ANÁLISE | Art Deco: A rainha da boate na cena underground

por / segunda-feira, 21 dezembro 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

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Música, assim como toda forma de arte, é subjetiva. Geralmente artistas não explicam seu trabalho, pois cabe a nós entender aquela peça a nossa maneira. Lana se encaixa nesse nicho de artistas que deixam suas músicas abertas à interpretação do ouvinte; e Art Deco é uma dessas canções subjetivas, que clamam por uma interpretação. Estaria ela se descrevendo no início de carreira, assim como em Fucked My Way to the Top? Ou estaria homenageando uma amiga da indústria musical que, infelizmente, não teve o mesmo reconhecimento que ela?

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De começo: o que Art Deco significa? Art Deco é o termo abreviado para Arts Decoratifs — ou artes decorativas, em português. É o estilo decorativo de artes aplicadas, desenho industrial e arquitetura caracterizada pelo uso de materiais novos e por uma acentuada geometria ziguezagueante. O estilo foi lançado em 1925 na Exposição de Artes Decorativas, em Paris, e encontrou seu apogeu na década de 1930. Alguns dos edifícios mais famosos de todos os tempos foram arquitetados de acordo com o estilo Art Déco, como o Chrysler Building, o Rockefeller Center e o Empire State Building, todos em Nova York. Na verdade, o estilo é mais proeminente nas cidades de Paris e Nova York devido à intensa vida noturna e artística de ambas nas décadas de 20 e 30, mas também teve seu reconhecimento em Chicago, Los Angeles e em outras cidades do mundo, inclusive aqui no Brasil como em Porto Alegre, Goiânia e Rio de Janeiro. Abaixo vemos a imagem do Chrysler BuildingEmpire State Building, e um prédio em Porto Alegre, respectivamente, construídos à Art Deco

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Art Deco, no entanto, é também uma expressão americana vinda do universo underground. Uma pessoa art deco seria alguém que não tem grandes êxitos, que não é famosa e que — apesar de fazer de tudo para atingir o estrelato –MM
– é incapaz. Essa definição se adéqua um pouco mais à mensagem que Lana propõe na canção. Mas ela fala sobre uma pessoa em específico ou direciona para todas as pessoas art deco?

O eu lírico da canção é uma incógnita. Há quem acredite que a canção fale sobre uma das grandes amigas de Lana Del Rey, a rapper Azaelia Banks, mesmo a própria Del Rey tendo afirmado à revista NME que isso não tem nada a ver. Outros acreditam que Lana fala sobre seu passado, já que vivia em pubs nova-iorquinos undergrounds no início de sua carreira. E se um dia lermos sobre a biografia de Marilyn Monroe, veremos também semelhanças com a vida da atriz maravilhosa venerada pela nossa cantora.

Nas primeiras linhas da canção, somos apresentados a alguém chamada de “rainha da turma/boate” (Club queen), algo muito presente nas canções de Lana, já que sempre menciona casas noturnas em LA e NYC como, por exemplo, na canção Carmem. Enfim, esta rainha underground parece ter grandes ambições, mas não consegue atenção por meio de sua arte, e sim do que diz. Ela não é querida pelo meio em que gostaria de estar, mas é idolatrada por outros. Ela não é malvada, apenas quer mostrar presença na festa entre outras vontades — como não consegue obter seu objetivo, finge estar acompanhando o ritmo da festa.

StepO ponto de destaque é o momento em que Lana nos conta que a queen nasceu para ser selvagem (Born to be wild), esse trecho é interessante, pois em 1967 a banda de rock Steppenwolf (mostrada na imagem ao lado) cantou a música Born to be Wild, canção icônica de rock clássico que invoca a rebelião individual, chamando a atenção para a contracultura dos motociclistas, questão retratada no clipe Ride. Também podemos observar que no trecho: A little party never hurt no one, that’s why it’s alright ­— Uma festinha nunca machucou ninguém, por isso está tudo bem — é citada durante quase toda a música e tem uma semelhança com o início da carreira de Marilyn Monroe em Hollywood, já que a diva se consagrou como estrela ao ser vista em festas hollywoodianas.

