Confira as críticas e reviews dos sites especializados para Lust For Life “Parte 2”

por / sexta-feira, 28 julho 2017 / Publicado emUncategorized

BON
Na última sexta (21) ocorreu o lançamento do tão esperado Lust for Life, quinto álbum de estúdio da Lana Del Rey. Confira o que alguns dos principais sites especializados em música acharam do novo cd. (O post será atualizado conforme as críticas forem divulgadas.)

NME – Lana Del Rey – Review de “Lust for Life”
Um banquete de orquestras sensuais e convidados luxuosos.

Lana Del Rey é muitas coisas para muitas pessoas; e também para si mesma. Ela é, simultaneamente, uma bruxa apaixonada que atiça feitiços contra o Trump, uma Nancy Sinatra gangster e, o mais importante, uma incrível cantora de sucesso global, com quatro álbuns de estúdio cravados em seu cinto. Seu som lânguido, vintage e melancólico, é agora tão distinto que se tornou praticamente um próprio sub-gênero da música, definido por seu estilo lento e esfumaçado enlaçado com uma produção trap e cordas dignas de grandes filmes de cinema.
Lust for Life” trabalha com temas que serão familiares aos devotos de Lana: o glamour esfumaçado de Hollywood, o clima enviesado da América e a inevibitalidade terrível do amor. Desta vez, porém, Lana está ainda mais grandiosa do que o usual, com luxuriosas orquestras lânguidas que se arrastam elegantemente através de cada uma das 16 faixas que compõem o álbum. Um tomo épico, este é seu álbum mais longo lançado até hoje e começa com o caminho que deseja tomar, por meio da trêmula e cinemática “Love”. Como um parque de diversões pós-moderno, as referências icônicas à cultura pop correm selvagens por todo o disco. “Cherry” sabidamente cita a música country “I Fall to Pieces” de Pasty Cline lançada em 1961; “Coachella – Woodstock in My Mind” traz menção a “Stairway to Heaven” de Led Zeppelin; “Tomorrow Never Came”, com participação especial de Sean Ono Lennon, é um canção recheada de amor pelos Beatles – e por Elton John; a canção que encerra o álbum, “Get Free”, traz mais do que alguns podem pensar ao se lembrarem de “Creep” do Radiohead; ela traz também alguns versos compostos Neil Young no meio do caminho.
Os convidados são quase tão luxuosos quanto estas referências, com Stevie Nicks aparecendo em “Beautiful People Beautiful Problems” para oferecer um rouco vislumbre ao futuro de Lana e seu colaborador mais antigo, A$AP Rocky, emprestando sua voz em duas faixas, “Summer Bummer” e “Groupie Love”.
Entretanto, apesar de apresentar parâmetros sônicos tão altos – e tantas faixas incríveis – existem alguns momentos nos quais Lana se volta e faz uma paródia de si mesma, o que pode ser notado na faixa-título, “Lust for Life”, quando ela declara “tire, tire todas as suas roupas” logo antes de um fabuloso falsetto iniciado por The Weeknd. Claro, pode parecer um pouco bobo, mas incrivelmente fabuloso também – e é por esse motivo que amamos tanto Lana.

Por Leonie Cooper
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ROLLING  STONES – Review: Lana Del Rey se lança à nostalgia e aos reverbs em seu quarto disco de estúdio

