Lana Del Rey fala sobre a vida, amor, Twin Peaks, Courtney Love, Azealia Banks e muito mais em entrevista para NME Magazine

por / sábado, 12 dezembro 2015 / Publicado emEntrevistas

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Nesta semana, a revista britânica divulgou que Lana Del Rey seria a capa da edição desta semana da revista. Confira a tradução da entrevista abaixo:


 

Uma carta de Lana

Em Setembro, nós de maneira otimista mandamos um e-mail para Lana Del Rey com um monte de questões sobre vida, amor, Twin Peaks, Courtney Love e “possibilidades intergalácticas“. Três meses depois as respostas apareceram.

Perguntas por Al Horner. Introdução por Dan Stubbs.

nme1215Um artigo recente do New York Times disse que Drake é um meme humano, propagado pela internet, sendo alimentado por likes e compartilhamentos, crescendo exponencialmente. A mesma coisa pode ser dita sobre Lana Del Rey, uma mulher que é mais vista em GIFs e posts de Tumblr do que na vida real. E é mais verdade do que nunca que nesse ano, a nova iorquina de 30 anos se tornou uma reclusa (no nível de Miss Havisham), sem dar entrevistas diretas para a mídia e escolhendo se comunicar por admiradores, como o ator James Franco, um homem tão obcecado com a cantora que começou a escrever um livro sobre suas conversas com ela, “reais e imaginárias”.

A mutação de Del Rey da tímida Lizzy Grant para a femme fatale Lana Del Rey foi selada com o debut single “Video Games” em 2011, e talvez apenas Kate Bush com “Wuthering Heights” antes dele, que foi tão estrondosamente diferente de tudo que estava por aí que parou o ouvinte em suas músicas e os arrastou ao mundo. Trouxe fama instantânea a ela, mas você imaginava se ela seria capaz de sustentar seu sucesso na fina diferença que ela oferecia. A carreira dela a partir de então – Do álbum de estreia “Born To Die” ao seu álbum retrô “Ultraviolence” e o desolado, imaculado “Honeymoon”– tem sido como andar numa linha tênue entre o fato e a ficção, mas o último geralmente recebe mais aplausos. É parcialmente devido a mistura difícil do artifício de Lana Del Rey com o mundo real. Na música, seu fatalismo é parte do mundo obscuro que ela cria, a sua procura por bad boys e a vontade de se submeter completamente a eles. Na vida real, essas letras encrencam as pessoas, e falar para um jornalista do The Guardian – como ela fez em 2014  – que ela “gostaria de estar morta” foi o impulso para uma tempestade no twitter sobre a glamourização do suicídio. O fim é Del Rey desaparecendo do público.

É essa tensão, claro, que faz com que Lana Del Rey seja tão fascinante. Ela é alguém pertencente a um romance de Raymond Chandler, não ao palco do Reading Festival, e, em raros momentos em que a vemos de perto, sua fragilidade é hipnotizante. Não há nada de falso no vídeo filmado por um fã onde ela começa a cantar “Video Games” no palco em Dublin e lágrimas escorrem pelo seu rosto. Honeymoon é a prova – se necessária – que Lana Del Rey está aqui para ficar. Ela pode nunca ter tido outro momento como de “Video Games”, mas ela se tornou um ícone para tudo aquilo que adolescentes acham legal, de James Dean até fumar ou falar para os seus pais que você queria nunca ter nascido, tudo em um pacote estilo Instagram. Ela está rindo por dentro? Algumas dessas respostas podem ser encontradas nessa rara entrevista – a Lana responde a uma série de perguntas que a NME mandou para ela em setembro. Mas uma coisa parece clara: nós nunca realmente saberemos.

NME: Em que tipo de momento da sua vida você estava enquanto escrevia Honeymoon? O que estava acontecendo com você, pessoalmente, quando você escrevia essas músicas?
LDR: Eu acho que a primeira coisa que estava acontecendo foi que eu realmente estava querendo ter mais um álbum lançado que fosse capaz de falar por mim, mesmo que eu não estivesse em um momento em que eu me sentisse confortável para falar sobre mim mesma. Tirando isso eu estava feliz e não realmente sentindo que o álbum precisasse ser tão catártico. Parecia tipo um bom momento para se divertir com alguns elementos psicodélicos e surreais, quando falamos de produção.

NME: “Na segunda-feira elas me destruíram, mas até a sexta-feira, eu revivo… Eu não tenho muito mais pelo que viver desde que encontrei minha fama”, você canta em ‘God Knows I Tried’. A vida nos holofotes é devastadora para você como soa? Quais foram as situações mais extremas que você se encontrou por causa da fama?
LDR: Existem situações incomuns que eu me encontro e que eu não sei como sair delas, situações que precisavam de mais atenção que eu ou que as pessoas em minha volta sabiam como controla-las antes. Eu acho que essa música foi um lembrete para mim que se você não quer os problemas que veem com a fama o melhor a fazer é tentar se afastar dos holofotes quando não se está no palco. Eu acredito que meus dois grandes objetivos com o meu trabalho são fazer bons álbuns e ficar longe da imprensa pelas razões ruins, então essa música é liricamente e melodicamente especial para mim, quando eu escuto ela de novo. Meu pai e minha mãe foram tradicionais e algumas pessoas da minha família costumavam dizer que uma pessoa só está no papel duas vezes na vida: quando ela nasce e quando ela morre. Obviamente é um pouco tarde para mim quando se trata desse ditado.

