ANÁLISE | God Knows I Tried: Uma viagem pelo sofrimento de um dos ícones mais sensíveis da atualidade

por / sábado, 26 setembro 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

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Em recentes entrevistas, Lana Del Rey atestou ser “Honeymoon” o seu álbum mais emocional. De cunho pessoal, a cantora afirmou que o álbum possuía aspectos mais intensamente autobiográficos do que seus antecessores, o que nos deixou ansiosos por descobrir um pouco mais da alma da cantora por meio das composições de seu novo álbum de estúdio.

Abordando temas da filosofia e metafísica, como o continuum espaço-tempo e sua relação com as vidas terrenas, espiritualidade como forma de redenção, suas conexões amorosas e até mesmo a difícil relação com a grande mídia, Lana Del Rey nos trouxe, mais uma vez, a prova de que sua música nada mais é do que pura e refinada arte. Por meio das melodias nostálgicas, Del Rey declama suas reflexões, paixões e amores: tudo aquilo que a move diariamente, na busca por uma melhor compreensão da existência e pela vinda de tempos em que o medo e a desesperança serão apenas remotas lembranças.

Em “God Knows I Tried” somos convidados a vislumbrar um pouco a luz e escuridão que assolam Lana Del Rey desde sua ascensão à fama no raiar dos horizontes de 2012.

Sometimes I wake up in the morning
To red, blue and yellow skies
It’s so crazy I could drink it
Like tequila sunrise
Put on that Hotel California
Dance around like I’m insane
I feel free when I see no one
And nobody knows my name

Às vezes eu acordo pela manhã
Com os céus em vermelho, azul e amarelo
É tão louco que eu poderia bebê-lo
Como uma tequila de nascer do sol
Eu ponho pra tocar aquela Hotel California
Eu danço ao redor como se estivesse insana
Eu me sinto livre quando não vejo ninguém
E quando ninguém sabe meu nome

Em “God Knows I Tried”, a voz de Del Rey entoa uma melodia triste e afirma que em alguns dias ela acorda se sentindo intensamente viva e realizada, literalmente enlouquecida apenas com a ideia de existir. Mas essa liberdade é sentida apenas quando ela é uma pessoa desconhecida, apenas Elizabeth Woolridge Grant ao invés da estrela internacional conhecida como Lana Del Rey.

Conhecida por ser extremamente reclusa, Lana nunca foi de declamar sua vida pessoal aos paparazzi e repórteres. Talvez devido às reações depreciadoras da grande mídia no início, Lana tenha se afastado completamente do mundo da fama. Apesar disso, sua alma sensível e contemplativa sempre a manteve em seus próprios pensamentos. A arte para a arte. “God Knows I Tried” demonstra como a fama tem aos poucos destruído suas inspirações, sua paixão pela vida e até mesmo a esperança de continuar compartilhando sua vida com o mundo.

Com um álbum debut circundado por críticas controversas, a cantora foi atacada por todos os lados, acusada como produto podre do marketing contemporâneo e até mesmo uma farsa: reviews chegaram a atestar que a cantora deveria se aposentar após seu fracasso nas primeiras apresentações ao vivo recheadas de nervosismo e introspecção.

Lana se refugiou nos braços europeus, onde as vendas de seu álbum subiam estrondosamente para logo em seguida se tornar um dos maiores sucessos de vendas do ano. A cantora afirmou que não gravaria outro álbum e que tudo o que havia para ser dito estava contido em “Born to Die”. Provável fruto da tristeza provocada ao ver sua arte tão arduamente construída ser desprezada pelo país que tanto a inspira, Lana surpreendeu todos ao anunciar, no segundo semestre de 2012, o lançamento de seu EP “Paradise”, juntamente ao relançamento de seu álbum “Born to Die”.

O reconhecimento apareceu aos poucos, sendo a cantora convidada pela empresa H&M para ser a modelo da campanha de outono. Em 2013, Baz Luhrmann a convidou para participar do filme “O Grande Gatsby”, o que deu à luz a uma das músicas mais tocantes
da carreira de Del Rey: “Young and Beautiful”.

