Por que não conseguimos parar de encarar Lana Del Rey, confira o artigo do TIDAL

por / domingo, 01 novembro 2015 / Publicado emNotícias

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O TIDAL, novo serviço de streaming de alta definição pertencente a Jay Z, também é repleto de artigos e matérias sobre os artistas do momento. O Talkhouse é onde um artista fala sobre o trabalho de outros artistas.

“A ideia é promover diálogos criativos tendo artistas inteligentes e notáveis de todo o mundo da música, de todos os tipos e gerações, escrevendo sobre os últimos lançamentos de seus iguais. E a novidade: o artista que está sendo escrito sobre é encorajado a responder. A cada semana, o TIDAL apresenta um pedaço do Talkhouse novo e favorito.”

Esse artigo sobre Lana Del Rey foi escrito pelo cantor e compositor norueguês Sondre LercheConfira a tradução.


Na maioria das vezes, quando criticamos um artista que não nos importamos, não é sobre a música que estamos comentando.

Em vez disso, nós estamos frustrados pela quantidade de atenção e aceitação que o artista está recebendo — isso parece fora de ordem junto com nossa falha em apreciar os sentimentos dele, e por causa disso nós o titulamos como supervalorizado. Se não fosse pelo fato de nos sentirmos superexpostos ao artista, nós talvez estaríamos completamente neutros a sua música, nem interessados ou repelidos. Desde que Lizzy Grant se desfez do seu nome e se reinventou como Lana Del Rey, ela, sem sombra de dúvidas, testemunhou seu pedaço de admiração e ódio de uma crescente audiência mainstream que a acha simultaneamente provocante, superexposta, frustrante e sedutora. E ela não deixou dúvidas de que se esforça para ser todas essas coisas e mais.

Seu impressionante single de estreia, “Video Games”, chegou junto de uma enxurrada de conflituosas histórias do seu passado e fofocas hipsters a respeito de onde ela veio e o que havia feito para chegar aqui. As pessoas não conseguiam parar de falar sobre ela, especialmente quando eles não tinham nada gentil para dizer. Uma verdadeira apresentação desconfortável e prematura no Saturday Night Live pareceu confirmar o ceticismo dos verdadeiros pessimistas entusiasmados em descartá-la como um produto de sua gravadora — como se algum gerenciador de carreira tivesse a imaginação, sem falar na coragem, de sonhar uma artista tão estranha e ir fundo com a ideia. Mas desde que o fascínio inicial do público sobre a suposta autenticidade da Lana Del Rey — como se isso fosse algo mensurável, coisa que nós todos temos que concordar — estava desaparecendo, se tornou abundantemente claro que a Lana Del Rey estava perfeitamente configurando o seu caminho para um contexto bem específico no qual se apreciar sua música e experienciar suas apresentações.

Com seu terceiro álbum, o vagaroso e apurado Honeymoon, Lana Del Rey claramente confirma que algum de nós fomos tolos ao descartá-la como uma modinha ou um fenômeno novo da mídia. 

O momento que eu finalmente percebi que Lana Del Rey era algo mais do que uma peculiar inovação pop aconteceu quando eu escutei seu segundo álbum, o suculento e robusto Ultraviolence. É um ótimo álbum que conseguiu soar tanto como algo encharcado com automitificação quanto, ao mesmo tempo, como algo com uma vulnerabilidade desesperada. Desconsiderando seu humilde começo de carreira pré-Lana Del Rey como a aparentemente brilhante escritora-compositora de olhos azuis chamada Lizzy, Honeymoon revela um auteur pop em total comando da sua narrativa. Aqui ela faz a transição de objeto para sujeito, saindo da comum desesperança desconfortável e fatigada que ela romantiza exageradamente nos seus dois primeiros álbuns. Ela ainda está danificada, cansada além de seus anos e entediada com a mesma escuridão californiana de fantasia desértica como antes, mas na atmosfera nós agora detectamos uma força mais ambiciosa e grandiosa, totalmente consciente de seus pontos fortes e seu valor.

