ANÁLISE | Lust for Life: O desejo pela vida a partir do suicídio de uma atriz hollywoodiana

por / domingo, 23 julho 2017 / Publicado emAnálises, Colunas

Hollywood

Entre os singles estrelados no álbum de 2017 – Lust for Life – Lana Del Rey nos apresentou a canção também intitulada Lust For Life, cantada junto de Abel Makkonen Tesfaye a.k.a The Weekend.

De modo geral, a letra em sintonia com a melodia musical nos propicia aspiração à vida e a sensualidade devida a quantidade de vezes em que ouvimos Take off all your clothes, And our lust for life e Keeps us alive. Esperar algo romântico da cantora não é para menos, pois já fomos apresentados várias vezes para mulheres fortes e apaixonadas. Porém, a rainha do reino “Queria estar morta” cantar com tanto entusiasmo seu desejo pela vida é novidade para nós HEHE!

L e TW

Então, que comecemos a análise…

PEGQuando ouvimos o primeiro verso de Lust for Life (Climb up the H of the Hollywood sign Escale o H do Letreiro de Hollywood), somos transportados para o ano de 1932. Então você se perguntará: O que aconteceu de tão importante nesse ano? Além da paixão de Lana pelo vintage, em 1932, a atriz de codinome Peg Entwistle de 24 anos e apelidada de The Hollywood Sign Girl cometeu suicídio, por estar com depressão, ao se jogar da letra H do letreiro de Hollywood, distrito ainda chamado de Hollywoodland. Isso mesmo, aquele letreiro branco no alto de uma montanha…

HollyApesar do foco da análise ser a letra da canção, em determinado momento do clipe, podemos observar Lana com uma caneta e um caderninho na mão, isso sugere que o eu-lírico tenha deixado a canção escrita para alguém… Mas ainda é cedo para tirarmos conclusões precipitadas.  Por coincidência ou não, esse momento do clipe também pode fazer alusão à Entwistle, uma vez que está deixou uma nota de suicídio: “I am afraid, I am a coward. I am sorry for everything. If I had done this a long time ago, it would have saved a lot of pain. P.E.” (Eu estou com medo, eu sou uma covarde. Eu sinto muito por tudo. Se eu tivesse feito isso muito tempo atrás, teria poupado muita dor. P.E.).

Após todas essas viagens no tempo, é afirmado que estamos retomando momentos passados de alguém que esteve em plena ascensão amorosa ou não: In these stolen moments, the world is mine – Nesses momentos roubados, o mundo é meu. Ainda podemos pensar em alguém reencontrando uma paixão passada e neste momento ambos estão juntos de novo: There’s nobody here, just us together – Não tem ninguém aqui, só nós juntos.

Assim, essa primeira estrofe é terminada com Keepin’ me hot, like July forever – Mantenha-me aquecida como um eterno junho – tal trecho se articula com a frase Hot summer nights, mid-July – noites quentes de verão no meio de julho – da canção Young and beatiful e reforça a ideia de lembranças sobre a juventude. Ah, e não podemos deixar de lembrar que Lana adora um summer e tudo aquilo referente ao clima quente, há sites de curiosidades que conta que de tanto Del Rey utilizar a palavra summer, seus colegas a proibiram de usá-la.

Após sermos introduzidos à canção por uma espécie de monólogo, Lana começa a cantar, sendo retomado o poema vitoriano Invictus de 1875 do poeta William Ernest Henley:

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul. 

Não importa quão estreito o portão,
Quão repleta de castigo a sentença.
Eu sou o mestre de meu destino;
Eu sou o capitão de minha alma. 

A referência ao poema é possível ser observado devida a semelhança entre as linhas acima e o trecho daInvictus canção: Cause we’re the masters of our own fate/ We’re the captains of our own souls – Porque nós somos os mestres do nosso próprio destino/ Somos os capitães das nossas próprias almas.

Desse modo, o poema trata da importância de se permanecer forte ao longo dos problemas que a vida nos propicia. Porém, observe que a criadora da canção muda o eu-lírico do poema de “eu” para “nós”, demonstrando que se fala de mais de uma pessoa, estando o problema presente, provavelmente, em um relacionamento, ou seja, o casal deve ficar junto e lutar por eles.

