‘Eu gostaria de viver sem preocupação, sem medo’, confira a entrevista concedida à revista francesa Les Inrockuptibles

por / sexta-feira, 25 setembro 2015 / Publicado emEntrevistas

Les Insrocks 2015

Como indicado antes, Lana Del Rey faz a capa da revista Les Inrockuptibles, de 16 a 22 de setembro de 2015. O photoshoot foi feito por Neil Krug, e a entrevista, por JD Beauvallet. Confira a tradução a seguir.


 

“Minha liberdade musical é palpitante”

Ela anunciou o retrato de sua música em um disco de jazz, e em seguida desapareceu dos radares. Lana Del Rey refinou ao fazer as músicas de Honeymoon, novo álbum que continua seu melancólico trabalho de desmaterialização da música pop.

Há anos, nós movemos as orelhas com discursos maravilhados sobre a desmaterialização da música, salientando com compaixão ou condescendência a pequena aldeia bárbara formada pelos resistentes do vinil. Sem mencionar a importância de perceber (até mesmo o cheiro, com capas em papelão) o conjunto de sentidos encantados pela música. Os vinis de Lana Del Rey se mostram muito bons – o Pepsi, especialmente.

Nós falamos da desmaterialização da música, certamente, mas nós não falamos o suficiente da desmaterialização da música pop. São muitos no trabalho nesse vasto projeto de purificação, de limpeza do vácuo, da ausência, do oco.

Dos cânticos neoclássicos de Max Richter a hits acima do vácuo da trap music, de diabruras eletrônicas de James Blake às músicas sentimentais e fantasmagóricas de Lana Del Rey, é como se toda uma porção da música atual tivesse pontos entregues se comunicando, como em um jogo de criança onde a forma final só se revela aos mais pacientes. Nesse jogo de rasura, de desmaterialização, Lana Del Rey continua sendo uma das artistas mais misteriosas em canções esticadas, etéreas.

Nós falamos da desmaterialização da música pop, certamente, mas não falamos o suficiente da desmaterialização da pop-star. Porque Lana Del Rey, por a termos tido várias vezes em nossa frente, não existe. Ela já nasceu Elizabeth Woolridge Grant. E acima de tudo: é um espectro. A primeira vez que nos encontramos em um pequeno piano-bar em Londres, tinha sido incapaz de falar com ela, enquanto sua aura já impunha desconforto. Mas nós olhamos para seus pés, para ter certeza de que eles tocavam o chão, enquanto ela se movia com a graça indolente e diabólica de criaturas ao encanto tóxico do filme Mars Attacks! de Tim Burton.

Ela soltou um riso de jovem menina quando, anos depois, nós a contamos o episódio. Entre menina levada e femme fatale bem sucedida, Lana Del Rey é um turbilhão, uma fraternidade de impossíveis, milhares de personalidades incompatíveis. Apesar de seus ares de papel acetinado, ela carrega a cruz de males antigos, pesados demais para ela mesma, com mortes próximas e cadáveres requintados, de seus amigos que apenas aqueles que cresceram íntimos de discos podem entender sem rir. Basta invocar na frente dela Jeff Buckley, Kurt Cobain ou Elliott Smith para compreender. Sua música, no entanto tentou retornar ao concreto, aos pés na terra.

Ao contratar Dan Auerbach dos Black Keys e seu exército de amigos com sobressalentes bíceps, Lana Del Rey tinha abandonado, ao tempo de Ultraviolence, seu material consistente, luxuoso, mas ainda esquelético, oco. Ela sonhava com simplicidade, um período de calmaria, uma pausa respiratória sob forte influência da quietude californiana dos anos Laurel Canyon, os anos hippies. Obviamente, a indiferença não era ajustada para ela e seu tormento.

Era apenas uma máscara de serenidade, que devia se quebrar. Apesar de tesouros como West Coast ou a imperial Brooklyn Baby, o álbum Ultraviolence estará longe de alcançar os triunfos de Born to Die, seu primeiro álbum verdadeiramente distribuído, lançado em 2012, após os desconhecidos e já intensos Sirens (2006) e especialmente Lana Del Ray AKA Lizzy Grant (2010), em que uma música como Yayo levava as sementes de uma discografia do futuro.

Porque o tom já tinha sido dado, apesar de uma produção por vezes excêntrica, ou até mesmo medonha  – macabra. Summertime Sadness, Born to Die, Dark Paradise, Sad Girl: os títulos das músicas de Lana Del Rey soam como um catálogo do “Reduto do mal estar”, com esse lado cru e ajoelhado de textos que tocam longe da auto piedade, longe dos pensamentos existenciais de uma pequena diva.

