‘Eu acho que felicidade é o maior objetivo da vida’, confira a tradução completa da entrevista de Lana Del Rey para a Elle UK

por / quarta-feira, 17 maio 2017 / Publicado emEntrevistas

Elle UK completa

Em entrevista à revista britânica Elle, Lana Del Rey falou sobre seus amigos, vazamento de músicas, seu envolvimento emocional com suas apresentações, seu relacionamento com Barrie-James O’Neil, informações sobre novas músicas do Lust For Life e muito mais. Confira a seguir a tradução completa da entrevista divulgada na tarde desta terça-feira (16).


Sonho californiano

Nem todos os meus relacionamentos foram ruins, mas alguns me desafiaram de formas que eu não queria. Eu estou feliz que não preciso fazer isso agora.Lana Del Rey.

Será que a Lana Del Rey vive dentro do H do letreiro de Hollywood, e passa a maioria de suas noites aninhada acima do caos que permeia a Cidade dos Anjos, assim como o teaser de seu novo álbum, Lust For Life, sugere?

Ou será que ela aluga uma casa em Santa Mônica/L.A ou Silver Lake ou em outro lugar que ela não divulgará, mas onde ela se mostrou misteriosamente no twitter para seus 6.3 milhões de seguidores em sua porta com os “ingredientes mágicos” para enfeitiçar Trump?

Será que ela apenas encosta os dedos dos pés na “sujeira e na lama da cidade de vez em quando” como ela diz no trailer do álbum? Ou ela “sai bastante, na verdade”, como ela me disse quando nos encontramos, e passa suas noites se divertindo com alguns amigos músicos, dançando em festas em casas, saindo para shows e às vezes competindo com seus amigos homens cantando “Hotel California” em karaokês? Nesse mundo pós-verdade, parece pedante se importar muito de qualquer forma.

A verdadeira Lana Del Rey é uma mulher de 31 anos chamada Elizabeth Woolridge Grant, nascida em Lake Placid, Nova Iorque. Ela é próxima de sua irmã mais nova – Chuck, uma fotógrafa – porém menos próxima de seus pais, Patricia e Robert, e seu irmão caçula, Charlie. É uma família de individualistas, ela me diz: “foi natural que seguíssemos nossos próprios caminhos de forma separada, e continuamos assim.

Estamos sentados um do lado do outro no sofá em um estúdio em Los Angeles onde ela tem criado seu trabalho mais refinado musicalmente – o já mencionado álbum Lust For Life está destinado a ser o som desse verão. Lana está totalmente presente, esperta, engraçada, dedicada e capaz de rir de si mesma. Ela veste jeans e uma camiseta vintage, e fala de forma calma, porém com clareza. Eu gosto mais ainda dela pelo fato de que a rotina não esconde a mágica que ela transmite como cantora. Para seus fãs, Lana existe em uma filmadora Super 8; a Manic Pixie Dream Girl que vem sem bagagem ou dias ruins, e só aparece para você em uma fantasia com filtro Valentia. Ela é a ideia de uma mulher que não foi criada em nenhum lugar, mas apareceu completamente formada no elevador do hotel Chateau Marmont. Ela é uma versão de Americana finalizada com delineador preto.

Tanto a realidade como a fantasia sobre a Lana Del Rey criam um humano completamente formado e excepcional. No entanto, como Lana me conta, viver nos dois mundos nem sempre é fácil: “Eu sei que, se eu fui mais como uma persona antes (quando ela lançou seu hit Video Games na internet em 2011), agora sou menos. Eu acho que isso vem com a idade. Talvez eu precisasse de uma imagem mais forte ou algo para me apoiar (naquela época). Mas hoje não seria muito difícil para mim fazer um grande show vestida com jeans, sem ter ensaiado muito e sentir que eu vim do lugar certo”.

Eu sugiro que a minuciosa investigação sobre a Lana feita pela mídia por ter uma persona melancólica foi injusta. Todo mundo, em diferentes níveis, mostra diferentes lados no trabalho, certo? Mais, dificilmente ela é a primeira artista a mudar o nome ou cultivar uma imagem diferente nas apresentações. Mesmo assim, incontáveis teorias da conspiração questionaram sua aparência, talento e seu histórico familiar quando seu segundo álbum, “Born To Die”, foi lançado em 2012 – Mas Lana é incrivelmente compreensiva.