A luta e a certeza de que algo está atormentando a vida amorosa de duas pessoas e que ambas estão lutando para o bem deles é tida quando a cantora fala a seu boy: There’s no way for us to come away/ ‘Cause boy, we’re goin’, boy, we’re goin – Não há como fugirmos/ Porque, garoto, nós vamos, nós vamos. E então eles se lançam ao amor tirando todas as suas roupas… O que eles fazem sem elas fica por conta de sua imaginação hehe.

Chegando ao reino do “Queria estar morta”, nos deparamos com versos fortes, em que cantamos a frase “os bons morrem cedo”. Inicialmente retomamos ao caso de Peg Entwistle, mas também devemos considerar as entrevistas já dadas pela cantora, nas quais ela assumiu seu desejo em estar morta. Ainda dessas linhas, sabemos da paixão de Lana pelos tempos passados e por cantores que já morreram, entre eles os do “clube dos 27”, Marylin Monroe, Elvis Presley, Jesus e tantas outras pessoas idolatradas por Lana que se foram.

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Em seguida ela se contrapõe aos dois versos superiores e diz que isto não está certo, porque ela e seu/sua companheiro/a, ambos jovens, estão se divertindo muito e que há muita diversão pelas noites que viverão juntos, pois essa parte da música é cantada novamente mais à frente.

O refrão da música e o título recordam a canção Iggy Pop do icônico cantor David Bowie de 1997, em que o Bowie canta:

Cause of a lust for life
I got a lust for life
Got a lust for life
Oh a lust for life
Oh a lust for life

Por causa de uma vontade de viver
Eu tenho uma vontade de viver
Tenho uma vontade de viver
Oh, uma vontade de viver
Oh, uma vontade de viver

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Está clássica música se remete ao rock com temáticas sobre drogadição e está incluída na soundtrack do filme Trainspotting de 1996. Assim, Lana pode estar devolvendo um elogio ao padrinho do punk, pois em uma entrevista de 2014 com Nylon, ele comentou: “Lana Del Rey é muito boa. Eu notei que ela se comunica com muitas pessoas por meio da música e vídeos, mas você não a vê falando demais, então é muito bom. Isso é inteligente.”

Essa para mim é uma das partes mais lindas da música, pois Lana constrói conosco a ideia de reencontro com o boy, ainda mais porque canta junto com Weekend que eles irão dançar em cima da letra H até perderem o ar e morrer, exaltando esse momento de alegria do casal.

Gostaria de deixar claro que essa antítese de Lana entre viver e morrer poderia ser classificada na Escola Literária Barroca, pois a cantora sempre traz em suas canções a  veneração pela divindade e pela vida, controposto a isso, almeja também a morte, a promiscuidade e o amor romântico, exemplo disso é o curta metragem Tropico.

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Nos trechos seguintes temos a certeza que Lana comemora a volta de seu parceiro, e a cantora faz referência a música My Boyfriend’s Back de 1963 do grupo The Angels, composta por três garotas. Em uma entreangelsthe63vista com Dazed, Del Rey diz que intencionalmente adicionou uma estética do grupo das meninas dos anos 60, referindo-se em particular ao grupo Shangri-Las.

Como de costume, sempre conseguimos articular as músicas de Lana Del Rey com outras de sua autoria, fazendo-nos pensar em possíveis repostas ao eu-lírico de canções passadas. É o que acontece com o trecho: My boyfriend’s back and he’s cooler than ever/ (shut up, shut up)Meu namorado está de volta e ele está melhor que nunca/ (cale a boca, cale a boca) –. Parece claramente uma resposta ao trecho – Yeah, my boyfriend’s pretty cool/ But he’s not as cool as me (Sim, meu namorado é muito legal/ Mas ele não é tão legal quanto eu) – de Brooklyn Baby.

