LOVE FROM ETHER | Uma libertadora análise de Get Free

por / sábado, 06 janeiro 2018 / Publicado emAnálises, Colunas, Love From Ether

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Lust For Life fala sobre viver a vida em sua forma mais pura, intensa, complexa e, de certa forma, espiritual.  É sobre extrair luz da escuridão, atravessar as sombras e encontrar a verdadeira felicidade em viver. Embora Lana Del Rey tenha dito que Yosemite não foi lançada por ser feliz demais e ela ainda não ter essa felicidade plena, em Lust For Life ela chega bem perto, e ela sabe disso. Lana pode ainda não se considerar totalmente feliz, mas ela encontra algo muito mais sólido que isso: liberdade. Não a liberdade ilusória dos álbuns anteriores, da ideologia young and free. Mas a verdadeira liberdade, aquela da qual ela se liberta até dela mesma.

Prova disso é a música que encerra Lust For Life. Get Free começa com a travessia do limite entre o mundo real e a alma:

 

Finally

I’m crossing the threshold

From the ordinary world

To the reveal of my heart

 

Finalmente

Eu estou cruzando o limite

Do mundo comum

Para entrar no meu coração

 

O mundo comum é a mídia e o sistema. Lana, em sua formação em Metafísica, sabe que existem pessoas e coisas maiores que nós que tentam nos controlar o tempo todo. O sistema que nos diz o que comer, o que vestir, a quem devemos amar e o que devemos fazer de nossas vidas. Deixamos de ouvir nossa alma (the reveal of my heart) para ouvir esse sistema que é divulgado pela mídia e que controla Hollywood e todo o seu glamour. A alma é o que ela realmente quer, seu Eu Superior, sua forma mais pura de ser e, por muito tempo, foi ofuscada pelo brilho das câmeras.

Chegar até a alma é a verdadeira missão de todo ser humano. E como toda grande missão, não é fácil. É preciso atravessar a escuridão e enfrentar demônios que existem na mente humana. É preciso enfrentar o medo e decidir que algo é maior que ele. Só assim, se encontra a luz, isso nos leva à segunda parte do primeiro verso:

 

Undoubtedly

That will for certain

Take the dead out of the sea

And the darkness from the arts

 

Sem a menor sombra de dúvida

Aquele desejo por certeza

Tirar os mortos do mar

E a escuridão das artes

 

O mar é transcendental. Ele traz essa ideia de morte e renascimento. Lana se refere muito, nessa música em particular, às mortes precoces de Hollywood. A morte precoce é uma espécie de fuga. É como se fosse um suicídio gradativo. A pessoa vive em autodestruição sabendo aonde isso vai levar.

A fuga nunca é a melhor saída, é sempre a última. E é melhor que nem seja uma opção. As pessoas que morreram jovens não tiveram a oportunidade de encarar seus demônios pessoais e vencê-los. Então, Lana tira os mortos do mar e lhes dá uma nova oportunidade de ser que eles realmente são. Aí que entra tirar a escuridão das artes. Há muito controle nas artes, os artistas não têm liberdade para ser quem realmente são, são controlados por gravadoras e produtores e vivem em uma jaula chamada fama. Uma vez que as artes forem livradas dessa escuridão, a verdadeira alma dos artistas verá a luz da liberdade e poderá brilhar.

É disso que se trata a nova era. Mortos é uma metáfora usada para cada ser humano impedido por tanto tempo de fazer o que sua alma realmente quer. Estamos tendo a oportunidade de viver nossa arte (vida) da forma mais pura e autêntica sem sermos impedidos pelo sistema. Sem termos que fugir novamente. O que nos leva ao pré refrão:

 

This is my commitment

My modern manifesto

I’m doin’ it for all of us

Who never got the chance

For… and for…

And all my birds of paradise

Who never got to fly at night

‘Cause they were caught up in the dance

 

Eis o meu compromisso

Meu manifesto moderno

O faço por todos nós

Para os que nunca tiveram a chance

Para … e para …

Todos os meus pássaros do paraíso

Que nunca voaram à noite

Porque foram pegos distraídos

 

Lana Del Rey fez Lust For Life para os fãs, ela já deixou bem claro. Mas muito além disso, ela parece ter feito para o ser humano. Como um manual de como se libertar das amarras da vida que outras pessoas escolheram para nós e ser nós mesmos pela primeira vez. Ela tem como compromisso fazer um manifesto por nós e por aqueles que nunca tiveram a chance de concluir suas missões.

