Confira o artigo de Brea Tremblay sobre sonhos, amadurecimento e Lana Del Rey no The Daily Beast

por / sábado, 19 setembro 2015 / Publicado emNotícias

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A jornalista Brea Tremblay fez um post no site The Daily Beast assim que o Honeymoon foi lançado relembrando umas das primeiras entrevistas de Lana, anda como Lizzy Grant, que foi feita por ela. Confira a seguir a tradução do artigo.


 

OS DIAS DE TRAILER DA LANA DEL REY: MEUS MOMENTOS COM LIZZY GRANT

Eu gravei esse vídeo com Lana Del Rey quando ela era só Lizzy Grant. Vê-lo me lembra que sonhos se tornam realidade, se eles são flexíveis o suficiente para incluir humilhações fortes.

Lana Del Rey lançou um novo álbum ontem. Honeymoon é, claro, sonhador e dramático, encharcado de referências americanas e nostalgia, cravado com uma violência glamourosa e absurda extravagância. É o hino perfeito para um momento específico na vida de uma pessoa específica – meninas e meninos que precisam de uma trilha sonora para os sonhos acordados bem equipados e nebulosas manhãs de reflexão.

Toda vez que ela lança algo novo, eu revejo um vídeo antigo de nós andando sem rumo em um estacionamento de trailers em Nova Jersey em uma manhã fria há muitos anos atrás. Lana se chamava Lizzy naquela época, e Lizzy está animada, usando uma fofa jaquetinha de seda e totalmente despreocupada com o clima. Eu estou entrevistando ela, empacotada em um casaco de lã e um chapéu feio que eu tenho desde a sétima série.

Nós passamos por um trailer cercado por fitas policiais.

“Aconteceu um crime aqui recentemente?” Eu perguntei. Minha voz é aguda e baixa, é como eu falo quando estou nervosa. Eu nunca havia conduzido uma entrevista antes.

Molly está filmando a gente e ela é terrível nisso. O vídeo balança e treme à medida que ela anda e ri. Molly era uma amiga de uma amiga, uma garota descolada que morava em um belo e destruído apartamento em Williamsburg e sempre tinha ótimas roupas e namorados charmosos. Eu me juntei a ela em um jantar de Dias De Ações De Graças no seu apartamento uma vez, onde ela recheou o peru com trufas pretas e eu tive uma conversa fiada constrangedora com um homem que tinha uma tatuagem da Britney Spears que cobria todo o braço.

No vídeo eu falo “Estamos em Nova Jersey”

“Nós estamos, graças a deus”, Lizzy ri.

Nós andamos pela gravação, anos mais jovens, estúpidas e inocentes, usando roupas que nós não temos mais, voltando para apartamentos e empregos que não existem mais. Pessoas normais estão caminhando na beirada do vídeo, e eu lembro deles propositalmente ignorando a gente.

Molly ficava gritando “Corta!” Como se aquilo fosse algo para valer.

Foi uma época terrível para mim.

Eu tinha acabado de largar a música. Desde corais infantis à musicais adolescentes e coisas de cantor-compositor no começo dos meus 20 anos, toda a minha identidade tinha sido construída no meu sonho de me tornar um músico famoso. Algumas vezes, no meu atual trabalho, eu recebo currículos que começam com “Esse tem sido meu sonho desde sempre”. Eu era esse tipo de babaca.

O problema era que eu não era nem um pouco boa.

O mundo não tentou esconder isso. Eu não estava progredindo como meus talentosos amigos, os quais estavam começando a conseguir reconhecimento com produtores e audições – mas demorou para mim uma quantidade embaraçosa de tempo para perceber isso, a noção estava crescendo sem ser notada no fundo do meu cérebro como uma massa alienígena.

A noite em que eu percebi pela primeira vez que eu tinha que desistir foi devidamente dramática.

Eu era amiga de um cara na indústria musical chamado Bob. Ele tinha sido o tocador de teclado de uma banda que saiu em uma tour com o Aerosmith – ou alguém como o Aerosmith – nos anos 70 e eu tenho quase certeza que ele tocou com Stevie Nicks durante os anos de solos de cocaína em Los Angeles. Ele tinha óculos únicos e cinco ex-esposas. Ele se cercava de meninas cantoras-compositoras – eu era uma, e também era um bando de meninas que nunca ficaram famosas, mas Lizzy também estava lá e assim como Stefani Germanotta, entretanto ela já se chamava de Lady Gaga naquela época. Eu acho. Eu não tomei nenhuma nota porque eu não tinha ideia que valia a pena lembrar depois.

Bob apresentava shows em um local em Manhattan criado por um ator famoso para ele conhecer garotas. E funcionou – o ator se casou com uma das bartenders – e desde então o lugar foi fechado e reformado para algo mais amigável e familiar.