Em suas novas músicas ela está no controle, observando homens burros e bonitos com quem ela convive em sua vida — não o outro lado da história. Ela ainda encontra um prazer perverso em subestimar a si mesma ocasionalmente, mas também tenta experimentar seus recém descobertos poderes como a narradora de suas músicas, como a rainha de seu universo e como uma artista pop incomum com uma grande quantidade de seguidores em ambos os lados do mainstream.

As histórias do passado sempre foram importantes na música popular

Nós amamos o passado em pequenas amostras idiotas de informação cativante que ouvimos na TV ou de um amigo, como se, de alguma forma, elevasse nossa experiência com o trabalho do artista. De qualquer forma, isso nos dá algo do que falar. Onze anos atrás, quando eu tinha acabado de me mudar para Nova Iorque, eu compareci a uma festa da Rolling Stone. Lá, eu e meus amigos inventamos um jogo de bebida onde você tem que tomar um shot toda vez que, alguém que você estivesse batendo um papo, mencionasse uma história particular que estivesse circulando sobre quem havia cortado o cabelo dos convidados de honra da noite, o Kings of Leon antes de fazerem sucesso com Sex on Fire. A senha social segura daquela noite era, “Você sabia que a mãe corta o cabelo deles?”. Era tudo que todos conseguiam falar. Eu fiquei chocado. Bem-vindo à indústria musical! Nós ficamos tão bêbados aquela noite.

Eu não tenho a impressão de que a mãe de Lana Del Rey é quem corta o próprio cabelo dela. Mas Del Rey é a mestre em contar histórias sobre ela, revelando somente o suficiente para nos deixar intrigados em tentar ligar os pontos. Não como Stephen Colbert — o melhor apresentador dessa década no entretenimento americano — Lana Del Rey é uma artista que constantemente contradiz e confunde, seduz e entretém. Recentemente Colbert anunciou que ele abandonou o personagem de “Stephen Colbert”, optando, em vez disso, em apresentar seu novo show da noite como “ele mesmo”; Stephen Colbert depois disse, “Eu costumava fazer o papel do especialista narcisista e conservador. Agora eu só estou sendo um narcisista.” Stephen Colbert ainda nos entretém e diverte com quase as mesmas qualidades que o antigo “Stephen Colbert” tinha. Tudo o que nós temos é sua palavra dizendo que ele não é mais aquele personagem quando ele está diante de nós.

No caso da Lana Del Rey, tudo que nós temos é a sua falta de palavras em geral, além de suas letras.

Depois de falar com mais franqueza em entrevista — e tendo problemas com isso enquanto promovia Ultraviolence — ela voltou a não inventar muito sobre nada. Como Joni Mitchell, Del Rey expressou não ter o menor interesse em assumir o papel de feminista — até se recusando a se identificar como uma, em entrevistas. Alguém poderia argumentar que isso é ao mesmo tempo incrivelmente ignorante e incrivelmente corajoso, num tempo em que não se inscrever explicitamente para o feminismo parece ser um dos tabus finais do clima da contemporaneidade progressivamente cultural e política. Em nossa previsível reação exagerada, nós talvez estamos esquecendo que Lana Del Rey, a invenção, tanto similar ou diferente de Lizzy Grant, quem quer que ela seja, existe dentro de um contexto: a excessiva realidade sonhadora de sua invenção. Mesmo que a Lana Del Rey esteja ou não sacrificando Lizzy Grant na fogueira das suas vaidades públicas, nós nunca realmente saberemos.

“Nós dois sabemos que não é de bom gosto você me amar” Essa frase — provavelmente a melhor frase de abertura de qualquer álbum que escutarei esse ano — contém a essência do ótimo paradoxo trágico de Lana Del Rey. Cansada da vida além de seus anos, bastante dramática e ainda estranhamente positiva, ela está afastando qualquer um sem antes manter muito contato. Odiadores vão odiar, artistas vão fazer arte. A faixa acaba com “Tendo fantasias com a sua vida”. Ela já revelou demais.

