‘Nesse álbum, eu acho que fiquei mais próxima das minhas emoções’, leia a entrevista concedida a Grazia Magazine francesa

por / sexta-feira, 11 setembro 2015 / Publicado emEntrevistas

IMAGEM POST LDRA

Em entrevista concedida no início do mês à versão francesa da Grazia Magazine, Lana Del Rey fala sobre as inspirações do álbum “Honeymoon“, a conexão entre suas músicas e suas referências musicais e literárias.

Confira a tradução.


Amar, diz ela

Lana Del Rey lança um novo álbum este mês. Muito aguardado, “Honeymoon” dá seguimento às histórias de amor da cantora, que oscilam entre adoração e destruição. Confira a entrevista e desvende uma jovem mulher que conta melhor do que ninguém a maneira que o sentimento amoroso atravessa o tempo.

 

4ZkoKOSr4_AVocê já sentiu aquele amor que toma suas entranhas e que o revira e o deixa perturbado e desorientado, sem saber para onde ir, não sabendo onde situar exatamente aquilo que sustenta você, aquilo que o envolve, que o intoxica e que o petrifica ao mesmo tempo?

Um sentimento que surge muitas vezes quando nós conhecemos o amor e que vemos, ao mesmo tempo, o objeto desse amor ir embora, invariavelmente. É exatamente isso o que assombra cada canção que Lana Del Rey recita serenamente, há alguns anos, desde aquela época em que seus primeiros clipes, Video Games ou Blue Jeans, capturaram uma audiência e não a libertaram mais, resultando no ápice do romance composto por esta jovem garota de 30 anos em um computador improvisado, mas alimentada por uma escrita que mistura constantemente ficção, realidade e autobiografia, sem jamais se revelar plenamente.

Desde Video Games, toda música de Lana, cada uma de suas palavras e a maioria das notas que compõe suas canções não falam nem evocam mais que isso: as histórias de amor capturadas num dado momento, singulares — um início sonhador, um final raivoso. Mas nunca o meio da história, quando as tensões (sexuais, românticas, intelectuais) são atenuadas ou ameaçadas de extinção. Em suas canções, sua voz brinca sobre esse registro, ainda está no auge da calma, mas oscila entre a alegria absoluta de saber que está apaixonada e uma absoluta depressão de se encontrar confrontada com a própria impossibilidade da união que ela canta. A voz de Lana sempre flerta com o mistério e aquilo que é inexplicável — nela ou em nós?

No meio do verão, ela lançou, para apresentar seu novo álbum, uma porção de músicas que se relacionam bem, brincando com estes sentimentos. A primeira, Honeymoon, parece capturar o nascimento da história, uma união que, apesar de tudo, é plena de ilusões de romance, de desejos e de cegueira — “We make the rules”, ela canta (nós fazemos as regras) dirigindo-se a um breviário muito romântico. O mundo é nosso, diz ela. Contudo, a música lançada algumas semanas mais tarde, High By The Beach, diz exatamente o contrário. Ela explora o fim de uma relação, o desapareceimento do amor e a solidão que se segue. O desejo de solidão mais forte que tudo na hora de terminar com a outra pessoa. Destruir, diz ela. Em suma, ela expressa o desprezo que sente por aquele que não ama mais. Ela viu Godard? Ela pensou em (Brigitte) Bardot em “O Desprezo”? Em se tratando de Lana, nada surpreende, especialmente as referências europeias, são muito fortes as ligações com outras artes além da música, como fotos, cinema. Enfim, a terceira música revelada no fim do verão — sua favorita, aparentemente — se ajusta à maneira de um post scriptum (observação posta no final de cartas) intimista, dando uma nova perspectiva à história delineada nos dois títulos anteriores.

No coração dessa música, Terrence Loves You, ela lança essa frase que por um lado é tão clichê, mas também muito pungente quando dita por ela: “I lost myself when I lost you” — Eu me perdi quando perdi você. E como que para se agarrar em alguma coisa, ela canta também, no mêsmo fôlego, essa outra frase, “Hollywood legends will never grow old”, o que diz muito sobre o que a obceca: as lendas, o glamour, a Los Angeles mítica dos anos 30 aos 50. E se Lana, em 2015, fosse um eco do que Billy Wilder filmou em Crepúsculo dos Deuses? A própria representação do que significa ser um ídolo, com sua beleza monolítica, seus erros, suas contradições e sua fragilidade inerente. E se Lana fosse a última daquelas mulheres que fizeram Hollywood? E se Lana, mais que uma cantora, fosse uma atriz, a última das atrizes da mítica Hollywood?

