“Sou da Grifinória, mas já namorei sonserinos”, confira o artigo do Buzzfeed sobre o novo álbum

por / domingo, 23 julho 2017 / Publicado emNotícias

KROQ

Na manhã seguinte após o vice-procurador geral Rod Rosenstein ter sido apontado para observar a investigação sobre a influência russa nas eleições de 2016, Lana Del Rey postou um vídeo no Instagram.

“Quando você está conversando entre os versos, mas volta a cantar no refrão”, se lê a legenda debaixo do vídeo em preto e branco em que uma Lana Del Rey vestida casualmente e & Cia. conversam entre os versos em um cenário de ensaio estilo década de 1960, e depois voltam a cantar durante o refrão.

When you’re chatting through the verses but snap back into it for the chorus See u Saturday @follow_ashley @missalexkaye

Uma publicação compartilhada por Lana Del Rey (@lanadelrey) em

 

O post era provavelmente para promover uma performance (“Vejo vocês sábado”), ou para mostrar um pedacinho de seu novo álbum (“Darlin’–darlin’–darlin’, I fall to pieces when I’m with you”). Ou talvez ela só tenha gostado do visual do vídeo. Mas a cena toda, particularmente no contexto daquela manhã caótica (o presidente Trump tweetou: “Essa é a maior caça às bruxas de um político na história americana!”, seguido por comentários sobre tudo, desde os poderes legais do conselho especial a quem é realmente o político mais perseguido da história americana), produziu este estranho pensamento:

Agora aqui está uma pessoa que está vivendo livre do peso deste grande problema.

As novas músicas podem ser boas, as novas músicas podem ser ruins – mas, diferentemente de qualquer pessoa viva agora, Lana Del Rey parece relaxada, serena e se divertindo muito, publicamente intocada pelos intermináveis argumentos sobre Trump, oponentes de Trump, apoiadores de Trump, o papel do governo, o estado da diplomacia, a ideia da America, etc., que atingem você durante qualquer dia.

Portanto como ela está flutuando soberana sobre tudo isso? O que a torna diferente agora de antes? Algo combinou em casar sua estética com o momento, porque ela realmente parece que não mudou.

Ainda há aquela sensação de sua música ser de outro mundo, como se ela tivesse nascido secretamente 200 anos atrás e às vezes a pudéssemos ver em segundo plano nas fotografias históricas, como Jack Nicholson no final de O Iluminado. Isso acontece de forma específica em suas músicas: diferentemente da autoanálise ou do fervor oitentista da maioria das músicas pop atuais, ninguém se desapaixona em uma música de Lana Del Rey.

A premissa de cada canção de Lana Del Rey é geralmente uma combinação dos seguintes: a) estou louca; b) estou chapada; c) sou maravilhosa; d) nosso romance trágico continua. Lana Del Rey não fica acordada durante a madrugada, se questionando sobre seus motivos e se preocupando sobre querer demais. Em suas músicas há um único romance eterno, porém fadado à perdição. As pessoas riem “como Deus” em suas músicas. Você pode se afundar em uma vida de drogas (“ele me ama com cada batida de seu coração de cocaína”, “Off to the Races”), ou de crime (“foi pego no flagra, foi a última coisa que eu soube”, “Blue Jeans”) ou morrer literalmente (“não há remédio para a memória”, “Dark Paradise”), mas você sempre estará apaixonado pela protagonista de uma música de Lana Del Rey.

Vamos ao ponto: no novo e excelente álbum de Lorde, Melodrama, ela canta: “te amo até minha respiração parar; te amo até você chamar os policiais pra mim”. Com uma certa ironia, o verso é uma admissão autoconsciente (e muito mais relacionável) de que, seja lá qual for a imagem controlada e cool que Lorde projete, ela pode se desfazer, honestamente, frente a esse rompimento. Bom, você não ouviria isso em um álbum de Lana Del Rey! Primeiro, Lana Del Rey lhe diz logo de cara sobre quem ela é. (“Todos sabem que sou uma bagunça – sou looouca”, ela informa o ouvinte na primeira faixa, “Cruel World” de Ultraviolence). Mas mais diretamente: um verso que implicaria em desequilíbrio – que Lana Del Rey foi deixada indesejada. (“Você é looouco por mim”). Você ainda vai amar Lana Del Rey quando ela não for mais jovem e bela? Ela sabe que sim.

