ANÁLISE | Uma nova estrada com o universo a frente e a solidão ao lado: uma análise de “Pawn Shop Blues”

por / quarta-feira, 29 julho 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

IMAGEM POST LDRA

Bem, “Pawn Shop Blues” é uma das músicas mais significativas para mim, pois retrata momentos verdadeiramente escuros da vida de Lana e com os quais eu consigo me conectar bastante. É uma música realmente crua, e a primeira versão que temos é de 2006, de quando Lana participou da Williamsburg Live Songwriter Competition (WLSC) e, é a versão que eu mais gosto da canção, então deixei-a no repeat enquanto escrevia este texto.

Espero que transmita para vocês um pouco dos meus pensamentos, sensações e tudo aquilo que essa música provoca em mim. Coloque-a no repeat e aproveite a leitura.

Grande beijo.

Well, I didn’t know it would come to this, but
That’s what happens when you’re on your own
Bem, eu não sabia que isso chegaria a esse ponto, mas
Isso é o que acontece quando se está por conta própria

Inicialmente, vemos que Lana está extremamente melancólica ao ter a realização de onde as coisas chegaram. Aparentemente ela se sente solitária e perdida em seus próprios pensamentos… A canção se inicia com uma Lana que murmura apenas para si mesma tais palavras, transportando para o mundo exterior de forma quase entregue toda a melancolia em que se encontra. A ausência de esperança é tão grande que chega a ser palpável por meio de sua voz. Não há desejo em cantar para o mundo: ela entoa os versos para si mesma, como se ouvir as próprias palavras fosse o necessário para que tudo aquilo finalmente se tornasse real.

Sinto que, em um milésimo de segundo, ela foi invadida pela percepção de tudo o que houve. Como se estivesse anteriormente embriagada pela proporção e pelo rumo que as coisas tomaram, mas até então, o fato não a houvesse realmente tocado. E então, ela percebe que sim, tudo aconteceu e, quase como num monólogo, se entrega para o destino e para a vida.

Não há nada mais perder, pois tudo o que pudesse haver, já havia sido perdido.

Tenho a impressão de que situações extremamente frustrantes aconteceram em sequência, decepcionando-a e deixando-a perdida em sua própria vida. Quem de nós nunca viveu dias em que o poder da infelicidade tomou conta e nos fez questionar se realmente estamos caminhando para ser aquilo que contamos para apenas para nós mesmos na escuridão da noite, ou olhou para o pôr-do-sol e pensou em simplesmente largar tudo que nos prende para ser feliz? Mas a estrada para a real liberdade é árdua e cobra caro d’aqueles que a pretendem seguir.

E a solidão pode ser um dos preços mais altos.

And you’re alright
With letting nice things go
E você está bem
Em deixar coisas boas irem embora

Porém, entremeada com a voracidade da percepção dos acontecimentos, há uma verdadeira aceitação na voz de Lana. Ela quase abre os braços para aceitar qualquer coisa que o universo tenha a lhe oferecer e, conhecendo-a como uma pessoa intensamente espiritual, acredito que nesse momento de escuridão, apesar de tudo, ela acreditava que a dor era apenas parte da estrada em que estava caminhando para alcançar a plenitude.

Um sábio amigo me disse uma vez que ser realmente livre e feliz é uma tarefa que demanda apenas uma coisa: libertação do ego. O meio em que vivemos infiltra em nossas mentes, desde o momento em que adquirimos nossa consciência, padrões, desejos e até mesmo amores. Como saber quem nós somos de verdade se não nos desvencilharmos do mundo ao nosso redor para descobrir nossos verdadeiros sentimentos?

Are you in touch with all your darkest fantasies?

Será que é necessário possuir artefatos rotulados pelo meio para ser quem você é? Será que eles realmente contribuem para quem eu sou ou apenas embaçam ainda mais a linha da minha realidade, ao preço de trazer a minha verdadeira alma ainda mais para o interior do meu ser?

