Confira a tradução da entrevista concedida à ‘Flaunt’ por Lana Del Rey

por / terça-feira, 16 maio 2017 / Publicado emEntrevistas

Flaunt artigo

Em entrevista à Revista Flaunt, Lana Del Rey falou um pouco sobre novas músicas do seu álbum Lust For Life, sua parceria com Stevie Nicks e Sean Lennon, a situação política dos EUA e muito mais. Confira a seguir a tradução completa do artigo divulgado na tarde desta segunda feira.


LANA DEL REY

O prazer vem de muitas formas aqui em Hollywood, da mesma forma que lá fora, pra lá do Tinsel, onde é um pouquinho… normal? Você tem seu desejo sexual, desejo de poder, desejo de viajar, desejo por objetos, desejo por intimidade, desejo por aquilo que não deve ser mencionado, desejo de seguir algo, desejos perdidos de juventude, desejos futuros, desejo pornográfico, desejo bíblico, desejo virtual. Seja lá qual for a maneira que você o expressa, o desejo é algo curiosamente ligado à nossa própria psique. Não tem antecedente, nem dualidade, apenas uma semelhança fractal se espalhando história afora, pelo agora e pelo especulativo futuro. Muito provavelmente, duas pessoas que desejam se esbarrariam em meio aos lençóis seguindo uma convenção plástica em Islamabad, ao redor de um prato de moqueca de camarão em um resort baiano, ou um Porshe 911 de 67 em Pebble Beach. Mas o que dizer do desejo dessas pessoas pelo corpo umas das outras, pela sopa, pelo carro, é algo para se mencionar tranquilamente? Não, desejo, na sua forma mais crua, é algo que devemos, totalmente sozinhos, reprimir, exercitar, dar peso e valor.

Consideremos o novo álbum de Lana Del Rey: Lust for Life. Ao considerar, podemos dizer que, em relação ao “lust” (desejo), em particular, existe algo de errado no álbum? Um entretom um tanto invasivo, ou melancólico, ou alienado? Algo misterioso? Por quê? Bem, porque são essas os tipos de insinuações que tendemos a relacionar à Lana Del Rey que nós conhecemos, ou nosso desejo de que ela realizasse pessoalmente alguns dos temas discutidos a respeito de sua discografia. Lana Del Rey não está saudável mentalmente. Lana Del Rey é obcecada por violência. Lana Del Rey está perdida em uma era esquecida. Lana Del Rey é… feliz? “Eu estava feliz por estar presente, e não estava apavorada de uma maneira na qual eu não era capaz de curtir meus afazeres diários”, a cantora fala sobre o título de seu novo álbum, sentada, vestindo jeans azul, pernas cruzadas no chão de sua suíte do Chateau Marmont, comendo batatas fritas e tomando coca cola diet em uma tarde de sexta feira serena e vívida. “Eu sou o tipo de pessoa que realmente ama essas coisas. Como quando eu dirijo, eu me apaixono por cada estrada, e eu não consigo acreditar que estou em L.A. Eu amo a arquitetura, pegar um café, conversar com pessoas que eu encontro. E eu odeio quando eu não consigo me divertir com as pequenas coisas pelo fato de que tenho problemas e preocupações em minha cabeça. Então, para mim, é como um desejo pela vida. Eu estava apenas pensando em felicidade.