Lana Del Rey se tornou uma musa incrivelmente adorada graças a uma voz perpetuamente rouca e sua poesia direta. Seu quarto álbum como Lana Del Rey se luxuria em texturas quentes e ritmos lacônicos que lembram a era musical antes do pop, sua voz presenteada com reverbs do nível de Rick Nelson, que adicionam um peso lento até para suas observações mais simples. Se distanciando dos grandes riffs de guitarras do álbum “Ultraviolence” de 2013, e dos sons orquestrais do álbum de 2015, “Honeymoon”, “Lust for Life” é quase um álbum feito para os fãs, solidificando a ideia de Del Rey como uma estrela do pop presa no tempo que inesperadamente cai em Los Angeles em uma era de música virtual e noitadas patrocinadas por empresários.
Lust for Life” relembra os pops orgânicos trazidos pelos Walker Brothers em meados da década de 60, somados a toques de batidas trap, alusões a problemas do mundo moderno e algumas músicas que se arrastam por um tempo um pouco longo demais. É denso, mas ainda assim espaçoso, com algumas surpresas enterradas que florescem no meio do disco: “When the World Was at War We Kept Dancing”, na qual Del Rey se preocupa com o destino do país, tem em sua base violões que se mixam ao seu clamor ansioso.
Em grande parte do disco, Del Rey soa o mais entediada possível quando induz impulsos nostálgicos, sejam de si mesma ou emprestados de terceiros. Alusões aos seus discos anteriores aparecem em alguns versos; a espacial e surpreendentemente tocante “Heroin” é construída com referências a Charles Manson e Motley Crue. A soluçante “Coachella – Woodstock in My Mind” retrata o sonho impossível de se estar no presente, com as fotos coloridas de um passado distante representando um ideal a ser alcançado. Começando com o próprio título, “Tomorrow Never Came” tenta se aproximar de algo com a etiqueta dos Beatles, e, em larga escala, consegue: Sean Ono Lennon produziu a faixa, tocou os instrumentais que evocam o filme “Across the Universe” e canta com tons que nos lembra imediatamente os contornos desgrenhados de seu pai.
Stevie Nicks aparece para a mórbida “Beautiful People Beautiful Problems”, que poderia inclusive representar um atestado real de como está a carreira de Del Rey neste ponto. A aparição de A$AP Rocky e Playboi Carti na tensa “Summer Bummer” e na fervorosamente sonhadora “Groupie Love” parece menosprezar o que está acontecendo no disco – seus versos não entram em diálogo com os de Lana, o que deixa claro que estão apenas a usando como uma plataforma para auto-promoção (The Weeknd, pelo menos, soa intrigado pela ideia de estar na órbita de Del Rey ao cantar na brilhante e glacial faixa-título do álbum).
A falha implícita do dueto entre Nicks e Del Rey nos faz pensar o quanto o coeficiente de fracasso da cantora mais nova está enraizado no impulso de ser alguém: ela está realmente falando algo sério, como “Valley of the Dolls” ou ela está implícita no ridículo, como “Beyond the Vallew of the Dolls”? A entrega tediosa de Del Rey e os arranjos luxuosos sugerem a primeira opção, mas momentos como os gemidos “why-why-why-why-why-whyyyy” em “Tomorrow Never Came” e músicas como a envaidecida e embaraçosa “In My Feelings” apontam para um flor isolada que lentamente desabrocha para a auto-consciência.
A poderosa – e recheada com ecos que simulam uma banda feminina – “Get Free”, que encerra o disco, talvez seja uma pista. Como um “modern manifesto” (manifesto moderno), ela delineia os planos de Del Rey de se distanciar da escuridão ou pelo menos “out of the black [and] into the blue” (sair do preto e entrar no azul). Se esse azul é um céu limpo californiano ou um lugar recheado por tristeza é o que ela ainda precisa descobrir: “I never really noticed that I had to decide / To play someone’s game or live my own life / And now I do / I wanna move” (Eu nunca havia percebido que eu precisava escolher / Entre fazer o que os outros querem ou viver minha própria vida / E hoje eu percebi / Eu quero sair), ela declara em um verso. É um final otimista para uma cantora cuja carreira tem sido definida como um verdadeiro desconforto, a para um álbum que, em grande parte, pode se perder em sua própria mitologia.

Por Maura johnston
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CONSEQUENCES OF SOUND – Lana Del Rey – Lust for Life
O novo álbum da estrela pop vem nos relembrar que ela já alcançou a linha de chegada há muito tempo