Seu mundo é tanto distópico quanto trivial. Seu fatigado olhar fixo tanto romantiza quanto expõe sua condição entorpecida. Ela está totalmente consciente dos consideráveis limites do seu universo aparente, a falta de empatia e preocupação com o mundo fora de sua pequena bolha. É difícil imaginar Lana Del Rey sendo cotada para uma grande apresentação de caridade ou atendendo o telefone no programa Celebrity do-gooders no Telethon, quase do mesmo jeito que seria difícil imaginar a cínica e enigmática banda Steely Dan nos anos 70. Empatia não é o lance dela.

E ainda, mesmo com todas as autocontemplações e sua postura, Del Rey se recusa a se libertar de suas obrigações e, muitas vezes, consegue construir uma vulnerabilidade dentro dos confins do privilegio e do tédio. Ignorância faz parte do conjunto. Se faz parte ou não de sua personalidade privada, nós não temos como saber. Iria me surpreender bastante se eu descobrisse que Stephen Colbert, em sua vida privada, é uma pessoa imoral e de coração gelado, porque muitas de suas apresentações exalam cordialidade, empatia e humanidade. Mas eu não tenho algum jeito de saber disso — eu não o conheço. Eu não a conheço também. Eu sei o que eles querem que eu saiba. Essa é a essência de uma da performance.

Um bom artista sempre brinca com a ideia do público sobre quem é o ser humano por trás daquele personagem, e qual a distância entre o artista e sua verdadeira pessoa.

Eu poderia argumentar que essa é a verdadeira especialidade de artistas como Dave Grohl ou Bruce Springteen, os quais desejam aparecer e acabam sendo algo genuíno e gostável. Nós todos fazemos isso variando em graus enquanto nos apresentamos para o mundo — artistas apenas fazem isso para viver e acabam tomando mais liberdade. Onde tem público, sempre tem uma apresentação, e um artista inteligente sabe o que fazer com ambos os palcos de verdade e os palcos proverbiais, independentemente do fato de quão diferente ou parecido eles podem ser do personagem que interpretam no palco.

Assim, eu diria que Lana Del Rey talvez seja uma mestra moderna da forma. Eu tendo a ficar suspeito se um artista realmente precisa que eu acredite que ele ou ela é sincero. Isso também funciona no caminho contrário; quando o artista não insiste em me passar sinceridade, diversas vezes eu acabo acreditando. Desse jeito, eu argumentaria que Lana Del Rey é a cantora mais sincera operando no mainstream hoje. O anti-Ed Sheeran. Ela realmente não se importa se você acredita nela.

“Na segunda-feira, elas me destruíram, mas até sexta-feira, eu revivo”, assim vai uma das músicas do álbum Honeymoon da Lana Del Rey, soando tanto como a caricatura teatral que nós esperávamos quanto como se estivessem despindo sua alma, escrevendo o que ela sabe.

Sua sagacidade obscura e derrotada contra seu escuro tom nasal algumas vezes me lembra uma Peggy Lee moderna e exausta, se não necessariamente quando se fala em precisão e alcance. Não é comum de se ouvir um grande álbum mainstream que flua em um ritmo lento e delicado do jeito que Honeymoon flui. Há pouca procupação com singles, variação ou parcerias especiais, e nenhuma grande proposta para algo que sirva à atração principal, ao personagem principal. Isso pode, algumas vezes, passar a sensação de limitação, quase claustrofóbico, mas a personagem de Del Rey é mais charmosa e estranhamente atrativa que a maioria das indistinguíveis personas pop de hoje em dia.

