Lana Del Rey concede rara entrevista em vídeo para a Complex Magazine. Confira a tradução

por / quarta-feira, 26 julho 2017 / Publicado emEntrevistas

Complex

Lana Del Rey fala sobre Lust For Life, evitar apropriação cultural e envolver-se politicamente

Por seis anos, Lana Del Rey atraiu e frustrou críticas com uma música pop que não soa como a de nenhum outro cantor. A voz suave e fumegante, o uso judicioso da produção de rap, a justaposição de imagens e sons clássicos americanos com linguagem hiper-contemporânea e crua, é desses elementos que Lana faz música que soa ao mesmo tempo familiar e estranha.

Lust For Life é seu álbum mais ambicioso até o momento e que, como Lana explicou em sua terceira aparição na capa da Complex, surgiu de um período de auto-avaliação que, quando acabou, deixou-a “olhando para tudo mais” que o mundo tem a oferecer. Esperançoso e questionador, o álbum se envolve com a política tumultuada e muitas vezes aterrorizante de 2017 em músicas como “God Bless America—And All the Beautiful Women in It” e “When the World Was at War We Kept Dancing.” Em outras partes, essa visão de mundo mais expansiva significa participações de artistas como Stevie Nicks, Playboi Carti, Sean Ono Lennon e ASAP Rocky. “Eu estava pronta para que alguns de meus amigos estivessem num álbum“, ela diz, “[e] eles eram todos naturalmente um pouco mais leves que eu“.

A leveza é, de certa forma, o princípio operacional para Lana Del Rey agora. Aos 32 anos, sua carreira não é mais um “jogo de adivinhação”, como foi quando ela começou. As questões de autenticidade e agenciamento que a rondaram após sua chegada são irrelevantes. Só existe Lana Del Rey.

Lana Del Rey: Olá, eu sou o Noah! Vocês me conheceram na última entrevista com… tudo bem, brincadeira… [Risos]

Noah: [Risos] Você morava em Nova Iorque quando lançou “Born To Die” e eu sei que você foi de uma novaiorquina normal que andava de metrô para Lana Del Rey, que está nas páginas de fofoca e é assunto de longos pensamentos no Times.
Lana Del Rey:
Isso foi fodido. Mudou muito. Eu lembro de estar trabalhando em outro lugar e eu estava voltando para lá e eu estava pegando o Trem 6 ou algo assim, e o TMZ estava atrás de mim o tempo inteiro.

No trem?
Sim! Eu tinha encontrado esse camera-man. Foi a primeira vez que eu vi um paparazzi, mas ele não estava tirando fotos e sim filmando. E eu nem mesmo sei se já tinha visto isso antes, porque é alguém com um VHS seguindo você por aí.

Ele estava tentando falar com você?
Sim, e eu estava respondendo e parecia uma louca. Eu fui para a estação e comprei minha passagem, passei pela roleta, esperei pelo trem. Eu olhei para trás de mim e o cara tinha comprado uma passagem e estava esperando [pelo trem] também. Eu fiquei tipo, espera, isso é real? Honestamente, a partir de então, um desses caras que eu tinha visto naquele dia sempre estava por lá. E eu pensei comigo: eu preciso me mudar para outro lugar.

Suas primeiras três capas de álbum são bastante sérias, tipo uma oscilação entre uma espécie de tristeza e talvez um pouco distante da capa de “Honeymoon”. Essa é a primeira em que você está sorrindo.
Bem, a capa de “Honeymoon” eu pensei que fosse mais casual. Eu senti que estava em um ambiente casual. Mas essa [capa de “Lust For Life”] é definitivamente em um ambiente ainda mais leve. Minha irmã, Chuck, fotografou, mas nós fotografamos em um estacionamento atrás das cenas do meu vídeo “Love”. Não sabíamos se conseguiríamos uma capa, mas definitivamente sabíamos que eu estaria sorrindo. Tiramos algumas fotos, e desenvolvemos naquela semana, e eu senti que aquela era a capa.

Por estarmos em um tempo bastante escuro para viver no mundo, é interessante que este seja o seu trabalho mais otimista, pelo menos em sua titulação e suas imagens. Qual é a origem disso?
Bem, houve um pouco de mudança em mim naturalmente. Eu senti como se eu tivesse dito muito e fiz muito nos últimos álbuns. Eu estava pronta para que alguns de meus amigos estivessem no álbum e eles eram todos, naturalmente, um pouco mais leves que eu, então isso estava acontecendo no meu mundo. Eu senti que dois anos de gravação de músicas realmente sombrias não seria divertido.

