Lana Del Rey concede entrevista à revista francesa Grazia, confira a tradução

por / sexta-feira, 28 julho 2017 / Publicado emEntrevistas

Grazia

Uma menina dos Canyons

Em seu novo álbum, Lust For Life, ela canta a nostalgia e a política, Los Angeles e sua intimidade. Encontro Lana Del Rey, uma estrela que vive como uma anônima entre os vales de L.A. e fala tanto sobre a América de ontem quanto a de hoje, com um senso singular de observação.

O encontro é nas alturas de Beverly Crest, nos limites de Beverly Hills. O lugar não se parece com nenhum outro: uma casa construída no início dos anos 60 pelo arquiteto John Lautner, que morou nela um pouco antes de vendê-la. De uma transação a outra, ela pertence agora a uma das figuras mais extraordinárias de Los Angeles, James Goldstein, que dizem ser um dos mais fervorosos apoiadores da NBA (ele participaria de cerca de uma centena de jogos por temporada…), enquanto também é uma figura regular em fashion weeks. Por toda parte da casa, há fotos do proprietário com estrelas de época, que aparentam posar em uma festa que parece ter começado nos anos 70 e não foi interrompida desde então. Também há obras de arte, objetos de riqueza ou de crença: máscaras africanas em um salão, uma escultura de Xavier Veilahn na saída de um corredor exterior, peixes que valem, nos disseram, 5000 euros no mínimo, em um aquário japonês, uma obra de James Turrell no jardim quase selvagem e que desce um dos lados da colina, distante. Em frente à casa, um campo de tênis com vista para um edifício suplementar, recente, que abriga uma boate. Rihanna, mais cedo neste ano, comemorou seu aniversário nela. Nós a compreendemos o motivo: a vista de Los Angeles aqui não tem preço, cinematográfica ao máximo. Foi lá, após ter posado nos caminhos do jardim, próximo à piscina de concreto, contra os muros modernistas da biblioteca, que Lana Del Rey nos leva para conversar. No meio desta casa assombrada por celebridades e pela história pop da América recente, Lana é quase desconhecida, anônima. E sua maneira de ser não foge disso: ela é uma jovem garota como as outras quando a vemos chegar de jeans, casaco de camurça sobre uma blusa branca, calçando mocassins. Anteriormente, durante a sessão de fotos, um homem de sua comitiva nos fez escutar algumas músicas de seu álbum: elas ainda não estão finalizadas, e em seu pequeno iPod desfilam várias versões das mesmas músicas, com a produção inacabada, ainda em curso. Não tivemos a chance de ouvir todas, mas uma olhada rápida no menu dá o privilégio de ver uma parte do processo da cantora: versões que se acumulam para, sem dúvida, desaparecerem progressivamente, dando lugar à algo mais bem sucedido. Em cinco anos curtos, os essenciais dos anos 2010, após seu clipe para Video Games ser lançado em 2011, Lana fez mais do que apenas crescer. Ela encontrou um caminho, uma linha diretriz, um lugar na Califórnia, uma maneira de ser e de viver aqui, nas colinas de L.A. Entre seus cânions e suas praias, suas reminiscências da Hollywood dos anos 40 e 50, suas lembranças ainda vivas dos cantores e cantoras que aqui viveram; entre muitos produtores nos andares redondos do selo Capitol, os vales de ressonâncias infinitas de onde ainda parecem brotar vozes de cantoras folk mais ou menos conhecidas que, na estreia de Joni Mitchell e seu disco Ladies From the Canyon, tentaram fazer um nome, uma carreira aqui. Dessas garotas, Lana fala instintivamente. Há alguns anos, ela citou as figuras que a amparam, Bob Dylan, Leonard Cohen, mas ela agora acrescenta suas heroínas daqui, começando por Joni Mitchell. De tudo isso ela nos fala, sentada à maneira indiana na beirada de uma cadeira, neste clube noturno com vista para Los Angeles e todos os fantasmas que acompanham esta cidade. Lana fala sobre tudo de sua vida: suas hesitações, seus pensamentos que vagueiam, sua maneira de questionar maliciosamente, o que faz seus olhos brilharem, suas posições firmes quando se trata de defender sua escrita, sua música, sua posição única – de famosa anônima, que sobrevive melhor que as outras em meio a uma época que dificilmente tolera por mais que uma temporada as cantoras mais delicadas.