Para ser sincera, isso nunca foi tão tenso, sexy, ou estranho assim. Algumas vezes no Tumblr eu vejo crianças falando dos anos mais recentes da carreira da Gaga como se fosse os velhos e maus tempos de Nova Iorque, como se nós tivéssemos nos arrastado pelo Lower East Side com agulhas espetando nossos ombros, fazendo truques por cordas de violão.

Por favor. Todo mundo usava botas Uggs.

Enfim, eu estava sentada nesse local, bebendo vodka barata caseira pura porque era isso que eu bebia naqueles dias, porque eu não era boa em controlar problemas e eu não gostava de nada se misturando com o meu álcool. Eu estava assistindo Stefani se contorcer pelo palco. Ela iria ser famosa. Até eu sabia disso e eu tenho os piores instintos sobre a indústria musical que existe. Quando Stefani falou que ela iria escrever mais dance music eu desaprovei, porque nós estamos em recessão e as pessoas não gostam de dance music em recessões. Eu havia visto um pouco de Por Trás da Música.

Em um universo alternativo, “Just Dance” não existe porque algum idiota me escutou.

Mas neste universo, claramente Stefani seria grande coisa. O aposento estava lotado de gerenciadores de talento pelos cantos da sala, inclinandos para frente, suando nas suas camisas abotoada até o colarinho e nos seus jeans rasgados artisticamente, prontos para assinar cheques.

Eu estava sentada perto de Lorraine que era uma compositora.

“Então, eu estava falando com meu agente outro dia, ” Lorraine começou como se nós estivéssemos conversando à bastante tempo.

“Sim. ” Tomo um gole.

Como dizia o mito, Lorraine tinha sido contratada por uma gravadora cristã contemporânea no começo dos anos 90, tudo pronto para ser a próxima grande estrela multifacetária, até que eles descobriram que ela estava vivendo no pecado com um homem judeu e desistiram ela. Eles mantiveram ela por perto como compositora e ela escreveu um grande hit para DC Talk, ou Jars of Clay, ou alguém assim, mas ela queria ser uma estrela com sucesso próprio.

“Ele disse que ter cinquenta anos agora é como ter vinte”. Ela passou gliter nas suas pálpebras e o gliter estava descendo para o seu rosto, se acumulando nas suas rugas. “Eu digo, faz sentido. Nós estamos vivendo mais. Nós estamos alcançando o sucesso mais tarde. ”

Mais um gole de vodka. Um bem grande.

“Eu vou começar uma banda,” Lorraine disse.

Foi aí que eu sabia que já era hora. Todos esses gerenciadores de talento enchendo o aposento já eram passado para mim. E se eu não fosse ser como Stefani, minha única opção era ser como Lorraine, na metade da minha vida, ainda esperando alguma aceitação que cada vez mais estava improvável de vir.

Eu desisti. A indústria musical se lamentou.

A indústria musical não se lamentou.

Ninguém havia notado, na verdade, eu só escapei escondido do paraíso sem contar a ninguém. Eu estava envergonhada. Eu fui a primeira no grupo a desistir, a primeira a balançar a bandeira branca, e eu deveria ter perseverado porque é isso que você faz quando se tem um sonho. É isso que você faz quando você realmente quer algo. Você batalha anos após ano, como Lorraine, desesperançosamente fiel, mesmo que você não tenha nada para lhe sustentar do que o próprio sonho.

Eu estava vagando pelo computador, agitando os braços e aceitando qualquer coisa promissora para uma nova North Star criativa, quando eu fui incluída em um grupo de e-mail da Molly perguntando se alguém tinha alguma ideia para entrevista.

O sonho da Molly era escrever. Ela estava fazendo isso acontecer sendo a editora de um site para uma revista que tinha sido muito, muito descolada na década de 90 e estava tentando reinventar a si mesma como a nova Gawker. Eu li o seu e-mail e pensei, se pelo menos eu pudesse voltar no tempo e refazer toda a minha vida e talvez então tornar o meu sonho escrever. Eu mesmo assim respondi ela, me sentindo uma fraude, para ver se talvez ela estivesse interessada em uma entrevista com a minha amiga Lizzy que estava para lançar um álbum.

Molly perguntou se a gente podia filmar um vídeo também. Vídeos seriam a próxima tendência. Lizzy estava vivendo em um estacionamento de trailers enquanto trabalhava no seu álbum, então talvez nós poderíamos filmar lá? Lixo de gente branca de baixo estatuto social também seria a próxima tendência.

Ela não questionou minhas credenciais ou riu na minha cara. Eu fiz essas coisas, silenciosamente, a mim mesma, porque isso passava uma sensação de punição, por largar algo que eu amava e queria por algo que eu nem tinha certeza que gostava.

Eu perguntei a Lizzy se ela topava fazer um vídeo.

