“Eu não tenho que esconder nada por dez anos.”, confira entrevista de Lana Del Rey para rádio France Inter

por / sábado, 19 setembro 2015 / Publicado emEntrevistas

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Nesta semana, Lana Del Rey esteve visitando a cidade de Paris, na França, para divulgar o seu novo álbum ‘Honeymoon‘ e gravar  participações em diversos programas de rádio. Sua entrevista para France Inter Radio, realizada por Augustin Trapenard, foi transmitida na sexta-feira (18), em comemoração ao lançamento do álbum. Confira o áudio e a tradução abaixo:


 

Na LUA DE MEL com LANA DEL REY

France Inter Radio: A convidada de hoje tem algo de irreal sobre ela, uma ausência-presença enigmática e fantasmagórica que desperta a curiosidade. Ela é autora, compositora, cantora. Seu terceiro álbum, “Honeymoon” foi lançado hoje, em um evento. Olá, Lana Del Rey!
Lana Del Rey: Bonjour, olá! (risos)

Obrigado por estar aqui! Você acredita em fantasmas?
Bem, é engraçado você perguntar isso. Eu conheci uma clarividente muito famosa em Los Angeles sem dizer a ela quem eu era. Ela sabia de todas as pessoas que eu conheci, de todas as pessoas que passaram para o outro lado e ela me disse algumas coisinhas sobre suas vidas pessoais.

O fantasma de Billie Holiday em forma de holograma, o fantasma de Whitney Houston em forma de holograma, em breve irão se apresentar em um show. Isso te deixa confusa?
Agora que você perguntou, eu já ouvi várias opiniões de algumas pessoas que acham que é um pouco desrespeitoso “reviver” espíritos falsos dentre os mortos. Mas como uma fã e uma pessoa espiritual, eu acho que isso poderia ser muito interessante!

E você? Você gostaria de ter o seu próprio holograma?
Bem, ao longo desses anos, eu e meus agentes pensamos muito sobre fazer muitas turnês e eu sempre perguntei se eu poderia enviar um holograma de mim mesma! (risos) Mas eu acho que até este ano, a tecnologia era realmente muita cara. Mas quem sabe um dia?

 Talvez você saiba onde eu estou querendo chegar com esta pergunta sobre hologramas. Nós estamos falando sobre o lado virtual de coisas, mas você já se sentiu como se estivesse vivendo em um mundo virtual ou separada do mundo real? Por que suas músicas falam muito sobre esse assunto?
Sim, eu sei o que você quer dizer. Estou sentindo que há um pouco de fusão entre o futuro e o passado. Acho que é especialmente por isso que tenho sido tão interessada em como a tecnologia está avançando rapidamente. E conhecer Elon Musk e ouvir tudo o que ele disse sobre inteligência artificial, e quão rapidamente ela está avançando tem me ajudado bastante a pensar em como minha música vai soar e se encaixar no futuro.

Talvez você seja um holograma?
(Risos) Talvez. Você consegue me ver!

(Interlúdio com execução dos sigles Born To Die e West Coast)

O seu grande sucesso (Parte da introdução de Video Games é apresentada) ‘Video Games’, que foi lançado há quatro anos, se tornou um hit mundial muito rápido e alcançou mais de 100 milhões de visualizações no Youtube. Você nunca se cansa dela?
Cansar dela? Hmmm… Nããão… Eu não sei por que eu não me canso dela. Eu realmente deveria estar cansada! Eu acho que é porque eu canto muitas músicas na turnê e parece que canto apenas uma delas.

O ‘Born To Die’ vendeu mais de 7 milhões de CDs e com muitos hits! Depois, veio o seu segundo álbum, ‘Ultraviolence’, com uma pegada mais rock, mais obscura, que não fazem tão bem… E agora você está de volta com ‘Honeymoon’ e todo mundo está dizendo que é ele é um retorno ao ‘Born to Die’, que fez o seu sucesso. Você concorda com isso?
Sim… é a volta às raízes com a produção, mas é novo da maneira que é mais perto de quem eu realmente sou, porque está enraizada no jazz, em no mínimo, cinco faixas.

Honeymoon?
Bem, eu quero dizer, eu amo belas palavras e eu adoro essa palavra em particular. Foi o que eu tive com ‘Ultraviolence’. Eu amei a idéia de trazer o momento mais romântico na relação de alguém e o tipo de vida que ela vive…

O apogeu, na verdade. Entre você e eu, você acha que esse álbum é o auge de alguma coisa, falando como um artista?
Bem, eu acho que eu queria que fosse. Eu não acho que eu já estou lá, eu ainda estou alcançando isso. Eu sinto que há muitas chances para mim de viver uma vida ainda mais bonita, então eu ainda estou atingindo isso. 

