ICONIC SOUL | T. S. Eliot: O poeta metafísico que inspirou Lana Del Rey de ‘Lune de Miel’ a ‘Burnt Norton’ – Parte 2

por / domingo, 30 agosto 2015 / Publicado emAnálises, Colunas, Iconic Soul

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Prontos para a segunda parte da nossa Iconic sobre T.S Eliot? Se você perdeu a primeira parte, nós falamos de como o poema Lune de Miel inspirou ‘Ultraviolence’ e ‘Honeymoon’ — você pode ler AQUI. E agora iremos falar de Burnt Norton e os três poemas que fazem parte dos Quatro Quartetos de Eliot, mostrando o quanto Lana Del Rey o usou de inspiração antes de decidir colocá-lo como oitava faixa do álbum que está por vir, narrado por ela mesma.

Senhoras e senhoras, preparem-se!

Como já dito, os Quatro Quartetos — considerado uma das grandes obras primas de Eliot — é um conjunto de quatro poemas escritos num período de seis anos, maioria deles entre a Segunda Guerra Mundial, sendo eles Burnt Norton, East Coker, The Dry Salvages e Little Gidding. A coletânea aborda uma sequência que discute a definição do tempo e a transcendência do ser humano em sua trajetória por sabedoria e redenção, onde cada um dos poemas é permeado por um dos quatro elementos fundamentais da natureza — ar, terra, água e fogo respectivamente. É uma espécie de quatro meditações interligadas que discutem a relação do homem com o tempo, com o universo e com as forças divinas.

O autor, em sua magnitude literária, soube discutir temas extremamente complexos — e até opostos — de um jeito respeitoso e transcendental, citando as belezas cósmicas com a filosofia mística e as religiões do ocidente e oriente. Uma mente à frente de seu tempo e que ainda parece estar à frente de nós mesmos.

            Cada um dos poemas contém 5 seções, todas elas se conectando de alguma forma, onde a ideia central de Eliot seria expor a poesia como uma expressão do pensamento — que aqui ele chama de “sabedoria” — vagando entre o saber temporal e espiritual. Assim, em suas próprias palavras, ele cria a “poesia pensante” a fim de ver a criação “de um novo tipo de intelectual que combinasse o intelectual e o devocional — uma nova espécie que não pode ser criada apressadamente”.

— Eu li que, na faculdade, você estudou meios de provar matematicamente a existência de Deus. Chegou a alguma conclusão?

— (Risos) Não. Existem diferentes ramos da metafísica. Cosmologia e cosmogonia é meu ramo, e estudava as origens do universo e como a realidade veio a se tornar real. Metafísica ainda é mais perguntas que respostas, mas basicamente há um conceito chamado de “Teoria de Tudo” que tenta descobrir como o universo se originou. Eles estão se aproximando cada vez mais da resposta. — Lana Del Rey em 2011 para a i-D Magazine

            Com uma estrutura semelhante à forma musical (com exposição do tema, desenvolvimento, variação e retomada final), Eliot atingiu essa definição de intelectualidade e espiritualidade em termos metafísicos. O primeiro canto de cada quarteto, então — principalmente Burnt Norton — viria como uma apresentação à paisagem da meditação, cheia de tensões espirituais e filosóficas onde tempo e atemporalidade são tratados e discutidos como tema central. A segunda parte seria uma “geografia do interior da alma”, o terceiro, o aconselhamento sobre a disciplina interespiritual cujo objetivo seria basicamente conservar eternamente a memória através da completa entrega do homem, enquanto o quarto segmento traz uma espécie de purgação e a parte final consiste na reconciliação do homem e das forças cósmicas enquanto tudo o que foi discutido é repassado.

            E aqui o tempo é visto como “irredimível” e problemático, onde a eternidade é real e bela, mas viver sob a influência do tempo é um problema. E nos Quatro Quartetos a realidade do tempo se associa aos pensamentos da física quântica de que a realidade é relativa, é criação da mente humana — e, com isso, passado, presente e futuro se misturam, sendo o tema principal do primeiro poema, Burnt Norton.

