Stevie Nicks entrevista Lana Del Rey para a nova edição da V Magazine, confira a tradução

por / quarta-feira, 28 junho 2017 / Publicado emEntrevistas

V magazine

Dreams Unwind*: Uma conversa entre Lana Del Rey e Setvie Nicks

* Expressão cantada por Stevie Nicks na música Rhiannon do Fleetwood Mac, banda da qual faz parte há mais de 40 anos. A música fala sobre a lenda celta da deusa Rhiannon da perspectiva de uma bruxa branca, seus amores e a forma como ela vê a vida. Ao final, Nicks canta:
Dreams Unwind (Sonhos desenredados)
Love is a state of mind (O amor é um estado de espírito)
Esses versos ficaram conhecidos por todo o mundo como uma espécie de lema do legado de Stevie Nicks. Ao começo da música, ela anunciava: “Essa é uma canção sobre uma velha bruxa galesa”. Seu companheiro de banda, Lindsey Buckingham, dizia que a interpretação de Nicks para a música era uma espécie de exorcismo. Como se ela encarnasse, por um momento, a própria Rhiannon.

Lana Del Rey comenta com colaboradora e autoproclamada “irmã bruxa” Stevie Nicks sobre as forças que formaram seu novo álbum épico – e seu próprio desejo pela vida

É apenas tempo, ” sussurra Lana Del Rey no final de uma ligação. “O tempo me trouxe aqui”.

Quando Lana Del Rey retornou com “Love” este ano – a primeira música de seu quinto álbum, Lust for Life, à venda em 21 de Julho — uma mudança forte ficou imediatamente visível para qualquer um familiarizado com a notória discografia dark da cantora. Começando com seu primeiro álbum, Born to Die, os quatro lançamentos anteriores de Del Rey foram recheados de referências ao romance malfadado, tragédia e traição. Essa música, entretanto, ressoou com uma nova nota: esperança.

No vídeo anexo, Del Rey faz uma serenata à geração de crianças que está meio que literalmente buscando pelas estrelas, entoando frases como, “O mundo é seu e você não pode recusá-lo” e “Não se preocupe, baby” (o último sendo uma concordância com a música dos Beach Boys 1964) enquanto ela sorri de orelha a orelha.

O tempo em si é um tema sempre presente no seu trabalho, embora a forma como ela interage com ele tenha mudado em seu último álbum. Com Lust for Life, ela revisita melodias e imagens de seu último trabalho com uma perspectiva madura enquanto transita pelo passado e o presente ambos pessoalmente e politicamente. “Coachella—Woodstock in My Mind, ” uma música que desenha paralelos entre dois encontros musicais postos sobre tempos de conflito, é um perfeito exemplo disso.

É justo, então, que a entrevistadora do outro lado da linha seja Stevie Nicks, fada madrinha do gênero encantador de pop rock de Del Rey, que estava no caminho de se tornar a voz de sua geração quando o Woodstock aconteceu há cinco décadas.

Como se pode perceber, o tempo – e uma série de eventos sem relação alguma ao longo de suas vidas – é também o que juntou esses dois espíritos de mesma natureza.

Stevie Nicks: Olá? É você?
Lana Del Rey: Sou eu!

Como você está do seu pequeno poleiro no “H” do Letreiro de Hollywood?
[Risos] Oh, estou bem. Estou relaxando aqui em cima. É uma tarde ensolarada, então eu posso ver o que todo mundo está fazendo na Cidade dos Anjos. Obrigada por perguntar.

Eu estava pensando, você acha que eu poderia alugar o “W”?
Sabe, é curioso que você esteja perguntando isso porque eu estava pensando que você adoraria se mudar para o “O”.

Bom, a razão pela qual eu escolhi o “W” é que eu poderia ter um lugar em formato de A com um teto bem alto. Então, eu decidi que eu vou morar no “W”, e então seremos como irmãs bruxas, então eu adotei um novo nome: Marina Del Rey. Mas espere, não para por aí! Sabe a pequena Yorkshire que nós levamos para o estúdio? O nome dela é Mana. Ela será nossa Yorkshire bruxinha e o nome dela será Mana Del Rey.
[Risos] Oh meu Deus! Não seria o mesmo se não tivéssemos um pequeno cão de guarda bruxo.