Nós gostamos de “ser” Lana e odiamos ao mesmo tempo. Suas letras podem expressar indubitavelmente alguém que não ama o suficiente, ou a nós mesmos, a vergonha dessa vulnerabilidade. Ela é essa mulher-vítima e ainda assim amante, que era odiada por nós ou que nós procuramos nos outros, alguém como ela, seja por tédio, ou por buscar algo mais eletrizante em outro lugar. “Eu busco transcender a morte”, ela disse. Ela condensa a alquimia perturbadora do livro Blonde, de Joyce Carol Oates, que nós amamos odiar [livro sobre crônicas da vida interior de Marilyn Monroe] — ela sabe que não pode viver sem as emoções e sem os homens. Ela tem essa coisa intrisecamente antifeminista e intrinsecamente feminista ao mesmo tempo. Lana, não duvido, escolheu estar no lugar de uma pin-up distorcida, de uma Marylin em minishorts rasgados, e finge, sem qualquer constrangimento, sua falsa estupidez. Ela se ergueu uma imperatriz solitária de um reino de romantismo abandonado, vítima de sua aparência que esconde uma inteligência afiada, sensível à situação das mulheres com seu coração pesado e seus grandes lábios. Ela tem a humildade de zombar de sua própria loucura, canta “Born To Die” por ironia enquanto seus clipes são vistos mais de 100 milhões de vezes. Nós somos sempre os instigadores de nossas próprias paixões, nós decidimos sempre afundar na tempestade, nós nos deleitamos para melhor nos sentirmos vivos. Isso é o que sempre nos lembra Lana. Cobaia autoproclamada, ela se entrega completamente para descobrir algo novo para a humanidade, ela está experimentando a paixão com a obsessão de um cientista.

YBlFxMSern8A cada álbum, o vício em descobertas se expande. Houve o amor à nicotina, o amor à morte e a grandes motocicletas (Born To Die), o compromisso sombrio e desiludido (Ultraviolence). No clipe de High By The Beach, ela é Gena Rowlands, sozinha face à masculinidade, a beira de uma crise de nervos em seu roupão verde desbotado. Não há mais o homem, ele não é mais que um helicóptero que ela termina por erradicar em tiros de grosso calibre, jogando com uma arma de dois gumes, a violência e o grotesco. Uma hipótese: Lana tem podado gradualmente cada um de seus discos para enfrentar uma verdade tão irremediável quanto terrível — quando se é um amante do amor, você nunca vive nada plenamente além do princípio e do fim.

Lana abre um espaço vasto, febril e pueril, aquele que nós segredamos em silêncio quando chega aquele amor desordenado. Ela é todos esses anúncios em prédios, essas estradas e painéis que cruzamos sem ver por estar com borboletas na barriga, a ponto de cair, pensando apenas em um amor e em canções dela que o ecoam. Essas linhas cinzentas das ruas e pessoas sem forma, e nós no meio, doentes e prestes a explodir de amor, as canções dela no fone de ouvido — necessariamente na cabeça, onde a intimidade se desenvolve melhor*.

*há aqui um trocadilho com a palavra “casque”, que tanto pode significar “fone de ouvido” quanto “cabeça” em linguagem popular.

Não há mais épocas marcantes e a própria Lana Del Rey não pertence a nenhuma, oscilando entre os caricaturais anos cinquenta e a pin-up do gueto, citando tanto Elvis quanto A$AP Rocky. Pois neste mundo guiado pela emoção, não há mais, de certa forma, uma temporalidade ou gênero. O que importa definitivamente é apenas uma coisa: a busca do amor perfeito. Aquele que entra em colapso sobre si mesmo perpetuamente. Lana fala sobre isso e inventou um hábitat sublime para pessoas muito inseguras*, com quem ela compartilha todo o seu neorromantismo que não se encontra mais no abismo de sexo casual e de SMS com emoticons (apenas algumas pessoas, alguns amigos, não mais que isso).

*do francês “planches pourries” (pranchas podres): pessoas inseguras ou que já não podem receber qualquer ajuda.

Ela está nessa área onde estão nossos sentimentos mais exacerbados, em nossas noites cheias de álcool e a esperança de um sentimento de que poderia finalmente resolver tudo. É essa taça de vinho branco, de vinho tinto, de vinho muito tinto, que nos faz cair em amores. Graças a ela, este amor final e perdido em uma sociedade carente de poesia torna-se novamente possível, ele reencontrou seu brilho. Também nos agarramos febrilmente, nos mesclamos a Lana.Uma mulher mitológica de unhas bem cuidadas que consegue manter a fluência sanguínea de tudo o que nos deixa vivos por um dia ou outro — ela busca morrer e renascer nova e melhor. E escreve histórias que valem a pena serem contadas, amores que valem a pena serem vividos, mesmo que no intervalo de um olhar.

Em que estado de espírito você estava quando gravou esse novo álbum?
Eu comecei a gravá-lo quando eu estava mixando o “Ultraviolence”. A mixagem desse álbum tomou bastante tempo, e foi bom, naquele momento, começar um novo processo criativo. Meu humor estava muito bom no começo, então eu fiquei meio introvertida quando perguntei a mim mesma como eu terminaria o álbum.