                         I

O tempo passado e o tempo presente

          Estão ambos talvez presentes no tempo futuro

          E o tempo futuro contido no tempo passado.

Se todo tempo é eternamente presente

Todo tempo é irredimível.

O que poderia ter sido é uma abstração

Que permanece, perpétua possibilidade,

Num mundo apenas de especulação.

O que poderia ter sido e o que foi

Convergem para um só fim, que é sempre presente.

Ecoam passos na memória

Sob as galerias que não percorremos

        Em direção à porta que jamais abrimos

        Para o roseiral. […]

I

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstração
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisíveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham a aparência de flores que são contempladas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, refletidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente… contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: a raça humana
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.

II

Alhos e safiras na lama
Coagulam o eixo fixo.
O arame que vibra no sangue
Canta sob inventeradas cicatrizes
Apaziguando guerras há muito esquecidas.
A dança ao longo da artéria
A circulação da linfa
Estão representadas no rumo dos astros
Elevam-se ao verão na árvore
Nós movemo-nos acima da árvore em movimento
Na luz sobre a folha imaginada
E ouvimos no solo molhado
Lá em baixo, o cão de caça e o javali
Prosseguirem o seu ciclo como antes
Mas reconciliados no meio dos astros.

No ponto morto do mundo em rotação. Nem carne nem
espírito;
Nem ‘de’ nem ‘para’; no ponto morto, aí está a dança,
Mas nem paragem nem movimento. E não se chame a isso
fixidez,
Onde o passado e o futuro se reúnem. Nem movimento ‘de’
nem ‘para’,
Nem ascensâo nem declínio. Se não fosse o ponto, o ponto
morto,
Não haveria dança, e há só a dança.
Eu apenas posso dizer, estivemos ali: mas não posso dizer onde.
E não posso dizer por quanto tempo, pois seria situar isso no tempo.
A liberdade interior do desejo prático,
A libertação de ação e sofrimento, libertação da compulsão
Interior e exterior, e no entanto tendo à volta
Uma graça de sentido, uma luz branca em repouso e em movimento,
Erhebung sem movimento, concentração
Sem eliminação, ao mesmo tempo um novo mundo
E o velho tomado explícito, compreendida
No remate do seu êxtase parcial
A resolução do seu horror parcial.
Todavia o encadeamento de passado e futuro
Tecido na fraqueza do corpo em mutação
Protege a humanidade do céu e da danação
Que a carne não pode suportar.
O tempo passado e o tempo futuro
Apenas concedem um pouco de consciência.
Estar consciente é não estar no tempo
Mas apenas no tempo podem o momento no roseiral,
O momento no caramanchel onde a chuva batia,
O momento na igreja desabrigada ao entardecer
Ser lembrados; envolvidos em passado e futuro.
Apenas pelo tempo o tempo é conquistado.

III

Este é um lugar de desafeição
O tempo antes e o tempo depois
Numa luz sombria: nem luz do dia
Investindo a forma de lúcida quietude
Transformando a sombra em beleza efêmera
Com vagarosa rotação sugerindo permanência
Nem escuridão para purificar a alma
Esvaziando o sensual pela privação
Purificando a afeição do temporal.
Nem plenitude nem vazio. Apenas um tremeluzir
Sobre os rostos tensos devastados pelo tempo
Distraídos da distração pela distração
Cheios de fantasias e vazios de sentido
Túmida apatia sem concentração
Homens e pedaços de papel remolnhando no vento frio
Que sopra antes e depois do tempo,
Vento que entra e sai de pulmões viciados
Tempo antes e tempo depois.
Eructação de almas doentias
No ar desbotado, os miasmas
Levados no vento que varre os sombrios montes de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Hihgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo de agitadas vozes.

Desce mais, desce apenas
Ao mundo da solidão perpétua,
Mundo não mundo, mas aquilo que não é mundo,
Escuridão interna, privação
E destituição de toda a propriedade,
Dissecação do mundo do sentido,
Evacuação do mundo da fantasia,
Inoperância do mundo do espírito;
Este é um dos caminhos, e o outro
É o mesmo, não em movimento
Mas abstenção de movimento; enquanto o mundo se move
Em apetência, nos seus caminhos metalizados
Do tempo passado e do tempo futuro.