A verdade é que, como mencionado em “Ride”, é necessário nos libertar de tudo aquilo que nos prende para sentimos no rosto a brisa que apenas a liberdade em sua mais pura e verdadeira forma pode soprar. E num esforço e luta constante para alcançar este estado de espírito, Lana aprende a aceitar as perdas e a abraça-las como parte da jornada. Por vezes, é necessário perder algo que realmente amamos para que possamos nos sentir um pouco mais livres.

Well, I pawned the earrings that you gave me
Gold and made of flowers dangling
And I almost cried as I sold them
Bem, eu penhorei os brincos que você me deu
De ouro e feito de flores penduradas
E eu quase chorei enquanto eu os vendia

Lana perdeu a pessoa que mais tinha importância em sua vida, seu mais sincero amante e a última lembrança que lhe restou foram os lindos brincos que ele havia lhe dado. Porém, a situação em que ela se encontrava a fez tomar decisões difíceis e ela teve que abrir mão, pouco a pouco, de tudo o que possuía para continuar vivendo. Sinto que ela sempre guardava os brincos na esperança de que nunca precisasse se desfazer deles, vendendo seus outros pertences, tamanho o carinho e as lembranças guardadas naquelas pequenas joias. Chegou um momento, entretanto, que ela não teve escolha a não ser ir a uma loja de penhores e entregá-lo. Os ventos de mudanças tão esperados não sopravam e ela provavelmente não teria onde viver ou o que comer caso não conseguisse algum dinheiro. E ver todas as lembranças e tudo o que aquele par dourado representava apenas sendo trocado por algumas notas foi uma dor tão expressiva que ela precisou juntar forças para continuar aquilo que é o que une todos nós em uma única teia: a vida.

And I don’t mind living on bread and oranges
No, no
But I gotta get to and from where I come
And it’s gonna take money to go
E eu não me importo de viver de pão e laranjas
Não, não
Mas eu tenho que voltar de onde eu vim
E tenho que ter dinheiro para ir

A aceitação com tudo o que está lhe ocorrendo é expressa de uma forma extremamente pura. Não há angústia, não há preocupação.

Não há medo.

Ela apenas continua o caminho.

Lana menciona não se importar de viver com pão e laranjas, alimentos extremamente baratos, o que mostra o quão difícil sua vida tem sido. Provavelmente, os brincos penhorados foram seu último bem de valor e, para se alimentar, ela precisou entregá-los. Ela abdicou de tudo o que tinha e não sente desespero. Ela está em paz consigo mesma. Ela apenas sente que precisa se mudar novamente, abandonar o local onde está, re-conhecer a si mesma, continuar a vida descobrindo novas regiões de si mesma. Penhorar os brincos foi o último ato de deixar o passado para trás para se reconstruir internamente. Mais uma vez ela olha para trás, sem medo, sem mágoa, abandonando toda uma vida para seguir seu caminho. Com o universo a frente e a solidão ao lado.

In the name of higher consciousness
I let the best man I knew go
Because it’s nice to love and be loved
But it’s better to know all you can know
Em nome da mais alta consciência
Eu deixei o melhor homem que conheci ir embora
Porque é bom amar e ser amado
Mas é melhor saber tudo o que se pode saber

Lana conheceu, ao longo de sua estrada, o melhor homem que poderia conhecer. Um homem que realmente a amava com todas as forças e faria tudo por ela. Porém, ela sentia que a conexão entre os dois não era recíproca e, apenas da existência do amor, ela não se sentia completa ao seu lado. Talvez o modo de vida de seu amante não a realizava ou ela apenas não estava pronta para absorver toda a energia que o relacionamento lhe proporcionava. A urgência em se sentir livre devido à situação angustiante que vivia colocou Lana entre enfrentar a solidão para buscar algo que a completasse plenamente ou permanecer na situação em que se encontrava.

Essa inquietude tão humana, essa ligação entre duas pessoas que, apesar de não trazer plenitude, satisfaz os desejos da carne…. Pois enfrentar o mundo é algo muito mais doloroso quando se está só.

