ANÁLISE | Clipe de Music To Watch Boys To: E se as gueixas fossem feministas?

por / quarta-feira, 30 setembro 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

IMAGEM POST LDRA

O vídeo para “Music to Watch Boys to” foi uma verdadeira saga, desde que Lana começou a concepção de seu novo álbum Honeymoon, logo assim que Ultraviolence fora lançado, passando pelos modelos que participaram do clipe que começarem a dar com a língua nos dentes sobre a produção, até finalmente a arte conceitual ser revelada, a diretora comentar sobre o vídeo e ele ser lançado. Após quase um ano desde a primeira declaração de Lana, fomos presenteados com um vídeo brilhante de Del Rey, que pode facilmente se mesclar com seus já clássicos “Born to Die”, “Blue Jeans” e “Ride”.

Tudo aponta que o vídeo começou a ter suas primeiras cenas gravadas em 25 de Abril, no parque Korean of Bell Friendship, em San Pedro, Califórnia, devido às fotos que os modelos Austin Kellog, Cole Stroud e Jake Mast — que participam do clipe — postaram com Lana em suas contas do Instagram. “O estilo e a vibe do clipe são muito relaxantes. Só um monte de garotos saindo pra curtir e tendo um bom momento”, disse Cole Stroud em entrevista à revista Motley, em Junho deste ano. Também no início de Junho, o modelo Jake Mast postou uma foto anunciando que o vídeo sairia ainda naquele mês, mas o mês passou e nada de “Music to Watch Boys to”.


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Foi apenas no início de Setembro — assim que a música estreou na rádio Beats 1 — que tivemos novidades do clipe. Uma pasta com toda a arte conceitual do vídeo foi postada no Twitter e pudemos ter acesso a algumas imagens de bastidores e artistas que influenciaram o visual do clipe, revelando também que Kinga Burza era a diretora envolvida com o projeto. Burza também foi responsável pelo psicodélico “Goodness Gracious” de Ellie Goulding, os vídeos de “Oh No” e “Hollywood” de Marina and the Diamonds, além de “I Kissed a Girl”, de Katy Perry.

A capa do single foi em seguida revelada por Lana em seu Instagram, e Burza foi rápida em compartilhar, deixando registrado através de emojis os temas do vídeo.

A arte que estampa a capa serve também de abertura para o clipe, que é inspirada no trabalho da artista contemporânea sino-americana Yee Wong, que utiliza recursos incluindo arte midiática,stilllife digital, design gráfico, tanto em duas dimensões como em três dimensões. Sua arte captura objetos de natureza incomum usados na vida diária, e é através disso que expressa suas emoções. A obra que inspirou Lana se chama “Disco in the Jungle, On” de 2012, e faz parte da série Still Life. A peça experimenta com diferentes texturas, iluminação e reflexo. Um sinal neon é pendurado no meio do set e o ambiente é criado ao redor dele. Essa mistura de cultura pop moderna e natureza deve agir como uma contradição, mas Wong consegue criar harmonia entre esses dois temas através de iluminação e textura. Agora não temos informação se Lana pediu uma peça comissionada por Yee Wong para seu vídeo ou se sua equipe o confeccionou.

A cena que abre o vídeo, em que Lana está reclinada sobre uma chaise em meio a um jardim com gramofones gigantes girando como flores, faz referência provável à cena em que Stanley Kubrick nos apresenta à infante Dolores Haze, em Lolita, de 1962, com um toque da estética noir que ela tanto aprecia.

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Em seguida, temos uma cena de flamingos em seu habitat, alçando voo. Flamingos são animais que, quando acasalam, formam um forte laço entre macho e fêmea, embora, quando em grandes colônias, tendem a mudar de pares — presume-se que devido à possibilidade de casais que podem ser formados. O álbum Honeymoon marca um momento novo na vida de Lana em que ela abandona o romantismo que permeava suas músicas e abraça o realismo, tratando o amor de forma banal.


Há também cenas de garotas submersas em uma piscina. As garotas são Lana, sua irmã Chuck, as gêmeas Samantha Hunter e Bailey Hunter, e as amigas Naomi Shon e Jobie Smith. Estas cenas foram inspiradas em um ensaio fotográfico do colaborador regular e amigo de Lana, Neil Krug, que nunca chegou a ser lançado oficialmente, chamado “Pale Fire”.