IV

O tempo e o sino enterraram o dia,
A nuvem negra arrebata o sol.
Irá voltar-se para nós o girassol, a clematite
Desprender-se, debruçar-se; irão a gavinha e a vergôntea
Unir-se e aderir?
Os frígidos
Dedos do teixo descerão
Para nos envolver? Depois da asa do alcião
Ter respondido à luz com a luz e calar-se, a luz está em repouso
No ponto morto do mundo em rotação.

V

As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Apenas pode morrer. As palavras, depois de ditas,
Alcançam o silêncio. Apenas pela forma, pelo molde,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, tal como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente no seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim precede o começo,
E que o fim e o começo estiveram sempre ali
Antes do começo e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras deformam-se,
Estalam e quebram-se por vezes, sob o fardo,
Sob a tensão, escorregam, deslizam, perecem,
Definham com imprecisão, não se mantêm,
Não ficam em repouso. Vozes estridentes
Ralhando, troçando, ou apenas tagarelando,
Assaltam-nas sempre. O Verbo no deserto
É muito atacado por vozes de tentação,
A sombra que chora na dança funérea,
O clamoroso lamento da quimera desconsolada.

O detalhe do molde é movimento,
Como na figura dos dez degraus.
O próprio desejo é movimento
Não desejável em si;
O próprio amor é inamovível,
Apenas a causa e o fim do movimento,
Intemporal, e sem desejo
Exceto no aspecto do tempo
Capturado sob a fonna de limitação
Entre o não ser e o ser.
De repente num raio de sol
Mesmo enquanto se move a poeira
Eleva-se o riso escondido
De crianças na folhagem
Depressa, aqui, agora, sempre-
Ridículo o triste tempo inútil
Que se estende antes e depois.

T.S. Elliot
Quatro Quartetos
Tradução de Maria Amélia Neto
3ª edição
EDIÇÕES ÁTICA
1983 + Ivan Junqueira

I

Time present and time past
Are both perhaps present in time future
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable.
What might have been is an abstraction
Remaining a perpetual possibility
Only in a world of speculation.
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present.
Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened
Into the rose-garden. My words echo
Thus, in your mind.
But to what purpose
Disturbing the dust on a bowl of rose-leaves
I do not know.
Other echoes
Inhabit the garden. Shall we follow?
Quick, said the bird, find them, find them,
Round the corner. Through the first gate,
Into our first world, shall we follow
The deception of the thrush? Into our first world.
There they were, dignified, invisible,
Moving without pressure, over the dead leaves,
In the autumn heat, through the vibrant air,
And the bird called, in response to
The unheard music hidden in the shrubbery,
And the unseen eyebeam crossed, for the roses
Had the look of flowers that are looked at.
There they were as our guests, accepted and accepting.
So we moved, and they, in a formal pattern,
Along the empty alley, into the box circle,
To look down into the drained pool.
Dry the pool, dry concrete, brown edged,
And the pool was filled with water out of sunlight,
And the lotos rose, quietly, quietly,
The surface glittered out of heart of light,
And they were behind us, reflected in the pool.
Then a cloud passed, and the pool was empty.
Go, said the bird, for the leaves were full of children,
Hidden excitedly, containing laughter.
Go, go, go, said the bird: human kind
Cannot bear very much reality.
Time past and time future
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present.

II

Garlic and sapphires in the mud
Clot the bedded axle-tree.
The trilling wire in the blood
Sings below inveterate scars
Appeasing long forgotten wars.
The dance along the artery
The circulation of the lymph
Are figured in the drift of stars
Ascend to summer in the tree
We move above the moving tree
In light upon the figured leaf
And hear upon the sodden floor
Below, the boarhound and the boar
Pursue their pattern as before
But reconciled among the stars.