Você está bem com isso? Podemos apreciar o desejo da nomeada ao grammy, Lana Del Rey, sem ser torturados, enlameados, com óculos nos olhos, afogando em si mesmo? Esse quinto álbum pode seguir os mesmos esforços de Born To Die (2012) ou Ultraviolence (2014) com calma, com apreciação pela luz e pelas árvores e a maneira como nosso cappuccino espumoso parece tão belo? Isso não importa realmente, porque nós nunca saberemos a exatidão desse desejo e é como eu sugeri acima, e está tudo bem. E, de qualquer maneira, nada é mais indefinível e elusivo que a felicidade. O que realmente importa é que as músicas do álbum possuem uma incrível riqueza em produção, há alguns convidados excelentes e lendários em algumas delas, e do ponto de vista da artista, um tanto quanto esculpido no desimpedido, no qual eu me atrevo a chamar de um distinto amadurecimento em sua obra. “O álbum tem menos dimensões”, ela ressalta. “Mas elas estão mais belas que no passado. Eu não tinha ideia que seria tão fácil falar disso”. Essa facilidade em discutir o conteúdo teria coincidido com uma espécie de abrandamento ou abertura sobre ela na recepção pública ou jornalística? “Eu sinto isso”, ela diz, pensativa. “E isso me ajudou a ser mais aberta também. Porque é difícil falar sobre seus sentimentos mais profundos se você sente que a recepção será fria. E eu me recuo por um tempo. Eu fiz inúmeras entrevistas, mas não muitas nos últimos anos. Mas eu também estava escrevendo e escrevendo, e vasculhando coisas, e não escrevendo coisas tão fáceis de digerir ou discutir. Ainda vem de mim, mas conforme eu tenho me equilibrado como pessoa, eu não tenho tanto que eu não queira dizer. É confortável.

Confortável poderia descrever o despreocupado quarto de Lana Del Rey e seu companheiro de sucesso no pop, The Weeknd, pegue o topo do “H” do icônico Letreiro de Hollywood no videoclipe da música título de Lust For Life, cujo nome é o mesmo de um dos álbuns de outro camaleão do pop – Iggy Pop – e é lançado alguns dias antes de nos sentarmos aqui. O tratamento é surreal e aveludado, quase pateta, em uma maneira que decadentemente traz à tona esse sentimento de felicidade, essa apreciação de minuto a minuto. Os dois docemente murmuram sobre tirar as roupas um do outro, mas permanecem estilosamente vestidos, canonicamente pendurados lá em cima, em cima de todos nós, como se um segundo grupo de amantes pudesse estar à deriva em algum barco à remo embaixo do “O”, apenas para assistirem à serenata em um feitiço de amor antes de desaparecerem pela noite. O vídeo termina com Lana ultrapassando a moldura, piscando seus cílios de marca registrada antes de uma espécie de sorriso de plenitude preencher sua face e tudo sucumbe à escuridão.

Uma tarde fora como uma pessoa. Irônico e divertido que essa tarde fora do temperado pessoal de Lana tenha encontrado sua saída sônica – refinada e amarga – a artista entra no cosmicamente perverso, ensaiado e belo universo do celebrado artista David LaChapelle. Aqui, ao invés de encenar Lana Del Rey para a capa, ela encarna todos os outros. Seu desejo, seus sonhos, sua carga. A cantora aviva sua tag geográfica no Instagram “Hollyweird” com um papel adequado.

Da-vid La-Chapelle. Whoa. Da-vid La-Chapelle,” Del Rey diz com fôlego, de queixo caído, enquanto narra sua sessão fotográfica de 14 horas com o fotógrafo de arte. Sim, David LaChapelle: aquele moleque do Oeste selvagem, da gasolina bombeada em latas de pepsi, leite materno de “bandas de pais”, e inimitável talento de celebridade após celebridade, tudo enquanto inundava museus e armava utopianistas, ao mesmo tempo em que girava entre a fama e dor e ensaios de fotos e mergulhos internos e amigos e cidades e aplauso. Da-vid La-Chapelle. E apropriadamente, um dos moldadores mais influentes da luxúria moderna, e em particular a luxúria de Hollywood, todos prismáticos e decadentes, dos últimos 50 anos.

“Eu simplesmente não conseguia acreditar”, diz Del Rey. “Porque eu sempre deixo as coisas mais difíceis de se trabalhar, porque eu não quero falar tanto. Então eu disse desafiadamente a alguém, ‘Não me chame a menos que David LaChapelle esteja fotografando.’ E então eu recebo uma ligação de Stephen Huvane [um parceiro da Slate PR], e ele disse ‘David LaChappele vai fotografar e você vai fazer.’ Então, quando eu cheguei ao estúdio dele, que é alguns blocos depois da minha casa, fiquei impressionada. Ele é incrível. E ele pensa grande, em um quadro diferente e em texturas, e ele não quer fazer um retrato simples agora porque não é onde ele está em sua vida. E eu sou do mesmo jeito. Eu não quero fazer um disco pop se estou no clima do acústico, por exemplo. E assim ele é muito fiel ao seu próprio espaço. Não existem muitas pessoas que eu seguiria para o desconhecido, por assim dizer, mas com ele, eu provavelmente faria a maior parte do que ele sugeriu.