Apesar do fato de que ela está quase sempre vestida como Bobbie Gentry a caminho de Summer of Love, sua estética é atual e não especialmente nostálgica. Há essa tendência de colocá-la no tradicional papel da mulher descontente americana, indo de Joan Didion em O Destino que Deus Me Deu às personagens dos filmes de Sofia Coppola. Mas Lana Del Rey é um pouco mais estranha do que isso, e também mais corporativa. O efeito combinado é que ela é mais… divertida do que esses tipos de personagens. Ela amarra tudo com um estilo romântico da década de 1960 em convenções de hip-hop moderno e rock independente – arranjos de cordas, guitarras com reverb, e um tipo de batidas eletrônicas que soam como explosões contidas. Claro, as músicas às vezes se esquecem de ter batidas ou refrãos contagiantes e são apenas “oohs” etéreos sobre você. E claro, você não pode escutar a algumas coisas de seu catálogo durante o dia porque isso pode te colocar em um transe nebuloso. (“Ultraviolence é a trilha sonora perfeita”, Molly Lambert escreveu certa vez, “para uma boate de strippers do inferno”).

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A bela Bobbie Gentry, em quem Lana Del Rey claramente se inspira

Mas tudo flui de uma premissa, a que parece ser o ponto de origem do Bom Ano de Lana Del Rey: a persona Lana Del Rey opera na ideia de que tudo já acabou. Quando ela postou a tracklist de Lust For Life, seu novo álbum, ela colocou a localização como “Fim do Mundo, Veneza, LA”.

Ao invés de se deixar envolver pelas questões políticas, Lana Del Rey parece pronta para deslanchar. E, claro, é possível que seu novo álbum envolva algum discurso anti-Trump, mas parece que a temática vai ser igual a de sempre. E mais, pode-se dizer que “Coachella – Woodstock in My Mind”, em que ela fala para nos questionarmos sobre todas as crianças, é uma música de protesto, exceto que parece ser sobre tensões com a Coréia do Norte. E mesmo se for uma música de protesto, é o protesto mais Lana Del Rey de todos os tempos: “No caminho de casa quis visitar um velho lugar favorito meu na borda de uma rodovia onde eu tirei um momento para me sentar ao pé de uma sequoia e escrever uma canção”, ela escreveu no anúncio do Instagram, antes de deslogar. “Espero que todos tenham um bom dia”.

Em O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, que detalha os experimentos de LSD de Ken Kesey and the Merry Pranksters da década de 1960, Tom Wolfe descreve-os “vibrando com a América em panorâmica e seguindo o fluxo com bandeiras americanas voando dos ônibus e tomando energia, como se fosse calor solar, de seus poderosos cavalos e seus neons, e não há limites para a viagem americana”.

Lana Del Rey vem operando há anos como se o mundo estivesse acabando, e essa premissa permite que ela viva assim: ela está praticando bruxaria; ela não é feminista; ela está se filmando cantando suas próprias músicas em seu carro; ela está postando no Instagram shows de Father John Misty como uma pessoa normal; ela está lançando músicas que são 80% dela e do The Weeknd instruindo seus ouvintes a tirarem suas roupas em vozes sonhadoras; ela está filmando episódios de A Feiticeira com ácido, na qual um telefone flutua sobre sua cabeça e ela diz sensivelmente que “embora esses tempos podem parecer um pouco loucos, eles não são diferentes do que outras gerações tiveram de passar vez ou outra”; ela é da “Sonserina”, como Perfume Genius disse, “mas de uma forma muito foda”; ela respondeu no Twitter que ela é, na verdade, da Grifinória, mas já namorou vários sonserinos.

Lana Del Rey vibra com toda essa América em panorâmica.

 

Por Katherine Miller para Buzzfeed
Tradução por Lucas Almeida

Redação LDRA
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