamando ele porque eu estava citando eles. Na verdade, eu tinha ouvido os álbuns dele por muito tempo e eu não achava que era a mesma vibe, então eu toquei a canção para ele e ele gostou… Ele reescreveu o verso dele e tinha notas mais extensivas até o mix. E foi a última coisa que eu fiz, sábia decisão. Eu não mixei a faixa, mas o fato de que “Love” apenas veio e Sean meio que a finalizou, me fez achar bastante que “era pra ser”. Porque o conceito geral de paz e amor está realmente nas veias dele e de sua família. E então, eu tenho também o Abel (Tesfaye), The Weeknd. Ele está, na verdade, no faixa-título do álbum, “Lust for Life”. Talvez seja um pouco estranho ter uma colaboração na faixa título, mas eu realmente amo aquela música e havíamos dito por muito tempo que faríamos algo juntos; fiz colaborações nos dois últimos álbuns dele.

Courtney Love: Você tem um produtor só ou vários?

Lana Del Rey: Rick Nowels. Ele na verdade trabalhou com a Stevie Nicks um tempo atrás. Ele trabalha muito bem com mulheres. Eu fiz os últimos álbuns com ele. Até mesmo com Ultraviolence que eu fiz com o Dan (Auerbach), fiz primeiro com o Rick, depois fui para Nashville e retrabalhei com o Dan. Então, sim, Rick Nowels é incrível, e esses dois engenheiros – com todos os álbuns que eu trabalhei com o Rick -, eles fizeram boa parte da produção também. Você amaria esses dois caras. Eles são super inovadores. Eu queria um pouco de ficção científica para algumas coisas e eles têm realmente ótimas ideias de produção. Mas sim, Max Martin…

Courtney Love: Espere, você escreve com Max Martin? Vocês foram para o complexo? [nota do redator: estúdio de Max Martin]

Lana Del Rey: Já esteve lá?

Courtney Love: Não. Eu sempre quis trabalhar com Max Martin.

Lana Del Rey: Então, basicamente, ‘Lust for Life’ foi a primeira música que eu gravei para o álbum, mas era meio que um cubo mágico. Eu senti que era uma bela música mas… não estava certo. Eu não costumo voltar e editar coisas tanto assim, porque as músicas acabam de certa forma para serem o que são, mas nessa música, em especial, eu continuei voltando. Eu realmente gostei do título. Eu gostei da estrofe. John Janick estava tipo “Por que nós não vemos o que Max Martin acha?” Então eu fui até a Suécia e mostrei a música a ele. Ele disse que achou totalmente que a melhor parte era o verso e que ele queria ouvir e ouvir novamente, então eu fiz da estrofe o refrão e nós conseguimos, soou perfeitamente. Mas então eu estava sentindo que estava faltando um pouco da pegada das Shangri-Las. Então eu voltei por uma quarta vez e descamei tudo em harmonias. Agora eu estou feliz com o resultado (risos). Mas deveríamos fazer algo. Tipo, logo.

Courtney Love: Gostaria disso. Seria fantástico.

 

Por Natasha Stagg
Tradução por Leticia Oliveira, Marcela Schettini, Marcos Almeida e Raphaella Paiva
Revisão por Mateus Santana
Fotos por Charlotte Wales

 

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Redação LDRA
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