Nós não sabemos de onde remota o infortúnio, mas ele infiltra profundamente uma música que frequentemente se resume a um cenário luxuoso da morte, um cabaré funeral coberto com seda e cetim de prostituta.  Este universo, Lana Del Rey teve tempo para construir: na época de nosso primeiro encontro em 2011, ela nos contou como ela viveu desde a infância “em sua cabeça”, em uma bolha onde reunia alguns filmes, Scarface ou American Beauty, sempre os mesmos, os livros, Kerouac, Nabokov, Sartre, Allen Ginsberg, sempre os mesmos, e muitas músicas, sempre as mesmas, de Nina Simone, que ela retoma, à 2 Pac ou Leonard Cohen.

Nós falávamos da desmaterialização da música de Lana Del Rey. É ainda mais verdade em seu novo álbum Honeymoon, onde a música muitas vezes toma o caminho do sonho acordado, do escape, da ausência. Uma espécie de música de filme, imóvel, mas inquieta, que se confunde com a névoa, pálida e turva. Uma música de aparência indolente, mas que fecha apesar disso com a memória, que assobia no chuveiro – fria.

Um som finalmente da época, onde a lentidão, o comprimento, o torpor, a agonia personificam bem o suficiente uma forma de abandono ostentoso, de diluição final. Um descuido que contrasta fortemente com a firmeza, o aperto de uma Lana Del Rey cada vez mais no coração, às rédeas de sua música e seu negócio: é ela e só ela quem decide com quem ela fala como sua música será representada. “Não conheço melhor combinação que o instintivo e o racional” ela nos tinha avisado nos início. Ela o lembra com Honeymoon: podemos olhar primeiro a uma mulher, que poderia ser seu cérebro, sexy como mil.

Como você lidou com a incompreensão após lançar o Ultraviolence no ano passado?
Eu herdei do lado filosófico do meu pai: Se as coisas não estão muito ruins, então elas vão bem. Eu me sinto privilegiada por ser capaz de continuar fazendo o que eu amo. Eu não me importo com as críticas, mas elas alterarão a forma com que as pessoas ouvirão minha música, críticas favoráveis e negativas ecoam…

Você então precisou dessa leveza em sua vida, dessa indiferença?
De alguma forma, foi um antídoto para o que aconteceu em minha vida. Eu precisava criar um álbum que soasse exatamente como o que eu tinha em mente. Foi a única forma de preservar minha visão. Eu sempre precisei desse tipo de simplicidade. Eu senti uma indiferença real com relação à forma que a música seria recebida pelo público e ao mesmo tempo eu estava obcecada com meu ofício, minhas canções. Quando você está fazendo um álbum, sua mente está em seu melhor estado possível.

Ao seu redor, havia muitas pessoas dando suas opiniões, conselhos?
Há constantemente muitas pessoas e todas elas emitem muitas opiniões ao redor do meu álbum atual. Eu não quero desprezá-los, mas… Quando se trata de produção, da voz em particular, eu me sinto confortável apenas se eu me mantenho fiel ao que eu quero ouvir em mim. Eu não gravei o ‘Ultraviolence’ reagindo a algo ou alguém: É apenas o disco que eu queria escrever e a forma que eu queria soar.

Você se preocupa, em nome das expectativas, deparar-se com uma página em branco?
Eu me sinto muito distante destas expectativas, sem dúvidas porque a reação das pessoas à minha música permanece fundamentalmente diferente da minha. Eu me senti sobrecarregada quando em todos os lugares e todo mundo dizia que minha música era apenas tristeza extrema, até mesmo prejudicial. A melhor coisa foi fechar as persianas e continuar meu trabalho.

Você então pensou em escapar?
Sim, isso pode ser uma tentação, de várias formas possíveis… Meu cérebro e minha imaginação tendem a ir a velocidade máxima. Meus escapes são, portanto, bastante físicos. Mudar-me, por exemplo. Eu sinto a necessidade de viver coisas diferentes, neurologicamente e fisicamente… Eu sempre encontrei formas de escapar. E sem recorrer a amigos imaginários. Eu nunca tive nenhum.

Você poderia, às vezes, apenas bater a porta?
É sempre possível fugir. O grande problema é que, todos os lugares que eu vou, eu vou com a minha pessoa. Então, é complicado para eu escapar da forma que eu gostaria. Tenho sucesso em escapar em dois lugares: Quando estou na praia e quando estou dirigindo. Por muito tempo minha própria música foi minha melhor forma de escapar… Quando ela se tornou mais concreta com o passar dos anos, ela se tornou minha realidade, do que eu tentei escapar. Mesmo assim, eu tenho uma relação visceral com a música, é uma das coisas mais íntimas e naturais para mim. Em termos de prazer, eu coloco a música no mesmo nível que o sexo.