No refrão, Lana evoca os anos 20 e 30, anos em que a elegância e a estética futurista foram o resumo do frescor e luxo. Assim, Art Deco criou a contracultura melindrosa: uma mulher glamourosa, provocante e rainha. Aquela rainha dos clubes em seu vestido metálico e joias, que possui as características femme fatale.  Dessa forma, Lana diz que a garota é artística e vem do gueto (Baby, you’re so ghetto), que brilha de forma ameaçadora, como uma arma de fogo. Quando dizem “olá” para ela, a garota ignora, pois deseja mais.

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Eis que no trecho que sucede o refrão percebemos que a garota está drogada na cena underground, já que rollingsugar pode ser traduzido como “chapado”, além disso, o trecho “Got things that’ve yet to be seen/ Like you’re Rapper’s  Delight” (Você tem coisas que ainda não foram vistas/ Como se você fosse a Rapper’s Delight) Lana sugere que a jovem possui imenso talento que ainda não tem mostrado ao mundo, ou seja, há clara referência para Rapper’s Delight de 1979, hit do rapper do Sugarhill Gang, um clássico inovador da batida, o primeiro single rap comercialmente bem sucedido na história. O verso implica que esta mulher tem o potencial para fazer algo igualmente inovador e historicamente significativo em seus próprios termos.

Após o segundo refrão, Lana diz já ter estado junta com a jovem em tais festas, pois usa o pronome inglês we (nós) então, ela e a queen ficaram até tarde na rua e parece que a garota fica chapada o tempo todo, mas tão chapada que coloca a vida dela em jogo com frequência (You put your life out on the line). Por isso a interpretação de que o termo “art deco” simbolize essa garota que teve todos os seus truques perdidos, que todos os seus encantos ficaram fora de moda conforme o mundo se atualizou e ela foi deixada para trás.

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“Você é tão art deco” mostra como essa mulher — talvez a jovem Carmen que tinha Nova York na palma de suas mãos quando era uma adolescente malvada de 17 anos — envelheceu e perdeu seu encanto, seus poderes sobre as pessoas. Você pode interpretá-la como a nova Lana olhando para sua própria versão caso ela tivesse continuado em sua vida antiga, ou simplesmente sendo uma amiga que foi deixada para trás na vida sempre em movimento das grandes cidades. Um sonho perdido — por isso ela continua se afundando nas festas.

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Por fim, Lana retoma que uma festa não faz mal a ninguém e sarcasticamente continua: Not you and me — pelo menos não pra nós duas — canta mais uma vez sobre festas não machucarem e finaliza a canção com algo muito Lana de ser: We were born to be free — nós nascemos para ser livres.

O que lhe resta para perder, não é mesmo? Seu tempo de conquistar a fama passara, sua juventude a deixou, mas isso não significa que ela tenha de deixá-la também. Então ela continua persistindo nesse ciclo que não a levará a lugar algum. Ela passa a ziguezaguear na própria arte decorativa que se tornou.

Brilhando como uma arma de fogo, fria e insegura.

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Por Lucas Almeida, Pedro Bossonario e Raphaella Paiva

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • Leonardo

    Nossa, finalmente essa análise saiu <3 muito boa, me explicou várias partes da música que eu não tinha entendido e principalmente, explicou o que é "art deco".
    Adorei, pois para mim é a melhor do álbum <3
    Parabéns!

  • júlio Ary

    Adorei a análise. Realmente ‘Art Deco’ é uma das músicas mais icônicas de Honeymoon. Por falar nisso, vocês pretendem fazer análises de todas as músicas do albúm? Se sim, poderiam dar uma previsão das próximas?

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