Não seria divertido para você nem para os ouvintes. Você cita os problemas do mundo e da política neste trabalho de forma que seus álbuns anteriores não o fizeram. Essa era uma decisão consciente?
Nos últimos álbuns, eu precisava olhar para dentro para descobrir por que as coisas tinham ido tão longe por um caminho, e então eu cheguei ao fim do meu auto-exame e, naturalmente, estava olhando para todo o resto. Mas, é claro, todas as minhas experiências e relacionamentos e coisas românticas ainda estão salpicadas em algumas das músicas desse álbum. Além disso, com Obama como presidente, eu e todo mundo que conheço, acho que nos sentimos muito seguros e protegidos, sentimos que estávamos sendo vistos da maneira que queríamos ser vistos, em termos do mundo, em como o mundo enxerga a América. Então, não havia tanto para dizer, exceto, como, olhe o quão longe nós chegamos e está ficando melhor, ficando ainda melhor. Sinto que houve uma mudança muito grande.

fxO8oWJQ3Ss

Com este álbum você infundiu mais política do que nunca. Eu acho que não é necessariamente um álbum político, mas é um álbum atual. Eu não sei disso como um fato, mas eu imagino que você tem um número razoável de fãs do meio americano para quem a inauguração e a administração de Trump não são problemáticas. Como você negocia expressar seus próprios sentimentos honestos sobre essas coisas, e você pensa se vai ou não irritá-los, ou se isso é algo que vai inspirar a ira de pessoas que a certa altura estavam em seu núcleo?
Você não negocia quando se trata de seu trabalho ou sua arte. Você fica totalmente firme e enfrenta as consequências. Em termos de perder fãs, eu não me importo. Ponto. [Risos.]

Nos dois últimos álbuns, “Honeymoon” e “Ultraviolence”, parece que você se concentrou em fazer coisas para você e talvez para sua audiência principal. Com este álbum, parece que há uma ambição mais expansiva.
Eu consideraria isso como não se afastar da possibilidade da dimensão maior que ele pode ter em comparação com os outros dois álbuns. Antes, sentia que talvez eu quisesse ser mais protetora do meu próprio espaço e coisas com os dois últimos álbuns.

Isso foi uma resposta ao sucesso de músicas como o remix para “Summertime Sadness”?
Eu acho que foi uma resposta para mais pessoas saberem quem eu era instantaneamente. Então eu fiquei tipo, deixe-me ciente a entrar em um lugar onde eu tenho certeza que eu gosto do que estou fazendo, e eu sei que gosto da produção. Com o remix “Summertime Sadness”, já lhe havia dito antes, não escutei aquela música até que estivesse na rádio e voltei de um show na Rússia, e eu escutei na rádio. Quero dizer, obviamente, em geral, eu gosto de ter minhas mãos em toda a produção.

Foi uma sensação estranha que—
Foi estranho…

É estranho também que seja provavelmente—
Que é uma música grande?

Seu maior sucesso?
Sério? Você vai mesmo dizer isso?

Quero dizer, em reproduções nas rádios, pelo menos.
Não, você provavelmente está certo.

uiNklprvIzA

Provavelmente não é sua música mais importante, mas…
Eu acho que “Video Games” não está longe disso. Eu era mais sensível sobre isso, então, porque quando você é novo, você tem tanto para provar. Eu considero que, no momento, só preciso ser cuidadosa. Você sabe, em termos de colaborações ou patrocínios ou o que for.

Está solta agora para sentir que você pode fazer o que for bom no momento?
Sim, na verdade estou.

Você sente isso presente na ambição maior de “Lust for Life”?
Rocky está no álbum, e quando ele está na cidade e eu estou aqui, eu simplesmente estou no estúdio de qualquer jeito. Ou o mesmo com Abel, você sabe? Eu vou para o estúdio e ouço no que ele está trabalhando. Eu percebi, por que eu não tenho meus amigos no meu álbum? Era bastante natural, mas acho que com Abel, tudo o que ele faz agora é tão grande, então, talvez, talvez isso tenha sido um pouco mais assustador ou algo assim, mas agora está certo.

O que você quer dizer?
Bem, ele faz muito sucesso e ele tem muitas coisas de rádio, então eu não sei se eu saberia o que fazer com uma grande música de rádio. Não estou dizendo que tenho uma neste álbum…

Mas se você quiser ter uma, você se sente confiante de que seria emocionante?
Que eu ficaria feliz, sim.

