ANÁLISE | Honeymoon: A canção de um amor em todas as existências

por / domingo, 20 setembro 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

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Foi em janeiro de 2015 que Lana Del Rey anunciou ao mundo o nome de seu quarto álbum de estúdio, “Honeymoon”. Após alguns meses, indícios demonstravam que Lana estava extremamente honeyenvolvida em seu novo trabalho: na rede social Instagram surgiu misteriosamente uma conta com o nome de “Honeymoon” e os dizeres “Welcome to my dark world, my dark city, my dark people” (Bem-vindo ao meu mundo escuro, minha cidade escura, meu povo escuro). O estranho era a foto ícone da conta: uma lua com um fundo azul-escuro que evocava melancolia… Algo um pouco “diferente” do clima que imaginávamos para um álbum com o nome de “Honeymoon”. Passaram-se algumas semanas e fotos sobre a possível gravação de um vídeoclipe para a canção Music To Watch Boys to caíram na rede, deixando os fãs em polvorosa. Mas foi somente em meados de julho, após muita espera, que, em sua conta pessoal, Lana Del Rey divulgou a — literalmente — primeira canção e faixa-título de, Honeymoon.

Violinos dramáticos e cordas trêmulas ascendem aos ouvidos em meio à melancolia de violoncelos que constroem a solidez dos primeiros segundos de Honeymoon. O som cinemático e envolvente nos repete imediatamente à filmes noir da época de glória de Hollywood. Surpreendentemente não há qualquer bateria ou instrumento percussionista para marcar o tempo da música: o arco raspando nas cordas é glorioso e magistral, iniciando um tomo que somente a voz de Lana Del Rey é capaz de sustentar.

O início da canção é provavelmente um dos mais únicos da carreira de Del Rey. Para a cantora que ascendeu às mídias envolvida num cenário de pop e trip-hop com o álbum “Born to Die” para em seguida se enevoar com a languidez das guitarras pesadas e distorcidas de “Ultraviolence”, a cançãohoney2 Honeymoon cria a atmosfera perfeita para iniciar esta nova era na vida e carreira de Elizabeth Grant. E não é um acaso os violinos e contrabaixos nos remeterem ao cinema noir da década de 50. Na verdade, essa foi possivelmente a intenção de Lana Del Rey, uma artista cujos trabalhos são recheados de referências aos grandes filósofos, eras e personalidades que, à sua própria maneira, modificaram os pensamentos e influenciaram a vida da sociedade ocidental. Afinal, não é isso que Lana Del Rey faz por meio de suas músicas?

Para aqueles cujas cordas que marcam a introdução de Honeymoon soarem semelhantes de alguma forma, eu aconselho checar o vídeo abaixo. Trata-se da trilha sonora do filme “The Creature from the Black Lagoon(Monstro da Lagoa Negra, BR), um longa-metragem norte-americano de 1954. A trilha sonora é marcada por peças de cordas fortes e cuja harmonia se mescla imensamente com a peça escrita e produzida por Del Rey. Como a artista sólida que é, Lana sempre compartilha com aqueles que apreciam seu trabalho o processo de criação artística e as influências que a motivam, modificam e a dirigem em direção ao novo caminho a seguir. Digo isso pois, poucas semanas anteriores ao lançamento virtual da faixa Honeymoon, Lana havia divulgado em seu Instagram uma imagem do filme supracitado, quase como uma deixa de que o que ali se mostrava era apenas um pequeno gosto do que estava por vir.


De 1:40 a 2:00 é apenas um dos exemplos

Na trilha-sonora, elementos como saxofones e pratos contribuem para a construção de uma atmosfera de suspense e inquietação, típicas do cinema de suspense e terror, enquanto a faixa Honeymoon, apesar da semelhança, permanece com maior fluidez e sensibilidade, ao mesmo tempo que é incrivelmente capaz de manter uma angústia que chega a soar paradoxal. Afinal, vocês perguntam, a faixa se chama “Lua de Mel”. Não é algo belo, o ápice romântico? A plenitude dos casais apaixonados que têm a possibilidade de passar a eternidade juntos sendo a felicidade a maior luz no horizonte? À medida que os violinos decaem sensivelmente e quase em silêncio, contrabaixos raspam no escuro da canção, à medida que a magia que apenas Lana Del Rey é capaz de criar, começa.