Então, vamos começar aqui no seu novo álbum. Mas vamos primeiro ao fato de que seu primeiro álbum se chama Born To Die. Esse novo é Lust For Life. Nesse meio tempo, o que te afetou tanto para você partir de “Nascida Para Morrer” para “Desejo Pela Vida?” Porque Born To Die é bem escuridão e Lust For Life é bem iluminado. Se você tem desejo pela vida, é uma afirmação bem forte.
Sim, são completos opostos, e a engraçado porque quando eu escolhi o título, não foi intencional. Era o título da primeira música que eu escrevi para este álbum. Mas há muitas coisas que me trouxeram aonde eu estou agora. Uma delas é apenas o tempo. E porque eu escrevo tudo sozinha, eu apenas queria registrar como eu estava me sentindo realmente, no momento, para cada álbum. Então, eu tive muitas histórias que eu queria contar e que eu não havia contado ainda até agora. E agora, depois dos últimos quatro álbuns, eu me libertei de muitas dessas histórias e muitos desses sentimentos, e pela primeira vez, eu vi a mim mesma em tempo real. E agora eu estou em um lugar no qual eu me sinto realmente presente, e quando eu estou lendo as notícias, eu estou realmente lendo, enquanto antes eu estava apenas perdida no meu próprio mundo. Então, tenho sentido definitivamente uma sensação de liberdade iluminação ao estar no momento presente. O que traz esse sentimento de desejo pela vida, quando você não tem todos aqueles sentimentos passados te puxando para baixo. Eu me lembro de uma entrevista que você deu uma vez, você disse: “Em cada canto há uma aventura esperando para acontecer”, E eu estou meio que nessa vibe agora. Eu apenas sinto que o que quer que seja que cada dia me trouxer é algo que eu preciso e que eu quero. É apenas tempo. O tempo me trouxe aqui.

A forma como escrevemos é como se estivéssemos escrevendo um diário. Se eu escutar todas as músicas de Bella Donna, depois de Wild Heart, de Rock A Little e depois, The Other Side Of The Mirror… Eu estava pensando sobre uma música que eu intitulei “Doing The Best I Can (Escape from Berlin)”. É assim [começa a cantar] “Está tudo bem, querido, eu estou fazendo o melhor que eu posso“. Eu dei esse nome a ela por causa dessa ideia de escape. Algo terrível estava acontecendo em Berlin e eu estava encontrando meu caminho também. Eu estava num nevoeiro de drogas na época, lutando para sobreviver. Eu olho para trás e penso “Você estava realmente tentando sobreviver em 1989”. E então eu fui para a reabilitação em 1994 para me livrar daquele tranquilizante horrível, Klonopin – nisso, eu comecei a ver minha vida voltando para mim, foi quando eu gravei um álbum que eu chamei de Street Angel, que era sobre a época pós reabilitação e sobre voltar para o mundo real. Desde então, minha vida começou a se levantar novamente. Se eu não tivesse escrito tosas aquelas músicas, mesmo com todos os meus diários daquela época e as histórias que eles contavam, eles não teriam contado totalmente, mas as músicas me dizem o quão horrível foi aquilo tudo. E eu poderia assistir, através das músicas, minha vida voltar para mim. Acho que nós colocamos para fora não apenas o que está acontecendo nas nossas vidas, mas o que está acontecendo no mundo, ao mesmo tempo. É algo paralelo. Então, eu vejo que você está fazendo as mesmas coisas que eu.
É uma comparação delicada porque você está registrando a sua própria história e, ao mesmo tempo, refletindo o que você vê. Pode dar trabalho não deixar seu mundo ficar tão pequeno, então você acaba ficando em ambos os mundos. Você tem seu mundo com seu próprio diálogo interno e sua narrativa e a maneira como você escreve, e depois tem todo o resto. É engraçado, tem um minuto que eu ouvi meus álbuns e ouvi muito de mim mesma e minhas histórias, mas havia muito espaço na minha cabeça para absorver tudo. Eu acho que eu estava bem inserida no mix de culturas na Califórnia nos últimos cinco anos, mas é bom se sentir mais conectada com o mundo todo.

Acho que estamos muito mais conectadas com o que está acontecendo agora.
É verdade. Independentemente de onde alguém está pessoalmente, o cenário atual te move para o presente, se você não estiver louco. Se você for uma pessoa normal, você estará, sem perceber, atento e assistindo a tudo.

E você acorda todos os dias esperando para descobrir o que está acontecendo. Eu nunca estive assim antes, nunca, até os últimos dois anos e meio.
É um tempo bem diferente para todo mundo. Porque há algo novo todos os dias, que você lê e fica tipo “Oh meu Deus, isso é verdade?”