Apesar do aparente sucesso crescente, a cantora vivenciava momentos difíceis em sua vida pessoal. Em maio de 2013, quando a turnê Paradise passava pela cidade de Dublin, na Irlanda, Lana chorou ao vivo enquanto cantava “Video Games”, a música que a tornou famosa no Youtube em 2011 e contribuiu para o contrato com as grandes gravadoras Interscope e Polydor Records que lançariam em janeiro do ano seguinte, o álbum “Born to Die”. O que parecia ser apenas emoção por ver suas canções sendo declamadas por milhares de pessoas, mostrou-se posteriormente como algo mais profundo.

Em entrevista à revista The Fader em junho de 2014, quando questionada o porquê das lágrimas na apresentação mencionada, Lana afirmou:

Eu tenho estado doente em turnê por cerca de dois anos com essa doença que os médicos não conseguem entender. Isso é grande parte da minha vida: eu apenas me sinto muito doente grande parte do tempo e não consigo descobrir porquê. Eu havia tomado algumas injeções na Rússia, onde estivemos recentemente. É muito difícil cantar para pessoas que realmente se importam com você enquanto você não se importa consigo mesmo às vezes. Eu achei triste. Achei que minha atitude era triste. Eu achei que era triste estar na Irlanda cantando para pessoas que realmente se importam enquanto eu não tinha certeza se eu mesma me importava.

            A fama tão ansiada por Lana Del Rey a estava destruindo aos poucos e ninguém conseguia descobrir como ou porquê.

God knows I lived
God knows I died
God knows I loved
God knows I lied
God knows I lived
Begged, borrowed and cried
God knows I lost
God gave me life
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried

Deus sabe que eu vivi
Deus sabe que eu morri
Deus sabe que eu implorei
Implorei, emprestei e chorei
Deus sabe que eu amei
Deus sabe que eu menti
Deus sabe que eu perdi
Deus me deu a vida
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei

Toda a dor e sofrimento foram destilados nos tomos de seu álbum de estúdio lançado em junho de 2014, “Ultraviolence”, o mais obscuro de sua carreira. Com uma aura pesada permeada por lânguidos acordes de guitarra e ecos que reverberam pela eternidade, as canções extremamente melancólicas são capazes de trazer os sentimentos mais secretos e obscuros tanto da cantora quanto daqueles que sentimentalmente as escutam.

Foi no nascimento de “Ultraviolence” que uma das mais polêmicas afirmações de sua carreira foi ao ar, durante uma entrevista para a publicação britânica, The Guardian:

Eu queria já estar morta.” Lana Del Rey diz, me pegando de surpresa. Ela estava falando sobre os heróis que ela e o namorado compartilham — Amy Winehouse e Kurt Cobain entre eles — quando apontei que o que os liga é a morte, pergunto se ela vê a morte precoce como glamorosa “Eu não sei. Hmm, sim“, e logo após, o desejo de morte.

“Não diga isso”, eu disse instintivamente.

Mas eu quero. ”

“Não quer! ”

Eu quero. Eu não quero continuar fazendo isso. Mas eu faço.

“Fazer o que? Música? ”

Tudo. É apenas como me sinto. Se não fosse desse jeito, então eu não diria isso. Eu ficaria apavorada se soubesse que a morte está chegando, mas…

A afirmação que posteriormente seria repetida mundialmente de forma cômica, (enquanto muitos sequer sabem a origem), na verdade é, em tom confessional, uma representação dos momentos de maior sofrimento na vida de Lana Del Rey. Notícias posteriores anunciariam o término do relacionamento entre a cantora e seu noivo, Barrie James O’Neill, juntos desde meados de 2011.