Nós como críticos musicais precisamos parar de utilizar o termo já gasto “linha de chegada” para todos os artistas que alcançam o sucesso: afinal, a vitória acontece contra o que exatamente? Suceder não é o mesmo que superar adversidades e, francamente, nós poderíamos prestar menos atenção à narrativa a qual um álbum deveria se encaixar, e mais analisando se as músicas são tão consistentemente ricas quanto o marketing que as envolve, o que inclui as listas de final de ano.
Agora um gigantesco “dito isso”: DITO ISSO, Lana Del Rey é uma artista que insiste em existir sem uma narrativa, nasce e morre por ela liricamente, e que também tem seus obstáculos para superar. A maior artista cult dos anos 2010 (não minta para si mesmo) sofreu, em maior ou menor nível, de uma torrente de bullying virtual iniciado quando Hipster Runoff incorrigivelmente se referiu a ela como um DSL Soundsystem. A autenticidade de seu nome e rosto foram questionados severamente após um esforço por parte de seu time de empresários em convencer a internet, de forma genérica, do mesmo que Owl City e Chance the Rapper tentaram convencer: que, por acaso, foi encontrada uma menina inocente perdida na floresta que, por acaso, havia acabado de produzir músicas pop glamorosas enquanto descansava em seu trailer, esperando ser resgatada como Rapunzel. Como ousa uma mulher colocar fotos desta forma e tentar nos enganar, nós os guardiões da ética nos jogos do jornalismo. Então começou o escárnio, que atingiu seu auge vermelho-sangue quando ela apresentou, fragilizada, a verdadeiramente tocante “Video Games”, no Saturday Night Live, em sua versão mais fraca, olhando para todo o mundo como uma adolescente que tenta agradar seu pai e que exacerba uma relação governada por uma Síndrome de Estocolmo em seus versos embaraçosos. Como resultado, ela interrompeu seus shows e parou de dar entrevistas simultaneamente.
Então algo incrível aconteceu. Primeiro, “Summertime Sadness” acabou alcançando grandes feitos – que ignoravam sua narrativa – por meio de um remix produzido por Cedric Gervais, quando alcançou os topos das paradas quase dois anos após o lançamento de “Born to Die” (que, apesar de ter sido tratado como um fracasso, havia sido, na verdade, o quinto álbum mais vendido do ano de 2012). É incrível perceber, ao ouvir aquela música no elevador, o quão mais confiante Lana soava com as batidas mais rápidas, transformando o gemente “nothing scares me anymore” (nada me assusta mais) em algo mais próximo de um anseio, um grito real, típico das Women the Internet Broke. O segredo foi o EP de 2012, “Paradise”, não apenas por sua nomeação ao Grammy, mas principalmente pelas mudanças sutis existentes em sua narrativa, incluindo os versos “My pussy taste like Pepsi Cola” (Minha vagina tem gosto de Pepsi) e “In the land of gods and monsters / I was na angel / looking to get fucked hard” (Na terra de deuses e monstros / Eu era um anjo / Procurando ser fodida com força) que eram agora declarações óbvias, muito mais do que representações ambíguas; representavam um prato cheio para aqueles que a atacavam, o que foi exemplificado no hilário curta-metragem “Tropico”, lançado logo em seguida. Porém, apesar dos versos com um apelo claro ao marketing, o último era acompanhado por “Like a groupie incognito posing as a real singer / Life imitates art” (Como uma groupie incógnita que se porta como uma cantora real / A vida imita arte). Esta mulher estava lutando uma guerra para merecer seu respeito – apesar de declarar publicamente não se considerar feminista -, majoritariamente porque ela simplesmente não estava deixando ninguém a inserir neste ou naquele rótulo antes de ela mesma estar pronta para decidir algo.
No meio de 2014, com o lançamento de “Ultraviolence” nós aceitamos Lana Del Rey como um fato. A Hipster Runoff havia desparecido (literalmente com as cópias de seus discos esgotadas) e Del Rey emplacou seu primeiro 1º lugar com um álbum co-produzido por Dan Auerbach, membro do The Black Keys, cuja banda tem sustentado o padrão do rock da velha guarda nos anos 2010. Se ela conseguia convencê-lo de sua música, um grupo de homens pensou, então talvez ela não fosse tão ruim assim. Além do mais, ela estava os desafiando a levar o título “Fucked My Way Up To the Top” (Fodi meu lugar até o topo) ao pé da letra.Então, em 2015, “Honeymoon” alcançou sua primeira aclamação universal a medida que suas músicas se tornavam menos suplicantes em persona (“The truth is I never bought into your bullshit” [A verdade é que eu nunca acreditei em suas merdas], ela memoravelmente destruiu a última parede para declarar o verso no hit “High by the Beach”), apesar d’as críticas não irem tão longe a ponto de redescobrir “Born to Die” e admitir que trata-se de uma obra mais complexa, curiosa e sábia do que eles jamais haveriam admitido seis anos atrás. O mínimo que eles poderiam ter feito seria agradecê-la por ter reconstruído a paleta sonora dos anos 2010 com sua própria imagem esfumaçada (sim, sim, tem o The Weeknd, mas aquele cara já estava estourando quando ela ainda estava fazendo enchimentos nas bochechas).