Honeymoon é um pássaro estranho, exótico e confiante, sendo unicamente contemporâneo e fora da sua época. Não se engane, apesar dos seus arranjos orquestrais exuberantes que ecoam eras passadas de música popular, com um certo tipo de decadência e imensidão que faz o cantor parecer ainda mais isolado e sozinho no coração dessas canções, esse álbum não é nenhuma nostalgia fofa. Os arranjos de corda distintamente pré-rock complementam as incertezas de Del Rey, uma entrega da realeza, e diversas vezes traz reverberações dos vários temas clássicos de James Bond feitos por John Barry, e também várias ótimas cantoras que cantariam esse tipo de música. O fato de Lana Del Rey não cantar o novo tema do James Bond parece um grande erro de oportunidade na cultura pop.

Todas as faixas do Honeymoon são escritas em colaboração do veterano compositor Rick Nowels (que também colaborou com Del Rey em muitas das canções mais inspiradas do Ultraviolence), com exceção da leitura de um belo poema de T.S. Eliot (“Burnt Norton”) e uma versão desnecessária do tão imitado “Don’t Let Me Be Misunderstood” que, no entanto, serve como um comentário jocoso em toda a sua operação: para poder continuar o andamento da sua história, ela confia no ouvinte para ao mesmo tempo entender e não entendê-la. Que ela foi facilmente subestimada no começo, quando ela preparou perfeitamente o palco para os seus futuros espetáculos. Pretensioso esnobador de música que sou, eu lembro de ter ficado chocado quando descobri o quão bom Ultraviolence era de verdade.

Para alguém que é tão bom em transmitir contextos emocionais e culturais por meio de poucas palavras, as rimas finais de Del Rey algumas vezes parecem tão convenientes que elas o ameaçam de tirá-lo do êxtase e lançá-lo em uma sensação de um realismo convencional que sua música não se beneficia nada com isso.  

Como o objetivo de manter a ilusão bonita e vazia, um certo jogo de cintura brilhante é necessário. Ocasionalmente ela escorrega dentro de melodias convenientes e preguiçosas. Algumas composições podem parecer pouco trabalhadas: grandes em arranjos, ambientação e no estilo próprio da Lana, pouco, porém em substâncias harmônicas e em estruturas musicais de eras pré-rock que ela claramente adora.  Quando ela canta “Nós podemos dançar lentamente ao som de rock”, eu não tenho certeza se ela está sendo tímida, arcaica ou só apressada para terminar sua música.

Na verdade, as diversas referências musicais nostálgicas algumas vezes passam a sensação um sentimentalismo exagerado, especialmente quando elas não cantam tão suavemente quanto as referências passam a impressão. Quando ela canta “tudo o que eu escuto é música, como Lay Lady Lay” na persuasiva “Religion”, ela soa inapropriadamente desajeitada. Referencias líricas e paralelos com Billie Holiday também estão entre as indulgências que Del Rey provavelmente faria melhor se não as inserisse ainda tão cedo.

Muitos desqualificaram, e vão continuar a desqualificar, o mundo e a ética da Lana Del Rey por ela ser privilegiada demais, branca demais, narcisista demais.

Certamente, ela é todas essas coisas levadas ao extremo, mas assim também são os filmes do Woody Allen, e ele tem 79 anos. Diferente do Allen, Lana Del Rey fetichiza sua própria bolha, suas próprias falhas insignificantes e mergulha em suas desventuras de primeiro mundo, compromissos e desejos, com um olho encarando a lente da câmera do seu próprio iPhone e outro fixo em seu próprio reflexo no espelho.

E nós não conseguimos parar de encará-la.

 
Por Sondre Lerche; cantor sitiado no Brooklyn, escritor de músicas e compositor de trilhas sonoras, nascido na Noruega. Seu álbum “Please” já foi lançado pelo Mona Records.
Tradução por Marcela Schettini
Revisão por Raphaella Paiva

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • ricardoestevo

    Obrigado pela tradução, como sempre, impecável.

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