Lana Del Rey fala sobre Lust For Life, Donald Trump, lembranças e muito mais em entrevista à revista francesa Les Inrockuptibles

por / domingo, 09 julho 2017 / Publicado emEntrevistas

Les inrock 2017

Quando adolescente, Lana Del Rey era destemida. Ela fala disso em Lust For Life, um novo álbum em que sua voz poderosa oferece uma total diferença, de uma intensa colaboração com The Weeknd para uma balada suave com Sean Lennon.

Você não lançou nada desde Honeymoon em 2015. Quando você sente que está pronta para um novo álbum?
Meu problema não é começar, é parar. Mesmo quando eu acho que eu terminei um álbum, eu continuo a criar. Eu sempre quero acrescentar uma música e outra. Se eu não estou ocupada com a mixagem no fim da criação do álbum, eu continuo escrevendo. Por exemplo, duas músicas do novo álbum foram compostas durante a finalização do anterior. Eu não consigo parar de trabalhar nisso, eu amo estar no estúdio, me faz bem. Eu tenho feito isso por cinco anos no mesmo lugar, em Los Angeles, onde eu trabalho com o mesmo equipamento no estúdio do produtor Rick Nowels. Nós passamos nossa vida lá, como uma gangue.

Isso significa que você nunca soube o que é o medo de uma folha em branco?
Isso era uma medo que me dominava antes de eu começar a gravar álbuns de verdade. Era uma realidade antes do meu sucesso, quando eu gravava por simples prazer pessoal, quando eu escrevia só pra mim. Eu tinha a certeza que a inspiração ia sumir, e acontecia sempre. Muitas vezes eu não conseguia compor por seis meses. Mas 10 anos depois, agora, eu encontro inspiração facilmente – ou ela me encontra. Eu tenho aprendido a ser estimulada por ela. Especialmente recusando a ficar sozinha, eu encontro amigos, eu observo o que está acontecendo sem nenhum estresse. Eu uso meu celular sem parar em modo de reconhecimento de fala. Eu tenho gravado incontáveis melodias e palavras… É um pouco assustador, eu devo ter 700 rascunhos de músicas no meu celular. Eu conheço a sensação de quando uma melodia vem à minha mente e eu corro pro meu celular para gravar, mesmo se for no meio da noite. Uma boa melodia não bate duas vezes na sua porta. Se você não receber, ela vai aparecer em outra porta. Por exemplo, durante as gravações de Honeymoon, eu sempre ouvia uma melodia na minha cabeça, que me torturava e que eu não conseguir captar. Soava como as músicas da Renascença… Eu murmurei essa melodia por meses antes de finalmente se tornar “Terrence Loves You” (canta por um tempo).

Quando adolescente, você tem a reputação de ter sido bem destemida. Como isso se expressa em você hoje em dia?
Meus desafios não são físicos, eu corro diferente riscos. Quando eu tinha 18 anos, eu dirigia como louca, eu ficava na farra por dias e noites sem dormir. Eu era mais livre, mais espontânea, não ligava muito para as consequências… Eu tenho muitas responsabilidades hoje, em relação à minha família, aos meus amigos… Eu sou obrigada, por exemplo, a ser pontual. No passado, eu trabalhava só para mim, apenas para manter uma vida, antes de eu encontrar tempo para me ocupar com os outros. Em 2017, os riscos que eu corro são a nível musical, minhas escolhas musicais. Mas eu acho que eu tenho passado da fase destemida e eu estou mais para uma nerd agora (risos).

O que você quer dizer com “riscos a nível musical”?
A co-existência de diferentes músicas no mesmo álbum, como a complexa “Lust For Life” com a inabitada “Yosemite”, não é muito sensato. Uns dizem que o contraste é muito forte, mas eu amo as duas músicas demais para excluir uma por causa da outra. São músicas que me fizeram viver, e mais que isso: elas têm experiência.