David Byrne, da banda Talking Heads, tem um livro maravilhoso sobre a história da música e ele meio que vai pelo lado da importância do rádio em como as músicas são formatadas e a ideia de que três minutos com três ganchos e uma ponte… Não há nada na natureza que diga como as músicas devem ser compostas, é estritamente sobre o fato de que programas de rádio precisam de três músicas e uma parada para o comercial.
Com certeza.

Então meio que treina o artista a trabalhar dentro desses parâmetros.
Sim, e não acho que são parâmetros terríveis para se trabalhar. É meio engraçado fazer uma música curta, com refrão meigo… Quero dizer que, se você está escrevendo por conta própria é importante ter metade do álbum onde você coloca sua vida nele, ou um pouco de opinião. Eu acho que se você for realmente bom, pode fazer ambos.

Eu acho que todos os grandes [artistas] são assim.
Sim, eu estava pensando em Bob Dylan.

jeUMNCrGltE

Qual é a medida do sucesso pra você?
Sabe, uma coisa que ainda é a mesma… Pra mim, a medida do sucesso com um álbum é apenas terminá-lo. De verdade.

O Sean [Ono Lennon] te trabalhou no álbum?
Ele trabalhou.

Eu vi que você tirou essas fotos com um cavalo, mas não era um cavalo. Pensei que talvez fosse algo subliminar…
Não, não era. Cavalos são apenas um tema, de alguma forma, aleatório. Nós [Lana e Sean] estávamos produzindo uma faixa chamada Tomorrow Never Came e é a única faixa no CD que eu escrevi nos últimos dois anos na qual não senti que era minha. É como se eu tivesse escrito pra outra pessoa, o que eu nunca havia sentido. Então eu estava procurando por uma letra sobre John e Yoko, então chamei Sean e perguntei se ele faria comigo. Ele disse que era o maior fã de seu pai, que seria bem natural.

Outra coisa que eu reparei é que quase todas as pessoas com quem você trabalha são homens. Isso é algo que você pensa a respeito ou…?
É porque as pessoas mais próximas na minha “vida de produção” são homens. Estou pensando no Rick [Nowels] e nos meus engenheiros, Dean Reed e Kieron Menzies, que mudaram toda a minha vida musical e minhas músicas e gravações. Mas na minha vida pessoal existem tantas mulheres; bem, não existem muitas produtoras. Existem algumas ótimas compositoras, sabe? Mas isso provavelmente deve mudar.

Quando você pensa em si mesma como uma compositora, como você acha que mudou dos dias de Born to Die para o que você está escrevendo agora?
Talvez apenas a habilidade de integrar minhas próprias experiências com o que eu observo. Ser apta a olhar pra trás e fazer uma boa mistura disso.

Do mundo e de você mesma?
Sim. Isso. O mundo como um todo.

Relacionamentos tóxicos eram praticamente o que guiavam as letras dos primeiros álbuns. Conforme você mudou para um lugar mais feliz ou, não sei, mais sólido; talvez tomando melhores decisões na vida—
Estou tentando.

Como você pensa na sua vida romântica e como isso afeta o contexto de suas composições?
Eu sinto que esse álbum tem… Com as “músicas de amor” sobre relacionamentos, é mais sobre eu me mostrar mais incomodada sobre o jeito que as coisas tem ido do que “coitada de mim”. Sabe, tem meio que um “seguir em frente” que eu peguei das minhas próprias coisas. É meio revelador pra mim, sabe. Sobre mim mesma.

jafH7-R_yu8

Quando outros artistas que compõe sobre coisas pessoais chegam a esse ponto na carreira deles, quase fica difícil de enterrar e não revelar essas coisas.
É verdade.

Porque com o sucesso e a fama…
Isso é bem verdade.

Você sente que é um desafio maior?
Sim. Mas eu nunca fui alguém que correu de trabalho pesado de verdade, então estou sempre disposta a trabalhar. Tipo a mixagem, se demorar oito meses, eu irei mixar por oito meses. Se o controlador não o faz direito, eu acharei outra pessoa para fazê-lo. Com as coisas pessoais, quero dizer, se eu sinto que eu apenas não estou fazendo isso direito, eu vou continuar tentando coisas diferentes até eu sentir que eu estou progredindo nesse departamento. Eu não sei, encontrar seu próprio caminho não é para os de coração fraco. É o caminho mais difícil. É mais fácil apenas continuar fazendo a mesma merda de novo e de novo e então se surpreender quando os resultados são os mesmos. De alguma forma, isso é mais fácil do que apenas fazer algo diferente.