Por que a música acabou ocupando um espaço tão grande em sua vida?
Porque eu estive destinada a fazer isso. Eu me contentei a fazer o que eu devia fazer e isso invadiu minha vida totalmente. É o que acontece quando estamos no caminho certo. Até alguns anos atrás, eu considerei alguns músicos uma enorme inspiração. Eu senti muito amor por eles, mas de uma forma saudável! Eu recentemente perdi um pouco desta conexão.

Você cantou um trecho de um texto de David Bowie em seu álbum. Ele sempre esteve em seu panteão?
Às vezes, quando você canta e improvisa, frases surgem do nada… Eu espero que ele não se importe. Mas estou convencida de que as palavras dele apareceram por alguma razão, e eu nunca alterei este trecho. Ele é uma alma excitante. Ele vem de um período extraordinário, com toda aquela música, a arte, a energia da época. Eu teria adorado viver nessa época, com amigos incríveis!

Em que medida a sua relação com a arte de cantar evoluiu desde que você começou?
Desde uma década, eu estava completamente imersa, com prazer, neste ofício. Lembro-me com carinho dos meus primeiros passos, mesmo que eles estejam muito longe agora… Mas, recentemente, eu me preocupava menos com estruturas e composições. Eu deixo as coisas se criarem naturalmente. Pra ser honesta, essa liberdade musical é palpitante e eu me sinto abençoada. É como se você escapasse de estruturas que até então te definiam e te evoluíam para outra dimensão psíquica, que te empurraram até os limites de sua alma, graças às palavras e às melodias…

Você é muito envolvida tecnicamente?
Em termos de sons, arranjos e produção, é fundamental para mim ser muito precisa. Em um álbum, a parte dedicada à mixagem e à masterização leva uma enorme quantidade de tempo. Com o meu produtor e meu engenheiro, sou totalmente envolvida neste trabalho. Depois que eu acabo de compor as músicas, a produção comigo evolui constantemente até o último minuto. Portanto, sou muito exigente neste aspecto também, o que me gasta muito tempo. Eu me sentia mais fluída, mais eloquente com a “linguagem da música” quando eu era mais jovem… Eu já disse muitas coisas em meus discos e eu tive muitas experiências nestes últimos dois anos, que acabaram parasitando as transmissões, as traduções entre minha inspiração e eu.

O que você mudou em seu modo de trabalho com Honeymoon?
Não mudei muito. Não perdi tempo à procura de um segundo produtor para interromper o som do álbum do jeito que tinha começado. No ano passado, eu fiz tudo com Rick Nowels antes de levar este álbum (Ultraviolence) para Dan Auerbach. Dessa vez, eu fiquei no estúdio com Rick e terminamos tudo juntos. Ele é ao mesmo tempo o meu parceiro e um amigo querido.

Qual palavra ou ideia definiria a estética deste novo álbum?
A canção ‘Honeymoon’ definiu o tom, junto com ‘Music To Watch Boys To’. Eu adoro o conceito de “lua de mel”. É o pico de uma relação romântica… Deveria ser o momento mais bonito da vida de uma mulher… Eu provavelmente tentei tornar minha vida mais bonita do que era. Todos os sentimentos, todas as preocupações que eu sinto, todas as perguntas que me fizeram sobre o futuro influenciar as palavras. É muito claro, mas também tem as melodias… Eu não sinto influências externas para este álbum a não ser jazz e trap music, que marcaram a produção de ambas as músicas.

Você se lembra do seu primeiro violão?
Meu tio Tim me emprestou o dele, mas eu não fiquei com ele, deixei-o na casa dele.

De onde vem sua nostalgia?
Estou pensando o tempo todo. Sou um pouco contemplativa. Minha paixão por belos filmes, sem dúvida, explica porque minha estética poderia ser definida como a da nostalgia… Eu também sou muito romântica: a combinação de tudo isso é talvez chamado de nostalgia. Eu prefiro pensar que eu só tenho um gosto muito bom! Será que eu um dia eu vou compor minha própria trilha sonora? Quem sabe, talvez isso esteja escrito no meu futuro…

O que você gostaria de mudar em você?
Eu gostaria de viver sem preocupação, sem medo.

 

Por JD Beauvallet
Tradução por Carol P Carrasco, Cristine Sol, Glauberth Viana e Guilherme Lewer
Revisão por Mateus Santana

Redação LDRA
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