ANÁLISE | Religion: uma paixão quase divina

por / quinta-feira, 14 janeiro 2016 / Publicado emAnálises, Colunas

Lembra-se da Lana perigosa e vingativa que estava matando paparazzi e lamuriando por um amor que se negava a sair com ela por uma jornada pela Califórnia? Então, esqueça essa Lana. Aquela mulher estava descontrolada e apaixonada. Essa mulher de ‘Religion’, a nona faixa do álbum ‘Honeymoon’, está apenas apaixonada — e muito, diga-se de passagem.

É preciso comentar que o álbum toma um rumo diferente a partir daqui; a faixa de interlúdio, ‘Burnt Norton’, demarca essa mudança, e esse poema de Eliot certamente não foi representado por Lana aleatoriamente. O interlúdio fala sobre o tempo e a sua relação com passado, presente e futuro, e explicita que, independentemente de passado ou futuro, tudo converge para o presente, e é aí que encontramos uma relação com ‘Religion’. Toda a fúria de Lana se extinguiu, todo aquele passado se convergiu para o tempo presente, onde ela encontrou alguém e está apaixonada. Seria esta pessoa aquela que estava em dúvida se partia ou não com ela por uma jornada pela Califórnia? Seria este o homem que é uma aberração igual a Lana, e que agora é a sua paixão e sua religião? Pode ser que sim, pode ser que não. Dificilmente saberemos se Lana canta apenas para um homem ou para mais de um que passou por sua vida, mesmo que ela já tenha dito no passado que sempre canta apenas sobre um homem.  Porém, se relacionarmos o homem de Freak com o homem de Religion, veremos que se trata do mesmo.

Everything is fine now
Let sleeping dogs lay
All our minds made up now
All our beds are made
No one’s out of time, no
Chips fall wherever they may
Leave it all behind
Let the ocean wash it away
Tudo está bem agora
Não vamos causar mais problemas
Nossas decisões já foram tomadas
Nós causamos isso
Ninguém está perdido aqui, não
O que será, será
Deixe tudo para trás
Deixe o oceano levar tudo embora

Tudo está bem agora, ela e o seu amado se encontraram, se acertaram e se amam. Agora esse homem realmente a ama e não há mais dúvida disso, pois nenhum dos dois está perdido nessa história. E o passado sombrio de Lana? Ela jogou no oceano, literalmente. Lembra-se da carta que dá as caras no final do clipe de ‘High By the Beach’? Esse é o passado de Lana; ela se vingou, renasceu da própria fúria e encontrou a paz, mas agora ela não quer mais se lembrar disso. É o passado que realmente convergiu no seu presente.

Na ponte entre a primeira estrofe e o refrão, Lana mais uma vez expõe seu exagerado amor por esse homem:

It never was about the money or the drugs
For you there’s only love
For you there’s only love
It never was about the party or the clubs
For you there’s only love
Nunca foi por causa do dinheiro ou das drogas
Por você só há amor
Por você só há amor
Nunca foi por causa das festas ou das boates
Por você só há amor

Lana não o ama pelo dinheiro ou pelas drogas que eles compartilharam andando pela Califórnia, nem pelas festas e boates que encontraram pelo meio do caminho. Ela agora encontrou alguém como ela e que a ama também.  Agora ela vive para ele, como ele; ele é sua religião. Assim, temos um dos refrões mais icônicos desse álbum:

‘Cause you’re my religion
You’re how I’m living
When all my friends say
I should take some space
Well, I can’t envision that for a minute
When I’m down on my knees
You’re how I pray
Hallelujah, I need your love
Hallelujah, I need your love
Hallelujah, I need your love
Porque você é minha religião
Você é como eu vivo
Quando todos os meus amigos
Dizem que eu deveria me afastar
Bem, eu não consigo visualizar isso por um minuto
Quando eu estou de joelhos
Você é como eu rezo
Aleluia, eu preciso do seu amor
Aleluia, eu preciso do seu amor
Aleluia, eu preciso do seu amor

Essa mulher tem amigos que a alertam sobre esse homem, pois ele representa certa ameaça, mas ela está nem aí, apenas está apaixonada. E nesse refrão também encontramos um dos versos mais polêmicos do álbum — “Quando eu estou de joelhos, você é como eu rezo”. Só pelo título da canção percebemos que ela pode ter certo apelo gospel, mas esse verso deixa bem claro que há um fervor sexual por trás desse amor puro. Não há nada mais polêmico do que unir sexo e religião, são dois paradoxos universais que se distam seja pelos tabus, pela cultura, pela História, mas que aqui são ‘unidos’ de uma forma discreta, mas apeladora. Lana disse recentemente em uma entrevista à rádio Triple J que adora brincar com as palavras e que elas são muito importantes na composição da música. Na minha concepção, aqui esta brincadeira foi genial.

É verão na Califórnia, não existem mais dias nublados e sem cor, agora está tudo colorido e dourado, do jeito que a costa oeste deve ser:

Everything is bright now
No more cloudy days, even when
The storms come, in the eye we’ll stay
No need to survive now
All we do is play, all I hear is
Music like Lay Lady Lay
Tudo é claro agora
Não há mais dias nublados, mesmo quando
As tempestades vêm, no olho dela nós ficamos
Não é preciso sobrevivermos agora
Tudo o que fazemos é tocar, tudo o que eu escuto é
Música como Lay Lady Lay

 

Aqui Lana diz que agora ela escuta ‘Lay Lady Lay’, uma música de sucesso dos anos 60 escrita por seu ícone Bob Dylan. Nessa canção, um homem implora para que a mulher fique e deite em sua cama de bronze para passar o tempo ao lado dele. Agora quem não quer que Lana vá embora é esse homem que ela encontrou; um se tornou o porto seguro do outro.

E os dias de Lana se resumem a isso: amar seu homem e escutar Bob Dylan andando pela Califórnia. Dirigindo provavelmente, como ela gosta. Agora que ela deixou seu passado para trás, ela é uma nova mulher, e isso se faz presente em cada faixa que sucede ‘Religion’.

É incrível a forma como todas as faixas do ‘Honeymoon’ se relacionam. Tenho que deixar claro que ‘Burnt Norton’ foi o melhor interlúdio que Lana poderia ter achado para continuar o enredo de seu álbum; ele simplesmente se encaixa entre o antes e o depois. ‘Religion’, com suas batidas lentas e seu instrumental levemente pesado, não é uma faixa que facilmente se tornaria um grande hit, mas sua letra é certamente uma das melhores desse álbum — tanto que, de vez em quando, eu me pego cantando “cause you’re my religion” enquanto lavo a louça…

Agradecimentos à Raphaella Paiva

Alexandre Krause
Catarinense com muito orgulho e amante de uma boa música. Adora viajar, ler, assistir séries, e tem um profundo amor pelo inverno. Conheceu a Lana em 2012 ouvindo Ride. Ama a canção Radio, pois sempre que escuta essa música, pondera que a vida pode ser muito melhor do que ela já é.
  • júlio Ary

    Muito boa a analise! Continuem fazendo as analises das faixas restantes do Honeymoon.

  • Lolita

    <3

  • júlio Ary

    vocês ainda continuarão a postar as analises das faixas restantes?

  • Ana Paula Dreyer

    Não entendi a parte do fervor sexual nesse verso “Quando eu estou de joelhos, você é como eu rezo”

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