Seis anos atrás chega “Lust for Life”, seu álbum pop mais escancarado até então, com participações não apenas de The Weeknd, mas também Stevie Nicks (nossa), A$AP Rocky (certo, talvez ela não tenha conhecido novos rappers ainda), e Sean Ono Lennon (que nunca havia antes soado como seu pai, mas para você qualquer coisa, Lana). Nós temos todas as razões para acreditar que ele irá estrear em número 1, e se alguém tem o direito de chamar uma sequência de quatro discos de estável sucesso comercial e respeito musical merecido à duras penas uma m****, essa pessoa é o DSL Soundsystem.
As três primeiras músicas são dignas de tudo aquilo que é desvalorizado, e elas são mais Lana do que nunca: “Love” é seu hino sobre ser jovem, apaixonado e se sentir louco, porém concisa e direta. Se você achou que “High by the Beach” era perfeita, tente “Lust for Life” que inicia já literalmente subindo ao H no letreiro de Hollywood, uma imagem que ela não conseguiu resistir para o clipe também, e a voz doce de The Weeknd no refrão inclusive ajuda a canção a assumir patamares ainda maiores. Essas duas estão estourando no YouTube com números de visualizações que já alcançam oito dígitos, mas a etérea “13 Beaches” alcança sua grandiosidade individual por meio dos possivelmente mais penosos versos inicias (e toda a soma da persona de Lana Del Rey) que ela já escreveu até hoje: “It hurts to love you / But I still love you / It’s just the way I feel / And I’d be lying / If I kept hiding / The fact that I can’t deal” (“Me fere amar você / Mas eu ainda te amo / É apenas a forma como me sinto / E eu estaria mentindo / Se continuasse escondendo / O fato de que não sei lidar com isso).
Infelizmente, é aí que “Lust for Life” cai no mesmo padrão que seus discos sempre ameaçam cair. A melhor coisa em “Cherry” são suas batidas que lembram Portishead, em “Summer Bummer” seu título e em “Groupie Love” a possibilidade de que você a ouviu cantando “creepy love” (amor assustador) ao invés, por estar ocupado cozinhando em outro cômodo (se música de cozinhar não é seu primeiro objetivo ao colocar um álbum de Lana, você está fazendo isso errado). A$AP Rocky não adiciona absolutamente nada a esta última música, o que é estranho se considerarmos que os álbuns de Lana Del Rey gritaram por anos por mais interrupções em seu ritmo. Talvez ela ficou com medo de que um rapper memorável poderia roubar os holofotes da grande máquina de fumaça.
Os espaços para os participantes geralmente transmitem a sensação de que eles deveriam ter feito mais, mesmo sendo responsáveis pelas melhores partes do que hoje soa como sua coleção de músicas mais irregulares e menos distinta de todas. O mel rouco de Stevie Nicks é (o que mais?) um encaixe perfeito para uma canção intitulada “Beautiful People Beautiful Problems”, apesar de melodia ser um pouco murmurada demais e ininteligível, apesar de um retorno bem-vindo: “it’s more than just a vídeo game.” (É algo maior do que simplesmente um vídeo game). A faixa “Tomorrow Never Came” é um verdadeiro tributo aos Beatles com participação especial do verdadeiro Sean Lennon, mas não é ruim. As transições entre os acordes com sinais de Those Harrison são mais do que bem-vindas para colorir um pouco os tons de cinza da cantora, e a piada implícita com seu pai nem pode ser considerada um sacrilégio; nós apenas gostaríamos que ela houvesse sido um pouco mais engraçada do que apenas jogar o nome “Tiny Dancer” sem maiores explicações.
*”Tiny Dancer”, música do cantor Elton John mencionada em “Tomorrow Never Came
A embaraçosa “God Bless America – And All the Beautiful Women In It” é um título hifenado que muitos – especialmente após ouvirem a surpreendentemente nostálgica “In My Feelings” e a brincalhona com sons de hippie-rock que lembram Ultraviolence, “Coachella – Woodstock in My Mind” – chega a resgatar a sequência de faixas de certa forma. A primeira tem um filtro, algo semelhante a “Ace of Base”, um som abafado que acontece muito abaixo da camada dos vocais e que faz você pensar que deve haver mais para escavar do que esses arranjos sonolentos e tediosos; até que as próximas faixas insistem no mesmo e se negam em lhe mostrar o contrário.
É difícil descobrir qual o problema com “Lust for Life” até você contar quantas canções, das 16, são realmente magnéticas como “Video Games”, “Young and Beautiful”, “Cruel World” ou “Honeymoon” (isso sem mencionar as toneladas de tesouros vazados que o YouTube pode te ajudar a encontrar, começando por “Kinda Outta Luck” ou “Driving in Cars with Boys”). Não importa o quão merecedora Lana seja de sua autenticidade, nem o quão perto ela está de reivindicá-la; menos da metade dos tomos de “Lust for Life” chegam aos pés de canções de “Born to Die”, “Paradise”, “Ultraviolence” ou “Honeymoon”, apesar da quantidade de canções que prometem se tornar singles – e que poderiam fazê-lo pensar diferente. Pague tributo retornando a esses quatro álbuns anteriores que eram mais divertidos, mais fodidos, e mais interessantes quando se trata de tons musicais. Ela merece a linha de chegada, e ela não deveria esperar compor uma nova música animada para cruzá-la. Ela deveria escrever uma, de qualquer forma.