Em um show no dia 23 de Outubro de 2017, na cidade de Nova York, Lana cantou nas lacunas do refrão Para Amy e para Whitney. Isso fez essas lacunas deixadas na música original parecerem intencionais. Assim, ela poderá preenchê-las com diferentes nomes de seus ídolos cada vez que for cantar os versos, como uma promessa de viver uma vida melhor por eles e de concluir sua missão.

Eles são os pássaros do paraíso que foram pegos distraídos pela autodestruição e não conseguiram atravessar a escuridão da noite. Não só eles, mas todos aqueles que tiveram suas asas cortadas por serem diferentes, os jovens que diariamente desistem de seus sonhos em nome de um futuro incerto e uma segurança ilusória. E que, quando tentam se libertar disso, acabam à margem, jogados de lado como se não fossem dignos da vida. E chegamos aos primeiros versos do refrão:

 

Sometimes it feels like I’ve got a war in my mind

I want to get off, but I keep ridin’ the ride

 

Às vezes parece que tem uma guerra na minha mente

Eu quero parar, mas eu continuo na estrada

 

Como o refrão nos leva de volta a Ride, do EP Paradise, analisemos alguns fatos da época dessa música, a partir do seguinte trecho:

 

Been trying hard not to get into trouble, but I

I’ve got a war in my mind

So, I just ride

 

Estive realmente tentando não me meter em confusão, mas eu

Eu tenho uma guerra na minha mente

Então, eu apenas continuo na estrada

 

Na época de Ride, Lana pregava um tipo de liberdade ilusória. A liberdade de poder se meter em confusão, o tipo de liberdade hollywoodiano. Esse tipo de liberdade leva o ser humano a fazer coisas ruins até a si mesmo. Por isso a fuga, a válvula de escape. Agora entendemos a metáfora de Ride. Não é pegar o carro e sair sem rumo. É fugir da própria mente através das drogas, de sexo, estilo de vida caro e tudo que Hollywood mais louva. Então, Lana teve que tomar uma atitude, ela fala sobre ela nos versos seguintes, ainda do refrão:

 

I never really noticed that I had to decide

To play someone’s game or live my own life

And now I do

I wanna move

 

Nunca percebi que eu tinha que escolher

Entre jogar o jogo de alguém ou viver minha própria vida

Mas agora eu sei

Eu quero mudar

 

A cantora reflete que nunca percebeu que havia uma escolha a ser feita. Antes, ela aceitava a ser apenas uma peça no jogo, sem perceber que ela tinha livre arbítrio para sair quando quisesse. Agora ela sabe que pode viver sua própria vida da forma mais autêntica, sem mais jogos de fama e poder, sem ter que fugir da realidade. Ela tem coragem para enfrentar seus medos e os desafios pela frente. Os dois versos finais do refrão dizem isso, na forma de uma ambiguidade mística:

 

Out of the black (out of the black)

Into the blue (into the blue)

 

Sair do preto

Para o azul

 

O preto é tido como a escuridão, a sombra. Mas nesse caso é algo mais que isso e bem pior: a ausência de cor. Se não há cor, significa que não há luz. Se não há luz, não há vida. Lana se considerava morta enquanto se entregava à futilidade da fama e do glamour. Ela se via à margem do infinito. Então, ela resolveu saltar. O azul da música não é o azul de um triste estado de espírito, que é mencionado em várias músicas da cantora. É o azul do infinito, da transcendência, eternidade e espiritualidade. Lana Saiu da caverna e encarou, o brilho da luz, revelando assim seu ser mais puro e verdadeiro.

Antes de entrar na segunda parte da música, precisamos entender quem foi Aleister Crowley e o que ele fez.

Edward Alexander Crowley foi um alquimista e ocultista britânico, membro da Ordem Hermética Golden Dawn. Crowley criou o baralho Crowley Thoth, um Tarot que narra os passos e o destino do ser humano na Terra e que, segundo ele, poderia ser usado como um instrumento mágico para interferir nas leis do universo e conseguir o que quiser. O estilo de vida destrutivo da maioria dos ocultistas que dura até hoje.

Crowley era alquimista, autor da misteriosa expressão solve et coagula, já comentada aqui na análise do clipe de Love:

Solve Et Coagula é uma expressão alquímica usada para definir o processo de transformação do chumbo em ouro. A grande decepção do processo é que o ouro volta a ser chumbo em 48 horas. Sua tradução literal é separar e unir.