At the still point of the turning world. Neither flesh nor fleshless;
Neither from nor towards; at the still point, there the dance is,
But neither arrest nor movement. And do not call it fixity,
Where past and future are gathered. Neither movement from nor towards,
Neither ascent nor decline. Except for the point, the still point,
There would be no dance, and there is only the dance.
I can only say, there we have been: but I cannot say where.
And I cannot say, how long, for that is to place it in time.
The inner freedom from the practical desire,
The release from action and suffering, release from the inner
And the outer compulsion, yet surrounded
By a grace of sense, a white light still and moving,
Erhebung without motion, concentration
Without elimination, both a new world
And the old made explicit, understood
In the completion of its partial ecstasy,
The resolution of its partial horror.
Yet the enchainment of past and future
Woven in the weakness of the changing body,
Protects mankind from heaven and damnation
Which flesh cannot endure.
Time past and time future
Allow but a little consciousness.
To be conscious is not to be in time
But only in time can the moment in the rose-garden,
The moment in the arbour where the rain beat,
The moment in the draughty church at smokefall
Be remembered; involved with past and future.
Only through time time is conquered.

III

Here is a place of disaffection
Time before and time after
In a dim light: neither daylight
Investing form with lucid stillness
Turning shadow into transient beauty
Wtih slow rotation suggesting permanence
Nor darkness to purify the soul
Emptying the sensual with deprivation
Cleansing affection from the temporal.
Neither plentitude nor vacancy. Only a flicker
Over the strained time-ridden faces
Distracted from distraction by distraction
Filled with fancies and empty of meaning
Tumid apathy with no concentration
Men and bits of paper, whirled by the cold wind
That blows before and after time,
Wind in and out of unwholesome lungs
Time before and time after.
Eructation of unhealthy souls
Into the faded air, the torpid
Driven on the wind that sweeps the gloomy hills of London,
Hampstead and Clerkenwell, Campden and Putney,
Highgate, Primrose and Ludgate. Not here
Not here the darkness, in this twittering world.

Descend lower, descend only
Into the world of perpetual solitude,
World not world, but that which is not world,
Internal darkness, deprivation
And destitution of all property,
Dessication of the world of sense,
Evacuation of the world of fancy,
Inoperancy of the world of spirit;
This is the one way, and the other
Is the same, not in movement
But abstention from movememnt; while the world moves
In appetency, on its metalled ways
Of time past and time future.

IV

Time and the bell have buried the day,
the black cloud carries the sun away.
Will the sunflower turn to us, will the clematis
Stray down, bend to us; tendril and spray
Clutch and cling?
Chill
Fingers of yew be curled
Down on us? After the kingfisher’s wing
Has answered light to light, and is silent, the light is still
At the still point of the turning world.

V

Words move, music moves
Only in time; but that which is only living
Can only die. Words, after speech, reach
Into the silence. Only by the form, the pattern,
Can words or music reach
The stillness, as a Chinese jar still
Moves perpetually in its stillness.
Not the stillness of the violin, while the note lasts,
Not that only, but the co-existence,
Or say that the end precedes the beginning,
And the end and the beginning were always there
Before the beginning and after the end.
And all is always now. Words strain,
Crack and sometimes break, under the burden,
Under the tension, slip, slide, perish,
Will not stay still. Shrieking voices
Scolding, mocking, or merely chattering,
Always assail them. The Word in the desert
Is most attacked by voices of temptation,
The crying shadow in the funeral dance,
The loud lament of the disconsolate chimera.

The detail of the pattern is movement,
As in the figure of the ten stairs.
Desire itself is movement
Not in itself desirable;
Love is itself unmoving,
Only the cause and end of movement,
Timeless, and undesiring
Except in the aspect of time
Caught in the form of limitation
Between un-being and being.
Sudden in a shaft of sunlight
Even while the dust moves
There rises the hidden laughter
Of children in the foliage
Quick now, here, now, always-
Ridiculous the waste sad time
Stretching before and after.