Conforme foi ficando mais velha, você ficou mais paciente?
Fiquei. Eu me permito a ter muito mais tempo livre hoje em dia. Eu posso ir ao estúdio a qualquer momento, eu não tenho a pressão de um prazo de entrega mais. Além do mais, eu me deixei levar com a música “Lust for Life”… Eu trabalhei nela muitos dias por semana ao longo de um ano e meio. Ela passou por todos os estágios, começou com um ar futurísico e obscuro tipo Blade Runner. E também, eu decidi voltar para um estilo Shangri-la… Depois de trabalhar por alguns meses, Abel (The Weeknd) se juntou a mim para completar com a parte dele. Essa música se tornou meu amor, um ingovernável e maligno amor que me deixou louca. Eu rapidamente entendi que esse álbum soaria como uma viagem, uma mistura.

Ao trabalhar com The Weeknd, você aprendeu novos métodos para usar no estúdio?
Eu já tinha descoberto que eu amo brincar com os botões, com a ressonância, eu me sinto cada vez mais confortável do outro lado da janela do estúdio. Eu posso passar horas em um som, isso me cativou. E também, eu passo bastante tempo com o equipamento no estúdio, não soa como trabalhar; é legal, emocionante. Eu até mesmo leio resenhas técnicas, eu sou uma verdadeira geek (risos)… Tecnicamente, hoje em dia, eu seria capaz de produzir para outros artistas. A verdadeira questão é: mesmo que eu seja capaz, eu deveria? Frequentemente, quando eu toco com meus amigos, eu consigo imaginar como a versão de estúdio soaria. Talvez seja meu futuro. Temos uma verdadeira escassez de produtoras mulheres na indústria musical!

Seus dois últimos álbuns, Ultraviolence e Honeymoon, foram marcados pela costa oeste, para onde você tinha acabado de se mudar. E sobre Lust For Life?
Quatro músicas do álbum também fazem referência a Los Angeles, ainda que o humor e a estética não sejam totalmente da costa oeste. Eu queria ficar longe dessa atmosfera difusa, sonhadora. Músicas como Tomorrow Never Came e Yosemite caem no folk dos anos setenta, e se eu tiver que um dia conceitualizar um álbum, será em torno do tema do lendário Laurel Canyon, de seu som particular.

Uma das canções fortes do álbum se intitula God Bless America (Deus Salve a América). Como você se sente em relação aos Estados Unidos atualmente?
Ao meu redor, na comunidade artística, todos partilhamos os mesmos sentimentos de incerteza, de receio, face ao tom e ao discurso que surgiram. As mulheres, particularmente, o assunto dessa canção, são as mais afetadas pela chegada de Trump. Eu escrevi essa música antes do início das grandes marchas, que pareciam inevitáveis. Esta retórica de ódio não é digna de um chefe de Estado. O dia após a eleição foi um dos dias mais difíceis de minha vida. Eu ainda falo sobre isso com os outros em estúdio. Durante meses nós não falamos de nada que não fosse isso, do que iria acontecer conosco, com profundidade. Nós líamos tudo, eu queria estar informada e ver se poderia fazer algo a respeito. Infelizmente, não tinha nada além de minha convicção a oferecer.

Você tweetou receitas de feitiçaria para se livrar de Trump…
Foi uma brincadeira. Eu tinha lido que as bruxas do mundo inteiro tentariam se unir em datas e horários específicos para lançar um feitiço contra Trump, eu apenas entrei em sintonia. Mas o que é verdade é que meus novos vídeos contêm referências à magia, às ciências ocultas. Com seu lado mais lúdico, menos sombrio. Conheço pessoas que podem conversar com o além. Minha música está relacionada a fantasmas. Mas não eu.

Você voltou recentemente aos palcos no festival South by Southwest. Você precisou de algo depois de dois anos no estúdio?
Eu toquei por uma hora, me senti bem. Eu me sinto muito mais confortável em um pequeno bar no Texas, como foi naquele dia, que num palco de um estádio. Foi a melhor maneira de botar a mão na massa de novo, de sair à força do estúdio. Pela primeira vez em anos eu toquei violão em Yayo. Foi uma de minhas primeiras canções, composta no violão antes mesmo que eu me tornasse Lana Del Rey (ela a lançou, sem sucesso, sob o nome Lizzy Grant em 2008 – nota do redator). É uma faixa super carregada emocionalmente para mim, me traz de volta esse período, me reenvia o que eu imaginava, o que eu sentia na época. Eu tinha 20 anos, era um período genial de minha vida, descobri pessoas, o amor, Nova Iorque… Ao mesmo tempo, estudei filosofia na universidade mas na minha cabeça já estava definido: eu seria uma cantora. Religiosamente seguindo os conselhos do livro Pense e Enriqueça de Napoleon Hill, eu abri mão de todas as outras oportunidades que tive para me envolver na música. Assim, estudando filosofia, não me ofereci muitas possibilidades de carreira (sorriso)… Mas isso permitiu que eu me fizesse muitas perguntas, para as quais não encontrei nenhuma resposta. No entanto, conheci pessoas que se faziam boas perguntas, com quem eu estava na mesma sintonia. O filósofo Josiah Royce falava de comunidades espirituais, de sua importância fundamental para seu desenvolvimento. Estes são os fãs de música que me acolheram nos cafés de Nova Iorque.

