Lana Del Rey concede entrevista à revista ‘NME’, confira a tradução

por / sexta-feira, 21 julho 2017 / Publicado emEntrevistas

NME

Lana Del Rey concedeu uma entrevista à revista britânica ‘NME’ e deixou um recadinho pros leitores no Instagram da revista. Confira a tradução a seguir:

A message from @lanadelrey

Uma publicação compartilhada por NME (@nmemagazine) em

 

Oi pessoal, é a Lana Del Rey. Só queria dizer para me procurarem na capa da NME em 21 de julho. Espero que gostem do álbum!

Lana Del Rey: Leia a entrevista exclusiva da NME com o ícone moderno.

O novo álbum de Lana Del Rey, Lust for Life, é o seu trabalho mais ambicioso até o momento. Mike Williams se encontra com ela na cidade que mais a inspira, Los Angeles – um lugar, ela diz, que “melhora algo em mim que já estivesse lá” – para falar sobre música, felicidade e bruxaria.

Não irá surpreender a ninguém que o Dr. Dre tem caixas de som muito boas em seu estúdio. E quando eu falo muito boas, eu não quero dizer muito boas como um fone de ouvido caro e famoso. Eu quero dizer muito bom como “puta m***a, como eu posso ouvir cada partícula de poeira espacial nessa parede de som galática”. É como todos nós ouviríamos música se fôssemos bilionários da indústria da música.

Dre nos deu permissão para usar seu estúdio em Santa Monica – do outro lado da rua da lendária Interscope Records – para ouvir ‘Lust for Life’, o último álbum de Lana Del Rey, pela primeira vez. O interior do estúdio é montado com madeira que sabemos que é cara. As luzes são sedutoramente com menos brilho. É como se o escritório de Don Draper e a cabine do piloto da Millennium Falcon estivessem misturados. Há um abajur de lava do lado de uma cúpula do Bruce Lee na mesa principal. A água é perfeitamente gelada. É completamente Los Angeles.

EF6yoTRk1ng

É um lugar adequado para ouvir o álbum amadurecido de Del Rey. Gigante em todos os sentidos – sonoramente, vocalmente, tematicamente – é o fruto de dois anos de trabalho constante. Escrevendo, editando, descartando, re-escrevendo, melhorando, apagando, reconstruindo. Como ela me dirá no dia seguinte: “Eu meio que senti quando comecei que iria estar em uma vibe completamente nova quando tivesse acabado, um lugar completamente novo. Estou muito orgulhosa de que houve uma mudança no tom, uma mudança na perspectiva. Há um pouco de reflexão no que estou vendo e está integrado com o que estou sentindo. Normalmente eu fico tipo ‘Deixe-me lançar isso’, e aí eu fico surpresa quando as pessoas ficam tipo, ‘Porra, você é doida.’

Del Rey é colega de gravadora de Dre desde Outubro de 2011, quando ela assinou um contrato com a 5 Points Records, em que ela brincou com diferentes identidades e sons. Seis meses antes, ela havia se tornado uma estrela da noite para o dia quando sua estética deu certo e ela lançou seu primeiro single, Video Games. No curso de tempo de seus três aclamados álbuns (Born to Die de 2012, Ultraviolence de 2014 e Honeymoon de 2015) ela foi de rainha comum da internet para uma completa superestrela de Hollywood. E agora ela não tem somente músicas – elas estavam lá desde o primeiro dia em que Lizzy Grant olhou no espelho e Lana Del Rey piscou de volta – mas também a produção, a ambição, a antecipação e a frieza para fazer ‘Lust For Life’.

Eu ouço nove faixas através das grandes caixas de som -‘Love’, ‘Lust For Life’ (Ft. The Weeknd), ’13 Beaches’, ‘Cherry’, ‘White Mustang’, ‘Groupie Love’ (Ft. A$AP Rocky), ‘Coachella – Woodstock In My Mind’, ‘Beautiful People Beautiful Problems’ (Ft. Stevie Nicks) e ‘Tomorrow Never Came’ (Ft. Sean Ono Lennon) – antes de dirigir até um bar na cobertura de um prédio para pedir bebidas de aspirantes a estrelas de Hollywood e olhando para as colinas para meditar sobre o que eu havia acabado de ouvir. Shoo-wops, doo-wops, produção grandiosa; momentos de ternura, momentos de irritação; sexo, carros, incertezas; luxuosa vida de Los Angeles. Se você tentar, consegue ver o famoso letreiro de Hollywood lá de longe. Se você fechar os olhos, consegue ver Del Rey observando de sua janela dentro do H.

No dia seguinte, estamos em um estúdio diferente, em uma parte diferente da cidade, esse pertence ao colaborador de longa data de Del Rey, Rick Nowels. Ele nos cumprimenta na porta com um enorme sorriso e nos leva à sala principal, onde o álbum foi gravado. Está desarrumado de um jeito caseiro. Ele quer saber o que achamos do álbum. Ele está animado para conversar. Nowels tem 57 anos e é uma lenda da indústria da música, que trabalhou com Madonna, Tupac, Stevie Nicks e mais, mas é óbvio que há um lugar reservado em sua cabeça e coração para Del Rey, que ele repetidamente descreve como “especial” e “extraordinária”.