            Os títulos de todos os poemas se referem a lugares que tiveram alguma forma de importância na vida pessoal do escritor, sendo Burnt Norton o nome de um castelo no interior da Inglaterra que, de fato, já fora incendiado. O mais curioso é que esse foi o exato local que, em 1934, Eliot — na época, casado — visitou com Emily Hale, mulher que era apaixonada por ele. Não se sabe se eles realmente foram amantes, mas é de conhecimento público que os dois se aproximaram e, durante os anos que se sucederam, ele passou a lhe enviar inúmeros poemas. E é claro o conhecimento de todos de que Lana Del Rey comumente se identifica como “a outra” — palavras de seu próprio monólogo no videoclipe de Ride e em seu belíssimo cover da canção ‘The Other Woman’. Esse poderia ser um dos inúmeros motivos que levou a cantora a sentir um apego um pouco maior por esse poema em especial.

            Burnt Norton, no entanto, trata da discussão sobre o sentido da vida em sua definição de tempo e salvação. Eliot enfatiza a necessidade do homem em focar no tempo presente que é o tempo universal — a consciência humana não distingue o que é passado do que é presente e do que será futuro, na mente humana tudo é presente, e assim também deveria ser a relação do homem com sua própria vida e suas próprias memórias — e, dessa forma, a humanidade seria capaz de reconhecer Deus e alcançar a redenção.

O epitáfio de Burnt Norton, inclusive, são dois excertos de Heráclito, grande filósofo pós-socrático, que trata exatamente dessa questão do tempo: “Embora a razão seja comum a todos, cada um procede como se tivesse um pensamento próprio” e “O caminho que sobe e o caminho que desce são um único e mesmo”.

            Descrito como um poema que retrata o início do verão, ele traz essa memória do jardim de rosas, o roseiral, que é uma alegoria ao Paraíso, cheio de memórias que se conectam ao passado e fantasias — novamente a ideia do tempo, dizendo que a consciência não pode ser encontrada dentro do tempo apesar de ser o que liga a humanidade. Para Eliot, as pessoas devem abandonar o mundo temporal e olhar para dentro de si mesmas. Essa ideia filosófica (e física) do tempo é muito similar ao que Santo Agostinho já aplicava, dizendo que o foco deve estar no tempo presente como sendo o único período de tempo que realmente importa, porque o passado não pode ser mudado e o futuro é desconhecido.

            Assim, Burnt Norton enfatiza que a memória deve ser abandonada para que o mundo atual possa ser compreendido e que, apesar de a consciência não ser medida pelo tempo (passado/presente/futuro) e os humanos não serem capazes de realmente fugir da relação com o tempo, é a espiritualidade que irá guiá-los rumo ao caminho certo. A conclusão se fixa na ideia de que Deus é o único ser verdadeiramente capaz de existir sem o tempo — tendo o conhecimento de todos os tempos e todos os lugares — mas a humanidade ainda é capaz de alcançar a redenção através da crença nEle e em Sua habilidade de nos livrar das forças materiais do universo.

Eu tive que enfrentar tanto a mente analítica das pessoas que me refugiei no espiritual. Eu me sinto profundamente ligada a uma forma de misticismo, eu procuro a companhia dos espíritos. Eu sempre penso na morte, ela me assombra desde a infância. Quando eu entendi o que ela era, que meus pais não estariam aqui para sempre, eu tive uma crise de histeria, foi preciso chamar um médico. Eu lembro que um dia meu pai me levou pra fazer compras por conta da volta às aulas e eu disse a ele: “Por que comprar roupas novas se vamos todos morrer?”. Eu escolhi estudar Filosofia e sou apaixonada pela Metafísica por tentarem responder essas questões. Por questionarem a minha presença na Terra, por incorporarem a ciência a essa reflexão. — Lana Del Rey em 2014 para a Les Inrockuptibles

            Lindo, não é? E faz todo o sentido dado que na Honeymoon Hotline, Lana também disponibiliza a palestra sobre as origens do universo, onde a realidade e o tempo também são discutidos. Mas o Burnt Norton ainda traz muitas coisas subentendidas que Lana já usou em outros videoclipes e momentos da sua carreira — você vai ficar surpreso! — mas antes disso, vamos fazer uma viagem rápida pelos três poemas restantes dos Quatro Quartetos rumo à mente metafísica repleta de lirismo e descrições do mundo físico e do mundo cósmico.