“Claro”, ela disse. Porque ela sempre foi, fundamentalmente, uma boa pessoa.

“Que tal 9h da manhã no Domingo? ” Ela sugeriu, porque ela também era fundamentalmente uma pessoa estranha. Ir para o inferno gelado que era Nova Jersey às 9h da manhã em um domingo de inverno parecia apropriado para ela.

De todas as garotas do Bob, Lizzy era a minha favorita. Nós fomos para a mesma faculdade – campus diferentes, mas mesmo assim, a mesma escola. Nós duas gostávamos de Coney Island e a antiga Nova Iorque. Ela tinha um jeito particular de articular suas consoantes que fazia suas letras soarem muito significativas, o que eu gostava.

E ela era talentosa. Eu tinha as demos de todo mundo, mas as da Lizzy eram as únicas que eu realmente escutava. Eu certamente não escutava às minhas próprias – eu estava tentando soar como Leonard Cohen, mas minhas canções saiam como uma Jewel requentada. Se você alguma vez se deparar com aquelas faixas, você deveria pular elas também.

O estacionamento de trailers ficava perto de uma rodovia, atrás de um Dunkin Donuts barato. Lizzy estava esperando em uma área de estacionamento quando chegamos lá. Eu parei para comprar um café para segurar no vídeo porque eu estava congelando e nervosa, e minhas mãos estavam tremendo um pouco. Antes de começarmos a filmar, ela pegou a minha mão desocupada e a apertou meus dedos, forte.

Eu fiz perguntar terríveis no vídeo. Jessica Hopper de Spin as descreveu como “sem entusiasmo”, o que é o mais gentil do que ela poderia ser. Na noite anterior, eu estava nervosa demais para dormir então eu andei até a Pennsylvania Station às 3h da manhã e fiquei em uma Hudson News lendo todas as suas revistas como se eu pudesse absorver conhecimento de como entrevistar por osmose, até que o balconista acordou e grito comigo.

No vídeo, Lizzy está usando glamorosos cílios falsos e cartunescos.

“Me fale sobre esses cílios,” Eu pergunto na tela.

“Eu só posso dizer que eu não seria nada sem eles” Lizzy dá risadinhas. Meus próprios cílios estavam congelados na minha bochecha. Eu ponho meus óculos escuros, que ficaram ridículos no vídeo. Tudo está ridículo no vídeo.

Mais tarde, nós todas pegamos o trem juntas e preenchemos o espaço entre Nova Jersey e Nova Iorque com coisas casuais de mulheres nos seus vinte anos. Molly gostou das minhas botas, eu gostei do corte de cabelo dela, nós duas gostamos da jaqueta de seda de Lizzy. Nós todas deveríamos sair juntas, tomar um café e talvez fazer um clube de leitura. Todas nós precisávamos ler mais.

E então nós voltamos para o mundo – eu, um fracasso e as outras duas caminhando nobremente para o estrelato. Vá confiante em direção aos seus sonhos! Se você pode sonhar algo, você pode atingi-lo!

Claro, tudo isso se corrompeu.

O sonho da Molly acabou quando ela se cansou de Nova Iorque, saiu do seu emprego e se mudou para uma vida de determinações. Ela estudou advocacia, aprendeu espanhol e se tornou uma advogada de imigrações em Arizona.

O primeiro álbum da Lizzy fracassou – antes do sucesso, da aclamação e da bolsa Mulberry com o seu nome, ela era um fracasso. Quando ela começou a criar sua magnífica e bem planejada Lana Del Rey, eu torci o meu nariz e disse “eu não entendo”, porque novamente, tenho terríveis, terríveis mesmo, instintos para a indústria da música. Aconteceu que Lana deu certo, mas Lana saiu de uma cratera.

E eu sou uma escritora e editora. Isso nunca foi melancólico, uma brilhante persuasão de um sonho do jeito que a música era. Escrever é muito mais como um objetivo fluido, crescendo maleavelmente para caber em qualquer momento da minha vida, quanto dinheiro eu precisava, quem queria me contratar, qualquer besteira que eu acabasse achando interessante em alguma ocasião. É um plano de adultos. Eu era muito estúpida para perceber no momento, mas a necessidade da destruição do meu sonho de infância não foi uma violenta traição a mim mesma; foi uma parte normal e saudável de amadurecimento.

Eu clico em tocar novamente e nós andamos pela tela novamente. Tudo sobre aquele período em minha vida está em tons de sépia de forma natural – os locais que eu toquei não existem mais, os músicos com quem eu andava estão dispersos, mas eu realmente só me sinto nostálgica pela gente, essas doces idiotas queimando o nosso filme para a posteridade. Elas estavam no vídeo, tentando arduamente, se arremessando para frente em um certo fracasso e prestes a melhorar a partir disso.

Por Brea Tremblay
Tradução por Marcela Oliveira

Redação LDRA
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