Quem te ensinou a tocar violão?
Eu era obcecada pela música, pelo canto, mas eu era limitada a ir mais longe por não tocar nenhum instrumento. Antes da universidade, tirei um ano sabático e fui até minha tia e meu tio Tim, em Cold Spring Harbor, uma vila de Long Island. Tim aproveitou a oportunidade para me ensinar sete acordes de violão. Ele tinha uma voz maravilhosa, à la James Taylor, mas ele estava trabalhando em Wall Street. Todo mundo o dizia que ele havia desperdiçado seu dom. Graças a ele e a suas aulas de violão de cordas Nylon, eu enfim tinha um plano de vida. Ele me deu a liberdade… Então, uma noite por semana, eu estava no East Village ou no Brooklyn tocando em Cafés, em noites de microfone aberto, no Sidewalk Café, no Lay Lo Launge… Sem a menor ideia do que eu estava fazendo, eu tocava algumas de minhas músicas em público. Frequentemente era Yayo ou um cover de Buckets of Rain de Bob Dylan (ela canta em voz alta)… Eu tinha enfim uma desculpa para subir ao palco, para dizer: ‘Me escutem’.

Você era uma aluna disciplinada para seu tio?
Eu era muito assídua e disciplinada e ainda assim nunca fiz um progresso verdadeiro (risos)… Foi realmente frustrante pra mim, isso já tinha acontecido comigo quando era menina com o piano. Eu me esforçava de verdade… Mas não tinha visivelmente nenhum talento.

Mas você já não tinha sua voz?
Eu tinha uma de minhas vozes, a mais grave. No canto mais agudo eu ainda estou trabalhando. Por exemplo, em Yosemite, às vezes eu canto em uma voz muito aguda, que não tenho usado por anos. Eu estava com muito medo de deixar esse trecho, no qual vejo minha voz muito frágil, que revela muito de mim… Em Honeymoon eu mudei o tom de quatro músicas porque as achei muito agudas e isso me forçava demais a me colocar numa situação de vulnerabilidade. De agora em diante, como eu domino minha voz, posso levá-la onde eu quiser e isso me oferece uma imensa liberdade. O concerto no South by Southwest foi realmente uma revelação para mim, que permitiu-me fazer perguntas a mim mesma como: “Que tipo de cantora eu sou? A que família eu pertenço? Eu tenho o direito de assumir esses riscos vocalmente no palco?” Foi lá, sobre esse palco no Texas, que percebi que minhas raízes estavam na composição pura, em contar histórias. Em uma menor escala, me senti em conexão com Joan Baez e seu apetite pelo risco. Possivelmente pela primeira vez eu não estou mais considerando o que poderia ser esperado de mim. Minhas canções têm sido por muitas vezes catarses vivas… Eu não poderia mais cantar “Eu, eu, eu”… Só levou dez anos para chegar lá (risos)…

Como você vê o aspecto comercial de sua música?
Tenho uma confiança absoluta em minha equipe, que sempre me protegeu daquilo que me fez sentir pouco confortável. Mas em termos de minha estreia, de onde eu vim, desde muito tempo eu vivo o marketing como um sacrilégio. Porém estou mais descontraída agora. Por exemplo, mesmo que o sorriso seja irônico, eu nunca, em muitos anos, sorri tão abertamente como no vídeo de ‘Love’… Esse sorriso é uma mistura de alegria sincera, de alívio… e de ironia.