Quando você começou a trabalhar no seu novo álbum?
No mesmo dia em que terminei o anterior, Honeymoon. Isso deve ter sido em agosto, há dois anos. Eu estava feliz de ter feito um disco mais “rock”, com o Ultraviolence, depois um outro mais “blues”, mais triste, com o Honeymoon. Senti que eu devia me reaproximar dos anos 60 e 70, de uma sensibilidade pop. Pensei nas Shangri-Las, suas harmonias, seu espírito lúdico. Então, cheguei a três quartos do álbum e senti um desejo de explorar algo mais folk, vindo do fundo do meu coração. Tinha em mente o álbum Court and Spark de Joni Mitchell. Enfim, tive uma fase de escutar intensivamente os Beatles, e foi por isso que convidei Sean Lennon (nota do redator: o filho de Yoko e John Lennon) para cantar comigo. Isso fez com que este álbum, mais que qualquer outro, tivesse muitas reviravoltas.

Você mudou de perspectiva, de ângulo?
Completamente. Eu cresci com meus discos, senti uma mudança interna e experimentei contá-la. Hoje, escutei uma de minhas músicas, Beautiful People, e certas palavras como “Blood” (sangue) ou “Planet” (planeta) me atingiram: eu jamais as utilizei antes. Tenho a impressão de ver as coisas com mais distância também, sem, contudo, me desconectar completamente. Sou feliz por isso.

Você citou Joni Mitchell. O que você tomou emprestado dela?
O modo de contar histórias. A maneira de exprimir sua interioridade e os diálogos que ela tem com ela mesma. Amo o fato de que ela se considerava uma pintora que não podia deixar de se tornar cantora. E além disso, adoro a região de Laurel Canyon. Com meus amigos, Jonathan Wilson e Father John Misty, constituímos uma verdadeira comunidade musical, da mesma maneira da que existia em torno de Joni e seus amigos.

Honeymoon foi um disco catártico. Um cover de Don’t Let Me Be Misunderstood o concluiu. Como um ponto final em algo. Após ele, houve um novo começo?
Eu amei a ideia de fazer um cover de Nina Simone e especialmente dessa música, sua mensagem: muitas vezes eu espero não ser compreendida, apesar de não saber o que fazer para evitar isso. Neste último ano, compreendi que as pessoas me julgam pelas razões erradas. Me interpretam erroneamente muitas vezes. Demorou sete anos para que eu compreendesse qual era o meu papel nisso. Houve momentos frustrantes, naturalmente, sobretudo após o primeiro álbum. Mas então, isso passou a não importar tanto.

Você se sente sozinha? Nunca sentiu o desejo de ser guiada?
Sim, eu nem sequer sabia o que era ser guiada. Mas nesses últimos dois anos, em Los Angeles, encontrando pessoas diferentes, bons músicos, senti algo como um companheirismo. Subitamente, eu tinha muitas pessoas ao meu redor, pessoas com quem eu podia contar, que me perguntavam o que eu tenho feito e a quem eu podia perguntar como passaram a semana… Eu não me coloco tanto em frente ao espelho. A maioria das canções tem algo de forte, menos reflexivo, menos sobre o olhar de mim mesma. Não estou me dirigindo a um público específico nos meus discos precedentes. Mas neste último ano, eu tive desejo de mudar de ponto de vista, de me dirigir aos outros, a uma geração mais jovem. Isso deve acontecer com a idade chegando…

Você observa mais os outros?
Eu me sinto mais ancorada à realidade. Eu saio, eu me misturo mais aos outros. Depois de ter sido muito intelectual, muito existencialista… Dito isso, dentre os meus amigos, sou a mais calma. Não preciso mais tentar me fazer ser vista de forma extravagante.

