ANÁLISE | Freak: Uma apaixonada aberração hollywoodiana

por / segunda-feira, 28 setembro 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

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Quando Lana Del Rey disse que ‘Honeymoon’ seria o nome do seu próximo trabalho, várias teorias que tentassem explicar o porquê do nome surgiram, mas todas relacionadas ao sentido literal da palavra, que na tradução significa lua de mel. Mas a análise para descobrir o motivo do nome tem que ser feita de uma forma muito mais subjetiva, que só faz mais sentido quando você começa a escutar o álbum. Talvez Lana também tenha uma lua de mel com alguém dentro dessa persona feminina de ‘Honeymoon‘, mas a grande lua de mel é o descanso de uma estrela que já está cansada da luz dos holofotes e da petulância da mídia. ‘Honeymoon’ também pode significar o declínio de um amor, que de cheio decresce para minguante — mas não é o que percebemos analisando a sexta faixa do álbum, ‘Freak’.

Aberração. O que seria a aberração? Talvez algumas analogias sejam necessárias para entendermos esse enigma, mas não fica difícil de descobrir quando escutamos os primeiros versos. De início (eu mesmo percebi isso quando escutei a canção pela primeira vez), já temos Lana citando sua favorita ‘chama azul’ — “Flames so hot that they turn blue” (Chamas tão quentes que se tornam azuis) — a canção é tão intensa quanto chamas azuis. Logo depois, podemos perceber que Lana está andando pela Califórnia, provavelmente por Los Angeles, pois isso fica mais claro já que ela diz que as palmeiras estão refletindo nos olhos do seu amante — Palms reflecting in your eyes / Like an endless summer” (Palmeiras refletindo em seus olhos / Como em um verão sem fim). Aqui também Lana explicita que é verão, um verão sem fim (Endless Summer foi a turnê feita por Lana no início de 2015, já dando uma prévia do que poderia ser o seu próximo álbum), e não há nada mais californiano do que dias quentes na costa oeste.

Definitivamente Lana está apaixonada por essa pessoa que encontrou, e por um simples motivo: esta pessoa compreende Lana e isso a deixa feliz, tão feliz que ela gostaria que aquele momento durasse para sempre — That’s the way I feel for you / If time stood still, I’d take this moment / Make it last forever” (É assim que eu me sinto por você / se o tempo parasse, eu pegaria esse momento / e o faria durar para sempre).

Esse homem que Lana encontrou também a ama, mas ele hesita em se juntar a ela nessa jornada pela costa oeste. Ela está partindo, mas ele ainda tem dúvidas, pois sua auréola está em chamas — Your halo’s full of fire / I’m rising up, rising up / My hot love’s full of fire / Love’s full of fire” (Sua auréola está em chamas / Eu estou me levantando, me levantando / Meu amor quente está em chamas / O amor está em chamas). Ele não sabe se deve partir com a sua amada ou se ele continua na sua vida anônima — ele é um desconhecido apaixonado, porém a sua vontade é tão intensa quanto uma chama, e ele está em chamas.

Até aqui, a persona por trás de Lana já se tornou uma aberração hollywoodiana. Ela explodiu um helicóptero com uma paparazzi dentro, e se tornou um perigo (curioso este fato, pois a canção que antecede Freak é justamente High By The Beach, onde acontece essa cena). O amante de Lana sabe que ela fez uma escolha difícil para voltar a ter uma vida normal; ela precisava ter feito isso, pois a mídia já a assassinou há muito tempo, e nem ela sabia disso. Agora definitivamente Lana é uma aberração, e ela quer que seu amante a siga nessa nova vida. Por isso ela o convida para vir até a Califórnia e ser como ela. Todo o refrão da música orbita no convite de Lana — ela o quer, e ele está a ponto de aceitar o pedido:

Baby, if you wanna leave
Come to California
Be a freak like me too
Screw your anonymity
Loving me is all you need to feel
Like I do
We could slow dance to rock music
Kiss while we do it
Talk ‘til we both turn blue
Baby, if you wanna leave
Come to California
Be a freak like me too