(O apresentador da rádio transmite várias notícias culturais, sobre literatura, cinema, música…)

Notícias são ótimas, mas Lana é ainda melhor, especialmente quando ela está na notícia! Seu terceiro álbum, ‘Honeymoon’, foi lançado hoje. Você divulgou os títulos das faixas uma por uma há alguns meses. Até agora, nós pensamos que tudo estava sob controle, quando de repente, anteontem, BAM! Tudo vazou! O que aconteceu?
Bem, só vazou nos últimos 8 dias, certo? Isso é muito bom nos tempos de hoje! Eu soube que o álbum do The Weeknd vazou duas semanas e meia antes do seu lançamento. Mas é impossível! Você sabe o que acontece? Vinis vão para a fábrica três meses antes para serem fabricados. Por isso, normalmente alguém vai à fábrica de vinil e leva um…

E o que você acha disso, como artista?
Se for uma semana antes, eu não me importo. Mas se for algo como 3 meses ou 6 meses, eu gostaria… queria morrer! Seria terrível! Porque todo mundo consome as coisas tão rapidamente, e por isso, se eles ouvirem seis meses antes, eles nunca vão comprar.

Isso também vai da questão do controle. É impossível controlar tudo hoje em dia. E quanto a você? Você está no controle?
Quero dizer, sim… Mas nada nunca funciona! (risos) Não importa se eu tentar muito ou se eu me render, tudo termina em caos. Isso é…Ridículo…

Assim como no vídeo da música ‘High By The Beach’! No final, você tira uma metralhadora e começar a metralhar um helicóptero. O que aconteceu lá pra você perder o controle?
(Risos) Sim, eu explodi um paparazzi…

No início deste ano, Miley Cyrus declarou que mostrar armas em um videoclipe é pior do que mostrar seus seios. Você concorda?
Bem… Ela tem seios muito bonitos, por isso é fácil para ela dizer.

É verdade que não esperamos que você gravasse com uma kalashnikov (marca de armas) com um álbum intitulado ‘Honeymoon‘. É uma visão muito singular do casal!
Eu sei, eu sempre tenho uma intenção, e em seguida, o que acaba acontecendo é completamente o oposto.

Quem sabe talvez haja um verdadeiro mal-entendido sobre você? Talvez por trás do fantasma romântico, melancólico, e um pouco desbotado, você esconde uma verdadeira rebelde?
Sim, talvez eu seja um demônio violento.

Contra o que você gostaria de se rebelar?
Eu acho que eu já me rebelei por motivos muito bons. Contra um monte de normas, especialmente musicalmente. Mas agora… Eu só quero a paz, a qualquer custo e eu acho que é de onde a idéia para o vídeo surgiu.

Incluindo arrasar em cada nota musical?
Bem… Quer dizer, eu não sei se mudar a direção musical vai ajudar nada. É mais do ambiente ao meu redor, eu acho… Não tenho certeza.

(Começa a tocar High By The Beach)

Personagem de quadrinhos, androide, sereia, holograma de uma estrela de cinema dos anos 50… Eu realmente não sei agora, sentada aqui com seus olhos de corça, a boca amuada, e um jeitinho de Lolita… Ela veste um par de jeans preto, rasgado, obviamente, com um pouco de lã branca por cima… Uma melancólica garota, uma diva americana. Lana Del Rey é minha convidada hoje e ela está aqui para falar sobre seu novo álbum, ‘Honeymoon‘, do qual acabamos de ouvir um pedaço: ‘High By The Beach‘! Qual é a história por trás dessa música? O que você quer dizer com as letras, com a orquestra, com a melodia?
Hmmm… Eu normalmente coloco a melodia e as letras juntas. E então eu levo meu… O que você chama de ‘arquivo de áudio’ para o meu produtor, Rick, e ele produz a música em cima disso. Mas às vezes, se eu sou estou satisfeita com a música e não tenho nada na minha cabeça, eu começo a fazer uns riffs e umas coisas malucas em cima dela enquanto ele toca. Como em ‘Video Games’. Meu produtor tinha quatro acordes, e então eu cantarolei:

“Singing in the backyard
Pull up in your fast car
Whistling my name”

assim…

Você vai perceber que sua intérprete não traduziu a canção, nem cantou e estamos felizes com isso, aqui no Boomerang! Aparentemente, você se vê mais como uma escritora do que uma cantora?
Bem, eu acho que talvez mais uma escritora do que uma performer. Mas eu acho que talvez uma cantora esteja perto da escrita.