Falo com LaChapelle no telefone. Ele acaba de almoçar com sua equipe em seu estúdio em Hollywood, e não, ele “não quer” discutir o processo por trás das fotos de Del Rey tecnicamente, ou mesmo criativamente – exceto dizer que está feliz com as imagens. Quando questionado por que ele decidiu criar a história da capa, sendo que ele raramente cria imagens editoriais para revistas e prefere exposições globais e exibições em museus, ele comenta, Eu tive um relacionamento com a Flaunt por um longo tempo. Lana é uma pessoa pé no chão. Eu gosto da escrita dela. Eu vi seu show no Hollywood Bowl, e realmente gostei da música, e isso inspirou o conceito e as ideias para as fotos. Lana estava interessada no ângulo artístico, não num ângulo promocional, o que eu realmente gostei. Muito mais interessada em criar arte do que promover algo.”

Algumas semanas atrás, no estúdio de LaChapelle, na chegada de Del Rey, ele aponta para um punhado de cavaletes contendo talvez 15 fotografias de época, aumentadas, os pixels inchando. Esses momentos nostálgicos e cotidianos são o modelo criativo de hoje. O conteúdo? Há a sua requisitada, ligeiramente inclinada sala de estar onde indivíduos encaram uma televisão, tirada de um móvel La-Z-Boy adjacente. Há férias em parques nacionais. Há casamentos. Há bêbados. Há a juventude e a morte e aquele período cinzento, incômodo entre nós, onde nós mutamos o máximo que pudermos de um ou outro fim, apenas para retornar fundamentalmente inalterado. É tudo muito americano, muito pastoral, arquétipos empilhados em cima de clichês, sobre os costumes de Heartland. Na parte inferior do cavalete do meio está uma cena de acampamento com tendas, carvalhos, e algum homem branco de perfil que ostenta um adereço de indígenas americanos. Tendo nessa manhã testemunhado o mergulho branco da Pepsi no anúncio falho com a Kendall Jenner [que consideravelmente sugeriu os movimentos Black Lives Matter ou Marcha das Mulheres para deixar a Pepsi como grande equalizadora], a preocupação é levantada sobre apropriação cultural e os riscos corridos. LaChapelle considera a preocupação, mas sacode a cabeça e comenta, “Não é apropriação. Você está apenas interpretando um personagem.”

Verdade. Interpretar um personagem é pegar emprestado ou uma homenagem, enquanto apropriação poderia ser dito como tomar algo e usar sem permissão. E no caso da Pepsi: bastardização, insensibilidade, miopia. Em seus vídeos, pode-se dizer que Del Rey entrou em uma variedade de auto-representações, ou papéis, e essa aventura para o desconhecido com o Sr. LaChapelle certamente demonstra sua aptidão de camaleão para a criação de personagens em ensaios de fotos. Ainda, ela compartilha essa infamiliaridade e desafios e estende isso para a música.

Notavelmente, há uma faixa em Lust for Life, gravada com Sean Lennon, em camadas brincalhonas, que explora, entre outras coisas, John Lennon e Yoko Ono – uma divindade canônica de luxúria e arte, que houve um dia – que vê Del Rey subitamente sair de seu próprio paradigma. “Eu senti como se ele pertencesse a outra pessoa”, ela diz sobre o single, “Tomorrow Never Came”. “E eu nunca me sinto assim, porque eu gosto de guardar tudo para mim. Pensei que poderia ser estranho para o Sean cantar uma música sobre John e Yoko também. Mas eu acho que o fato de eu cantar, ‘a vida não é uma loucura agora que eu estou cantando com o Sean’. Isso aponta para o fato de que ambos estamos cientes. Eu não queria que fosse sensacionalista de qualquer forma. Não que seria. Ainda assim, eu quero ser o mais cuidadosa possível. Eu queria fazer algo com camadas, com um estilo de narrativa metalinguístico misturado no meio. De uma forma que é uma música sobre uma música.