            O título do segundo poema, East Coker, é referência a uma pequena comunidade relacionada a um dos ancestrais de Eliot, e ele continua a discussão do tempo e traz também a desordem dentro da natureza gerada pela humanidade e sua perseguição “cabresta” pela ciência e não pelo divino. Nela, os líderes são descritos como materialistas e impossibilitados de compreenderem a verdadeira realidade, liderando as pessoas à desconexão e tornando mais distante seu caminho entre a compreensão do universo.

III

Oh escuridão escuridão escuridão. Todos eles adentrarão a escuridão,

Os vazios espaços interestelares, o vazio dentro do vazio,

Os capitães, os banqueiros, eminentes homens das letras,

Os generosos clientes da arte, os homens de estado e chefes de estado,

Distintos servos civis, presidentes de variadas delegações,

Senhores da indústria e pequenos empresários, todos adentrarão a escuridão,

E escuros o Sol e a Lua, e o Almanaque de Gota

E os Jornais das Bolsas de Valores, a Comissão Diretora dos Diretores,

E frias a sensação e a perda da motivação.

E todos nós iremos com eles, adentrando o silencioso funeral,

O funeral de ninguém, já que não há ninguém para enterrar.

[…]

Eu disse a minha alma, fique parada, e espere sem ter esperança

Porque a esperança seria esperança pela coisa errada; espere sem amor,

Porque o amor seria o amor da coisa errada; há ainda a fé

Mas a fé e o amor e a esperança estão todas a esperar. […]

I

Eu meu começo está meu fim. Em sucessão
Casas se levantam e caem, se esmigalham, são ampliadas,
São removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar
Irrompe um campo aberto, ou uma fábrica, ou uma rodovia.
Pedra velha para edifício novo, madeira velha para combustível novo,
Combustível velho para cinzas, e cinzas para a terra
A qual já é carne, pele e fezes,
Osso de homem e besta, talho de milho e folha.
Casas vivem e morrem: há um tempo para o edifício
E um tempo para viver e para gerar
E um tempo para o vento quebrar o vidro afrouxado
E para sacodir o lambril onde roedores trotam
E para sacodir o tecido da tapeçaria esfarrapada com uma frase silenciosa.
Em meu começo está meu fim. Agora as luzes decaem
Ao longo do campo aberto, deixando o caminho
Fechando com ramos, escuros na tarde,
Onde você se escora em um banco enquanto o veículo passa,
E o caminho insiste na direção
Para dentro do vilarejo, no calor elétrico
Hipnotizado. Num mormaço a luz abafada
É absorvida, sem refratar, pela pedra acinzentada.
As dálias adormecem no silêncio vazio.
Esperam pela coruja do dia.

Naquele campo aberto
Se você não chegar muito perto, se você não chegar muito perto,
Num verão à meia-noite, você pode ouvir a música
Da suave flauta e do pequeno tambor
E vê-los dançando ao redor da fogueira
a associação do homem e da mulher
Numa dança, significando o matrimônio
Um digno e amplo sacramento.
Dois e dois, uma conjunção necessária,
Segurando um ao outro pela mão ou pelo braço
Em concordância. Ao redor e ao redor do fogo
Saltitando através das chamas, ou se reunindo aos círculos,
Rusticamente solene ou numa risada rústica
Levantando os pés pesados dentro de sapatos desajeitados,
Pés de terra, pés de barro, erguidos em alegria ruidosa à região
Alegria ruidosa daqueles nutritivos milhos
Sob a terra. Mantendo o tempo,
Mantendo o ritmo de sua dança
Como se eles vivessem nas vivas estações.
O tempo das estações e das constelações
O tempo da ordenha e o tempo da colheita
O tempo do acoplamento do homem e da mulher
E das bestas. Pés subindo e descendo.
Comendo e bebendo. Esterco e morte.

O amanhecer aponta, e mais um dia
Prepara para o calor e o silêncio. Lá no mar o amanhecer toma fôlego
Enruga-se e desliza. Eu estou aqui
Ou lá, ou em qualquer outro lugar. Em meu começo.