O que é certo, Lana Del Rey, é que a literatura é muito presente em seu trabalho. Ela aparece por toques, por referências, como se você estivesse mergulhando em várias coisas e pegando um pouquinho delas em toda parte. Nabokov, Ginsberg. Você também cita Bob Dylan ou a poetisa Emily Dickinson, com quem você compartilha o gosto para silêncio e segredo. Qual é a sua ligação com a literatura, exatamente?
Bem, quando eu estava na escola, meu professor nos deu todas as obras de Allen Ginsberg e foi quando eu soube que eu realmente queria escrever. E então, quando eu tinha 18 anos, eu descobri Bob Dylan e uma biografia sobre ele escrita por Anthony Scaduto…

E isso inspirou você?
Sim!

É engraçado porque quando eu ouço seus álbuns, eu tenho a sensação de que tudo começa a partir de uma imagem, uma atmosfera, uma cor…
Sim. Às vezes eu sinto que é engraçado eu falar que eu tenho inspiração muito gráfica ou colorida, mas eu tenho. Especialmente com ‘Honeymoon’. Como na música ‘Honeymoon’, acrescentei ao final do refrão “Dark Blue” (cantando) e que nem sequer diz qualquer coisa. Não tinha nada a ver com as letras, mas eu era queria tipo, descrever como eu me sentia…

E o que “Dark Blue” significa? Um gênero musical, talvez?
É uma espécie de sentimento mais feliz, é a nota azul, a nota azul do Jazz e todos os sinais de néon azul, de quando tudo está fechado e você está descendo a Wilshire Boulevard (uma grande avenida do centro de Los Angeles)! (risos)

(Interlúdio de Jazz) 

Miles Davis. Lana Del Rey, você poderia citar o nome dele! Aparentemente, seus “passeios noturnos de carro ao som de Miles Davis” inspiraram o título “Honeymoon”. O que isso significa? Você o ouve em seu carro?
Sim, eu tenho uma pequena coleção de suas músicas que eu escuto. Eu tenho uma fita cassete de concertos ao vivo. Eu não sei como chamar, mas ele realmente me deixa de bom humor para escrever.

Você compõe quando dirige, como quando você passa por lugares em seu carro, não sabendo exatamente pra onde você está indo?
Eu… Isso me leva um longo tempo. Eu meio que estabeleci que isso geralmente leva algumas semanas. E então em alguma noite aleatória de sorte, eu recebo um pouco de algo. E então eu levo pra casa e trabalho nisso.

Isso é realmente americano. Quero dizer, essa a experiência de carro, um pouco solitário, dessas grandes cidades da Costa Oeste, como Los Angeles. Los Angeles, cuja marca está em toda parte no álbum ‘Honeymoon’! O que a cidade de Los Angeles representa aos seus olhos? Será que representam o teatro, a casa ou cinema, Lana Del Rey?
Sim, tudo! Bem, eu nunca pensei que eu iria deixar Nova York. Eu meio que pensei que era a minha versão dos filmes, mas depois eu conheci Califórnia e, literalmente, cada rua é como se fosse parte de um cenário, foi realmente muito emocionante.

Há definitivamente, uma estrela de cinema dos anos 50 em você. Na aparência geral, no glamour. Até no mistério também. De qual filme você poderia ser a heroína?
Hmmm… Talvez Elizabeth Taylor. Porque ela tinha tantos maridos maravilhosos! (gargalhadas) Ela viveu muitas vidas! (gargalhadas).

Muitas vidas… Você vê o que eu estou fazendo aqui. Quem se esconde atrás de Lana Del Rey? O que é verdadeiro e o que é falso?
Eu não tenho que esconder nada por dez anos. A menos que esteja plantado tão profundamente que nem eu mesma não saiba! (risos)

Nós temos uma tradição nesta estação. Basicamente, pedimos a cada músico que vem aqui para cantar um pouco de algo, algo que vem a eles. Uma canção que eles têm viva dentro de si. Talvez a canção que você mais ouviu. Qual é a sua?
Eu tenho uma música que eu costumava cantar em todas as minhas audições. Eu nem sei se eu sei qual o ritmo dela. Era chamado de ‘Smile’ (música composta pro Charles Chaplin para seu filme, “Tempos Modernos”, de 1936).

“Smile though you heart is aching
Smile even though it’s breaking
When there are clouds in the sky
You’ll get by
If you smile through your fears and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You’ll see the sun come shining through
If you just smile”

O sorriso de Lana Del Rey, no início da manhã, aqui no Boomerang. Muito obrigado, Lana, por ter vindo aqui! Seu álbum, “Honeymoon” foi lançado hoje. É um álbum cinematográfico, e o que sabemos até agora, é que é para ser ouvido no escuro para ver melhor os fantasmas melancólicos se movimentarem no teto ou nas paredes de seu quarto…

 

Por Augustin Trapenard
Tradução por Glauberth Viana

 

Baixe o cover de Smile clicando aqui.

Redação LDRA
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