Lana Del Rey fala sobre metafísica, religião e tecnologia em entrevista à revista alemã Musik Express

por / sábado, 26 agosto 2017 / Publicado emEntrevistas

Dazed

Heidegger, o garoto sensual

Garotos, praia, entre eles: nós conhecemos a Lana Del Rey como a esfinge do sonho americano. E nós conhecemos as alegações de que ela é falsa. Tudo é falso, isso também pode ser dito sobre o novo álbum dela, “Lust for Life”. Mas Schopenhauer, Heidegger, e o sentido de todo ser? Ela está familiar com isso também. Uma conversa sobre metafísica, trans-humanismo e o que torna a ciência moderna sexy.

Nada nela é original. Isso pode ser a coisa mais tóxica que pode-se dizer sobre um ser humano. Lana Del Rey foi confrontada com essa acusação desde que ela ficou famosa, em 2012, quando ela lançou “Video Games”. Nada nela é original, isso foi o que tem sido dito desde então.

Seu nome não é verdadeiro. Na verdade, ela se chama Lizzy Grant.

Sua música não é original. Em 2011, ela subiu em palcos dos pubs mais escuros de Nova Iorque, timidamente sussurrando canções folk.

Seus lábios não são verdadeiros, porque ela os injetou.

A interminável tristeza de suas músicas: não é original. Porque é tudo meticulosamente planejado pelos agentes dela.

Frases como: “Queria estar morta”: não é original. Já que só é besteira romantizada. Ela. Não. É. Original.

Claro que não. Lana Del Rey é um personagem fictício. Uma figura como em A Technicolor Promise. Um híbrido artificial de Nancy Sinatra e Peggy Sue. Uma memória nostálgica de tudo que foi bom e ótimo na América. Tão americano que “Minha x**a tem gosto de Pepsi-Cola,” como ela já cantou. Maior do que a vida, e, portanto, sem vida, quase morto. Uma fria base de projeção – é por isso que ela sempre atraía tanto ceticismo e ódio. Simplesmente uma base. Simplesmente música pop.

Dizem que é possível ter conversas bem legais sobre vestidos com ela. Ou sobre compras em Los Angeles, onde ela mora. Sobre o amor dela a Guns N’ Roses e a homens mais velhos, e aos homens mais velhos de Guns N’ Roses. Por que ela nunca conheceu Lady Gaga, embora ambas sejam de Nova Iorque. Por que ela idolatra tanto Cat Powers e por que ela é amiga de Juliette Lewis, uma grande lenda.

Tudo isso são perguntas em potencial para uma entrevista por telefone, que tem uma duração marcada de exatamente 18 minutos. E as respostas seriam perfeitamente perfumadas – mas não chegariam a nem um milímetro perto do próprio ser humano por trás. Ao invés disso, nós escolhemos um jeito mais corajoso, pegando uma pequena notação biográfica para começar. Porque, quando ela era Lizzy Grant, ela estudou em uma universidade. Não design, nem economia, ou direito, mas o mais absurdo, talvez o mais inútil campo de estudo: Filosofia, com graduação na matéria mais inútil: Metafísica.

A metafísica questiona o sentido e a razão para tudo que existe. Um metafísico procura pela “primeira razão” atrás da origem, supostamente natural, do mundo. Ele quer saber o que “real” realmente significa, e se “a realidade” sequer existe. Ele quer explorar: “Por que há um ser e nada mais de nada?” “Haha, Heidegger. Eu me lembro!“, Lana ri em seu celular. Ela nos contou que nós podemos a chamar do que quisermos, Lana, Lizzy, ela não liga. Então a chamamos de Lana. Bem, Heidegger e Metafísica. O que é tão interessante nessa disciplina para uma jovem de Lake Placid? “Eu acho que eu fui à Universidade Fordham porque queria respostas. Eu vim de uma região bastante religiosa e minha família é bem religiosa também.

A teologia, então, não era uma opção. Ela hesita. Não, havia uma ceticismo dentro dela que pareceu estranho em relação à teologia. Nós a contamos sobre a definição de Schopenhauer, que diz que, basicamente, um filósofo é alguém em um quarto escuro, vendado e procurando por um gato preto. Porém, um teólogo é alguém que está num quarto escuro, vendado e procurando por um gato preto também, mas, depois de um tempo, grita “Urra! O encontrei!”. “Exatamente!“, grita Lana e ri. “Eu estava cercada por pessoas que pensavam em ter encontrado o gato preto. Mas eu não consegui enxergá-lo, sabe? Então eu queria respostas que somente metafísicos conseguiam dá-las. Já que é ciência, lógica e precisa… Mesmo se estiver alienada em relação ao resto do mundo.

Ela tem ido à Igreja desde que tinha quatro anos de idade, ela diz. Serviços da Igreja e cantos, a missa inteira: “Mas eu sempre questionei. O que está lá fora? Por que está lá? Eu, na verdade, esperava mais da metafísica do que ela pôde me proporcionar. É por isso que minha atenção mudou mais para tecnologia. Talvez eu me mudei, de alguma forma“, ela diz naquele jeito americano de transformar uma afirmação em pergunta.