Faixas essenciais: “Love”, “In My Feelings” e “Coachella – Woodstock in My Mind”

Por Dan Weiss
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SPIN – Review: Lana Del Rey está pronta para sair da tristeza no quente e comprometido “Lust for Life”

Os álbuns de Lana Del Rey são sempre projetos magistrais, encantadores, que podem inclusive ser comparados a filmes, com a exceção de que filmes possuem múltiplos personagens. Em seu palco há apenas um holofote; a narrativa normalmente envolve histórias de amores terríveis e longas estradas abertas, raramento interpolando um evento mais atual do que o assassinato do presidente Kennedy. Essas características se transformaram em um gatilho perfeito para comentários na mídia, isso para dizer o mínimo.
E ainda assim, em 2017, Lana Del Rey está aqui fazendo magia contra Donald Trump, e inimagináveis feixes de sol estão conseguindo penetrar em sua aura melancólica. Seu quarto álbum de estúdio, “Lust for Life”, abre com a balada pneumática “Love”, uma canção tão calma e satisfatória como ela nunca escreveu. Pela primeira vez existem colaborações especiais no disco, representando um já bem-estabilizado espectro sonoro recheado por inspirações criativas: The Weeknd, Stevie Nicks, A$AP Rocky, Sean Lennon e (bem pouco) Playboi Carti. Em “Coachella – Woodstock in My Mind,” Del Rey assiste ao show de Father John Misty, a crise dos mísseis da Coreia do Norte e a seu próprio processo de criação, tudo simultaneamente e em tempo real. O resultado é estranhamente embaraçoso, mas não é algo que importe, pois “Coachella” está muito ocupada referenciando “Stairway to Heaven” com o intuito de nos explicitar a estranha pergunta daquilo que Lana gostaria de perguntar a Deus.
Lana Del Rey, se você estiver se esquecendo, reinventou a si mesma uma única vez. Sua música vem com certos elementos constantes. “Lust for Life” possui espetaculares 72 minutos de duração. Ele caminha pelos mesmos sons atmosfericamente narcóticos e intencionais que Del Rey e seu produtor principal, Rick Nowels, favoreceram desde o início de sua carreira. Ao invés das dos surfs de guitarras de “Ultraviolence”, ou das cordas hipnóticas de “Honeymoon”, “Life” possui sintetizadores nublados e cortes com sons de ventania. “13 Beaches” abre com um clipe extraído de “Carnival of Souls” (“O Parque Macabro” PT/BR), um semi-esquecido filme de terror cult de 1962 que se encaixa perfeitamente com a cena Americana, cinemática e amorosa exalada por Del Rey.
Mas uma pessoa precisa de pouca contextualização para apreciá-la. Ela sempre inseriu referências livremente e, em “Lust for Life”, ela requinta ainda mais sua posição como um tipo de médium cultural. “Beautiful People Beautiful Problems” se apoia nos vocais honrados e ricos de Stevie Nicks e a música em si (na qual Nicks é inclusive creditada como compositora) cria um ambiente mais do que conhecido em seu estilo. Quando se ouve o verso “When I love him geta felling, something close to a like a sugar rush” você vai desejar que elas houvessem gravado um álbum inteiro juntas. Enquanto isso, “Tomorrow Never Came”, dueto de Del Rey com Sean Lennon, soa como uma tentativa óbvia de se aproximar da vibração de seu pai. Sua sentimentalidade é um encontro deslocado com os sons contemplativos de Del Rey, e podemos até mesmo ter a sensação que Lana obrigou o pobre Sean a entrar na canção. Talvez pela forma com a qual ela, propositadamente, inclui seu nome nos versos, como se houvesse montado em um troféu (Ao menos sua mãe gostou do encontro*).