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Lana e as garotas nadam seminuas, trocam carícias e beijos, etéreas, como se fossem ninfas — e importante, largecoloridas. Justapostas, aparecem imagens de garotos jogando basquete, em preto e branco. Os garotos são os modelos Austin Kellog, Cole Stroud e Jake Mast, junto com o ator e cunhado de Lana, Keegan Allen. Aqui é possível entender a mensagem que Lana quer transmitir através do vídeo. A valorização das mulheres é evidente. Lana realmente está assistindo os garotos jogarem basquete, assim como homens observam mulheres fazendo coisas cotidianas com interesse e malícia. Os papéis aqui são invertidos.

Lana aparece também tocando um violão estilizado e vestindo um quimono simples. São duas referências ao Japão, essa segunda à moda japonista. A primeira faz referência às gueixas. “Geiko”, em japonês, significa literalmente artista. Gueixas são ícones japoneses de sutileza, força e graça. Uma das artes que uma gueixa precisa se especializar é na arte de tocar um instrumento chamado shamisen (três cordas, em português), uma espécie de banjo. Lana faz referência à essa tradição.

GEISHAS
Lana também aparece usando um fone de ouvido decorado com flores enormes, além de brincos de flores também. Gueixas costumam usar de adorno em seus cabelos as flores japonesas. É dito que elas não conseguem viver na mesma realidade que a nossa, e que vivem em um universo paralelo, que elas chamam de karyukai, ou a flor e o mundo do salgueiro.

Em Honeymoon, Lana surgiu mais dona de sua imagem do que nunca, mais feminista e mais no controle da situação. Talvez ela fosse todas essas coisas antes, mas nunca teve a necessidade de deixar isso tão claro para seu público. Tanto o vídeo para “High by the Beach” como este para “Music to Watch Boys to” mostram Lana como uma mulher no controle. Nesse último, ela atesta o óbvio com uma mudança. Ela está sim assistindo os rapazes, mas também está se apoderando de uma imagem construída por um homem — Nabokov e Kubrick — e de um personagem masculino — Humbert Humbert — e se cercando de colaboradoras femininas para o projeto. Não esqueçamos que Kinga Burza foi responsável por um dos vídeos mais controverso da década passada, que esta é a primeira diretora mulher com quem Lana trabalha, sempre cercada por homens, produtores e diretores. Lana se apropria da cultura japonesa com estilo e sutileza, como uma verdadeira gueixa faria. Ela inverte os papéis e vira o jogo.

Como seria se as garotas passassem a observar os garotos? Agora sabemos.

Lucas Almeida
Leonino, paulistano, escritor, tradutor, poeta, atua em teatro musical por sonho, canta para espantar a tristeza. Apaixonado por cinema, música, literatura e moda, conheceu a Lana no início de 2012, quando assistiu o clipe de Blue Jeans. Acredita que Carmen foi escrita para Miley Cyrus em um ato de clarividência de Lana Del Rey. Está em busca de um Humbert Humbert para, finalmente, poder exercitar o papel de Lolita.
  • Leonardo Colato

    Adoro as análises do site, são muito detalhadas <3

  • Cristine Sol

    Aff, a análise ficou perfeita ♥

  • leandro mello

    Essa análise do clipe ficou incrível <3333

  • ✨ blue unicorn ✨

    Adorei a análise, parabéns! Na análise vocês dizem que a Kinga Burza foi responsável por um dos vídeos mais controverso da década passada, eu gostaria de saber qual é esse vídeo.

    • Lucxs

      É o clipe da Katy Perry para “I Kissed a Girl”. Tanto o clipe quanto a música foram alvo de bastante críticas em 2008. =D

  • Víctor Siqueira
    • Thiago Percides

      A notícia é de 06/06/2014. Já se passaram precisamente 1 ano, 4 meses e 6 dias desde a publicação da mesma. Você sabe que as pessoas mudam de opinião, né?

      • https://instagram.com/morphine58/ morphine58

        Lana não fez nenhum comentário sobre tal assunto desde então, o que mostra que ela não mudou de opinião.

  • https://instagram.com/morphine58/ morphine58

    Análise realmente surpreendente, porém, em 2014, Lana deixou claro que NÃO é feminista, que esse assunto não é de seu interesse. Na minha opinião, ela não quer passar um papel feminista para as pessoas, simplesmente mostra que como os garotos observam garotas em suas atividades cotidianas (ou não), as garotas também mostram interesse em observar o sexo oposto.

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