Minha mãe costumava me dizer “Você tem uma missão aqui. As pessoas lá fora que estão feridas ou tristes ou têm algo horrível acontecendo em suas vidas, quando elas entrarem em seu lar de amor e música, você as guiará em sua própria aventura e as livrará da vida delas por um momento. E, com sorte, quando eles saírem, levarão um pouco de você com eles e se sentirão melhor no dia seguinte”.
Amei isso.

Eu penso que, como compositora, existem muitas músicas que que eu gostaria de escrever que não seriam lá tão boas, mas eu não farei isso porque não iríamos ajudar a ninguém assim. Então estaremos juntas com as massas, lutando com eles. Escreva suas músicas, mas lembre-se de que nós temos a responsabilidade de clarear o caminho, clarear a vida, acender as lanternas e as luzes das fadas, e manter as pessoas em frente. Temos que ter esperança. Temos que acreditar que tudo vai acabar bem e que vamos acabar bem. Porque se não o fizermos, quem diabos fará?
Você está certa, não tem outro jeito. Até onde eu sei, não existe mesmo outra forma de pensar com sensatez a respeito disso. Eu nunca fui boa em editar. Eu escrevo músicas e penso “Bem, é isso”. E agora, eu percebi que nos últimos dois anos eu tenho editado a linguagem de algumas músicas de acordo com a luz da positividade, [porque] eu não quero ser parte de nada negativo.

E seu álbum, você tem músicas favoritas? Você tem aquelas que têm mensagens mais importantes ou que ajudariam as pessoas que te seguem? Todas as velhas como eu e as garotas que estão ouvindo?
Eu sabia que a primeira música que eu queria lançar era “Love” por causa de tudo que nós estivemos conversando todo esse tempo. É apenas aquela coisa sobre envelhecer: amor é tudo que há. E eu estava realmente me sentindo daquela forma. Eu fiz um monte de álbuns para mim mesma, contando minhas próprias histórias, e eu fiz muitos shows. Agora eu vejo todas as mesmas crianças e jovens vindo para os shows, e eu realmente queria fazer um álbum para eles. Então, eu tenho sido amiga do Abel [Tesfaye] do The Weeknd por muito tempo, e eu sabia que eu queria lançar a faixa “Lust For Life” como segundo single porque temos muitos fãs em comum e eu sabia que eles amariam. “Coachella – Woodstock In My Mind” eu escrevi voltando do Coachella, quando as coisas estavam ficando feias entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos, e todos aqueles mísseis. Isso aconteceu um dia depois da primeira noite do festival. Eu me senti muito sortuda de poder expressar meus sentimentos através da música naquele momento em especial. Eu acho que uma das minhas músicas preferidas no álbum é “Yosemite”. O refrão diz “Nós fizemos isso por diversão, fizemos por liberdade, você fez por mim, fizemos pelas razões certas”.

Adorei.
E é o tema do meu álbum: estar em contato com o que te faz fazer as coisas pelas razões certas. Tudo que você precisa fazer além de apenas palavras e todas as decisões que eu sabia que eu queria tomar esse ano. E essa música é especial porque é realmente sobre se cercar de pessoas que colocam sua arte e amor em primeiro lugar e o fazem pelas razões certas, não apenas por dinheiro. E eu tenho duas músicas, “God Bless America”, e outra chamada “When The World Was At War We Just Kept On Dancing”, que é sobre o que estávamos falando: tentar continuar com a positividade, e apenas acreditar que as coisas ficarão bem. E se parecer que não vão ficar, tentamos fazer elas ficarem bem individualmente e depois, juntos.

Eu não ouvi essas músicas.
Eu quero te mostrar da próxima vez que te ver! E eu estou tão orgulhosa da música que fizemos, “Beautiful People, Beautiful Problems”. Eu amei sua performance nela. Quem está lendo provavelmente não sabe que você conhece meu produtor de longa data, Rick Nowels, do colegial, basicamente.

Eu conheço seu produtor desde que ele tinha 13 anos.
Ele te adora, você sabe.

Eu sei. É porque nós passamos por muita coisa juntos. Minha amiga Robin [Anderson] morreu de leucemia e o irmão dela teve um tumor horrível no cérebro, então Rick, Lindsey [Buckingham] e eu somos os sobreviventes dessas cinco pessoas. Então, Rick se tornou esse famoso produtor e compositor. Ele começou comigo em 1985, em “Rock A Little”, quando Jimmy Iovine me deixou e deixou o álbum no colo de Rick dizendo “Adeus, boa sorte”.
O que é toda uma conexão porque ele acabou sendo o chefe da Interscope, na qual eu tenho contrato. Existem muitos momentos conectados.