*Intertextualidade com a entrevista fornecida por Del Rey ao Pitchfork.
No espírito de agradar aos fãs, talvez, as inovações em “Life” parecem, às vezes, se distanciar dos primeiros rascunhos do disco. Assim, a evolução de “National Anthem” para 2017 é “God Bless America – And All the Beautiful Women in It”, bem como a próxima canção, “When the World Was at War We Kept Dancing”, na qual Del Rey reflete, “Is this the end of na era / Is this the end of America?” (Será esse o fim de uma era / Será esse o fim da América?). A exaustiva lista de faixas força o estrelato de A$AP Rocky em “Summer Bummer” a competir com sua própria versão mais fraca, nos versos de “Groupie Love”.
Passando a faca no senso pervertido de uma visão dupla está o hit indubitavelmente sonolento “In My Feelings”, uma balada vingativa, decadente e com sons de trip-hop, alegadamente inspirada por um caso da cantora com o rapper G-Easy. Os versos são desesperadamente pessoais (“I’m crying while I’m cumming” [“Eu estou chorando enquanto gozo”], e ainda assim vocês nunca ouviram Del Rey lamber suas feridas com tanta vivacidade. “Who’s tougher than this bitch? Who’s freer than me?” (Quem é mais forte do que essa vadia? Quem é mais livre do que eu?”) ela declara. Seus ecos mortais exalam do caixão, enquanto no fundo, ela joga tons de Beyoncé (“Got me feeling so crazy right now” [“Me deixou sentindo tão louca agora”]) em uma harmonia pessoal agoniante que soa como uma verdadeira possessão.
O fim de “Life” soa extremamente distante de seu início, mas agrupa um trio de músicas que pode mudar suas opiniões acerca de Lana Del Rey, se você conseguir chegar a construir alguma. “Heroin” é o mais próximo da honestidade que você conseguira chegar para ouvi-la abordar temas como vícios e saúde mental, enquanto simultaneamente mantém a importante estética (“movie stars, liquor stores, and soft decay” [“estrelas de cinema, lojas de bebidas e suave decadência”]. Do outro lado da moeda reside “Change”, um testemunho tocante e delicado sobre superar a apatia na busca pela transformação pessoal. Baseada em um simples piano e pequenas auras de mellotrons, a canção segue sem um único traço de cinismo ou auto-destruição.
Deixada sozinha, “Change” termina com muitas questões em aberto; então o álbum termina com a apropriada – e cercada pelo misticismo pessoal de Lana Del Rey – “Get Free”. “This is my commitment, my modern manifesto” (“Esse é meu compromisso, meu manifesto moderno”), ela declara, logo antes de descrever – suspira – uma metáfora extensa sobre perseguir arco-íris. Tente leva-la a sério a despeito de si mesma: sem um propósito definido, um projeto como “Lana Del Rey” se torna uma droga em forma de estilo de vida. “Lust for Life” é a esperança pela cura. Quando o álbum finalmente corta para murmúrios cristalinos povoados por chamados de gaivotas, realmente soa como se ela estivesse caminhando em direção ao horizonte.