Enfim, ela, na verdade, tem certeza de sua mudança, sua mudança para o futuro: “Ciência e tecnologia são a origem das respostas. Hoje, nós simplesmente temos mais respostas do que dez, vinte ou cem anos atrás. Na minha opinião, é um princípio fundamental da vida – de toda vida – orientar-se ao que traz mais energia. E algo que foi cientificamente provado, é simplesmente verdade. É um fato, não é uma especulação. Eu acho isso muito sexy.

Ok, isso leva uma pergunta adicional essencial. Você preferiria acreditar que alguém como Lana Del Rey pensa que sapatos caros por Vivienne Westwood, surfistas bronzeados em Venice Beach ou um Camaro antigo são sensuais. Mas não, ela gosta de ser específica e fala sobre tópicos como os mistérios da gravidade, matéria escura, quasares e quantum – “esse tipo de coisa“. De novo, uma risada de desculpas como se uma jovem não fosse permitida a se interessar por essas coisas.

Nós argumentamos que muitas questões físicas têm, hoje em dia, sido transformadas em termos puramente metafísicos: além da física tradicional, não mais realmente acessível atualmente. “Verdade“, diz Lana. “E sabe de uma coisa? Todas essas perguntas ainda estão sendo levantadas hoje. Mas levantadas por pessoas que esperam respostas e que realmente as recebem. Esses são os pioneiros da raça humana. Somente pense sobre o trans-humanismo e na ideia de separação da mente humana do corpo e para fazê-la imortal. Nós estamos no limite dessa era.

Pioneiros, mente, corpo, tecnologia – agora está ficando difícil não cair num ar de revista genérica, mas nós temos de cair: Lana Del Rey é muito amiga do visionário meta-empreendedor Elon Musk, fundador da Tesla e, graças à SpaceX, em seu caminho a Marte. “É bem inspirador falar com ele“, diz Lana. “Também, de uma perspectiva metafísica, ele se pergunta as mesmas perguntas, como todos nós, como eu, pelo menos. Recentemente, ele disse que nós, talvez, vivemos em uma simulação de computador. Ele e seus amigos estão tendo conversas sérias e polêmicas sobre isso. Eu achei engraçado, nossa vida – somente um vídeo game…

Não é comum falar com alguém que tem conversas regulares com Elon Musk sobre “Matrix”, transportes pneumáticos entre São Francisco e Los Angeles ou missões a Marte tripuladas. Logo, a seguinte pergunta: na sua opinião pessoal, Elon Musk não seria o vilão ideal para James Bond? Ele ocasionalmente acaricia o gato persa dele? Lana cai na gargalhada, mas após um pequeno período de tempo volta à pergunta. “Ele é muito esperto. Ele é muito rico. E ele tem muitas ideias malucas. Mas do mal – não, ele não tem cara disso, mesmo. Ele é mais uma pessoa que é muito, muito confiante em si mesmo e no que faz. Bem, porém… Se ele fosse um vilão do James Bond, eu seria a parceira de Bond, a Bond Girl, eu acho. E, ambos sabemos, que não é comum um final feliz para essas mulheres.

Para estar mais seguro, voltamos à clássica metafísica, a qual misturamos com a própria profissão de Lana Del Rey. Aristóteles, um dos fundadores da metafísica, chamou a música de um tipo de medicamento contra sentimentos religiosos. Então, com isso em mente, a sua música é uma auto-terapia? “De um jeito sim. Eu tenho uma inclinação ao místico. E eu fui criada católica, uma religião de roteiro, e eu ainda penso que a palavra escrita é o último resquício de verdadeira magia. Ela mantém esse poder, como a música. Não precisa ser Debussy. Pode ser, também, um bom Rapper que reflete sua experiência pessoal num contexto maior e mais genérico. Isso seria um tipo de transcendência. Eu espero, não, eu acredito que consegui fazer isso: de ter o seu dedo no pulso do que está acontecendo no éter.

“Okay, última pergunta!”, nós, de repente, ouvimos uma voz do outro lado da linha. Os 18 minutos estão quase acabando.

Bem, então aqui está nossa última pergunta: não há um risco de sempre falar a mesma coisa desse pulso, ou imutável éter? Lana responde imediatamente: “Algum tempo atrás, eu estava com medo de que, logo, teria de me repetir. Mas não há razão pela qual a repetição tem de ser ruim. Há muita beleza em opiniões que não mudam ao longo dos anos. Isso é verdadeiro, também, para a arte. É por isso que eu gosto de reduzir os Estados Unidos ao seu núcleo, Hollywood, as cores da bandeira.

Depois dela desligar, nós re-assistimos seu vídeo meio cafona, mas apreciado, para “Lust for Life”. Como Lana Del Rey sobe no letreiro de Hollywood à noite e como canta o dueto cheio de espírito com o The Weeknd, lá, acima das luzes de L.A., antes dela escorregar no D para um grande vazio enquanto a câmera gradualmente tira o zoom até a imagem ser a solitária Terra no espaço, parecendo um signo da paz cósmico. Depois dessa conversa, tudo parece muito real.

 

Por Arno Frank
Tradução por Davi Perides

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
TOPO