Eu falei pelo telefone com Lennon, atualmente em Nova York, que, originalmente, recebeu uma versão muito simples da música de Lana apenas com os vocais dela, violão e um órgão. “Para mim”, ele diz, “99% do que é mágico sobre essa música estava contido na performance vocal original de Lana. Eu senti como se meu trabalho fosse apenas destacar e acentuar o que já estava na voz dela e na melodia, e em sua letra. Tudo que eu toquei foi meramente ornamental, como costurar um vestido de gala em uma mulher maravilhosa: a única maneira de errar seria se você retirasse ou cobrisse a beleza que já está lá.

Considerando a linhagem da música e a primeira colaboração deles juntos, eu perguntei a Lennon o que ele aprendeu da experiência. “Ela tem um gosto excepcional”, ele ressalta. “Eu disse a ela que trabalhar com a música dela era uma lição de valor, uma vez que eu modulo acordes não intuitivos e voltas melódicas, e ela me lembrou que pode ser muito mais atraente se a melodia e os acordes se mostrarem naturais e intuitivos, não mecânicos e desorientados como em minha música. De qualquer maneira, eu nunca esquecerei quando ela me ligou depois que eu a enviei o que eu havia feito e suas primeiras palavras foram ‘É perfeito!’, eu quase chorei de felicidade porque eu, honestamente, não acho que alguém havia me dito aquilo alguma vez sobre algo que eu tivesse feito. Foi um sentimento maravilhoso.”

Além da meta-consciência da letra e do instrumental riquíssimo [Lennon ainda disse “acústico de violões de seis e doze cordas, guitarra, lap steel, contra baixo, vibraphone, cravo, sinos de orquestra, bateria, cordas de Mellotron e percursão”], uma letra particularmente ressonante repete por si só várias vezes: “Você não estava no lugar que você me disse para esperar.” Eu perguntei a Lana Del Rey se há temas decorrentes de estagnação ou espera no álbum. “Eu acho que é como eu me senti, mais que em qualquer outra coisa no álbum, que não era uma música minha”, ela considera. “Eu não me senti como se eu estivesse esperando por algo. Não é realmente nada sobre algo pessoal, exceto de que eu amo como soa; os filtros. Eu tento ser o mais cuidadosa possível porque eu quero cantar no palco aquilo que escrevo. E essa música será fácil de cantar porque não traz nenhuma memória à tona ou algo assim.. E eu sei que é especial para o Sean também, porque ele é o maior fã do pai dele. E eu também sou, de uma forma um pouco mais sutil. Eles tiveram um momento na maneira mais surreal que poderia ser.”

E assim com a maturidade e a calma estilosa que Del Rey acumulou, cinco álbuns depois, ela é capaz de apresentar outra pessoa, ao que parece, em uma música. Mas, assim como ela mencionou, isso foi um ponto fora da curva. E eu não tenho certeza se o mundo está totalmente pronto para isso de qualquer maneira. Mais cedo, quando Lana chegou ao lobby do Chateau, nós nos demos um abraço e conversamos um pouco enquanto seu jovem, e surpreendentemente inglês, empresário, Bem Mawson, conseguia uma suíte para nossa entrevista. Quando voltou, Mawson mencionou seu desejo de visitar um místico em Santa Barbara, suavemente pegando as chaves do carro de Lana Del Rey de suas mãos relutantes (como qualquer bom empresário faria), e nos deixou elegantemente rápido à medida que a cantora e eu seguíamos para os elevadores. Somos recebidos por um membro da atrativa equipe do Chateau, que compartilha uma doçura familiar com Lana e entra no elevador conosco. Depois de uma rápida conversa sobre a nova casa de Lana em L.A, da qual a funcionária tem conhecimento, a cantora pergunta como as coisas tem estado no Chateau, imóveis para notáveis celebridades, tigelas de bolonhesa e lotes comunitários. “Ah, você sabe”, a mulher ressalta. “As coisas mudam no mundo lá fora, mas aqui continuam do mesmo jeito”.

