ANÁLISE | Music To Watch Boys To: Nós garotas fomos enviadas para destruir

por / quarta-feira, 23 setembro 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

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Se há uma canção que foi imensamente aguardada por todos os fãs de Lana Del Rey, essa canção sem dúvida alguma seria Music To Watch Boys To. Desde que o “Ultraviolence” foi lançado e a cantora comentou que já tinha ideias para um projeto seguinte — citando essa ideia de uma música em que ela observa os garotos de sua vida passando — a canção se tornou quase uma entidade mítica entre seus seguidores, até que finalmente se tornou uma realidade. E a espera valeu a pena.

            Surgindo como segundo single de seu álbum “Honeymoon”, a faixa trouxe uma nova identidade ao currículo musical de Lana, aderindo-se à aura de jazz que permeia todo o LP, mas acrescentando sons distintos que quase nos remetem a filmes antigos que se passam na América Latina. Os sons de flauta e conga, ao fundo, fornecem todo esse sentimento noir que a Política da Boa Vizinhança trazia nos filmes de Rita Hayworth e Carmen Miranda (como não se deliciar assistindo ao clássico “Gilda” ou “Uma NoiteSem título no Rio”?) e não falha no sentimento retrô-futurista que Del Rey havia prometido colocar em seu álbum.

É claro que não podemos esquecer da aura que o próprio filme “O Monstro da Lagoa Negra” — já citado na análise da faixa Honeymoon — é também trazida nessa latinidade no som de Music To Watch Boys To, sendo uma ficção científica feita em 1954 (por isso retrô-futurista) e que se passa na Amazônia. Vale ressaltar também que o trecho “Pink flamingos always fascinated me” pode não ser a conotação literal de que flamingos cor-de-rosa fascinam Lana — apesar de ela, de fato, adorar toda essa imagética — mas “Pink Flamingos” é também título do famoso e controverso filme de 1972 que conta a trajetória da drag queen Divine, a qual Lana já disse ser uma de suas heroínas da moda, em uma entrevista de 2009.

No entanto, veja abaixo a versão acústica de ‘Put The Blame on Mame’ em uma das cenas de “Gilda”, onde a voz entorpecida e melancólica de Rita Hayworth, assim como a melodia suave e a letra da música que mostra uma mulher aparentemente forte e que é culpada de todos os desastres a seu redor, lembra esse sentimento trazido em Music To Watch Boys To.

            Mas e sobre a letra dessa música belíssima e tão suave que foi uma das primeiras canções escritas por Lana para o “Honeymoon”? Ela é muito mais do que uma garota que simplesmente gosta de observar garotos passando por aí — na verdade, esses garotos são bastante específicos.

            Trazendo um aspecto diferente desvendado por Del Rey em seu novo álbum, nós temos aqui um amor diferente do que estamos acostumados a ver em “Born to Die” ou até mesmo em muitas canções do “Ultraviolence”; aqui nós somos postos face-à-face a um romance real e não àquela sensação de um amor eterno capaz de transcender barreiras do tempo, do espaço e até mesmo da moral. Vemos aqui um amor um tanto quanto desgastado e que parece ter perdido sua força.

I like you a lot
Putting on my music
While I’m watching the boys

Eu gosto muito de você
Estou colocando minha música
Enquanto observo os garotos

            A faixa começa com a frase “eu gosto muito de você” e ela se prossegue continuamente ao longo dos 4 minutos e 51 segundos de duração, mas ela parece absorta, como quando terminamos um namoro e dizemos: “eu gosto muito de você, mas…”. O sentimento de amor desvanescente existente entre a garota e seu parceiro, mas isso não importa, porque os garotos de sua vida nunca duram — e então, ela dá de ombros e só coloca sua música para tocar enquanto observa todos eles indo e vindo de sua vida.

            E ela continua com ‘Cause I like you a lot / No holds barred, I’ve been sent to destroy, yeah” (Sem amarras, eu fui enviada para destruir), uma ideia que só fortalece o que foi dito. O eu-lírico de Lana aqui está cansado de lutar por amores que só dão errado, e ela se conforma com a ideia de que ela seja o problema — ou pelo menos é isso o que dizem e ela simplesmente concorda para encerrar logo o assunto. “Eu sou complicada mesmo”, ela diria, já que isso pouparia mais discussões.

E os trechos Pink flamingos always fascinated me” (Flamingos cor de rosa sempre me fascinaram) e Singing soft grunge just to soak up the noise” (Cantando soft grunge para absorver o barulho) se casam quando lembramos do já citado filme sobre a Divine e a música grunge, ambos ícones da contracultura norte-americana. Aqui Lana se fascina com as diferenças, ela canta algo do Nirvana ou da Courtney Love, ela se isola em um mundo próprio para se abstrair do caos exterior — sua contracultura pessoal.