Com essa expressão, reflitamos: será que vale transformar o chumbo em ouro só para ver algo brilhar temporariamente? Às vezes é necessário enfrentar a tristeza, a feiúra, a escuridão. Assim, podemos evoluir aos poucos, sem fazer o processo de separação e união, e nos tornarmos ouro naturalmente e definitivamente, nos tornamos nossa alma. Chumbo e ouro são metáforas para Ego e Alma, respectivamente. Em um processo como solve et coagula, o chumbo que vira ouro é nada mais que o ego travestido de alma. É temporário, pois nenhuma farsa é eterna. Voltando à música, vamos à sua segunda parte:

 

Finally

Gone is the burden

Of the Crowley way of bein’

That comes from energies combined

Like my part was I

Was not discernin’

And you, as we found out

Were not in your right mind

 

Finalmente

O fardo se foi

Do jeito Crowley de ser

Que vem de energias combinadas

Eu não estava discernindo

Qual era meu papel

E você, como percebemos

Não estava no seu juízo perfeito

 

Lana se libertou do estilo Crowley de ser, que nesse caso, é uma alusão às amarras da fama. Ela deixou de ser uma marionete da mídia e está pronta para ser ela mesma. As energias combinadas são a ideia do Ying Yang, ou seja, a dualidade. Mais uma vez Lana Del Rey bate na tecla da dualidade criada pelo sistema e sua influência na nossa vida. Muitas vezes estamos no jogo sem nem saber disso e sem saber o que estamos fazendo, somos os pássaros distraídos.

Ela percebeu que estava sendo um fantoche nas mãos da mídia e interpretando papéis que os fãs (you) estavam comprando. E eles estavam fora de si, pois tristeza, drogas e amores por interesse não devem ser atitudes admiradas. É autodestrutivo. E muitas pessoas sentem falta das músicas com essa temática usada na época de Born To Die. Agora sabemos o que a cantora pensa disso.

 

There’s no more chasin’ rainbows

And hopin’ for an end to them

Their arches are illusions

Solid at first glance

But then you try to touch them

There’s nothin’ to hold on to

The colors used to lure you in

And put you in a trance

 

Sem mais caças ao arco iris

E sem esperar um fim para eles

Seus arcos são ilusões

Sólidos à primeira estância

Mas, então, você tenta tocá-los

E não há como se segurar

As cores são usadas para lhe seduzir

E lhe colocar em transe

 

No último pré refrão, temos uma expressão popular americana:  caça ao arco íris. Essa expressão é sinônimo de ilusão. Foi popularizada pela lenda celta de que há ouro no fim do arco íris.

Lana aqui se torna consciente. Ela não espera mais que as coisas aconteçam, ela as faz acontecer. Ela percebe que a mudança anunciada em Change só depende de cada um. Os tempos melhores nunca virão se não formos em busca deles. Devemos para de nos iludir com os falsos arco íris.

O grande problema do ser humano é algo chamado zona de conforto. Desde Platão e sua Alegoria da Caverna, é conhecido que o ser humano tem medo do desconhecido. Fazemos a tudo na vida em busca da perfeição aparente: imagem impecável, beleza exterior, riqueza, poder. Nos apegamos a isso e construímos um castelo de areia que pode desmoronar a qualquer momento, mas não saímos dele pelo medo de recomeçar. Nossas vidas são a caverna.

E então, quando tudo cai, tentamos nos segurar em algo. E não encontramos. Tudo que foi usado para nos atrair e nos colocar no transe da vida perfeita, de repente, se torna escuridão e lixo. E o que temos no fim? Apenas a nós mesmos e a missão que carregamos.

Lana Del Rey encerra com chave de ouro o álbum mais místico e transparente de sua vida, com uma reflexão para todos nós. A sensação de paz e liberdade dessa música faz com que queiramos nos juntar à cantora nessa mudança e fazer algo pelo mundo e por nossa geração.

A Nova Era não é uma era de milagres, é uma era de luta. A luta pela liberdade e pela quebra do sistema que tenta cortar nossas asas todas as vezes que ultrapassamos o limite do céu.

 

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Por Leticia Oliveira

Leticia Oliveira
Jornalista, amante das Ciências Espirituais e do Movimento New Age, taróloga e poeta de araque. Lana Del Rey mudou sua percepção musical em 2012, jamais esperava ouvir algo que não fosse Metal Sinfônico, New Age ou alguma música da época de seus bisavós. Era muito gótica mas sempre acreditou que a Nova Era pudesse ser a cura da consciência coletiva. E está acontecendo. Procura espalhar Amor pelo mundo.
  • Francisca Sousa

    Análise perfeita, assim como a canção Get Free!

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