Confira a tradução da entrevista de Lana Del Rey ao jornal espanhol ‘El País’

por / terça-feira, 15 agosto 2017 / Publicado emEntrevistas

BON

Lana Del Rey: “Teria que ser muito jovem para fazer um disco e não incorporar temas políticos“.

Transformada em uma das estrelas mais singulares e excêntricas do pop, a novaiorquina chega a um quinto álbum acompanhada por Stevie Nicks, The Weeknd e A$AP Rocky, no qual sua habitual catarse emocional acrescenta (finalmente) alguma consciência social.

Cinco anos já se passaram desde o segundo álbum de Elizabeth Woolridge Grant, a estreia propriamente dita dessa personagem pop que conhecemos como Lana Del Rey. Um quinquênio em que muito ocorreu a ela para passar de um “Born To Die” a um título muito mais esperançoso e vitalista como “Lust For Life”, seu recém-estreado quinto disco. A novaiorquina expôs nesse tempo uma exuberante coleção de canções que funciona como uma obscura torção do sonho americano, com referências à violência e ao erotismo, ao fatalismo e ao amor desesperado, sempre com uma transbordante iconografia pop e um som cinematográfico e ao mesmo tempo inovador.

Quando comecei a trabalhar neste álbum queria que ele tivesse uma ideia muito simples e romântica, mas passaram-se dois anos e, durante este tempo, no amor acontecem muitas coisas. Então o álbum acabou sendo um reflexo de tudo o que aconteceu. Não aborda necessariamente o conceito do amor perfeito. Na verdade, creio que aborda mais o tema da mudança ou da vontade de mudança. Sinto que ainda tenho que viver esse grande amor que acredito que me espera no futuro. Então, você sabe, houve altos e baixos“, ela admite entre tímidas risadas como a vida a tem tratado durante esses últimos anos. O que é mais claro é que ela quis apresentar este álbum como uma espécie de jornada transformadora. “Começo em um local com a intenção de terminar em um lugar mais livre, onde eu me sinta mais liberta“.

Quando Lana anunciou o álbum no início deste ano, ela assegurou que antes fazia discos para ela e que desta vez estava fazendo para seus fãs. É uma ideia confusa – afinal, há uma legião de seguidores ferrenhos que aprenderam a apreciar sua música – mas que ajuda a entender que, embora ainda seja um trabalho tão pessoal e introspectivo quanto seus predecessores, Lust For Life mostra uma vontade de abrir-se um pouco ao mundo, de olhar o que está acontecendo e tentar encontrar um sentido para todo o tumulto que nos rodeia. Algo, precisamente, que os mais críticos com ela a culpavam até agora. Do mesmo modo que, quando ela canta sobre o amor não o faz a partir de um ideal platônico, quando em suas letras aborda o tema da morte – uma antiga obsessão sua, ainda que ela prefira descrever-se unicamente como “realista” neste sentido – não o faz para tentar compreender o que ocorre depois da vida, mas sim como “uma reflexão sobre sentir-se confusa no presente“.

Um presente que a forçou a lançar seu álbum com mais consciência social até o momento. “Até agora, a maioria de minhas canções eram histórias pessoais. Agora tenho vários temas que exploram o sentimento do que está acontecendo no mundo e, especialmente, nos Estados Unidos, comenta. “Há no álbum o sentimento de preocupação sobre o que vai acontecer nesta presidência e a agitação que temos vivido em seus primeiros meses. Se você está fazendo um disco nos dias de hoje, é muito difícil não incorporar alguns destes temas políticos em suas letras. Teria que ser muito jovem para não fazer isso“. Falando novamente sobre a vontade de mudar, Lana vê seus primeiro trabalhos como exercícios de catarse que giram em torno de sua pessoa e se centram em seus relacionamentos de forma um tanto negativa. Agora, no entanto, ela acredita ter feito “um bom disco para os fãs mais jovens, porque se vê que por trás da música há uma pessoa com boas intenções e porque é um trabalho muito sincero“. Nesse sentido, ela espera poder influenciar as pessoas para o bem.

Algo que surge na conversa telefônica com a estrela norte-americana é que ela prefere escapar da aura divina que ela mesma propiciou a partir da personagem que criou. Assim, mais que diferenças importantes entre o que representa Lana Del Rey e quem realmente é Elizabeth Woolridge Grant, ela argumenta que vê a si mesma como uma pessoa integrada ao seu nome artístico, como qualquer outro músico. “Sou multidimensional. Posso subir ao palco, mas também posso ter uma vida diferente em casa. Não é que esteja “montada” o tempo todo. Afinal, sou como qualquer outro ser vivo. A pessoa que está falando com você e a que faz o café da manhã é a mesma“, argumenta. Uma vida supostamente mundana que não está em desacordo com o que ela descreve como “alimentar o espírito criativo“. “Nesse sentido, faço coisas importantes para enriquecê-lo, como passar o tempo na natureza, escrever ou pintar (ainda que não seja boa nisso). Vivo uma vida artística e passo todo o dia em estúdio“. Mas, insiste: “Quando vou ao posto de gasolina, eu mesma encho o tanque do carro“.