Sua música é ideal para “viajar” de carro. Você tem lembranças de longas viagens em família e das músicas que tocavam nelas?
Meu pai escutava constantemente The Beach Boys no carro. Tanto é que ele usava sempre uma camisa havaiana, mesmo em dezembro! Quando eu era muito pequena, meus pais deixaram Nova Iorque para viver nas montanhas de Andirondacks, seis horas ao norte da cidade. Duas vezes por ano, nós fazíamos uma longa viagem até a Flórida, 3 dias de carro. Eu, que odiava o frio de Adirondacks, adorava essa viagem, ela ficou enraizada em mim. Eu adorava o calor que chegava pouco a pouco pelos dois estados de Carolina (do Norte e do Sul). Eu me recordo, aconchegada no banco de trás com minha irmã mais nova, de sonhar com tudo o que iríamos fazer juntas uma vez que chegássemos à Flórida. Vejo de novo os restaurantes dos postos de gasolina, as garçonetes acolhedoras… Uma vez que eu chegava, durante semanas, eu nunca saía de perto do oceano.

Você dirige atualmente?
Como é difícil eu me misturar à multidão facilmente, eu não irei aos manifestos das mulheres anti-Trump. Mas eu sou a motorista de táxi para minha irmã, que de outra forma não tem um. Dirijo um Jaguar Sedan todo amassado. Um carro de mãe de família simples, não necessariamente sexy (risos)… O próximo pode ser um Tesla. Tive a oportunidade de conhecer um dos fundadores da marca, Elon Musk. Com minha irmã, ele nos mostrou a sede da SpaceX, eu até mesmo toquei um de seus foguetes… Mas para fazer um vôo ao espaço, vou esperar que Elon esteja à bordo – uma prova formal de que sua tecnologia é segura! Estou super excitada pelo que nos resta descobrir.

Falando de criaturas vindas de outro planeta, você recentemente colaborou com Alex Turner e Miles Kane do Last Shadow Puppets…
(Ela explode de rir e aplaude) Eles são realmente hilários, dois loucos. Eles não moram muito longe de mim, em Los Angeles. Eu comecei a treinar duas noites por semana no estúdio de Miles no bairro Los Feliz, tocando à toa com o The Last Shadow Puppet. Em seguida nós vamos jantar juntos com suas namoradas no La Poubelle. Que equipe! Eu perdi a conta do número de vezes em que eu terminei no chão de tanto rir. Eles são incapazes de falar sem cantar, improvisando letras. Por exemplo, outra noite eu contava a Miles sobre o show de Joan Baez que eu tinha acabado de ver. Ele nunca tinha ouvido falar dela. Alex fez uma canção na hora: “Miles não sabe quem Joan Baez é” (ela grita)… Ninguém está a salvo deles e de seu humor mordaz. Quando os conheci, eu enfim tive a impressão de encontrar músicos que vivem apenas para a música. Cantar com eles é muito revigorante, não há necessidade nem mesmo de repetir algo, eles sempre acham uma continuação.

Com Miles Kane você pode falar de sua paixão pelo Liverpool Futebol Clube?
Eu acho que meu empresário Ben cortaria minha cabeça se eu não declamasse meu apego ao seu amado time de Liverpool! Cada jogo para ele é uma questão de vida ou morte. Ele me levou ao estádio de Anfield e eu me diverti muito naquele dia…

Você nos disse há alguns anos que passa “muito tempo em sua cabeça”. Esse ainda é o caso?
Eu estou aberta aos outros. Mas na maior parte do tempo, eu dialogo comigo mesma. No entanto, eu me sinto menos à parte, menos diferente dos outro hoje em dia. Tenho a impressão de enfim estar mais conectada ao mundo. Isso é reconfortante. Consigo analisar minha vida desde minha adolescência com distanciamento suficiente hoje.

Você ainda tem em sua mão a tatuagem “Trust no one” (Não confie em ninguém)?
(Ela a mostra) Ela ainda está aqui, mas eu estou pensando em removê-la. Só porque ela é muito identificável hoje e eu desejo me misturar às pessoas. Mas é apenas uma questão formal. No fundo, eu sempre penso a mesma coisa.

 

Por JD Beauvallet
Tradução por Leticia Oliveira e Mateus Santana

 

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Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • Jailson Delicia

    Essa mulher é maravilhosa

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