Por Anna Gaca
Tradução por

DROWNED IN SOUND – Lana Del Rey – Lust for Life

Onde quer que você esteja nos três primeiros discos de Lana Del Rey, você não poderia realmente atestar que ela revelava muito sobre o que estava havendo ali.
O que é ainda mais difícil de discernir é onde exatamente ela desenha as linhas que separam sua vida pessoal verdadeira e a versão de si mesma que ela projeto por meio de suas músicas. Isto é, se ela puder ser considerada “si mesma” para começar; em 2012, quando “Video Games” havia estourado e “Born to Die” alcançava o topo das paradas ao redor do mundo, algumas seções da mídia estouraram manchetes com a notícia de que ela era, na verdade, a simples Lizzy Grant e que essa não era a primeira vez que ela se lançava no mundo da música – como se isso essa revelação fosse um verdadeiro terremoto, o fato de um artista de sucesso haver sido, anteriormente, alguém desconhecido, e que um artista pode também preferir escolher um nome artístico do que se apresentar com o seu próprio.
Houveram momentos nos quais suas músicas soaram reais o bastante, normalmente pela forma simples como corriam; “Blue Jeans” era aberta e clara, as menções aos gangsters e James Dean fofas. Do outro lado do espectro existem outras, como “Money Power Glory” e “Fucked My Way Up to the Top”. Mesmo que ela esteja cozinhando ganância, materialismo por meio do uso de táticas subversivas, ela ainda está fazendo isso através dos olhos da personagem Lana Del Rey – a ingênua garota, ainda presa ao poder sedutor de Hollywood ao mesmo tempo que é corrompida por ele, contando histórias parecidas com as quais as personagens de Naomi Watts em “Mulholland Drive” (“Cidade dos Sonhos” PT/BR) poderiam contar, se suas respectivas ingenuidade e acidez se encontrassem em um único ser.
Seus melhores esforços chegaram quando pareceu que nós estávamos conseguindo observar um pouco da mulher por trás da máscara, mesmo que essa mulher estivesse enfeitada na grandiosidade que ela tanto aprecia; “Young and Beautiful”, por exemplo, um lamento grandioso acerca da pressão que as mulheres sofrem a medida que envelhecem, pode ser considerado o ponto alto para a abertura de sua trilogia de discos. Tais momentos ocorreram geralmente de forma isolada e separados por grandes distâncias, pois as três ideias principais da música de Del Rey se encaixaram tão comumente que havia pouco espaço para qualquer coisa a mais; beleza, melancolia e relacionamentos completamente tóxicos. Incidentalmente, o álbum de estreia de uma cantora de Portland, Alexandra Savior, lançado em abril deste ano, foi uma imitação tão grande de Lana Del Rey pega em flagrante, do início ao fim, que até mesmo veio com um título capaz de resumir a personalidade inteira da cantora mais velha – Belladonna da Tristeza.
Isso é precisamente o momento pelo qual a capa de seu quinto álbum de estúdio causou tanto furor quando foi revelada na internet mais cedo este ano; da mesma forma que nos álbuns “Born to Die”, “Ultraviolence” e “Honeymoon”, ela foi fotografada com um veículo decididamente americano, desta vez uma caminhonete. A pose que se tornou sua marca, entretanto, a desertou. Surpreendentemente, desta vez ela decidiu sorrir como o gato da Alice. Para Del Rey, isso não apontava simplesmente para uma nova direção – sugeria um rasgo enorme de suas próprias regras, dado que a felicidade de ser livre estava extremamente conectada à imagem que ela havia criado e a qual havíamos nos apegado.
Lust for Life” não nos entrega, em último nível, nada tão dramático, mas pode ser considerado o bastante para uma partida do que passou e sugerir que vemos aqui a abertura de um novo capítulo. Pela primeira vez, vimos Del Rey tomar conhecimento do mundo a sua volta, tanto musicalmente quanto tematicamente. Isso não quer dizer que seus álbuns anteriores não mencionavam centenas de lugares reais, porque eles absolutamente o faziam, mas a cantora parecia sempre estar presa em uma aura âmbar; não pertencendo a esse tempo, tanto na estética, quanto na sonoridade, preferindo se derreter de volta aos abraços quentes dos anos 50 e 60, e a suas limitadas paletas de ideias líricas. Mesmo que ela tenha começado a brincar um pouco com a mudança em “Honeymoon” – invertendo o ponto de vista masculino em “Music to Watch Boys to”, ou referenciando “Space Oddity” em “Terrence Loves You” – ela o fez com muito cuidado, de forma a poder controlar a pequenas distâncias o que estava acontecendo.