As mudanças no mundo têm sido, realmente, bem chocantes. Dessa forma, você tem minha faixa pessoalmente preferida do álbum, “God Bless America [Deus Abençoe a America]”, uma música sem restrições que segue depois do título com “e todas as mulheres bonitas dentro dela” – isso está instantaneamente ecoando pela sua cabeça e a qual Del Rey diz, “Sim, nós fomos lá.” Ela descreve a música, a mesma que Mawson disse antes que estava relutante em ela ser um single, levando a consideração da Lana de aflorar polêmicas polarizadoras. “Possui uma mensagem forte,” ela diz concordando com a cabeça. “Algumas iconografias, com a Estátua da Liberdade, saídas de incêndio e as ruas, e eu sinto um pouco de Nova Iorque quando eu escuto ela de novo”. Eu digo para ela que a música parece grandiosa em termos de produção, algo como um hino nos versos… bem Nova Iorque de fato, uma pilha brilhante de impérios e conquistas. E enquanto Nova Iorque (e seus bancos) tenha produzido o mundo livre e um clube de meninos não tão preocupados com todo mundo ser abençoado, ainda mais, o verso “mulheres bonitas dentro dela” – nos lembra que grandiosidade tem seus problemas – “God Bless America” pode facilmente ascender para se tornar o hino de 2017.

Perguntei-a se ela sente que a natureza apropriativa do título da música pode chamar a atenção de vários públicos. “Bem, é a palavra de Deus”, ela diz seguramente. “Mas a frase tem um significado maior. É mais sobre sentimento. Quando eu a escrevi, eu não senti como se estivesse confinada a um retrato tradicional de Deus, como alguns céticos poderiam achar. Era mais algo do tipo ‘Porra, Que Deus abençoe a todos nós e esperemos que possamos superar tudo isso’.” Ela explica ainda mais o Gênese. “Quando todas as Marchas das Mulheres estava acontecendo, eu já havia escrito essa música, porque eu já tinha ouvido a respeito na internet. E eu tenho uma irmã e muitas amigas, que tinham muitas preocupações sobre as coisas que estavam sendo ditas na mídia por alguns de nossos líderes. Eu vi uma reação instantânea da parte das mulheres e eu estava meio que ‘Wow, não há nada de errado com a forma como as mulheres estão se sentindo a respeito do estado da nação’. E então, sem tentar realmente, eu me senti obrigada a apenas escrever uma música e dizer que estamos todos preocupados. Isso realmente me fez pensar sobre meu relacionamento com mulheres e eu fiquei orgulhosa de mim mesma porque eu realmente amo mulheres na minha vida. Eu cuido delas e as pergunto o que elas acham da música, dos homens e dos problemas e eu achei muito legal que eu estava bem ali no mesmo barco que elas. E muitas vezes eu não estou. Às vezes eu sinto como se eu soubesse tudo que está acontecendo e, de repente, alguma de minhas músicas surge e eu fico tipo ‘Foda-se, isso foi um erro. Foda-se, isso não é o que as pessoas sentem. Mas nisso tudo, eu estava lá com todo mundo.”

Considerando o cuidado da produção em relação à música, eu perguntei à Lana se a potencialidade das quebradas na batida é particular para ela, não apenas como alguém famoso. Será que ela se sente como se estivesse no fim de seu desejo por mídia? Um presunçoso e atento desmascarar de mitos? “Pode ser,” Lana considera, “ou os jornalistas não conseguem o suficiente pessoalmente e eles sentem como se sua contribuição para a cultura atual é embasada em mitos. É um ou outro. É uma mistura ampla. E eu vou assumir definitivamente a responsabilidade pela forma como minha energia tem informado muitas histórias não verídicas. Mas 5% disso tem sido apenas a agenda pessoal de alguém.” Continuando, apesar das piadas e alfinetadas no decorrer do tempo, Lana Del Rey sente que a mídia é incrivelmente importante e válida no momento. “É por isso que eu amo jornalistas,” ela diz, “quando eles não são babacas, porque escritores são pensadores críticos. São pessoas que pensam que é importante conversar e uma conversa pode se tornar uma mudança.