Muito do que foi escrito sobre você no começo, e de alguma forma real, foi que você desenvolveu um personagem. Eu imagino que grande parte seja você, e então talvez algo que é imaginário. Como você tem ido cada vez mais além na sua carreira, você sente como se as linhas entre essas coisas tenham mudado ou se confundido?
Eu acho que é isso que a maioria das análises é. Tem muita coisa que eu poderia não ter dito nas músicas e eu disse mesmo assim. Isso nem sempre me serviu para falar sobre alguns dos homens com quem estive e como isso era, e então não comentar sobre isso depois. Então é um pouco das minhas experiências e onde eu vivi e como era. Teria sido mais fácil apenas não dizer isso e então desviar de todas essas perguntas depois.

Então você acha que isso foi meio que exagero?
Eu não me “editei” quando pude porque muito é apenas da forma que era. Quero dizer, porque eu mudei muito e muitas dessas músicas – não é que eu não me identifique mais com elas, mas… Em muitas eu estava apenas nervosa. Eu me lancei um tanto apreensivamente e tinham tantas dualidades, tantas justaposições acontecendo que talvez apenas me senti como se alguma coisa estava um pouco fora. Talvez a coisa que estava fora foi que eu precisava de um pouco mais de tempo ou algo do tipo, e também meu trajeto estava ventoso acabando de conseguir lançar meu primeiro álbum. Eu sinto como se eu tivesse que perceber isso sozinha. Cada movimento era apenas adivinhação.

É engraçado porque você estava nos seus 20 e poucos anos quando você foi lançada e eu acho que se você olhasse para os artistas que lançaram seus primeiros álbuns entre 25 e 27, se for um Eminem ou Jay Z, é tipo, se você olhasse para o trabalho deles com 22 anos…
Sim, exatamente. É diferente.

Era bem cru e desfocado. Não existia Slim Shady para o Eminem aos 22, mas aos 26 ele tinha um pacote 360 completo.
Jay Z fala sobre isso também, sobre como ele realmente viveu quando ele tinha 26. Existia uma perspectiva real de onde ele vinha. Então, sim, é uma idade onde realmente…

Você pode ter um projeto onde é mais completo.
Exato. E então minha perspectiva estava completamente formada, apenas não era um grande visão. Não é tanto uma pergunta pessoal para mim, é mais como “o que estava acontecendo com aquela garota?”, sabe? Tipo, “de onde ela vinha?”

BvMU-qdoKVA

Há um monte de conversas desordenadas sobre a ideia de apropriação cultural, e Katy Perry meio que se meteu nisso em sua performance no SNL. Você se moveu bastante do mundo de cantora/compositora para dentro do hip-hop, saindo e retornando a ele sem muita comoção. Ao que você acha que isso se deve?
Eu nunca senti como se eu não estivesse onde eu preciso estar, sabe? Não importa com quem eu estou, eu ainda estou fazendo meu próprio trabalho. Eu não consigo me lembrar a última vez em que eu estava em uma casa noturna ou qualquer outro lugar e senti como se, cara, eu não deveria estar aqui. Eu tenho meio que feito isso por tanto tempo que eu sinto como se todo mundo com quem tenho amizade, todo mundo que eu conheço, apenas sabe que eu sou toda da música.

Você tem alguma consideração para os críticos e todo tipo de dessecamento da sua arte a esta altura?
Sim, algumas vezes. Eu tenho uma música chamada “Get Free” que fecha meu álbum, e ela começou e contou toda minha história, eu acho, e meus pensamentos sobre onde eu quero ir a seguir; e então eu percebi, eu na verdade não queria contar toda minha história, eu não quero falar sobre isso.

Como você negocia o que você mantém pra você mesma e o que você está pronta para compartilhar?
Algumas vezes, eu apenas não resisto em simplesmente contá-la [minha história] como se realmente fosse para mim mesma e a forma como me sinto.

 

Por Noah Callahan-Bever
Tradução por Karla Martins, Mateus Santana e Yuri Oliveira

Em nossa galeria você pode acessar o ensaio completo feito por Timothy Saccenti para a revista. Confira.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
TOPO