We both know
That it’s not fashionable to love me
But you don’t go ‘cause truly
There’s nobody for you but me

Nós dois sabemos
Que não é de bom gosto de amar
Mas você não vai porque, sinceramente
Não há ninguém para você a não ser eu

A intensa tristeza do verso inicial chega nos fazer questionar o título da canção. Lana proclama que amá-la não é fácil, amá-la não é correto. Amá-la pode realmente destruir o alguém que está ao seu lado. Sua região escura é capaz de enegrecer e afastar o outro, sua tristeza tão forte que torna a própria aura sombria.

Porém, se amá-la é difícil, deixa-la é impossível. Afinal, nesta terra eles foram feitos um para o outro e negar a realidade por trás de tais palavras seria abandonar-se à redenção e à infelicidade. Pois amar é sofrer, mas não amar também é sofrer. Sua alma escura e fria pode afastar o outro a ponto de quase abandoná-la…. Mas sozinho, o que se resta a fazer? Ela é e sempre será sua amada e a encruzilhada da vida é sempre mais árdua quando se está sozinho. Apesar da escuridão de seu ser, a única opção de seu amado é continuar ao seu lado, pois, não há mais ninguém no mundo que o possa completar, amar e preencher como ela.

Vemos, já nos primeiros versos, uma continuidade do amor como objeto de sofrimento que recorre nas canções de Del Rey. São raras as canções em que o amor é celebrado como algo inteiramente livre de sofreguidão. Talvez porque na essência humana o sofrer é elemento intrínseco e associar o amor às desesperanças da vida seja o mais próximo de realmente chegarmos à realidade de nossos sentimentos. Entretanto, o título da canção — que também é título de todo o trabalho que está por vir — carrega uma ideia diferente da expressada já nos versos iniciais da música. A ideia da Lua de Mel como idealização do amor perfeito e felizes-para-sempre é estilhaçada e, da forma como apenas Lana Del Rey é capaz de fazer, o amor retornar às raízes humanas novamente.

We could cruise to the blues
Wilshire Boulevard if we choose
Or whatever you wanna do
We make the rules

Nós poderíamos atravessar
Wilshire Boulevard ao som de blues se escolhermos
Ou que você quiser fazer
Nós criamos as regras

Tenho a forte impressão de que Lana acredita no amor como forma de evolução da espiritualidade. Como estudante de filosofia, metafísica — disciplina que estuda o sentido da vida, da realidade, assim como a possibilidade e papel de Deus nesse caminho — e por seus conflitos internos extensamente expressados em suas composições, Lana mostra-se como indivíduo crente em algo maior e na expressão humana como forma de evolução da mente e do espírito. Em Honeymoon, sinto um dualismo.

Estaria Lana fazendo menção a esta vida ou à várias vidas? À todas as vidas que existem e possam existir? Ao afirmar que ela é a única capaz de se conectar vivamente com seu parceiro e vice-versa, seriam eles almas ligadas e destinadas a atravessar as barreiras e obstáculos da existência juntos? E ao mencionar existência, não apenas esta, mas todas as existências que possam existir? Por isso que negar um ao outro seria impossível?

Lana evoca, por meio de sua voz, que não se importa mais com o destino e que, por fim, entendeu sua realidade: ela não irá lutar contra o que a espera. Por toda sua existência ela o terá ao seu lado e, quase em tom confessional, clama que finalmente entendeu o propósito da vida, o porquê de estar emocionalmente ligada de forma tão forte a este amante. Eles podem, então, fazerem o que quiserem, eles constroem as regras. Como uma chuva torrencial, a paz invadiu a alma de Lana por meio da apreensão de que, não importa o que aconteça, o destilo irá uni-los novamente.