Sometimes I wake up in the morning
To red, blue and yellow lights
On monday they destroyed me
But by friday I’m revived
Put on that Hotel California
Wear my blinders in the rain
I got nothing much to live for
Every since I found my fame

Às vezes eu acordo pela manhã
Com luzes vermelhas, azuis e amarelas
Na segunda-feira elas me destruíram
Mas até a sexta-feira, eu revivo
Eu ponho pra tocar aquela Hotel California
Uso meus antolhos na chuva
Eu não tenho muito mais pelo que viver
Desde que encontrei minha fama

Os versos que se iniciam após o refrão representam de forma mais explícita a dor sofrida por Lana devido às tribulações de sua carreira. Se estabelecer no mundo da música foi fruto de muito sofrimento, pois ver sua música, a representação física de suas visões e sentimentos a destruiu. “Segunda-feira eles me destruíram, mas na sexta estou novamente viva”. Por meio das dores, Lana vai ao fundo de sua alma em busca de forças para continuar a caminhada, por mais que a vontade de desistir seja maior.

Leia a análise de Pawn Shop Blues.

Os versos que precedem novamente o refrão chegam a arrepiar tamanha a emoção na voz da cantora. Quase consigo imaginá-la chorando como na apresentação de “Video Games” em Dublin. A chuva cai em seu rosto enquanto ela caminha. Podemos imaginar o quão árduo deve ser para um ser humano tão espiritual e ávido por liberdade como Lana se ver depreciada e insultada por todos os lados. Ao mesmo tempo, não ser capaz de viver seus ideais, ser fotografada em todos os lugares, ser atacada, ser humilhada. Ela não tem muito mais pelo que viver desde que encontrou a fama.

God knows I lived
God knows I died
God knows I loved
God knows I lied
God know’s I lived
Begged, borrowed and cried
God knows I lost
God gave me life
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried

Deus sabe que eu vivo
Deus sabe que eu morri
Deus sabe que eu amei
Deus sabe que eu menti
Deus sabe que eu vivi
Que eu implorei, emprestei e chorei
Deus sabe que eu perdi
Deus me deu a vida
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei

Toda a era “Ultraviolence” foi permeada por uma amargura intensa nas aparições de Lana e a fama foi abordada de forma cruel. Segue trecho de entrevista a Paris Match:

Em suas letras você se mostra mais e mais sarcástica. “Eu quero dinheiro, poder e glória”, você clama. Precisa desabafar?

Evidentemente… Se este disco é chamado de “Ultraviolence” é porque isso descreve bem o que eu senti em minha vida privada. Eu experimentei a alegria de ver minhas canções agradarem e, ao mesmo tempo, eu tive que suportar as críticas, que se espalhavam rápido, sem reagir. E isso deixou marcas. Mas eu garanto a você, eu não quero nem o poder, nem o dinheiro nem a glória, mas eles disseram tanto isso sobre mim que eu terminei por aceitar isso ao pé-da-letra… Algumas canções não passam de um grande “foda-se” a todos os que disseram algo em meu nome, a todos os que pensaram saber o que eu sou ou o que eu quero. Todos os dias eu tenho que enfrentar pessoas que pensam que eu sou uma piada. E o pior, que minha carreira foi lançada neste mal-entendido!

Você sofreu muito por isso?

Sim, foi difícil, eu estava infeliz. E eu ainda não superei isso, eu não sei se vou conseguir superar um dia. Carl Jung disse que aquilo que as pessoas pensam de você sempre acaba se tornando uma parte de sua psique. Quer você queira ou não. Então, sim, em um certo momento, acabei admitindo que eu era aquilo que as pessoas descreviam na internet, nos jornais, “a boneca manipulada”. Isso mudou o modo como eu via minha carreira, mas não a forma como eu escrevo. E isso é o mais importante no fim das contas. ” 

       

Ultraviolence” se apagou como a chama forte de uma vela que perdura incessantemente até que, em segundos, abandona o mundo à completa escuridão. Não houve divulgação, não houve turnê mundial. Não houve vídeos de grande produção, não houve singles bem trabalhados. Lana se afastou rapidamente das canções do disco, afirmando que se sentia mal inclusive por ter escrito algumas delas. “Ultraviolence” é a dor de Lana em sua mais crua forma, seu âmago estilhaçado por 11 canções que apavoram e arrepiam. E ter consciência de que aquela dor saiu de seu próprio ser deixava Lana assustada e em tamanha melancolia que ela sentiu necessidade de se afastar rapidamente do disco.

