ANÁLISE | High By The Beach: A poesia autobiográfica trap-hop de vanguarda

por / segunda-feira, 28 setembro 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

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High by the Beach inicia com uma sonoridade nova na carreira de Lana Del Rey, que geralmente utiliza os mesmos recursos de formas diferentes, o de hélices cortando o ar calma e ritmicamente. Então Lana entoa um mantra distorcido de: “high, high, high”. Esse é apenas um dos sinais em “Honeymoon” que indica porquê esse é seu álbum mais feminista, e, quem sabe, um dos mais feministas do pop atual.

Desde o início da carreira, em vídeos, depoimentos, entrevistas e em suas músicas, Lana apresenta uma posição em relação aos homens que gerou bastante controvérsia, a subordinação. Lana, no entanto, nunca a enxergou desta forma — uma machista, como disse em algumas entrevistas — e acabou ganhando o rótulo de Lolita, que está sempre buscando a afeição masculina. Lana é repetidamente usada, e por vezes morta, por homens em seus clipes, mas isso não significa que ela também não possa ser uma mulher forte e independente e, por que não, feminista.

Boy, look at you looking at me
I know you know how I feel
Loving you is hard, being here is harder
You take the wheel
I don’t wanna do this anymore
It’s so surreal, I can’t survive
If this is all that’s real

Garoto, olhe para você olhando para mim
Sei que você sabe como me sinto
Amar você é difícil, estar aqui é ainda mais
Você toma o controle
Não quero mais isso, é tão surreal
Não consigo sobreviver se isso for tudo que é real

O primeiro verso deixa claro que Lana narra a separação de um namoro duradouro. Ela cansou de se subordinar à vontade de seu atual ex, e prefere tomar controle da situação ao terminar o relacionamento. O refrão exemplifica em alguns versos toda a relação. Lana é uma pessoa fácil de lidar, ela só quer ficar chapada na praia e ver a vida passar.

Boy, look at you looking at me
I know you don’t understand
You could be a bad motherfucker
But that don’t make you a man
Now you’re just another one of my problems
Because you got out of hand
We won’t survive
We’re sinking in to the sand

Olhe para você olhando para mim
Sei que você não entende
Você pode ser um malandro filho da puta
Mas isso não te torna um homem
Agora você é apenas mais um dos meus problemas
Porque você saiu do controle
Não sobreviveremos
Estamos afundando na areia

Lana nos dá mais um vislumbre de sua relação. O rapaz não compreende os motivos pelos quais ela está o deixando. E ela faz questão de explicar: apesar de você ser machão, isso não te faz mais homem que qualquer outro, e melhor, nem ao menos te faz um homem. O relacionamento se tornou uma pedra no sapato de Lana, afinal, como poderia um homem tomar o controle da relação quando ele está fora do controle. A conclusão é uma metáfora que se encaixa com o tema praiano da canção — eles vão afundar cada vez mais se continuarem juntos.

Anyone can start again
Not through love, but through revenge
Through the fire we’re born again
Peace by vengeance brings the end

Qualquer um pode recomeçar
Não pelo amor, mas pela vingança
Através do fogo, renascemos
A paz pela vingança traz o fim

Este poema recitado no final é, no mínimo, interessante. No videoclipe da música, ele é apresentado em uma nota escrita a mão que acaba caindo no mar e sendo lavada pelas ondas. Seriam estas as últimas palavras de Lana para seu atual ex-namorado? Ela o incita à vingança? Ou apenas o aconselha, dizendo que ele precisa passar por maus bocados para ressurgir em seguida, ainda melhor do que antes?

High by the Beach, além de extremamente autobiográfica, é também altamente pop. Junto de Summertime Sadness, talvez seja a música de Del Rey com o maior potencial para se tornar um grande hit, com um refrão repetitivo, uma letra com a qual muitos podem se identificar, uma batida trap-hop que soa atual e de vanguarda, e um clipe simples, porém efetivo em sua mensagem. E em uma era em que discursos de amor se sobrepõem aos discursos de ódio, Lana ressurge em “Honeymoon” como a mulher forte que sempre soubemos que ela havia de ser.

Amém!

Por Lucas Almeida

Lucas Almeida
Leonino, paulistano, escritor, tradutor, poeta, atua em teatro musical por sonho, canta para espantar a tristeza. Apaixonado por cinema, música, literatura e moda, conheceu a Lana no início de 2012, quando assistiu o clipe de Blue Jeans. Acredita que Carmen foi escrita para Miley Cyrus em um ato de clarividência de Lana Del Rey. Está em busca de um Humbert Humbert para, finalmente, poder exercitar o papel de Lolita.
  • Annie Gomes

    Olá fiz login só para poder dizer, que eu simplismente apaixonei por este site! Estou relendo materias super antigas e estou completamente apaixonada por tudo! Então Parabéns!!!! <3 <3

  • Leonardo Colato

    Acho que está na hora das mulheres e homens e qualquer outra pessoa terem os mesmos direitos, sem precisar ser feminista ou machista! Mas enquanto as mulheres não tiverem seus direitos iguais aos dos homens, elas (e não só elas, é claro) devem continuar lutando para tornar isso uma realidade! <3

    • Raphaella Paiva

      Mas feminismo significa direitos iguais, não mulheres acima dos homens. O termo “machismo” é um pouco errado, muito usada no Brasil mesmo, enquanto em outros países se fala “sexismo”. Essas confusões acontecem heuheu <3

      • Leonardo Colato

        Obrigado por me corrigir Raphaella! Vim aqui pra editar o comentário, porque vi que não é bem isso haha :/ está na hora de todos terem direitos iguais! <3 tenho um professor que é contra o feminismo, contra o casamento (e felicidade) dos gays e só sabe falar de religião e esses tipos de assunto. Sabe o que é estudar toda semana com ele e ouvir a aula inteira essas acusações ridículas, e ver as publicações dele no Facebook só com ódio dos gays? É triste mesmo ;( tem gente que ainda vive na Idade Média.

        • Raphaella Paiva

          Nossa, eu compreendo. É muito difícil ter que conviver com alguém assim, ainda mais quando é teu professor. Mas continue firme e forte porque as mulheres, as gueis e as trans finíssimas vão dominar o mundo <3

          • Lucxs

            As panssexuais também <3 <3 <3

          • Leonardo Colato

            Maravilhosassssssssssssss! <3

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