Você queria um álbum conectado ao jazz. Você realmente o concebeu dessa forma?
Eu acho que sim. De certo modo, as faixas Honeymoon, Terrence Loves You, God Knows I Tried e o cover de Don’t Let Me Be Misunderstood têm uma coloração azul escura [tristeza sombria] e eu tentei aumentar o ritmo do álbum nas faixas da metade dele, como Freak e Art Deco.

Honeymoon é uma das canções mais fortes…
Ela é uma das primeiras faixas que eu compus e que me sobrecarregou logo de cara. A melodia e a letras do refrão ficavam voltando na minha mente dia após dia, mas eu ficava adiando sempre que ia trabalhar no restante dela, nas harmonias… Eu acabei gravando no estúdio e ela tocou o meu ponto mais sensível rapidamente. Eu fiquei feliz por seguir meus sentimentos, mesmo com a melodia soando obscura e meio anos 30.

Suas músicas frequentemente mencionam lugares, avenidas. Qual a importância de Los Angeles na sua composição?
Os lugares que eu cito nessas novas músicas são bastante importantes para mim. Às vezes eu gostaria de ser um pouco menos precisa, mais universal, mas eu sou muito fiel a mim mesma sempre que evoco certas avenidas, ruas ou nomes de pessoas. A Wilshire Boulevard, em particular, é muito querida pra mim porque eu frequentemente paro por lá para compor. Talvez porque ela seja uma das maiores ruas de Los Angeles, ou talvez porque meu modo de socialização seja dirigindo por uma avenida congestionada e observando as pessoas.

High By The Beach e Honeymoon têm alguma relação?
Agora que você mencionou, Honeymoon foi mais uma canção pessoal na qual eu refleti sobre o meu passado — eu queria compartilhar alguns dos meus lugares favoritos e todos os meus momentos de paz comigo mesma. High By The Beach é a última canção que compus para o álbum e ela conta, lá no fundo, sobre a solidão. Eu não achei que isso seria uma conexão entre essas duas faixas, mas há essa conexão ao longo do álbum, a mesma atmosfera melódica, especialmente nas canções com um estilo mais jazz.

qE7TF6H1dpEAs referências literárias são importantes pra você. Quais escritores e artistas têm importado ultimamente?
Ginsberg me inspira tanto quanto antigamente, com o jeito livre que ele escreve seus pensamentos. Eu amo Emily Dickison, Miles Davis, The Moody Blues, Leonard Cohen, e principalmente Bob Dylan. Federico Fellini e Picasso também.

Terrence Loves You e Honeymoon fazem parte das suas canções mais pessoais. Você quis mergulhar mais fundo em seus sentimentos? Encontrar outras perspectivas pra sua música?
Não realmente. Eu, na verdade, tive a impressão de que, depois de três músicas, eu tinha que me concentrar em algo mais surreal, e não ser muito intelectual. A partir disso, a faixa God Knows I Tried evoca a confusão que eu sentia e Terrence Loves You me atinge mais pessoalmente. Nesse álbum, eu acho que fiquei mais próxima das minhas emoções.

Terrence Loves You parece evocar uma lembrança evasiva.
Eu amo a ideia de uma lembrança que vagarosamente desaparece. É bem romântico.

Você fez um cover de Don’t Let Me Be Misunderstood: como essa música se encaixa com seus outros covers?
Eu escolho covers que também contam histórias similares às minhas, ou sentimentos que eu não teria conseguido colocar nas minhas próprias palavras. Dependendo do momento da minha vida, eu faço covers de músicas que me permitem contar coisas às outras pessoas, ou até mesmo palavras que eu gostaria de ter me ouvido dizer para consertar alguns dos meus problemas.

O clipe de High By The Beach dá a impressão de que você estava tentando proteger a si mesma do mundo lá fora. É esse o caso?
Sim.

Que impressão você tem sobre a faixa em que você colaborou com The Weeknd?
Uma boa impressão. Nós queríamos fazer algo juntos há um bastante tempo e foi uma coincidência nossos álbuns estarem sendo lançados ao mesmo tempo. Ele é uma pessoa muito talentosa.

Uma última pergunta: como você gosta das suas unhas ultimamente?
Nesse momento minhas unhas estão nem muito longas nem muito curtas, bastante limpas e sempre com um tom claro de rosa ou nude.

 

Confira as o ensaio fotográfico completo realizado em dezembro de 2014 também para a Grazia Magazine por Thomas Nutzl clicando nas fotos que ilustram o post.

 

Por Claire Touzard e Joseph Ghosn
Tradução por Mateus Santana e Raphaella Paiva

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • Raphael Kaiston

    kk Gente ele é mais fã que eu kkk socorrrooo perguntar sobre as unhas ? hum ok, mas escrever aki heheh .-. q amorzinho

  • cruel world

    Unhas de tom nude adoro inclusive se quiser me enviar algumas

  • João Vianini

    Primeiro: Eu amo vocês por terem traduzido isso. Meu francês está muito enferrujado. Segundo: Que texto maravilhoso. Terceiro: Cara, eu amo muito essa mulher.

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