Our honeymoon
Our honeymoon
Our honeymoon
Say you want me too
Say you want me too
Dark blue, dark blue

Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Diga que me quer também
Diga que me quer também
Azul escuro, azul escuro

E no refrão, sinto que eles foram imediatamente transportados para o fim da existência: o momento de perfeição, de plenitude, a linha final da evolução espiritual. Após muitas e muitas e muitas vidas e revidas, dificuldades, obstáculos, alegrias, sofrimentos, eles chegaram ao final. Juntos. E o que resta é a paz que terá a duração de infinitas eternidades. O tom agridoce na voz de Lana ao cantar o verso inicial do refrão me faz imaginar o quão é impossível alcançar essa lua de mel eterna e o quanto Lana deseja isso com todas as suas forças. Alcançar esse estado onde não existem conflitos, passado, presente ou futuro. Existe apenas o existir. É uma tristeza e um sonho.

O azul escuro que finaliza o refrão demonstra, numa voz extremamente triste, a angústia que permanece na estrada da vida de Lana Del Rey por esta terra e pelas próximas terras a vir.

We both know
The history of violence that surrounds you
But I’m not scared, there’s nothing to lose
Now that I’ve found you

Nós dois conhecemos
O histórico de violência que rodeia você
Mas eu não tenho medo, porque não há nada a perder
Agora que encontrei você

A violência que envolve o amante de Lana é tema conhecido por ter sido anteriormente abordado em canções. Lana parece sofrer algum perigo na mão deste homem. É interessante como esta imagem masculina foi por muito tempo idolatrada por Lana, em canções como You Can Be the Boss e Blue Jeans. Atualmente esta imagem não a surpreende mais e ela espera poder ajuda-lo de alguma forma a se libertar da prisão da violência em que ele se encontra. Talvez seu estágio espiritual o tenha colocado nesta situação e está no destino de Lana tirá-lo de tal realidade. E talvez por isso ela tenha inicialmente se atraído por personalidades deste tipo, para que pudesse posteriormente se aproximar deste homem que está escrito em seu destino e libertá-lo da violência em que reside…. Será que tudo já estava predestinado?

Diante da epifania do que é sua realidade, Lana simplesmente abraça seu destino no segundo verso da canção. Ela não é aquela garota que está cansada de se sentir confusa, de lutar contra sua mente e seus conflitos: ela foi capaz, após um árduo caminho, de compreender e absorver os acontecimentos que lhe foram impostos. Seu amante sempre estará ao seu lado e eles sempre serão um do outro. Nesta vida e em todas as vidas que virão.

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Diante disto, o medo não existe mais. Apenas a certeza de continuar se reconstruindo a cada momento, seu amante ao seu lado seguindo seu próprio caminho enquanto os feixes de luz de suas vidas se entrelaçam e desfazem em uma dança da eternidade. Lana não apenas encontrou seu outro eu. Ela alcançou a paz ao internalizar em seu coração o fato que os dois sempre irão caminhar de mãos dadas e jamais serão capazes de viver solitários. Por mais difícil que os tempos sejam, na escuridão o vulto de energia emanado pelo outro será suficiente para que a caminhada de ambos continue. É um amor que ultrapassa este plano. É a união de dois espíritos, duas mentes, duas energias que se tornam uma.

We could cruise to the news
Pico Boulevard in your used
Little bullet car, if we choose
Mr. Born to Lose

Nós poderíamos cruzar por notícias
A Pico Boulevard em seu usado
Carro veloz, se nós quisermos
Sr. Perigo

Lana cita na canção duas das maiores avenidas de Los Angeles: o Boulevard Wilshire e o Boulevard Pico. Ambas seguem paralelas por mais de 20km e passam por importantes pontos da cidade. Além de serem marcos importantes da Costa Oeste, local de grande inspiração para Lana, interpreto tais locais como grandes estradas metafóricas que podem levar os amantes a qualquer lugar. Eles estão livres por estarem juntos e ter um ao outro é tudo o que precisam.

