“A feminilidade de um ícone de glamour e desenvoltura”, confira a resenha de ‘Honeymoon’ pelo Libération Journal

por / domingo, 27 setembro 2015 / Publicado emNotícias

13 ss

O jornal parisiense Liberátion Journal publicou essa semana uma resenha do álbum “Honeymoon” repleta de elogios para as melodias claras, calculadas e cheias de romance do novo álbum de Lana Del Rey.

Confira a tradução.


Tudo em reflexões contemplativas servidas sobre orquestras evaporadas, o terceiro álbum de Lana Del Rey se estende em um estudado entorpecimento prazeroso.

Lana Del Rey, a feminilidade de um ícone de glamour e desenvoltura

“Música é amor” cantava David Crosby no tempo da Califórnia hippie. Com Lana Del Rey no volante de um conversível ao longo da Wilshire Boulevard, nós diríamos que a música é desejo. O canto da sereia, as texturas de seda, os ritmos preguiçosos, os trechos de contracultura, as cores do céu de Tequila Sunrise, tudo converge para essa sensação bem física embora carregada de sonhos, esse tipo de colapso interno, lento e delicioso, que acaba de aprofundar o fundo da barriga e despertar o corpo em um abandono doloroso.

Desde Video Games, Blue Jeans, West Coast, Shades of Cool, a voz de Lana Del Rey sopra com perfeição os charmes dessa fantasia: um olhar lascivo, um toque de mãos, um abraço já distante, às vezes com raspas de morbidade nessa reverberação sempre ampla aonde o ouvinte também vem a definhar-se.

ROMANCE

Lana Del Rey é um ícone, ela desenvolve em inúmeras fotografias as possibilidades de sua feminilidade glamorosa. Mas ela não é só isso que olhamos, ela também ama olhar. Music to Watch Boys to devia ser o título de “Honeymoon“. De fato, esse terceiro álbum é uma obra contemplativa. Nele, o tempo é suspenso em um longo olhar. “We both know…” (Nós dois sabemos…) começa a voz grave, em majestade, rodeada por acordes hollywoodianos, entre Bernard Hermann e Henry Mancini, antes de desdobrar os melismas de seu romance, as texturas orquestrais acompanham tal nuvem de anjos. Fascinado por essa procissão, será necessário esperar longos minutos antes de ouvir uma primeira batida distante, como se abafada, vinda a apoiar a marcha nupcial. Quando, depois de quatro títulos, High by the Beach proporciona essa suspensão dramática por uma pulsação explícita, seu maior imediatismo pop como uma recompensa.  Mas ele tende mais ao jazz fraseado solto que ao meio pop: o disco retorna rapidamente a seu humor primitivo, como se enamorado dessa sensualidade que retarda a percepção — “Let’s dance in slow motion” (Vamos dançar em câmera lenta).

FATALIDADE

Em seu centro, o interlúdio recitado Burnt Norton, surgido a partir de um poema de T.S. Eliot, forma uma zona espetacular: “Time present and time past/ Are both perhaps present in time future” (Tempo presente e do passado são ambos presentes no futuro). Parece que Lana Del Rey reza ou ela anuncia o mantra que lhe serve como uma metafísica: “What might have been is an abstraction/ Remaining a perpetual possibility/ Only in a world of speculation” (O que podia ter sido é uma abstração/ Permanecendo uma possibilidade perpétua/ Apenas num mundo de especulação.) Quando ela se afunda “Because I’m going deeper, darker” na vertiginosa The Blackest Day, é com a mesma fatalidade irreal. Swan Song fecha a sequência de composições originais com um gosto de morte, “I will never sing again/ And you won’t work another day/ It will be our swan song” (Eu jamais cantarei outra vez/ E você não irá trabalhar um dia a mais/ Esse será o nosso canto do cisne): a voz que nos levou até aqui brinca com a possibilidade de negar a si mesma.

A vertigem poderá parecer afetada, muito cheia de referências. Mas a eternidade, diz Lana Del Rey, pode ser garantida com mentiras (“Lies can buy eternity”). A cantora ama a cultura como um parâmetro de desejo: ela faz rimar “ghetto” com “art deco”, cita “Major Tom” e “Rapper’s Delight” ao lado do poeta Robert Frost e assume na praia final o clássico cantado por Nina Simone, Don’t Let Me Be Misunderstood. Declaração de intenção um pouco maníaca, esse último título parece indispensável. Ele ressoa com esta pontada de desgosto que se sente ao ouvir um disco habitado de melodias virtuosas, mas cuja melancolia se transforma às vezes em magnitude. Nós desejávamos descansar em seu ápice celeste em Terrence Loves You: And I lost myself when I lost you” (“E eu me perdi quando te perdi”).

Por Agnès Gayraud
Traduzido por Cristine Sol

Redação LDRA
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