ANÁLISE | O Clipe de High By The Beach: O Amanhecer da Deusa

por / terça-feira, 25 agosto 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

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Há alguns dias, Lana lançou seu mais novo vídeo, e nos pegou desprevenidos mais uma vez. Toda sua estética está presente, seus filtros, a filmagem que dá um tom de amadora, seus vestidos jáhbtb11 clássicos, suas músicas, uma arma (essa é novidade!) e as referências aos grandes clássicos do cinema. Apesar de ser uma canção ultracontemporânea — e até de vanguarda, eu diria — Lana ainda conseguiu manter-se fiel a sua linha de trabalho como artista, fazendo algo que ela sabe que não tem como errar, ao referenciar o majestoso Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder.

Lançado exatamente 65 anos atrás, no dia 10 de Agosto de 1950 — o mesmo dia do lançamento do single “High By The Beach”; grande hbtb12coincidência? — o filme trata da história de Norma Desmond, uma atriz de Hollywood dos tempos do cinema mudo que está sem atuar há um bom tempo devido à falta de interesse da indústria por ela. Norma conhece o roteirista de cinema Joe Gillis, e lhe entrega um roteiro autoral que ela redigiu por si só, na esperança de protagonizá-lo e fazer dele a sua grande volta ao cinema. No entanto, o roteiro é péssimo. Joe, ao invés de dispensá-la, começa a se aproveitar da bondade/loucura de Norma e a convence a contratá-lo para editar seu roteiro. Vulnerável, ela aceita e começa a bajulá-lo com roupas, sapatos, acessórios, e fazendo até com que o rapaz se mude para sua enorme mansão, sempre na esperança de que seu filme saia do papel e que ela possa retornar à fama.

O vídeo de “High By The Beach” possui uma temática similar, só que reversa. Lana está sozinha em sua recém-adquirida mansão em Malibu, após recentemente ter sido incomodada por fãs que acamparam na porta de sua antiga casa, em Hancock Park, e por paparazzi. Nesta casa de Malibu ainda não há decoração, conferindo ao vídeo uma intimidade e amadorismo. A fotografia é em tons pastéis de lilás, rosa e tons de azul, dando um sabor doce ao espectador, contrapondo-se à história mais densa.

Lana se revira em sua cama, que na verdade é apenas um colchão nohbtb14 chão, e parece irrequieta ao descer as escadas até a cozinha. Lá, ela pega uma revista de fofocas em que ela se encontra na capa com a manchete “A estrela passa dos limites”. Ela folheia desinteressada. Algo chama sua atenção e ela vai até a janela apenas para encontrar um paparazzo em um helicóptero tentando fotografá-la na privacidade de sua casa.

Ela parece estar transtornada, sem saber mais o que fazer quando, de repente, começa a correr. Ela abre a porta dos fundos de sua casa, que nos leva a uma espécie de praia particular, onde Lana se refugia entre as pedras.

Então ela surge com uma case de violão, escalando as pedras aceleradamente e ainda um pouco desnorteada. Ela volta para dentro e, em sua varanda, revela que dentro da case há, na verdade, uma enorme arma de fogo. Lana prepara a arma e atira certeira no helicóptero invasor. De certa forma, ela parece querer nos dizer, ‘Vocês têm suas câmeras como armas, eu tenho minha música’. E, de fato, “High By The Beach” é a canção mais autoafirmadora da independência de Lana em toda sua carreira até então.

O helicóptero e o paparazzi caem, e Lana se dá por satisfeita. Em meio à chuva de destroços que caem no mar, é possível ver diversashbtb2 folhas de revistas despedaçadas, inclusive a matéria que Lana estava lendo. Essa cena é bastante significativa, evidenciando o quão poderosa a honestidade da música de Lana é e o quão fraca e vazia é a palavra dos fofoqueiros e invasores de plantão.

Em seguida vemos um bilhete escrito à mão jogado nas pedras, hbtb1aparentemente caído do helicóptero, que diz: “Todos podem recomeçar/ Não através do amor, mas pela vingança/ Através do fogo, nós renascemos/ Paz por vingança/ Trás o fim”, que na verdade são os versos finais da canção.

Lana então volta para o interior de sua casa finalmente podendo viver uma vida tranquila e em paz. Ou não?

A respeito do vídeo, James Franco, ator e amigo pessoal de Lana disse: “Lana passa muito tempo sozinha porque todos querem entrar. Ela teve essa ideia para um filme. Quis fazer porque é parecido com Crepúsculo dos Deuses. Uma mulher solitária em uma mansão em Los Angeles. Ela não quer sair. Ela começa a ficar louca, e fica paranoica porque ela sente que há pessoas a observando. Mesmo dentro de sua própria casa. É um filme meio cult que mora dentro da mente de Lana. É sobre ela e não é sobre ela. Assim como sua música”.

Lana é genial, mais uma vez!

Lucas Almeida
Leonino, paulistano, escritor, tradutor, poeta, atua em teatro musical por sonho, canta para espantar a tristeza. Apaixonado por cinema, música, literatura e moda, conheceu a Lana no início de 2012, quando assistiu o clipe de Blue Jeans. Acredita que Carmen foi escrita para Miley Cyrus em um ato de clarividência de Lana Del Rey. Está em busca de um Humbert Humbert para, finalmente, poder exercitar o papel de Lolita.
  • Leonardo Colato

    Adorei o texto!

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