Os Cinco Anos de Video Games

por / sexta-feira, 14 outubro 2016 / Publicado emNotícias


Video Games comemorou cinco anos de lançamento e a revista Dazed, em comemoração à data, fez uma análise da música e das mudanças que ela trouxe para a indústria musical.


Foi há cinco anos, quando Lana Del Rey entrou pela primeira vez no mundo, com a sua marca diferente e sonhadora que ela chamou de “Hollywood Sadcore”. A primeira amostra veio na forma de “Video Games”, uma música romântica simples, porém brilhante, que parou uma indústria musical obcecada por músicas eletrônicas. Sua instrumentação é minimalista, a música começa com sinos de igreja e lentamente desenvolve harpas, violinos e um lento piano sobre a beleza do vocal único de Del Rey. A letra parece ser suspirada ao invés de cantada, há traços de melancolia assim como traços da tristeza cinematográfica que Lana Del Rey hoje é tão conhecida. Ela envelheceu incrivelmente bem devido a sua falta de necessidade de se apoiar em tendências musicais daquele momento. “Video Games” é o tipo de faixa única na vida de um artista que está destinada a ser um sucesso de críticas, independente da data de lançamento.

Depois, veio o clipe. É uma colagem em movimento contendo vídeos salvos – pense em imagens femininas da Disney, bandeiras americanas e clipes do letreiro de Hollywood desgastado – interceptadas com vídeos de webcam de uma Lana Del Rey com olhos de cervos, cantando pensativamente para a câmera. A própria letra da música se apoia em uma justaposição de fantasia e realidade; os versos mostram uma Del Rey devota se vestindo para distrair seu amante do seu já mencionado “Video Games”, enquanto o refrão cinematográfico apresenta a protagonista romantizando a concepção de romance, cantando “o Paraíso é um local no planeta com você”.

tumblr_m9cpqjzhak1qj5u2po1_500“Os versos eram como as coisas estavam indo com uma certa pessoa e o refrão era como eu queria que as coisas realmente tivessem sido com outra pessoa, quem eu divaguei por um longo tempo”, ela explicou para a revista Dazed em 2011. “’Balançando no quintal, ele encosta o seu carro veloz, assobiando meu nome’. Era isso que acontecia, sabe? Ele vinha para casa e eu via ele. Mas então o refrão não era bem assim. Esse era o modo que eu queria que tivesse sido – a melodia soa tão convincente e celestial porque eu queria que fosse dessa maneira”.

Retrospectivamente, o contraste entre a realidade de um relacionamento e o desejo idealista de um amor à moda antiga continua sendo a perfeita introdução para o trabalho de Lana Del Rey. O mesmo tema continua a permear seus trabalhos mais recentes e o comprometimento com sua estética singular permanece constante. Em 2011, a rentabilidade dessa estética era incrível – “Video Games” conseguiu Platinum na Austrália, Áustria, Bélgica e Reino Unido, também indo duplo Platinum na Suíça e vendendo mais de 2,6 milhões de cópias no mundo todo. Até agora, o clipe foi visualizado mais de 128 milhões de vezes no YouTube e a faixa ganhou o prestigiado prêmio Ivor Novello por Melhor Música Contemporânea em 2012. O trabalho mais recente dela pode nunca ter alcança os mesmos picos comerciais que “Video Games” alcançou, mas os pontos de referência permanecem os mesmos – mesmo que agora os orçamentos sejam maiores.

É inegável que a sorte do momento certo no lançamento de “Video Games” foi um fator importantíssimo – a sua ambientação sonora única soava mais única ainda em tempos de dominância de música genéricas eletrônicas. Em uma entrevista para a revista T, Del Rey explicou que a gravadora viu a sua produção lenta e melancólica como um risco comercial que os impediam de lhe dar uma chance. “Eu tocava minhas músicas, explicava o que estava tentando fazer e recebia um ‘Você sabe quem está em primeiro lugar nos charts de 13 países agora? Kesha’. ‘Video Games’ era uma música romântica de 4 minutos e meio”, ela explicou. “Nenhum instrumento nela. Era muito sombria, muito pessoal, muito arriscada, não era comercial. Não era pop até estar nas rádios”.

É inegável que a sorte do momento certo no lançamento de “Video Games” foi um fator importantíssimo – a sua ambientação sonora única soava mais única ainda em tempos de dominância de música genéricas eletrônicas.

No momento que a música atingiu as rádios, a recepção foi extraordinária – e também extremamente breve. Houve uma rápida repercussão de rumores depois do sucesso de “Video Games”, na qual Lana Del Rey foi elevada e depois crucificada pela mídia, antes mesmo do lançamento do seu primeiro álbum. Parece que esses criticismos começaram no momento que seu infeliz LP de estreia foi exumado on-line. Intitulado Lana Del Ray A.K.A. Lizzy Grant, o álbum tinha um estilo sonoro parecido com o que depois seria mais desenvolvido. Assim como “Video Games”, ele era lento, com músicas românticas dramáticas em gravações de baixo orçamento. A mídia estava, de um certo jeito, mais enfurecida com a descoberta de Lana Del Rey como um pseudônimo. Foi a quebra da ilusão de que ela havia surgido do nada no YouTube, uma revelação que alavancou uma missão de crucificar a estrela por uma suposta falta de autenticidade.