Eu penso em todas essas pequenas coisas como um conto de fadas, me levaram a você e te trouxerem até mim de uma estranha forma mágica. Foi tudo arquitetado, como todas essas coisas que aconteceram com minha amiga Robin e o irmão dela, Rick e todo mundo aqui. Eu namorando Jimmy Iovine de 1980 até 1984, depois ele dando o álbum e eu para o Rick e, basicamente, dizendo “Aqui, fique com os dois e vá embora”. Tudo isso me levou a conhecer você e a cantar em seu álbum. A asa da borboleta bate na África e algo viaja com ela pelo mundo. É como essa história começou, eu acho.
Eu não sei se você disse isso na mesma entrevista que eu mencionei anteriormente, mas em algum lugar você disse que algumas vezes você se pergunta “Alguém nota? Às vezes você lança algo, alguém ao menos nota?” Mas tudo isso importa. Todas as mínimas coisas que cada pessoa faz em suas vidas pessoais, até mesmo quando não parece ser uma grande decisão ou um grande passo, importam. Apenas estando aberto às coisas belas que acontecem, as criam.

Isso que eu disse foi sobre como nos últimos 10 anos, às vezes eu pensava “Alguém realmente nota que eu sou uma boa cantora agora? O quão melhor minha voz está que há 20 anos?” Você tem uma linda voz e eu já aprendi coisas sobre canto com você. Trabalhar em sua música me mudou para sempre porque eu aprendi com você. Nós somos irmãs bruxas e é isso. É daí que vem “Beautiful People, Beautiful Problems”, porque estamos tentando passar por todos os problemas e ter esperança em relação a todo o resto, mas ainda é um mundo cheio de problemas e não importa o quanto lutemos para mudar isso.
É sobre o que diz a música. Foi um momento muito especial. Isso me leva de volta à minha música favorita do álbum, “Yosemite”, e fazer isso pelas razões certas. Aqui estávamos no estúdio, e quando Rick e eu estávamos falando sobre quais outros músicos deveriam estar no álbum, você era a única pessoa que nós dois pensamos por causa das suas intenções e como elas se direcionam à música. Isso fechou o álbum na hora. Foi o perfeito momento final. Então, obrigada por isso.

Bem, eu estou muito feliz que as asas da borboleta tenham batido no momento perfeito e feito isso acontecer porque eu acho que, no futuro, poderemos trabalhar em muitas outras músicas juntas, porque eu não quero cantar com ninguém mais. Eu só quero cantar com as pessoas que eu acho que fazem eu me sentir melhor e façam algo melhor que apenas nós cantando por nós mesmos. É a única razão para artistas solos cantarem juntos.
Amém a isso.

Bom, eu acho que eu já te disse isso, mas quando eu viajo pelo país [fazendo turnê], eu me sento com meus amigos, seguro suas mãos e rimos sobre o passado. Um amigo para o qual eu escrevi minha primeira música – a música “I loved and I’ve lost” que eu te disse -, o nome dele é Steve. Eu sempre dedico essa música a ele porque eu era tão louca por ele quando eu tinha 15 anos; meus pais me deram um violão e eu escrevi essa música sobre ele. Eu posso dizer, honestamente, que eu era apaixonada por ele e eu nunca mais estive apaixonada por mais ninguém.
É algo bonito de dizer. Eu me sinto da mesma forma. Obviamente, quando você está em estágios diferentes na vida, as coisas te afetam mais, ou apenas de maneiras diferentes, mas a forma como eu amo tem sido sempre a mesma. Eu não sei se é porque é totalmente impactante ou se, talvez, você se atrai apenas pelo mesmo tipo de pessoa; então, quando esse tipo de pessoa aparece, você realmente sente isso. Então, quando adolescentes de 15 ou 16 anos sofrem uma decepção amorosa, eu realmente sinto por eles, porque é real.

Lana Del Rey, eu acho que já enchemos a revista inteira.
Você é incrível e eu mal posso esperar para vê-la. Talvez, quando você se mudar para o “W”.

Isso definitivamente será em breve, como na próxima semana.
É um sonho.

É nosso sonho e nós fazemos sonhos se tornarem realidade, então vai acontecer. Eu mal posso esperar para vê-la também. Eu espero que quando as pessoas lerem essa entrevista, elas saibam que espíritos semelhantes se encontram ao longo do caminho e que o amor nunca morre.

 

Texto de William Defebaugh
Entrevista por Stevie Nicks
Fotos por Steven Klein

Tradução por Karla Martins e Leticia Oliveira

Em nossa galeria você pode conferir fotos do ensaio em alta qualidade feitas por Seteven Klein, acesse.

Redação LDRA
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