            E então percebemos um cunho feminista presente entre os versos, onde temos frases que lembram a canção This Is What Makes Us Girls, em que Del Rey parece se unir às garotas para mostrar como é o fim de um relacionamento pela visão delas. I know what only the girls know / Hoes with lies akin to me (Eu sei o que apenas as garotas sabem / Vadias com mentiras se assemelham a mim), ela solta logo na segunda estrofe, mostrando que só as garotas entendem como é ser difamada por terceiros ou pelo seu próprio parceiro. Entra aí um possível olhar de Hollywood, inclusive, como são as manchetes aos olhos da imprensa, colocando as mulheres muitas vezes como as verdadeiras vilãs, como se elas não tivessem sido perfeitas ou necessárias o bastante. E então, ela canta “Oh, oh, I see you’re going / So I play my music, watch you leave (Eu vejo você partindo / Então eu toco a minha música e observo você partir) mostrando que, independente do fim de mais um relacionamento, ela se foca em sua carreira, tocando sua música enquanto mais um homem se vai.

We’re Ribbons on ice
Playing their guitars
Only one of my toys

Nós somos Pabst Blue Ribbon no gelo
Tocando os violões deles
Só mais um dos meus brinquedos

            Assim como em This Is What Makes Us Girls, na música é trazida a imagem da famosa e barata cerveja americana, Pabst Blue Ribbon (quem não se lembra do “Pabst Blue Ribbon on ice”?), e a interpretação que fica do trecho pode ser de que as garotas seriam como um passatempo gostoso na vida desses garotos, garotas frias, descoladas, calmas e aéreas, porque vale ressaltar também que “ribbons” são aquelas belas fitas de cabelo usadas pelas meninas. E essa ideia das garotas terem que se disfarçar e sempre aparentarem perfeitas vem com os versos: I know what only the girls know / Lies can buy eternity” (Eu sei o que apenas as garotas sabem / Mentiras podem comprar a eternidade). Ou seja, meninas, mintam e finjam muito bem — com esse teatro maravilhoso, a eternidade num relacionamento está garantida!

            Forte, não é? E Lana reforça que não há nada de errado em viver solteira em Velveteen and living single / It never felt that right to me” (Usar veludo e viver solteira / Isso nunca pareceu tão certo para mim), termo interessante já que ‘velveteen’ na verdade é uma espécie de imitação do veludo verdadeiro… Poderia isso significar que ela até se sente bem estando sozinha, mas que não ter alguém ao seu lado é como viver uma imitação barata de sua própria vida? Provavelmente. Mas ela se liberta de todos esses sentimentos e frustrações através de suas canções, colocando toda a sua solidão e suas memórias ao gravar suas composições.

I, I see you leaving
So I push “record”
And watch you leave

Eu, eu vejo você partindo
Então eu clico no botão “gravar”
E observo você partir

            E então chegamos ao bridge murmurado da canção, onde Lana repete que vive para amar e ama amar esses garotos — principalmente esse garoto para o qual ela escreve especificamente a música — no entanto, ela se lembra que “nada que é dourado fica” e chega a se convencer de que tudo é mesmo sua culpa, já que o amor nunca passou de um jogo…

And I love to love you
And I live to love you, boy
Nothing gold can stay
Like love or lemonade
Or sun or summer days
It’s all a game to me anyway

E eu amo amar você
E eu vivo para amar você, garoto
Nada que é dourado fica
Como o amor ou limonada
Ou sol ou dias de verão
É tudo um jogo para mim mesmo

O trecho é retirado do poema de mesmo nome de Robert Frost e nele podemos até reparar o quanto a imagética presente em cada verso se assemelha até mesmo com a capa do single ‘Music To Watch Boys To’. A imagem de uma selva, as cores em néon similares ao dourado exuberante dos versos, as flores… Coincidência ou não, é uma bela construção de imagens mentais.

Nada que é dourado fica…music

O primeiro verde da natureza é dourado,

Para ela, o tom mais difícil de fixar.

Sua primeira folha é uma flor,

Mas só durante uma hora.

Depois folha se rende a folha.

Assim o Paraíso afundou na dor,

Assim a aurora se transforma em dia.

Nada que é dourado fica.

E, por fim, assim como as estações se renovam e as cores da primavera logo desaparecem, os garotos da vida de uma garota também vêm e vão — e só elas conhecem essa verdade. O coração de uma garota é profundo e oscilante, mas quando ondas distintas insistem por tempo demais em se chocar com a costa, uma delas acaba cedendo no final. E é sobre isso o que a música absorve e se absolve; não é sobre Lana somente, é sobre todas nós que nos vemos continuamente julgadas, mentindo, sendo difamadas ou apontadas…

Nós garotas fomos enviadas para destruir, afinal.

E o que nós fazemos? Bem, não podemos lamentar sempre — a vida continua. Então colocamos nossa música enquanto observamos nossos garotos partirem de nossas vidas.

Por Raphaella Paiva

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
  • João Vianini

    Suas análises são as melhores. Sério.
    E, para mim, Music To Watch Boys To é a melhor música da Lana. <3

  • Igor Santos

    Raphaella, minha filha, tu arrasa!

  • júlio Ary

    Bela analise, vc é foda Raphaella, suas analises sempre ótimas.

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