NME: ‘Freak’ é talvez minha música favorita no álbum – e essas batidas de trap que vão ressoando são algo que eu realmente não tinha ouvido na sua música até agora. Que música você estava ouvindo quando você traçava esse álbum?
LDR: Eu realmente amo Rae Sremmurd, então essa talvez possa ser uma inspiração surpresa. Também Sage The Gemini, eu realmente tenho amado ouvir algumas pessoas que vieram da Atlanta nos dois últimos anos. Eu não acho que eu esteja tentando emular essa música, mas eu tinha elementos dela em ‘Freak’ e ‘High By The Beach’.

NME: Sua música, incluindo esse álbum, sempre teve um estilo temático com uma pegada meio Bond. Você foi altamente cotada no começo desse ano para gravar a música tema do novo filme. Você foi abordada?
LDR: Eu teria feito se tivessem me pedido, mas não pediram. Eu amo todas as músicas que têm sido lançadas dos filmes 007 todos esses anos e eu amo trilhas sonoras em geral. Há algumas músicas nesse álbum que tem um sentimento Bond, como ’24’ e ‘Swan Song’.

NME: Existe um elemento um tanto atemporal, intensamente pessoal, fantasiosamente glamoroso na sua música. O quão conectada em coisas da “vida real” você é? Você acompanhou o que estava acontecendo em Ferguson (os protestos e revoltas seguidas de um tiro fatal em um jovem negro por um policial) ano passado, por exemplo?
LDR: Existe um elemento altamente fantasioso na música, mas eu estou intensamente ligada no que está acontecendo politicamente, socialmente, e, em basicamente todos os setores, exceto na cultura pop. Eu tenho tido uma vida bem real, e houve muitas coisas que necessitaram de muita força e meios para superá-las… coisas que eu ainda estou tentando entender. Pode ser por isso que a música tem tanto um elemento de escapismo nela.

NME: David Lynch está fazendo uma nova temporada de Twin Peaks – uma série que parece ter impactado sua música. Você está ansiosa?
LDR: Eu amaria fazer qualquer coisa com David Lynch. Eu não sei muito bem do que está acontecendo, mas eu realmente amo a série original e seus filmes desde então.

NME: Os seus três álbuns de Lana Del Rey são bem californianos no seu som e imagem. Mas Lizzy Grant é de Nova Iorque. Você chegará a fazer um álbum nova-iorquino?
LDR: Eu penso que ‘Born To Die’ é bem nova-iorquino porque eu estava em Nova Iorque antes do lançamento do álbum, exceto nos períodos que eu estava em Londres enquanto trabalhava no álbum. Eu acho bem fácil ir e voltar entre um jeito de pensar nova-iorquino e um jeito de ser californiano, então eu posso me ver fazendo um outro álbum mais estilo Nova Iorque. Eu acho que seria diferente somente porque seria um pouco mais difícil, mais rápido, mais otimista e menos sonhador.

NME: Você fez uma tour com Courtney Love no começo desse ano. Como foi? Vocês saiam juntas bastante depois dos shows?
LDR: Fazer uma tour com a Courtney foi ótimo – nós temos algumas coisas em comum que podem não parecer olhando só por fora. Eu de fato passei bastante tempo com ela e ainda vejo ela de vez em quando agora. Eu acho que a coisa mais importante que eu aprendi foi que algumas pessoas simplesmente têm esse dom natural para shows. Ela é totalmente cativante, ela nasceu para isso.

NME: O quão próximo o personagem da Lana Del Rey é com o seu verdadeiro eu fora do palco? As suas músicas estão cheias de heroínas condenadas, desesperançosamente devotas aos bad boys que tratam elas mal. Você é parecida com isso na vida real?
LDR: Eu acredito que a maior diferença é que quando eu estou no palco em sou o centro das atenções e quando eu estou de volta em casa eu tento me enturmar. Obviamente eu estou cantando essas músicas porque elas se conectam com a minha vida. Quando o assunto é garotos, eu nunca namorei caras ruins, mas eu acho que porque eu era artística, eu nunca me contentava com alguém que não fosse completamente fascinado com a vida ou com ser diferente. E isso trouxe nenhuma clareza para o meu mundo, embora tenha sido enriquecedor de outros jeitos.

NME: Você se desenvolveu mais ou menos como esse personagem desde Born To Die?
LDR: Eu acho que algumas vezes, como uma artista, é difícil saber de onde vem a sua estética pessoal… A vida real, imaginação e arte, tudo misturado e separado deles mesmos para criar seus álbuns. Eu descobri, uns cinco anos desde que eu escrevi minha primeira música para aquele álbum, que eu sou surpreendentemente similar aos personagens nessas canções – principalmente porque eu tenho uma forte ideia de quem eu sou, mas uma ideia não clara de para onde eu estou indo.