Pensando sobre isso agora, eu entendo mais o que a crítica dizia. Quando eu estava no meio de uma mistura de análises e críticas, eu pensava ‘O quê? Eu faço meu cabelo e maquiagem assim como todo mundo para as fotos e para os shows, e sim minhas músicas são melancólicas, mas as de outras pessoas também são.’ Ver outras mulheres não sendo criticadas me fez pensar ‘Por que eu?’.”

Em retrospectiva, ela diz, ela entende sobre o que a crítica e a intriga sobre sua autenticidade como artista era: “Eu acho que tem a ver com energia, eu realmente acho, eu não ficava dizendo ‘eu estou infeliz‘ ou ‘eu estou sofrendo‘ em minhas músicas, mas acho que as pessoas perceberam isso e falavam ‘se você faz música sobre isso, é melhor que você fale sobre.‘ Porém eu não acho que eu sabia o que estava sentindo. Então, quando as coisas tomaram proporções maiores, eu ainda estava descobrindo o que era importante para mim.

Eu sinto que ela descobriu muitas coisas nos últimos anos, assim como vários de nós, no início dos 30 anos, provavelmente fizemos. A diferença com Lana, claramente, é que todas suas experiências, erros e arrependimentos foram dados para o público consumir. Eu menciono aquele sentimento triste que tenho quando topo com algum diário velho ou algum post antigo de Facebook que parecem ter sido em momentos completamente diferentes dos que eu estou agora; pergunto se ela sente o mesmo.

Isso se aplica a mim,” ela diz. “Eu tenho momentos de constrangimento. Algumas coisas que eu disse e músicas que eu fiz, principalmente aquelas que vazaram… Quer dizer, não são muito boas.

Isso se refere ao seu computador ter sido hackeado em 2010, quando centenas de músicas não finalizadas foram lançadas online sem sua permissão. Foi uma horrível invasão de sua privacidade, e nos levou a uma discussão sobre vulnerabilidade – apesar de interessante, não é uma palavra que ela já usou sobre si mesma.

Eu pergunto as consequências emocionais de se apresentar ao vivo e o que ela aprendeu com isso; seus shows em anfiteatros geralmente tem até 24.000 pessoas. Ela me encara com um olhar de completa invulnerabilidade e diz, “Bem, depende do dia. Se eu estou tendo um bom dia, ainda é cansativo, mas fisicamente, na maior parte. Eu tento tirar forças e cantar do fundo do meu coração, então eu tenho que realmente me sentir bem e dormir bastante. Claro, também ajuda se minha vida pessoal está bem; quando você está no palco por uma hora e quarenta minutos, você pensa enquanto canta. Não gosto desses pensamentos serem preocupantes, assim posso me concentrar no público.”

Depois de um show ela se sente reflexiva e precisa de tempo para processar tudo. “Não é como se você tivesse feito algo e depois fosse como se nunca tivesse acontecido; é uma experiência real. Eu sei que existem bandas de rock que dizem que amam isso – que eles poderiam se apresentar toda noite e não fazer outra coisa. Eu não acho que a experiência emocional deles é a mesma que a minha”.

Voltando para a necessidade de se sentir bem e ter uma vida pessoal “boa”. Lana viveu tanto em Nova Iorque e Londres, mas diz que está começando a sentir Los Angeles como um lar, e que isso é uma grande parte da sua felicidade agora. “Eu estou criando raízes e fazendo um monte de novos amigos, então eu me sinto mais adaptada.” Em seus momentos de lazer, ela ama nadar no oceano: “Eu tenho um amigo chamado Ron que gosta de nadar comigo. Então, de vez em quando, nós encontramos uma praia vazia, pulamos na água e nadamos por toda a costa, de um lado da enseada até o outro.

Seus amigos são sua família, diz Lana, e é por isso que ela não consegue aceitar nada menos que honestidade total e confiança por parte deles: O fato de que eu sei isso agora faz torna tudo mais claro. O que é interessante é o quão inseguros nós [poderíamos] nos sentir entre nós mesmos [se nós não fôssemos] capazes de expressar como realmente nos sentimos. É difícil saber disso se você diz exatamente o que você sente, isso poderia causar o fim do relacionamento porque eles não se sentem da mesma forma.”

Nós falamos sobre os grupos de amigos que temos durante a vida e concordamos que, na casa dos 30, você se sente muito melhor ao se rodear de gente que te faz bem. “Quando você está na casa dos 20, você deixa vários personagens [entrarem na sua vida], especialmente se você está no mundo das artes”, ela diz. “Não importava que o que eles apoiavam ou pensavam fosse importante. Mas quando os anos passaram, houve coisas que vi nas pessoas que eu não gostava.”