CzFp6-RkPiE

Del Rey chega. Ela está usando uma camiseta de crochê e jeans. Nós nos sentamos numa sala ao lado e ambos pressionamos o botão para gravar em nossos telefones. Há um livro sobre Sharon Tate, vítima da família Manson, na mesa, que nenhum de nós percebe até depois da entrevista ter acabado. Eu a pergunto se ela está tão feliz quanto ela parece na capa de seu novo álbum. “Sim…” ela diz. “Esse era o meu objetivo, sabe, chegar nesse lugar em que sinto como se o meu cotidiano ganhasse bastante energia. Como seguir em frente com o que quer que eu estivesse sentido em ‘Honeymoon’ e ‘Ultraviolence’. Eu amei esses álbuns, mas me senti presa no mesmo lugar.

Como ela seguiu em frente? “Eu só me senti um pouco mais presente. Escrevendo músicas como ’13 Beaches’ – é uma noção abstrata, mas, para mim, demorou ir a 13 praias num dia quente para achar uma em que não havia ninguém. E eu pensei, sabe, o conceito de precisar achar 13 praias pode parecer um problema de primeiro mundo para alguns, mas tudo bem, eu o usarei mesmo assim.

É uma música chave do álbum. Sua voz nunca soou tão grandiosa e emocionada. “Eu costumo gravar as músicas algumas vezes“, ela diz, “mas me tive de fazer muitas vezes para fazer esse efeito. O estado emocional que eu precisava transmitir era melhor do que o que estava fazendo. Eu sabia que era importante que, nessa principalmente, eu o fizesse perfeitamente. Eu sempre sinto como se estivesse criando um novo caminho quando estou fazendo uma canção.” Escrevendo, editando, descartando, re-escrevendo, melhorando, apagando, reconstruindo.

Não que Lana Del Rey tenha se reinventado completamente em ‘Lust For Life’. A música título do álbum, a primeira de cinco colaborações (em nenhum outro álbum de Del Rey houve colaborações), talvez não venha do mundo melancólico de ‘Video Games’ ou ‘Terrence Loves You’, mas é tão nostálgica quanto. Nostalgia pode ser triste ou feliz, e em seu melhor – e deixe-me falar, eu acho que essa música é a sua melhor – Del Rey encaixa as duas ao mesmo tempo. Ela concorda?

Estou pensando nisso. Ela se alinha a como achei que iria estar, numa vibe mais adulta [escrevendo esse disco], mas, na verdade, ainda estou no meio termo. Quando penso nessa música, eu penso na noite e nessa ideia de, não sei, invadir um lugar e começar a se pegar. Isso é divertido para mim; como o ponto em que não estou 100% comprometida, em que você ainda sai e se encontra com novas pessoas e tudo mais. E também, esse ambiente centrado em Hollywood é, ainda, algo importante que me dá vida, estar na cidade e os personagens e as constantes ondas de calor. É um pouco clichê – eu entendo completamente; mas eu ainda sinto como se melhorasse algo em mim que já estivesse lá“.

qCA2zw7-uCc

Hollywood e o brilho do sol podem ser um coquetel bem intoxicante, não podem? “Podem. Eu sou naturalmente uma pessoa cuidadosa, mas eu gosto de que o ambiente seja… Eu não sairia e tomaria um coquetel de comprimidos ou algo do tipo, sabe, mas tem algo nessa vibe de apenas estar por perto que me dá um sentimento intensificado.

A maior colaboração no álbum é o dueto com a lenda do Fleetwood Mac, Stevie Nicks. Del Rey conta que ouvir suas gravações a fizeram reavaliar seu próprio tom. Ela estava convencida de que Nicks ia recusá-la. Ela ainda fala sobre isso com um olhar de incredulidade por isso realmente ter acontecido. Mas o dueto mais interessante é na verdade com a pessoa que é, em seu particular, a menos famosa e realizada de todos no álbum, mas pela virtude de seu sobrenome, é a mais fascinante.

Eu sou uma grande, grande fã de John Lennon,” ela diz. “Eu não conhecia [seu filho] Sean. Eu consegui o número dele com meu empresário, que ligou para o empresário dele. Eu meio que estava nervosa a respeito do que ele iria dizer. Eu liguei pra ele pelo FaceTime – ele foi maravilhoso. Ele ficou bem animado.” O resultado é a música mais doce do álbum, uma melodia meio folk que gentilmente toca além da quarta parede pela forma como eles se referem a John e Yoko, então Del Rey canta, “Não é louca a vida agora que estou cantando com Sean?”.

Há uma história da qual se trata a música, onde Del Rey chama Lennon para dizer a ele que ela achava que a parte dele estava perfeita, e ele diz que está tão feliz porque ninguém nunca disse isso a ele antes. Ele é filho de John Lennon, ele viveu a vida dele na sombra do pai. E Lana Del Rey acaba de dar pra ele o maior elogio que ele recebeu. Há uma drama nisso, você não acha?