Our honeymoon
Our honeymoon
Our honeymoon
Say you want me too
Say you want me too
Dark blue, dark blue

Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Diga que me quer também
Diga que me quer também
Azul escuro, azul escuro

Lana pede para que seu amante a deseje como se, no fim da vida, os conflitos dele também houvessem desaparecidos, ele também encontre a paz e enxergue que tudo o que há é a união dos dois. Desde o início da música, o objeto da canção de Lana parece negá-la de alguma forma e ela precisa afirmar que o destino dos dois estará para sempre entrelaçado, não importa o que aconteça. No refrão, enxergamos um pouco como esse medo permanece. Lana poderá evoluir e alcançar a perfeição apenas se seu amante abraçá-la e aceitar, de todas as formas possíveis, seu amor. Ela precisa fazê-lo ver toda a força do amor e como é o amor, e unicamente o amor, o caminho para a eternidade. Caso ele não alcance tal estado de espírito, Lana estará para sempre fadada à estagnação espiritual e ao sofrimento humano.

There are violets in your eyes
There are guns that blaze around you
There are roses in between my thighs
And fire that surrounds you
It’s no wonder every man in town
Has neither fight nor found you
Everything you do is elusive too
Even your honey dew

Há violetas em seus olhos
Há armas que ardem em chamas ao redor de você
Há rosas entre minhas coxas
E fogo que rodeia você
Não me admira que todo homem na cidade
Jamais tenha lutado ou encontrado você
Tudo o que você faz é indescritível
Até mesmo suas drogas

A ideia da violência retorna e Lana, por ser sinestésica, vê nas cores a capacidade para descrever uma cena intensa. Violeta, rosa, vermelho. As cores fortes demonstram como o amor partilhado por ambos é extremamente forte e avassalador, podendo queimá-los a qualquer momento e sendo a fonte do sofrimento que os assola há tanto tempo.

Our honeymoon
Our honeymoon
Our honeymoon
Dreaming away your life
Dreaming away your life
Dreaming away your life

Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Tendo fantasias com a sua vida
Tendo fantasias com a sua vida
Tendo fantasias com a sua vida

A tonalidade da música com os violinos e os contrabaixos me remete a essa sensação de forte espiritualidade na música. Os acordes angustiantes mesclados com a calmaria da orquestra em alguns momentos demonstram o quão é difícil para Lana e seu parceiro continuarem essa travessia da vida juntos, em paralelo ao sentimento de impotência diante do fato de que eles sempre terão um ao outro não importa o quão tentem fugir e escapar desta realidade. O destino dos dois estará para sempre entrelaçado e em todas as vidas eles se reencontrarão novamente. Uma benção e um karma: o fardo e a plenitude na vida de ambos.

Na eternidade eles ficarão juntos. E a vida será como um sonho.

A vida será como um sonho.

Honeymoon é a canção que abre o trabalho mais espiritual de Lana Del Rey. Por meio da faixa-título Lana dá os primeiros passos em direção à imortalidade e evoca conceitos de transformação da mente e energia humana, vendo no amor a forma mais sólida de conexão entre dois seres presos na carne. E então começamos a entender um pouco o motivo pelo qual Honeymoon levou Lana a construir um novo trabalho. Um trabalho que reflete nada mais nada menos do que sua mais intensa e vívida realidade. A reconstrução diária de um espírito confuso, belo, mas principalmente, apaixonado pela existência.

Wesley Lima
21 anos, futuro médico, pianista e, acima de tudo, um louco apaixonado pela arte e os sentimentos profundos que ela é capaz de evocar. Foi “Born to Die” a canção que transformou sua vida e desde então viu em Lizzy Grant muito mais do que uma artista e uma inspiração: Lana, na verdade, tornou-se sua melhor amiga. Conheceu-a em 2013, quando a Paradise Tour foi a Belo Horizonte.
  • Peu Bossonario

    Wes, ficou MARAVILHOSA a análise! Amei <3

  • Pingback: ANÁLISE | Music To Watch Boys To: Nós garotas fomos enviadas para destruir | Lana Del Rey Addiction()

  • Valentina Berbet

    Que coisa linda de se ler. Chorei.

  • Igor Santos

    “Lana proclama que amá-la não é fácil, amá-la não é correto. Amá-la pode realmente destruir o alguém que está ao seu lado. Sua região escura é capaz de enegrecer e afastar o outro, sua tristeza tão forte que torna a própria aura sombria.” Nossa, é por isso que eu amo a Lana, ela não para de me descrever.

  • júlio Ary

    batendo palmas aqui! grande analise.

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