Baby, se você quiser partir
Venha para a Califórnia
Seja uma aberração como eu também
Dane-se o anonimato
Me amar é tudo o que você precisa para se sentir
Como eu me sinto
Nós poderíamos dançar lentamente ao som de rock
Beijar enquanto dançamos
Conversar até ficarmos tristes
Baby, se você quiser partir
Venha para a Califórnia
Seja uma aberração como eu também

Seria o amante de Lana um motoqueiro, um easy rider? É o que parece quando ela cita o couro preto e os olhos azuis. O sol reflete nos olhos dele e isso a deixa maravilhada — a vida tem sentido para ela nesse momento — Leather black and eyes of blue (blue, blue, blue) / Sun reflecting in your eyes, like an easy rider / Life makes sense when I’m with you” (Couro preto e olhos azuis [azuis, azuis, azuis]/ O sol refletindo em seus olhos, como um viajante / A vida faz sentido quando estou com você. E claro, a partir de agora tudo parece mais estranho para Lana. Ao mesmo tempo que ela está apaixonada, ela está perdida — Looking back my past, it all seems stranger / than stranger” (Olhando de volta para o meu passado, tudo parece mais estranho / do que estranho).

‘Freak’, antes de qualquer coisa, é uma música com um tom de suspense, uma melodia que nos envolve, mas que nos deixa alertas à letra ao mesmo tempo. Nada poderia ser mais coerente, já que agora a mulher por trás dessa história é uma criminosa que basicamente quer fugir com aquele que a encontrou e que a ama.

Seu amado ainda tem a dúvida sobre partir ou não, e ela considera isso uma frieza — porém quando ele é gentil, ou seja, quando ele pondera pegar a estrada com ela e vagar pela Califórnia, ela o considera incrível, maravilhoso; esse é o sonho dela. Ela não quer brigar, mas quer que ele fique:

Ooh, you’re cold as ice, baby
But when you’re nice, baby
It’s so amazing in every way
Ooh, your cold as ice, baby
I don’t wanna fight, baby
It’s like I told you
If you stay, I’ll stay

Ooh, você é frio como o gelo, baby
Mas quando você é gentil, baby
É incrível em todas as formas
Ooh, você é frio como o gelo, baby
Eu não quero brigar, baby
É como eu lhe disse
Se você ficar, eu fico
Algumas analogias se fazem necessárias para entender o enredo por trás dessa faixa que sucede ‘High By The Beach’, tanto na ordem do álbum quanto na história. Lana quer ter o seu momento privado, a sua lua de mel pessoal. Ela teve que explodir um helicóptero para conseguir isso, mas agora ela é considerada (e também se considera) uma aberração. Sabe aquela famosa frase “nós aceitamos o amor que achamos merecer”? Talvez essa mulher de ‘Freak’ pense dessa forma, pois a pessoa com quem ela quer fugir pela Califórnia não é nada menos do que uma aberração, igual a ela.

A sonoridade dessa música se encaixa perfeitamente ao enredo. Eu particularmente acho incrível como a letra se adéqua às batidas e ao instrumental, que é algo como um downtempo misturado com um trip hop cheio de suspense e um toque de sensualidade, como se Lana também evocasse uma femme fatale; e ela é. Costumo dizer sempre que o ato de analisar uma música é algo muito pessoal, porém a música e o álbum como um todo são tão autênticos e únicos que não é difícil entrar dentro desse novo mundo que Lana criou com ‘Honeymoon‘ e tirar conclusões como se você estivesse dentro dele.

Definitivamente nós não escutamos mais o som escuro e perversamente melancólico de ‘Ultraviolence’ por aqui. Lana trouxe dele as chamas azuis, isso é um fato, mas facilmente percebe-se que agora há um sol na história, uma praia, uma fuga — cores. Lana está de parabéns, ela conseguiu novamente entrar em outro mundo com o seu novo álbum sem perder a sua essência, a qual eu acredito fortemente que existirá para sempre.

Por Alexandre Krause

Alexandre Krause
Catarinense com muito orgulho e amante de uma boa música. Adora viajar, ler, assistir séries, e tem um profundo amor pelo inverno. Conheceu a Lana em 2012 ouvindo Ride. Ama a canção Radio, pois sempre que escuta essa música, pondera que a vida pode ser muito melhor do que ela já é.
  • David R. Jorge

    Que lindo, amei, parabéns!

  • Leonardo Colato

    Maravilhoso!

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