Uma reação, intui-se, à sempre convulsiva vida de artista que passa meses na estrada e tem que se apresentar para milhares de pessoas a cada noite. “São coisas que não vieram a mim de uma maneira necessariamente natural“, lamenta. “Então eu tenho que encontrar um equilíbrio e priorizo as coisas que façam minha vida mais fácil. Passo bastante tempo em casa, trabalho em meu disco de maneira discreta e desfruto da companhia de meus amigos“. Isso explica por que sua música, apesar de todas essas evidentes influências retrô, também tenham um avançado em alguns pontos. “Sei que meu som pode ser antiquado às vezes, mas se eu uso uma linguagem contemporânea é porque estou fora todo a todo instante, todo dia e toda noite, escuto tudo o que as pessoas dizem… De algum modo, intuo o que as pessoas sentem, nesse sentido sou muito terrena“.

Que ela segue tocando com os pés no chão é algo garantido quando a escutamos falar de seu dueto desse álbum com Stevie Nicks, do Fleetwood Mac, que surgiu de maneira bastante rápida. “O fato de que ela aceitasse colaborar e de que dissesse que a minha música a encantava foi um momento decisivo para mim. Não sei se diria que me senti reconhecida, mas estava emocionada“, confessa. “É uma cantora com muita força e, ainda que pareça mentira, há poucas mulheres que seguem carreira 25 ou 30 anos depois de terem lançado seu primeiro disco“. Esta é a primeira vez que ela convida colaboradores a participar em um álbum seu, o que também explica essa vontade de abertura que exemplifica todo o Lust For Life.

Outros convidados do álbum são Abel Tesfaye – o homem por trás de The Weeknd, de quem se tem dito que é um tipo de versão masculina de Lana Del Rey por abordar o sexo de um ponto de vista sórdido – e A$AP Rocky, que apareceu no soberbo clipe de National Anthem interpretando John F. Kennedy. “Sempre me diziam que, se alguma vez eu decidisse ter colaborações em um álbum, eles deveriam ser os primeiros que eu devia chamar“. E ela não hesitou nem um segundo. Do rapper novaiorquino ela não tem mais que elogiosas palavras. Justifica assim sua devoção: “Há algo na maneira em como ele faz rap que é interessante e natural. De alguma forma, ele faz rap como fala. É muito sexy, talentoso e um dos melhores rappers do momento junto de Kendrick Lamar e Big Sean“. Em um campo mais pessoal, ela revela que a relação entre eles é divertida e às vezes profunda, embora passem longas temporadas sem se ver. “O mais importante é que ele entende o que digo e, além disso, acredita que nossa música não é tão diferente. Sempre me deu segurança no que faço, mesmo que seja algo excêntrico e diferente“. Além do novíssimo ídolo trap Playboi Carti, também aparece aqui Sean Ono Lennon. “Estive explorando o tema do amor e sempre me encantou como o legado dos Lennon pode se resumir nessa palavra. Chamei-o para que estivesse no álbum e ele se comportou de uma maneira incrível“.

Sempre falou-se do estilo e som californianos de Lana Del Rey, mas a diva passou toda a sua infância na fria cidade de Lake Placid (Nova Iorque), a quase 500 kilômetros de Manhattan. E ainda que em Blue Jeans ela cante que cresceu escutando hip-hop, confessa que naquela época tinha pouco acesso à música, algo que de alguma maneira a moldou como artista. “Desde muito jovem, cantava na igreja e escutava qualquer coisa que lançassem na NPR (National Public Radio) ou outros canais de rádio. Até que entrei na universidade não comecei a ouvir boa música. Quando a descobri, me emocionei muito“. Além da música, e em um plano mais espiritual, também encontrou os mesmos temas aos que se refere em suas canções. “Não cresci em um lugar onde as pessoas falassem de temas como a vida e a morte, sendo assim, senti que teria que entendê-los por conta própria“.

Agora Lana vive em Malibu, perto de Hollywood, uma constante em suas letras e imagens visuais (no videoclipe de Lust For Life, sua colaboração com The Weeknd, ambos aparecem sentados sobre o H do famoso letreiro). “Cada país tem uma cidade que o representa, especialmente para pessoas que não vivem nele. Quando falam da França, você pensa em Paris. Quando falam dos Estados Unidos, você pensa em New York ou Hollywood e, por extensão, Califórnia“, ela avança sobre sua fascinação por esta clássica iconografia. “Quando eu era jovem, tinha a sensação de que a Califórnia exemplificava o sonho de você poder fazer o que quisesse. Sempre gostei dos velhos filmes de Hollywood e, de fato, a cidade em si é linda. Tem uma imagem muito potente que se mantém, como seus cartazes, os edifícios, o cinema, o clima, os músicos… é um lugar muito excitante e inspirador“.

Por Álvaro García Montoliu
Tradução por Mateus Santana Neves

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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