Brooklyn Baby

Ainda em relação a esse verso, ele também pode se relaciona com a música The Blackest Day, devido as noites escuras que baby deixou ao partir, porém, quando ele voltou as noites se foram e para sempre foi céu azul, fazendo alusão a dias de glória. Dando continuidade ao trecho There’s no more night, blue skies forever – Não há mais noite, céus azuis para sempre – ele deve ter sido inspirado pelo padrão de jazz Blue Skies, cantado por Frank Sinatra, um dos artistas favoritos de Lana, o qual canta: Blue days, all of them gone/ Nothin’ but blue skies from now on Todos os dias tristes já passaram nada além de céus azuis daqui para frente – trecho que também se encaixa perfeitamente como resposta à canção The Blackest Day.

Além disso, também pode ser uma referência cultural pop à música Blue Skies Forever de Frankie Miller que foi trilha sonora do drama teen sporte de 1983 All The Right Moves, estrelado pelo jovem Tom Cruise. Blue skies forever também é uma letra da canção do George Strait, intitulada “Quinze anos indo para cima (One Night Coming Down), coincidentemente também lançado em 1983.

All_the_Right_Moves_Poster

E após a análise realizada até aqui e com os trechos acima, podemos começar a realmente pensar que o sujeito da canção foi abandonado por alguém de alguma forma, contudo, houve retorno da pessoa amada e as lembranças vieram à tona quando se pensa no refrão, ou seja, não há com o que se preocuparem nesse momento, pois eles estão sozinhos e querem ter o controle dessa nova conexão corporal. Com sugerido no trecho abaixo:

‘Cause we’re the masters of our own fate
We’re the captains of our own souls
So there’s no need for us to hesitate
We’re all alone, let’s take control

Porque nós somos os mestres do nosso próprio destino
Somos os capitães das nossas próprias almas
Então não há motivo para hesitarmos
Estamos sozinhos, vamos assumir o controle

Após toda a tiração de roupa do o refrão e o desejo pela vida, retoma-se a volta do namorado super legal e fala-se sobre Blue Skies novamente, porém os dois versos seguintes trazem indagações por conterem as seguintes linhas: I told you twice in our love letter/ There’s no stopping now, green lights forever – Eu te disse duas vezes em nossas cartas de amor. Não há como parar agora, luzes verdes para sempre.

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Estas linhas provavelmente estão endereçadas ao seu namorado que acabou de voltar mais legal do que nunca, entretanto, como ela traz a ideia de uma carta escrito a seu amante, pode ser também que a música seja uma carte de amor. E é nesse momento que devemos lembrar do caderninho e da caneta que Lana segura no começo do clipe.

Nesse sentido, Lana ter chamado essa canção de “carta de amor” é surpreendente e notável, pois a música que transcende o sexo e a luxúria. Isso nos mostra que o significado de amor para Lana parece estar focado nos momentos sexuais ou não de adolescentes e jovens-adultos. Além disso, quando é trazida a questão do amor, podemos tomar como referência a canção Love, single que possui um dos clipes mais belos e com efeitos especiais mais bonitos da cantora.

Love

Por fim, Lana e Weekend em Lust for Life contam sobre o retorno de uma paixão e como isso fez se sentirem, ou seja, o casal não pode simplesmente esfriar suas relações ou parar suas atividades, esta maneira quente de viver e amar tem que continuar, continuar para sempre. E concluímos que a canção fala de uma mulher que teve seu namorado de volta e por isso festejarão em cima da letra H do letreiro de Hollywood e apesar de dizerem que os bons morrem cedo, é mentira, pois eles são jovens, estão vivos e têm desejo pela vida. Isso é concluído com uma carta já enviada ao namorado duas vezes.

E assim terminamos nossa análise com essa dancinha mágica <3

Dancinha

Por Pedro Bossonario

Pedro Bossonario
Estudante de enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP, porém, Apaixonado por pinturas, livros, filmes, músicas, cantores, artistas, fotografia, tudo que envolva cultura. Gosta de criação e publicações de imagens e textos, então decidiu iniciar por uma de suas cantoras preferidas.
  • Sávio Martins

    Com certeza Lana é toda barroca.

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