As críticas aumentaram depois da infame apresentação ao vivo no Saturday Night Live, a qual muitos argumentaram ser a demonstração da sua falta de talento. Del Rey foi forçada a se defender, explicando que ela ainda não tinha sido treinada para se apresentar e ainda não estava confiante em frente a uma plateia mundial. Artigos foram logo lançados com propósito de expor Del Rey como um caso de estilo sobressaindo a qualidade do material. Títulos expunham um pai milionário e atraíram atenção para a teoria que Del Rey havia sido pressionada por empresários e advogados a criar um pseudônimo para sua música. As coisas tomaram uma proporção tão grande que a revista SPIN escreveu um artigo inteiro titulado “Desconstruindo Lana Del Rey – uma análise meticulosa dos fatos e ficções designada a esclarecer os fatos e mitos que cercam a estrela”.

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Lana Del Rey no Saturday Night Live

Desde o primeiro dia, Lana Del Rey foi forçada pela imprensa a negar os rumores que ela seria uma meticulosa criação da sua gravadora, a procura de sucesso. Ela clamou que seu nome foi escolhido depois de passar bastante tempo com seus amigos cubanos, falando espanhol fluentemente e eventualmente se decidindo por Lana Del Rey, por ser exótico e bonito. “Uma vez que você tem um nome, você espera certas coisas dele, então era algo para se prestar atenção”, ela explicou na mesma entrevista para o Dazed. “Eu poderia criar um mundo sonoro somente pelo modo como o nome soava nos meus lábios. Me ajudou bastante”. Apesar da sua honestidade, não foi surpreendente quando a mídia mainstream se recusou a acreditar nela. Uma mulher, no qual seu mundo visual era construído em volta de arquétipos e sexualidade feminina, ter feito ela mesma sua imagem.

Ainda, o verdadeiro legado de “Video Games” não está no seu valor comercial, ou no seu sucesso crítico. Mas sim no que pode ser encontrado no Tumblr. Uma rápida pesquisa por “Lana Del Rey” no site mostrará rapidamente milhares e milhares de gifs, fotos e citações que veem do mesmo estilo melancólico que Del Rey se tornou tão conhecida. As suas letras trouxeram um criticismo para a glamourização da morte e depressão, enquanto “Video Games” parece evocar um desejo desesperado por amor não correspondido. É essa rara justaposição de referências que faz jus ao termo criado por ela mesma, “Hollywood Sadcore”.

De uma outra maneira, a ligação entre o Tumblr e a depressão é bem documentada. Uma combinação de anonimato da internet, espírito comunitário e uma quantidade infinita de conteúdos sobre tristeza e agonia transformou o site em um belo paraíso seguro para os sofredores compartilharem suas ideias. Coincidentemente, o Tumblr estava vivendo um boom de popularidade no mesmo momento que Lana Del Rey surgiu como uma figura mainstream e imediatamente se tornou a líder para o que ainda hoje é conhecido como “sadcore”. Um artigo da Dummy escrito em 2012 descreve o seu carisma como “uma bela mulher com uma voz intrigante, Lana incorpora (mais ou menos) a mesma perspectiva do filme ‘Vantagens de ser Invisível’, um amor jovem e difícil que se mostrou para uma geração que possui um acesso ilimitado à internet e está desesperadamente correndo atrás de nostalgia”.

Talvez seja essa a descrição que resume o longo legado de “Video Games”. Lana Del Rey fez exatamente o que a internet permite todos nós fazer. Ela minou nas décadas passadas para achar inspiração de um modo que as gerações anteriores nunca foram capazes de fazer, pegando referências cinematográficas, uma imagem idealizada do glamour de Hollywood e o sofrimento pelo que perpetua em filmes como O Vale das Bonecas e As Virgens Suicidas. Misturando elas junto com as suas próprias experiências pessoais capazes de desarmar uma estética consistente. Depois de cinco anos, a música continua atemporal, a justaposição do seu refrão alegre, da instrumentação minimalista e os versos realistas ainda ecoa.

 

O argumento de que ela não é a mente brilhante por trás da sua própria criação agora pode ser facilmente destruído. Desde Born To Die, Del Rey lançou Paradise, Ultraviolence e Honeymoon sem sair do mundo atraente que ela criou para si mesma. Não é surpresa que os críticos se acalmaram com o passar do tempo – o agregador de críticas musicais, MetaCritic, revela que seu último lançamento, Honeymoon, é o mais bem recebido até agora, recebendo a nota 78. Comparando, Ultraviolence recebeu 74, Paradise 64 e Born To Die 62. Seguindo essa lógica, é justo dizer que “Video Games” é ainda mais belo cinco anos depois do seu lançamento – uma vez removido dos debates de inautenticidade que permeou seu lançamento, agora se abre para o ouvinte sem preconceitos como uma imagem triste e cinematográfica de amor e desejo.

 

Por Jake Hall
Tradução por Marcela Oliveira

 

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • Raphael Kaiston

    Perseverança: só o tempo soprou a favor da autenticidade agora reconhecida por antes críticos incrédulos!!!

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