Tomorrow Never Came evoca os Beatles. Podemos ouvi-la com Sean Lennon. Como ela foi feita?
Eu tinha um refrão que cantei ao meu produtor, e ele acrescentou a ele alguns acordes. Eu pensei em T. Rex (nota do redator: banda de rock inglesa dos anos 60), procurei algo mais descontraído, mais vivo. Isso me levou a uma melodia próxima à dos Beatles. Pedi a algumas pessoas que encontrassem o número de Sean Lennon, tive vontade de ouvir sua voz junto da minha. Nós nos falamos por FaceTime, e imediatamente começamos a trabalhar. Ele foi muito encorajador.

A canção parece se referir a algo difícil, mas a dificuldade é deixada de lado por um tempo…
Sim, efetivamente. Mas sem que eu possa verdadeiramente dizer o que… É por isso que não quero cantá-la sozinha. Esteticamente, eu procurava para esta música uma ambientação totalmente dos anos 60, sem meditações modernas. Isso importava bastante para mim, porque correspondia ao que eu estava sentindo plenamente e eu queria exprimir isso assim, sem desvios.

Uma música do disco, God Bless America, fala da América. Ela é política e uma reação à eleição de Donald Trump. Em que esta época e a política te influenciaram?
A música fala da América e de suas mulheres. Em estúdio, onde eu vou todos os dias, tive conversas cotidianas sobre o estado do país com meu produtor e meus engenheiros de som… Tudo isso me influenciou. Não sentia que eu devia dizer qualquer coisa, mas seria muito estranho que eu não me exprimisse. Esse foi o meu sentimento. Houve também o fato de saírem mais notícias, de escutá-las e discuti-las. Uma das questões que surgia com mais frequência entre meus amigos era a de se mudar para Paris! Era o tema favorito de todos os nossos cafés da manhã, logo após a eleição. Eu sentia especialmente o tremor, o fato de que as mulheres, as americanas, estavam se mobilizando contra o que era dito.

Nós nos sentimos mais livres neste álbum, menos em um papel de amante atormentado.
Nos outros discos, eu me sentia dividida em duas, dilacerada. Agora, tomei uma posição, escolhi os caminhos mais simples e de não me confrontar com experiências difíceis. Decidi ter mais amigos, mais prazer.

O que provocou esta decisão em você?
Todas as minhas experiências ruins anteriores voltam a mim de uma só vez. E já tive o suficiente delas. Decidi mudar, e não havia nada no ano que acaba de terminar de que eu não estivesse certa. Isso é novo pra mim. Tive uma mudança em minha vida pessoal, que ditou uma mudança musical. E essa mudança foi para melhor, para uma boa direção artística. Estar em um relacionamento é energizante no início. Mas conforme o fim chega, apenas as energias negativas permanecem… E não quero mais suportar isso, nunca. Nesse caso precisamente, se eu percebo os sinais de alerta, fujo imediatamente. Tenho vivido muitas vezes a mesma coisa, mesmo com amigos e relações de trabalho; de agora em diante, não deixarei mais ninguém tomar furtivamente o controle de quem eu sou. Vou cair fora se tiver a impressão de que um relacionamento pode se degenerar. Dito isso, às vezes, deve-se levar as coisas até o final. Deve-se saber terminar um disco, terminar uma história amorosa…

Você teve que lutar por sua integridade?
Para tomar boas decisões, sim, mas jamais para ser quem eu sou… Adquiri isso desde o começo. Quando escrevi Video Games, tive que ser forte e firme, cantava de maneira bem direta. Agora, me sinto diferente. Naquela época, isso era o que me deixava feliz, pois não conhecia outra forma de ser. Mas isso não é mais suficiente hoje.

Você ainda tem figuras que te amparam?
Tive a chance de ler Bob Dylan, de compreender seu processo e sua forma de trabalhar. Eu não sei porque sou tão obcecada por ele… Ele é meu herói. E sei que jamais chegarei a seu nível. Ele é tudo para mim. Assim como Kurt Cobain, apesar de seu fim triste: a forma que ele consegue capturar as melodias que parecem sair do ar que te rodeia… Foi o epítome do que é ser “cool”.

Por Joseph Ghosn
Tradução por Mateus Santana
Agradecimentos especiais a @hxney_moon pelas fotos da revista

 

As fotos do ensaio para a Grazia foram tiradas por Hilary Walson e você pode conferi-las em nossa galeria.

Redação LDRA
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