NME: Você é esse personagem durante todo o tempo? O personagem nas suas músicas, vídeos e ensaios fotográficos são tão totalmente realizados que é difícil imaginar você fazendo coisas normais – lavando roupa, estirada no sofá na frente da TV. Você alguma vez conduz uma vida normal, fazendo coisas normais?
LDR: Eu faço várias coisas normais e eu nunca me senti diferente da pessoa que eu sou no palco para a pessoa que eu sou dirigindo, limpando ou conversando com meus amigos… Eu acho que eu entendi o que você quis dizer sobre o mundo ser tão totalmente realizado que é difícil imaginar qualquer coisa fora disso, mas mesmo com os vídeos altamente estilizados, a minha expectativa é que as minhas intenções e alma transpareçam.

NME: Você consegue imagina lançando uma música sem essa persona? Retornar a ser Lizzy Grant?
LDR: Eu definitivamente não preciso de uma persona para criar minhas músicas, não é um tipo de coisa estilo David Bowie, necessariamente. (Talvez essa não seja uma boa referência, ele talvez seja totalmente o que eu imagino que ele seja). Eu só lanço músicas usando um nome diferente com um som e textura totalmente determinados.

NME: Você fez o cover da música de Nina Simone, ‘Don’t Let Me Be Misunderstood’, em Honeymoon. O que é que a Nina tem, a história dela e a sua música que você é tão atraída?
LDR: Eu amo a música que eu fiz cover e eu amo a música dela que eu também fiz cover no álbum passado (‘The Other Woman’)… Eu sou atraída pelas suas melodias e palavras. Quando falamos de personalidade, nós somos bem diferentes. Nós talvez tenhamos tido alguns dos mesmos problemas, mas eu escolhi essa música só porque ela conecta comigo.

NME: Há um rumor sobre a faixa ‘Art Deco’ que diz ser sobre Azealia Banks. Isso é verdade?
LDR: Definitivamente não. Eu não tenho ideia da onde as pessoas tiraram isso. Eu só não consigo ver a correlação. Essa faixa é na verdade sobre um grupo de adolescentes que saem toda noite.

NME: Você demonstrou um interesse em “possibilidades intergalácticas”. O quão sério é esse interesse?
LDR: Não é somente possibilidades intergalácticas que me interessam, é o promissor horizonte tecnológico que estamos olhando agora mesmo. Existem bastante pessoas que eu estou interessada, mas eu gosto do que Sergey Brin, Yuri Milner e Mark Zuckerberg estão fazendo com a premiação Breakthrough Prize nas físicas fundamentais e ciências da vida. Eu acho que é importante ter a mesma quantidade de atenção, foco e glamour (se é isso que precisam) para trazer ciência para perto da vida de todas as pessoas do mesmo jeito que política e cultura de celebridade trazem hoje.

NME: Seus shows ao vivo são experiências poderosas e emocionais – você algumas vezes parece ficar encantada por eles, várias vezes te levando a chorar. O que passa na sua cabeça antes de você subir no palco?
LDR: Todo show é diferente, não é sempre que eu fico encantada com meus shows, mas algumas vezes eu fico. Isso não depende do tamanha da multidão, é só como eu estou me sentindo naquele dia… Fazer uma tour de seis meses do ano é tão diferente de qualquer outra coisa; é libertador, mas tem algo estranho sobre isso, é uma experiência um tanto transitória.

NME: Você é bem produtiva – três álbuns em quatro anos é um negócio e tanto. Você se preocupa em se esgotar?
LDR: A melhor coisa que eu posso fazer é deixar a música falar por si só. Então é provavelmente o melhor tempo gasto além do tempo que eu passo na estrada. Eu estou bem feliz escrevendo e gravando.

NME: Quando você está escrevendo, você sente a pressão de entregar outro hit do tamanho do sucesso de ‘Video Games’?
LDR: Não necessariamente, eu na verdade nem penso nisso. Essa música não passou a sensação de ser algo maior que o quê o álbum foi ou o quê a experiência continua a ser para mim.

NME: Por quanto tempo você acha que vai esperar até o próximo álbum? Alguma ideia prévia de onde você gostaria de ir com isso?
LDR: Eu até tenho uma ideia prévia sobre o que eu gostaria de fazer com isso. Minha gravadora, Interscope, é bem flexível e aberta sobre quando o meu álbum será lançado, então eu não tenho pressão. Eu só estou feliz em ser capaz de continuar fazendo músicas que eu gosto. Isso é suficiente para mim.

 

Por Al Horner e Dan Stubbs

Tradução por Yeda Salomão, Cristine Sol, Ana Luiza Guimarães e Glauberth Viana

 

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • júlio Ary

    A cada dia mais eu me encanto com esse ser humano!

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