É um desafio ter a sabedoria de decidir abdicar tudo em prol da jornada por algo maior, algo tão estarrecedor e extasiante que cada pequeno lugar escuro da alma é instantaneamente iluminado por uma chama incandescente. Porém é a busca por essa realização que move o espírito de Lana Del Rey e, apesar das angústias que a solidão lhe traria, ela chegou à conclusão que abandonar o melhor homem que havia conhecido era o único caminho para que pudesse continuar sua busca por este mundo.

Porque amar e ser amado é incrível, porém nada pode se comparar à jornada que iniciamos no dia em que nascemos e percorremos sozinhos ao longo de toda nossa existência nesta terra.

I said it’s nice to love and be loved
But I’d rather know what God knows
Eu disse que é bom amar e ser amado
Mas eu prefiro saber o que Deus sabe

Lana reafirma que apesar dos prazeres de amar e ser amada, ela busca algo superior neste mundo. Ela procura conhecer a si mesma e o que realmente lhe apetece, o que lhe assombra e o que lhe impressiona. Ela procura conhecer o seu íntimo, os seus medos, suas motivações. Ela procura conhecer aquilo que apenas Deus conhece. Sua alma, a essência humana e os segredos da vida.

I can’t do this once more
No man can keep me together
Been broken since I was born
Eu não posso fazer isso mais uma vez
Nenhum homem pode me manter inteira
Sou destruída desde que eu nasci

Em um último suspiro, Lana afirma estar realmente cansada de tudo o que tem vivido. Ela tem sido forte por muito tempo, mas a vida insiste em desapontá-la e seu espírito está quebrado diante de tantas frustrações. Ela sente que não pode passar por isso novamente e que está juntando suas últimas forças para recomeçar. Ela quase implora ao universo que a compreenda e a ajude a tornar as coisas certas para que ela possa ser feliz novamente como um dia foi. Para que os dias escuros se tornem apenas lembranças e sejam esquecidos com o raiar de novos horizontes.

Ela olha para si mesma e simplesmente aceita o fato de que sua inquietude é algo que existe desde que ela nasceu. Esta busca incessante pela liberdade, sua insatisfação com o modo de vida considerado ideal, a inquietude que a acorda a noite e a deixa no escuro com seus pensamentos mais profundos.

Seu vazio.

E ela não conseguirá alcançar a paz enquanto não encontrar aquilo que está procurando, o que quer que seja. Até que ela realmente consiga respirar fundo e se sentir feliz. Nenhum ser humano poderá mantê-la em pé, pois ela está quebrada desde que nasceu. E é angustiante ouvir sua voz tão doce e triste cantar tais lamentos. A desistência tão próxima, sinto que ela não consegue mais viver assim, se sentindo incompleta e infeliz por buscar algo que ela não é capaz de encontrar em lugar algum. Sentir uma escuridão interior e, apesar de procurar, não encontrar nada que ilumine esse sentimento que rege sua vida.

Mas, por uma última vez, ela juntou forças para recomeçar. Penhorou seus brincos tão amados e decidiu seguir, buscando um novo começo.

Well, I didn’t know it would come to this, but
That’s what happens when you’re on your own
And you’re alright with letting nice things go
Bem, eu não sabia que isso chegaria a esse ponto, mas
Isso é o que acontece quando se está por conta própria
E você está bem em deixar coisas boas irem embora

Um novo caminho. Para a felicidade.

Por Wesley Lima

Wesley Lima
21 anos, futuro médico, pianista e, acima de tudo, um louco apaixonado pela arte e os sentimentos profundos que ela é capaz de evocar. Foi “Born to Die” a canção que transformou sua vida e desde então viu em Lizzy Grant muito mais do que uma artista e uma inspiração: Lana, na verdade, tornou-se sua melhor amiga. Conheceu-a em 2013, quando a Paradise Tour foi a Belo Horizonte.
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