Lana está aproveitando ser parte do cenário musical de Los Angeles, onde seus amigos, incluindo a fotógrafa Emma Tillman (também esposa do cantor e compositor Father John Misty), Zach Dawes, que já tocou baixo no super-grupo britânico The Last Shadow Puppets, e músicos Jonathan Wilson e Cam Avery. Eles tocam música juntos, o que não é algo que ela fazia com amigos antes. A primeira vez que ela jantou com a gangue inteira, ela pensou Uau, isso é ótimo”. Ela me diz: “Sentir-se parte de algo é definitivamente um sentimento bom”. O lado ruim de andar com um grupo de músicos é que karaoke se torna um esporte competitivo: “Se eu estou com o pessoal, eles estão sempre com o microfone e às vezes é difícil tirá-lo deles. Todo mundo finge que não importa, mas você percebe que há momentos nos refrões em que as pessoas realmente estão cantando.

Nós rimos e eu me sinto feliz por estar conhecendo Lana em um momento em sua vida em que, como ela diz: “Todas as coisas difíceis pelas quais eu passei – que eu relatei [em meu trabalho] – não existem mais para mim. Nem todos os meus relacionamentos românticos foram ruins, mas alguns me desafiaram de uma maneira que eu não gostaria e eu estou feliz que eu não tenha que fazer isso agora”.

Eu não queria estragar o momento, mas eu pergunto se ela sente que quando ela admite estar feliz, algo ruim está para acontecer. “Sim, às vezes eu sinto um pouco disso. Eu sinto que é uma coisa humana ser supersticioso. Às vezes eu digo aos meus amigos ‘Eu não quero zicar’. Ou se estou no telefone eu fico tipo ‘Estou tão animada por isso’, e depois eu fico esperando aquela ligação no dia seguinte… Mas não existe isso de zicar, só deixar acontecer.

A chave para a felicidade, ela diz, é se perguntar o que te fará feliz: “Eu tento não fazer nada que não [me fará feliz], mesmo se for um show em um lugar que não combina comigo. É tão simples. Eu sempre costumava me perguntar isso, mas nunca ouvia a resposta porque eu sabia que eu iria fazê-lo de qualquer forma. Se alguém realmente precisasse que eu fizesse algo, eu provavelmente ficaria tipo ‘Ok!’.”

Eu me pergunto se nós colocamos muita ênfase em ser feliz e se no final isso acaba causando estresse e ansiedade, mas Lana discorda passionalmente: “Não. Eu acho que felicidade é o maior objetivo da vida. Eu acho que é a única coisa importante. Não existem rotas para a felicidade, essa é a porra do problema. Eu acho que pessoas são infelizes na escola – a estrutura de ensino tem sido a mesma por muito tempo e as crianças ainda não estão satisfeitas ao redor do mundo com suas experiências educacionais. E vocês não tem conversas o suficiente quando se é jovem sobre o que leva a um relacionamento mutualmente satisfatório. Essa coleção de experiências de vida – sua juventude, sua educação acadêmica e sua educação sobre negócios, casamento e metas de relacionamento – todos eles levam à sua felicidade coletiva. Eu acho que a ênfase está nas coisas erradas e tem estado há muito tempo.

Lana me diz que ela está mais socialmente engajada que nunca. Seu quinto e mais novo álbum é uma mistura de introspecção pessoal e hinos com uma visão de fora, como God Bless America, na qual ela canta Deus abençoe a América e todas as mulheres belas nela”. Ela diz que, com esta música, ela estava se esforçando para sentir que estamos todos juntos nessa: Eu acho que seria estranho estar fazendo música durante os últimos 18 meses e não comentar como [o cenário político] me fazia, ou fazia as pessoas que eu conheço, se sentirem, o que não é bom. Seria difícil se minhas visões não se alinhassem com várias coisas que as pessoas estavam dizendo.”

Nós discutimos estar constantemente bombardeada por notícias e visões de outras pessoas no nosso mundo hiper-conectado e eu a pergunto como ela reconcilia seu bem-estar pessoal com seu sentimento coletivo de que todos nós vamos ao inferno em um carrinho de mão.