Nem mesmo Del Rey, entretanto, é impermeável ao tumulto político desses últimos anos. Seis meses dentro do novo pesadelo da América, ela descobriu que não poderia mais se enrolar na bandeira, literalmente e figurativamente falando. E é essa mudança que delineia o cerne das faixas mais importantes do disco, todas se alinhando perfeitamente em seus 73 minutos de duração. Seus haters devem ter rolado seus olhos para o interior de seus crânios quando a divulgação da tracklist de “Lust for Life” revelou uma canção intitulada “Coachella – Woodstock in My Mind”, dado que o comercialismo exacerbado do festival antigo é a antítese de tudo o que o festival atual representa simbolicamente nos dias de hoje e que, Del Rey – usando flores no cabelo na foto da capa do disco -, poderia facilmente se passar por uma garota de divulgação do festival. Ela era mais esperta do que isso, claro. Inclusive, a música é um relato da cantora observando garotas no festival com guirlandas no cabelo semelhantes a si mesma, e rezando por seus espíritos livres na realidade de um mundo atualmente tão turbulento.Uma faixa similar, “God Bless America – And All the Beautiful Women in It” foi aparentemente escrita antes da marcha das mulheres que simbolizou uma enorme retaliação ao novo presidente em janeiro; mas teria soado como a trilha sonora perfeita se já tivesse sido lançada na época do evento. Del Rey não expõe com clareza suas posições e posturas políticas, e ao invés disso, nos entrega uma balada tocante expressando o que irmandade entre mulheres e solidariedade significa para si mesma. Ela transforma sua ideia de “a união faz a força” com “When the World Was At War We Kept Dancing”, a qual pode ser considerada a canção mais corajosa das três mencionadas, se considerarmos que escapismo é um palavrão para aqueles que acreditam que um único minuto gasto não resistindo ao assustador espectro do fascismo é um minuto jogado fora. Ainda assim, sua longa resistência pela permanência da fantasia nunca lhe caiu tão bem.
Temos a impressão, também, que ela chegou à seguinte conclusão: se as circunstâncias que estão fora de seu controla iriam suga-la para o mundo moderno quer ela goste ou não, talvez ela deveria fazê-lo voluntariamente e ver o que mais poderia sair de sua música se ela espremesse um pouco mais. Vários dos desabrochares sônicos em “Lust for Life” estão enraizados no presente, e o débito que ela possui com o hip-hop tem seu peso importante em grande parte da primeira metade do disco. E isso não é apenas devido às participações de A$AP Rocky e The Weeknd, que acrescentam bons efeitos às canções; alguns dos cortes aqui soam como batidas que foram criadas primeiro com o intuito de receber as rimas que Del Rey, sem se importar muito, cria posteriormente, encaixando, assim, as músicas ao seu próprio humor.
Se você não ouviu o resto do álbum, provavelmente assumiria que “Summer Bummer” era originalmente de Rocky, apresentando Del Rey como participadora especial e não o contrário. Antes dessa, “Cherry” e “13 Beaches” sinalizam a primeira evidência de sua chegada em terras urbanas atuais; a percussão esparsa da primeira sugerindo uma melancolia muito mais restrita do que nós estávamos acostumados a esperar da cantora, e o ambiente de trip-hop texturizado da segunda confirmando sua aterrisagem no século XXI. “Coachella” se desenrola sobre batidas de trap que são sutis o suficiente para não se destacar numa primeira escuta, e uma torre de baixos imperdoáveis é o que rege “In My Feelings”. Se comparado com o glamour da era de ouro de seus trabalhos mais antigos, esses são desenvolvimentos positivos, apesar de crus.
Mesmo assim, a verdadeira Del Rey permanece pouco identificável em “Lust for Life” e é talvez a partir da capa que as coisas poderiam ter sido freadas um pouco – 16 músicas é algo demais. Seu passado pessoal aparece dos dois lados da cerca; “Groupie Love” é liricamente exatamente o que você esperaria encontrar em um disco passado se não fosse pela aparição de Rocky. “White Mustang”, enquanto isso, aparece sem novidades e não teria levantado sobrancelhas se houvesse aparecido em “Born to Die”. Ocasionalmente, velho e novo se juntam de forma perfeita, como em “Beautiful People Beautiful Problems”, que soa como algo que um hipotético gerador-de-títulos-de-músicas-de-Del-Rey produziria, e que conta com a participação especial de uma de suas óbvias influências, Stevie Nicks. Que ela se intimida um pouco em contato com sua heroína, entretanto, é algo que nos diz um pouco acerca de sua própria auto-confiança.
O progresso que “Lust for Life” demonstra provavelmente não significaria muito além de um misturar aleatório para a maioria dos artistas; mas aqui ele fala muito a respeito da força que possui a identidade que Del Rey passou os últimos cinco anos cravando para si mesma. Desta forma, o simples novo acaba por soar como profundas mudanças. Mas no fim, ela permanece enigmática, e provavelmente sem um ideal de referência entre suas contemporâneas. O que ela não é, entretanto, é impenetrável – não mais. “Lust for Life” representa o derreter da rainha do gelo que nós achávamos que conhecíamos, e a estranha morte de seu Sonho Americano. O calor e a humildade revelados por baixo são mais excitantes quando nos deparamos com o quão bem eles haviam sido escondidos, sob chave e fechadura. No fim das contas, humana.

Por Joe Goggins
Tradução por

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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