            Poucas semanas depois do lançamento, “Music to Watch Boys To”, uma nova ideia, tomou conta da mente de Lana: seriam as primeiras névoas de “Honeymoon”. Lana se curvou sobre o novo trabalho e em janeiro de 2015 já informava que a criação do álbum estava quase pronta.

            E a aura de escuridão e amargura que preenchia a alma de Lana Del Rey foi aos poucos se dissolvendo, a calmaria trazendo de volta os violinos e as melodias trap que caracterizaram o álbum de 2012, por meio do qual ela esperou encontrar reconhecimento e paz ao compartilhar com o mundo sua arte.

Ainda assim, “Honeymoon” não perde o tom humanístico, romantizado e de idealização que rege não apenas as músicas de Del Rey, mas toda sua existência.

Ela ainda sofre e se sente sozinha. Ela ainda ama e espera ser amada. Ela ainda busca por algo maior. Não é assim com todos nós?

So let there be light
Let there be light
Light up my life
Light up my life
Let there be light
Let there be light
Light up my life
Light up my life

Então que haja luz
Que haja luz
Ilumine a minha vida
Ilumine a minha vida
Que haja luz
Que haja luz
Ilumine a minha vida
Ilumine a minha vida

Deus sabe o quanto Lana tentou e tenta diariamente. E que haja luz. Que Deus derrame a luz sobre sua vida, tire-a da escuridão, traga clareza e paz. Que Deus possa conduzi-la a dias melhores e que ela nunca se desvie de seu destino e caminho. Que sua luz continue iluminando o mundo por meio de sua música.

Quando Lana afirma que faz suas músicas para si mesma, não há como discordar. Em “God Knows I Tried”, Lana conversa consigo mesma, quase tentando convencer a si própria que, por mais que ela sofra, será capaz de dar o próximo passo e não será destruída pelo mundo que a rodeia. Deus sabe o quanto ela tenta todos os dias e ela não irá parar de tentar.

O mundo pode virar as costas, mas Lana Del Rey seguirá firme em direção à liberdade por mais que as tempestades escureçam seus dias. Suas visões não serão apagadas. Ela seguirá firme em direção à paz, à redenção e, principalmente, Lana Del Rey seguirá firme em direção à felicidade.

God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried
God knows I tried

Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Deus sabe que eu tentei
Wesley Lima
21 anos, futuro médico, pianista e, acima de tudo, um louco apaixonado pela arte e os sentimentos profundos que ela é capaz de evocar. Foi “Born to Die” a canção que transformou sua vida e desde então viu em Lizzy Grant muito mais do que uma artista e uma inspiração: Lana, na verdade, tornou-se sua melhor amiga. Conheceu-a em 2013, quando a Paradise Tour foi a Belo Horizonte.
  • Larissa Martins

    Moço, sei nem o que dizer ❤❤❤❤

  • Valentina Berbet

    Que resenha babado. Mitou.

  • Lily

    Fiquei bem emocionada com essa análise, foi o quanto cheguei mais perto de entender a Lana.
    Tenho 21 anos e desde o inicio da minha adolescência, às vezes tbm queria/quero estar morta. Acho que é por isso que Lana me encantou, nas músicas dela eu me encontro, me conforto. Parabéns pela análise, Wes, adoro elas ♥

  • Igor Santos

    Lana, em suas letras, parece que conta a vida dela e a minha. Sempre foi assim e continua sendo <3

  • Yuri Santos

    Sua análise foi tão profunda a ponto de diversos sentimentos começarem a tomar conta de mim durante uma aula chata de matemática. Nem te conheço mas já te adoro…

  • Júlio Ary

    Agora eu a vejo com mais clareza!

  • Jovi26

    A análise ficou ótima, mas a Lana vem dizendo desde o fim da era UV que o Honeymoon é o seu album MENOS biográfico.

  • Thiago Henrique

    Essa análise foi fantástica, nu! Ela me despertou sobre os sentimentos e as mágoas da Lana, como se eu estivesse entendendo-a.

  • júlio Ary

    A análise ficou bem profunda! Sério, está de parabéns Wesley.

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