“Eu realmente acho que é um equilíbrio. Você é muito sortudo se tiver boa saúde e muita energia porque é difícil ser um ser humano responsável. Responsável com você mesmo, responsável com os outros, e saber quando não se afundar demais no buraco de minhoca das notícias, mas ainda assim, ser politicamente esclarecido, e não estar desconectado. Na minha vida, é como caminhar em uma corda bamba. Eu leio as notícias mas eu não lerei antes de dormir; eu não lerei quando eu acordar e eu não lerei entre as minhas sessões de gravação. Eu tenho uma janela de tempo na qual eu checo tudo que está acontecendo, mas eu mantenho sagradas minhas coisas sagradas.”

E quanto ao seu hino para as mulheres da América? “Eu escrevi God Bless America antes das marchas das mulheres começarem mas eu poderia dizer que elas aconteceriam. Assim que a eleição terminou, eu sabia o que aconteceria. As pessoas estavam, de alguma forma, com mais voz e mais ativas nas redes sociais e na vida real, então eu percebi que muitas mulheres estavam dizendo por aí que elas precisavam do ajuda e que estavam nervosas sobre algumas coisas que poderiam se passar e as afetariam diretamente. Então sim, é uma antecipada resposta direta sobre o que eu achei que aconteceria, que realmente aconteceu.

Prever as massas das mulheres deve ter demandado um sério instinto social ou algum tipo de feitiço vindo do seu trailer de outro mundo do álbum Lust For Life. O que quer que você pense, você não pode negar o pulso das batidas de época envolvidas no novo álbum de Lana, de sua colaboração pop com The Weekend na música título ao dueto temperamental com o filho de John Lennon, Sean, e minha favorita, Yosemite, Uma bela canção sobre a maneira como os relacionamentos mudam durante o tempo.

Depois que ela me mostrou essa canção na mesma sala em que foi gravada, eu não consegui não perguntar o jeito de Lana como uma namorada. “Eu sou maravilhosa. Eu sou a melhor,” ela brinca, antes de esclarecer, “eu realmente sou a melhor namorada porque eu apenas começa um relacionamento se eu realmente estiver interessado. Eu sou incondicionalmente compreensiva, muito amorosa e eu gosto de passar muito tempo com a pessoa.” Após ouvir o refrão de Yosemite, no qual ela diz não ser mais uma ‘vela no vento‘, ao que eu atribuo o significado de que ela encontrou uma luz mais estável em sua vida, eu me pergunto se o que ela procura em um relacionamento também mudou? “Para mim, o sonho é ter um pouco de perigo, de sensualidade, de magnetismo, de companheirismo, estar na mesma sintonia e todas essas coisas, mas sem as consequências que vêm de uma pessoa que é realmente egoísta e coloca apenas seus desejos em primeiro lugar, o que é como um monte de vocalistas se estamos falando sobre músicos!” (Lana já namorou Barrie-James O’Neill, o cantor escocês da banda Kasaidy.) “Eu vou escrever um livro um dia chamado “A maldição do vocalista e por que você deve sempre namorar o baixista.

Lana sorri, tome um gole do seu café gelado, e diz: “Eu acho que eu tenho uma de fantasia de que grandes relacionamentos, amizades e romances podem passar na prova do tempo. Ainda que cada pessoa no relacionamento mude, eles não mudariam em uma forma que levaria o relacionamento ao fim. O refrão [de Yosemite] é sobre fazer coisas por diversão, de graça e fazê-las pelas razões certas. É sobre ter integridade artística; não apenas fazer coisas que você acha que seriam grandes, mas porque a mensagem é algo importante. E então, é apenas sobre estar com alguém porque você não pode se imaginar sem esse alguém em sua vida, e não pelo fato de que seria um benefício estar na companhia dessa pessoa. É o conceito de estar em um relacionamento por 100% das razões certas. Ser uma boa pessoa, basicamente.

Lana Del Rey é esperta – quando você pensa que a pegou, ela escapa pelos seus dedos como mercúrio, mas naquele segundo crucial, eu acho que a vi claramente: uma artista que está crescendo da ambiguidade da juventude e emergindo em uma mulher com uma autêntica visão de sua vida e sua arte. Sim, isso pode ir desaparecendo aos poucos um dia como sua tatuagem com os escritos Chateau Marmont” no pulso esquerdo, mas agora seu poder afiado, em um foco sem rumo.

 

Por Lotte Jeffs
Tradução por Isabela Guiaro, Leticia Oliveira e Yeda Salomão

 

Lana Del Rey foi fotografada por Thomas Whiteside para a revista e você pode conferir o ensaio completo em nossa galeria clicando aqui. Os scans com a entrevista original também podem ser encontrados em nossa galeria clicando aqui.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • João Vianini

    Estou completamente apaixonado por essa entrevista <3

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