Eu concordei: o propósito fundamental da mídia é apresentar fatos e impulsionar conversas. Isso, é claro, se misturou com um monte de babaquices mais tarde; uma eleição corrupta, vazamentos de material, tudo tornou os meios de comunicação “os inimigos das pessoas” pelo mercenário e laranja Presidente Trump, o que impulsionou e encorajou a imprensa. Com isso, até mesmo o mascote da Fox News, Bill O’Reilly, finalmente foi derrubado por ofender e abusar sexualmente de suas empregadas que pagou para ficarem caladas por anos. Está uma bagunça lá fora, lá, cá ou no meio de tudo. “Eu sinto que essa eleição acordou muita gente que estava flutuando, se sentindo estranho, ou o que quer que seja, e as jogou bem no momento atual,” Lana diz. “Eu sei que muitas pessoas que tinham uma mentalidade avoada estão agora no meio disso, considerando tudo, suas próprias contribuições e o que mais precisar. Eu sabia o que importava para mim desde sempre e eu estava sempre meio que nisso, mas eu não via as coisas indo tão negativamente assim. Eu sinto como se estivéssemos em uma experiência um tanto quanto Hitchcockiana. Você está em um cenário em que todos os dias você acorda e você não pode acreditar que coisas que estão sendo ditas e feitas são reais. E eu acho que algumas pessoas estão questionando se isso tudo está realmente acontecendo, especialmente com os problemas da Coréia do Norte, que são realmente assustadores porque estamos falando de uma aniquilação nuclear.

 

O mundo é um lugar extraordinariamente tênue. E, assim como poderia ser dito para o bem dessa entrevista, os primeiros resquícios de civilização que foram forjados pelo desejo de poder, nós somos, ao que parece, um ponto fora da curva. No tópico da Marcha das Mulheres, eu compartilhei um vídeo de protestos em Caracas, Venezuela, onde mais ou menos 2 milhões de pessoas estavam marchando naquela manhã contra o Presidente Nicolás Maduro, dezenas que supostamente foram mortas pela polícia ou apoiadores do governo. Eu lembro que a natureza coletivista do protesto poderia ser comparada à força de uma música. Há alguma coisa no álbum que explore esse senso de coletividade no mundo no presente momento? Ela pensa. “Bem, eu tenho uma música sobre a preocupação coletiva, sobre isso ser o fim de uma era. É chamada ‘When the world was at war we kept dancing’ (quando o mundo estava em guerra nós continuamos dançando). Porém, na verdade eu tive muitas dúvidas em manter essa música no álbum, porque eu não ia querer a música lá se fizessem com que as pessoas se sentissem mal ao invés de bem. Não é apática. O tom da produção é bem obscuro, e não leva a um sentimento de felicidade. E a questão que deixa é: esse é o fim da América, de uma era? O tempo está se esgotando com essa pessoa comandando o navio? Vai naufragar? Na minha mente, a letra era um lembrete para não desligar ou não falar sobre as coisas. Era mais sobre se manter alerta e continuar dançando. Fique vigilante.

De acordo com a intensidade do ambiente a nossa volta sobre o qual a artista fala, eu enfatizo que ainda há momentos no álbum que parecem solitários, ou sem esperança, longe de serem ativos. Eu cito uma estrofe “Todos nós nos arrumamos para ir a nenhum lugar em particular”. Del Rey compartilha que ela esteve em uma ligação com um amigo mais cedo naquele dia, o assunto era suas vidas pessoais, suas músicas, e ela diz que ele também levantou essa questão enquanto falavam sobre o papel artístico como uma demonstração de êxtase. Ela discordou dele. “Não era sobre êxtase. Eu quis dizer que você não precisa ter nada para fazer para se arrumar e se sentir especial

Nós vivemos em uma cultura na qual pressão e precedentes dominam, uma cultura em que as mulheres estão sempre sendo desafiadas a não se sentirem especiais por causa de seus corpos, suas cores de pele, suas idades, suas posições sociais, suas contagens de seguidores. Ela concorda? “É mais como se nós não tivéssemos tanta prática cultural no tempo em apreciar nós mesmas pelo que realmente somos”, ela diz. “Nós passamos muito tempo enquanto a nação era fundada, criando governo, dinheiro e mudando o sistema educacional, então não é como em algumas culturas onde você tem tempo para meditar, etc., sobre seus próprios sonhos, desejos e valor. Eu acho que não há muita prática. Não é como se eles ensinassem isso na escola. Mas eu também acho que isso está mudando. Na verdade, o álbum é bastante sobre isso. Até em ‘God Bless America… ‘Aceite-me como sou, não me veja pelo que não sou… Só você pode me salvar esta noite’. É sobre ver as pessoas: o que elas estão realmente fazendo, quem elas realmente são.”