Absolutamente. É por isso que eu penso que é mais que apenas uma música para ele – para nós dois. Ele é sensível, você sabe. Eu imagino que seja por causa do pai dele e eu acho que ele concordaria… Algumas dessas críticas tem sido difíceis. Eu achei um dos momentos do álbum no qual temos aquela sensação de que era ‘maior que nós’. Eu disse a ele, ‘Eu que estou honrada, eu que tenho sorte; então eu quero que você se lembre disso, Sean, eu estou cantando com você.’

eL3UNcFRlzE

A entrevista dispara em várias direções diferentes. Nós falamos sobre curtir em LA com Alex Turner e Miles Kane (“Eu encontrei Alex aleatoriamente. Eu tenho trabalhado com Miles”); sobre sua profunda amizade com Courtney Love (“Eu posso ligar pra ela, e provavelmente apenas porque ela já fez muita coisa louca, eu posso contar qualquer coisa muito estranha e ela dirá, tipo, ‘Já estive lá, já fiz isso’”); seu amor por Kurt Cobain (“maior influência além de Bob Dylan”); pessoas assistindo (“Eu sou uma observadora esquisita”); o novelista policial Raymond Chandler (“Sou uma grande fã, amo The Big Sleep”); e a independência californiana (“Eu sou uma defensora de manter o país unido, mas ela [a Califórnia] tem tanto seu próprio território que poderia até ser um país diferente.”)

Nós terminamos falando sobre mágica e o poder das palavras. Primeiramente, Donald Trump. Ele ainda é o presidente, o que significa que o feitiço que Del Rey pediu aos seus seguidores do Twitter para fazer no dia 24 de fevereiro não funcionou (ainda). Então ela se envolveu e fez isso por conta própria? “Sim, eu fiz. Por que não? Olha, eu faço um monte de m*rda.” Você lança outros feitiços em casa? “Eu estou de acordo com a Yoko e o John e a crença de que existe um poder de vibração de um pensamento. Seus pensamentos são coisas muito poderosas e eles se tornam palavras, e palavras se tornam ações, e ações levam à mudanças físicas.

O trailer peculiar que você fez para o álbum (uma Lana mágica olhando para LA de sua casa no H de Hollywood, refletindo sobre o mundo e seu papel em fazer um álbum) – é mais que um trailer; é um manifesto pessoal, não é? “Há uma mensagem. Eu realmente acredito que as palavras são umas das últimas formas de magia que restam e eu sou um tanto quanto mística no fundo. E eu vejo agora como eu me sinto a respeito de mudar a vida das pessoas, e eu tenho estado do outro lado também – do outro lado das boas vibrações e das nem tão boas. Eu percebi o quão forte você tem que ser para ser maior que tudo isso, maior até mesmo que suas próprias vibrações.

Eu gosto do trailer porque eu falo sobre minha contribuição, o que é algo que você começa a pensar. Eu tenho boas intenções. Nem sempre vai vir do jeito certo – não tem vindo do jeito certo por muito tempo – mas no fundo, minhas intenções têm sempre sido boas. Com a música ou quando eu começo um relacionamento, é sempre porque eu realmente quero. É por isso que, no fundo, é algo bom, um filme-B bruxesco.

MchhJqm3TTk

Você faz uma referência no trailer dizendo “nesses tempos sombrios“. Há mais prioridade em contribuir com álbum positivo agora? “Eu não gostei de ouvir o que eu falei. Eu tenho uma música, ‘When The World Was At War We Kept Dancing’, e eu ponderei muito a respeito de colocá-la no álbum, porque eu não me sentia confortável com o que eu estava dizendo. Eu não gosto de me ouvir dizendo ‘em breve será o fim da América’, porque é um sentimento confuso. Eu não gostei de dizer ‘nesses tempos sombrios’ também…

Ambos paramos de gravar mas continuamos falando sobre o estado do mundo em que nós vivemos. Eu disse a ela que vejo cada vez mais artistas começando a entender a necessidade de serem mais francos e mais opinativos. Ela concorda e acrescenta que as pessoas precisam ser resistentes porque há consequências. Durante a hora seguinte, ela faz vídeos engraçados no meu celular, come um sanduíche e me ajuda a escolher fotos para enviar para o departamento artístico da NME. Ela não poderia passar melhor a ideia de Lana Del Rey que todos descrevem.

Há uma confiança nela que, ao que parece, não existia antes, uma confiança que vem, talvez, de saber que ela estar prestes a lançar seu mais completo álbum, mas sabendo, também, que há ajustes que ela poderia ter feito, coisas que poderia ter feito diferente, que ela fará melhor no próximo álbum, ideias que ela colocará em prática da próxima vez que entrar em estúdio com Rick. Escrevendo, editando, descartando, reescrevendo, ajustando, apagando, reconstruindo.

 

Por Mike Williams
Tradução por Davi Perides, Karla Martins e Leticia Oliveira

 

As fotos que ilustram a entrevista foram tiradas por Neil Krug para promoção do álbum Lust For Life. Confira o ensaio completo em alta qualidade em nossa galeria.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
TOPO