Nesse sentido, Del Rey está defendendo os mesmos valores que seus antecessores referenciais, por menos que sejam, ou por mais enganados pelos sistemas de poder que tenham sido. Considere “Beautiful People” onde ela troca versos e murmúrios no refrão com a inigualável Stevie Nicks, a qual eu me refiro como uma genuína “fodona”. “Eu não sabia o que esperar ou o que eu poderia perguntar a ela”, Del Rey lembra. “Quando eu pensei nas mulheres que realmente poderiam acrescentar algo no álbum, ela sempre aparecia na minha mente. E ela ainda faz tours, o que me impressiona. Há poucas mulheres fazendo isso. Tem a Courtney Love, que trabalha, canta, faz tours… Não há tantas mulheres que faziam música nos anos 70 ou 80 que ainda fazem. É realmente bem louco.”

Del Rey com certeza é esperada a carregar suas narrativas, não importando se elas estão isoladas de significado para ela ou não. Suponho que tenha relação com o território. Talvez a razão pela qual o público não tenha permitido a entrada de sua persona no lugar seja porque força outras celebridades a atuar porque sentem, inversamente, que ela não está atuando, mas sim, se apropriando. Não de identidades culturais, ou movimentos históricos, identidades étnicas/religiosas/nacionalistas, mas sim de emoções. A Lana Del Rey, por exemplo, colheu o sentimento prolífero de sentimento desamparado quando ela colapsou em 2008 enquanto a economia estava entrando em colapso? Por que quando ela canta sobre manipulação nós supomos que ela está manipulando ou sendo manipulada? E se ela canta sobre se arrumar sem razão nenhuma, mas para se sentir especial, alguém imagina ela em casa, toda arrumada, sem lugar para ir? Alguém escrever e cantar tão pontual e consistentemente sobre o amor desafia sua natureza inarticulável? Esse amor é emprestado ou roubado? Por nós? Por quem? Como podemos dizer? Por que alguns músicos podem cantar sobre todo o tipo de coisa e todo mundo dá permissão para eles fazerem assim? Por que a Lana tem que SER a sua música? Alguns debateriam sobre a colisão entre cantor e compositor – os quais esperamos que cantem sobre as experiências que vêm do coração – da rainha pop, a qual esperamos que cante sobre e para nós. Outros podem especular que a intenção de Del Rey é real, que seu coração é seu guia, que isso é mais do que música. E finalmente, outros podem sugerir que essa é a responsabilidade da arte; de pegar as emoções de todos os lugares, com ou sem permissão, e transformar em algo acessível. “Eu conheço algumas pessoas que amam escrever,” ela diz enquanto nos arrumamos para deixar o quarto de hotel, “e amam rimar, amam melodias, e eu também. Mas para mim é muito mais do que isso. É um sentimento de um trabalho de uma vida toda e eu sinto que é muito importante para mim, então eu dedico muito tempo a isso.

O desejo de uma vida e o que você faz dele. E o que Del Rey está fazendo com ele é música, merecida enquanto o mundo tira de nós e nós dele. Nós vamos para a varanda e abrimos as cortinas francesas. Uma rede de copas aparece no restaurante do jardim do Chateau, enchendo com almoços atrasados e serviços de chá. Lembramos que por trás dessas copas, é possível se sentir muito glamoroso, suspenso. Daqui, no entanto, você vê o plástico industrial, precisando de uma boa lavagem, os clientes, parecendo borrados, como se tivessem sobrado um reality de dança, todos atuando, porém irreconhecíveis.

 

Por Matthew Bedard
Tradução por Ana Luiza Guimarães, Leticia Oliveira, Marcela Schettini e Yeda Salomão

 

Junto da entrevista, a revista Flaunt também disponibilizou um ensaio fotográfico feito por David LaChapelle. Confira as imagens em nossa galeria clicando aqui.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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