II

O que o atrasado novembro está fazendo
Com a agitação da primavera
E das criaturas do calor veraneio,
E das campânulas-brancas se contorcendo sob seus pés
E das malva-rosas que têm o intuito de crescer
Vermelhas se tornam cinzas e desmoronam
Rosas tardias cheias da neve recente?
O trovão laminado entre as estrelas laminosas
Simula carros triunfantes
Implantados em consteladas guerras
Brigas de escopião contra o Sol
Até que o Sol e a Lua caem
Cometas derramando lágrimas e chuvas de meteoros voando
Procurando os Céus e as planícies
Turbilhando em vórtices que devem levar
O mundo ao fogo destrutivo
Que queima antes que a calota de gelo possa reinar.

Houve uma maneira de pensar nisso – não muito satisfatória:
Um estudo perifrástico em um poético costume desgastado,
Deixando um intolerável combate
De palavras e significados. A poesia não importa.
Isso não era (para recomeçar) o que se esperava.
O que era pra ter tido valor na longa expectativa,
Da longa esperança pela calma, da serenidade outonal
E da sabedoria da idade? Eles nos iludiram,
Ou iludiram a si mesmos, os anciãos de vozes suaves,
Transmitindo-nos meramente um recibo de engano?
A serenidade somente um deliberado embotamento de sentidos,
A sabedoria somente o conhecimento dos segredos mortos
Inútil na escuridão na qual eles se espreitaram
Ou das quais eles tiraram seus olhos. Há, ao que parece,
Pelo menos, somente um valor limitado
No conhecimento entregue pela experiência.
O conhecimento impõe um ideal, e falsifica,
Porque o ideal se renova a cada momento
E cada momento é uma nova e chocante
Avaliação de tudo o que tivemos. Nós somente desiludimos
Daquilo que, iludindo, não causa mais danos.
No meio, não somente no meio do caminho
mas em todo o meio, em uma floresta escura, em um espinheiro,
No limite de um brejo, onde não há um ponto de apoio seguro
E ameaçado pelos monstros, luzes imaginativas,
Arriscando encantamento. Não me deixe ouvir
Da sabedoria dos idosos, mas ao invés de sua insensatez,
Seus medos dos medos e o frenesi, ou dos outros, ou de Deus.
A única sabedoria que podemos esperar adquirir
É a sabedoria da humildade: humildade do infinito:

As casas foram todas por sob o mar.

Os dançarinos foram todos por sob a colina.

III

Oh escuridão escuridão escuridão. Todos eles adentrarão a escuridão,
Os vazios espaços interestelares, o vazio dentro do vazio,
Os capitães, os banqueiros, eminentes homens das letras,
Os generosos clientes da arte, os homens de estado e chefes de estado,
Distintos servos civis, presidentes de variadas delegações,
Senhores da indústria e pequenos empresários, todos adentrarão a escuridão,
E escuros o Sol e a Lua, e o Almanaque de Gota
E os Jornais das Bolsas de Valores, a Comissão Diretora dos Diretores,
E frias a sensação e a perda da motivação.
E todos nós iremos com eles, adentrando o silencioso funeral,
O funeral de ninguém, já que não há ninguém para enterrar.
Eu disse a minha alma, fique parada, e deixe a escuridão vir até você
A qual deve ser as trevas de Deus. Assim como, no teatro,
As luzes são extintas, para a mudança de ato
Com o oco ressoar de asas, movimentando-se das trevas sobre as trevas,
E nós sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama
E a fachada audaciosa e imponente estão todos sendo afastados-
Ou assim como, quando um metrô, nos trilhos, para por muito tempo entre as estações
E as conversas aumentam e vagarosamente desaparecem dentro do silêncio
E você vê por trás de cada rosto o vazio mental se aprofundando
Deixando somente o terror crescente de não se ter nada no que pensar;
Ou quando, sob o éter, a mente está consciente mas consciente de nada-
Eu disse a minha alma, fique parada, e espere sem ter esperança
Porque a esperança seria esperança pela coisa errada; espere sem amor,
Porque o amor seria o amor da coisa errada; há ainda a fé
Mas a fé e o amor e a esperança estão todas a esperar.
Espere sem refletir, porque você não está pronto para a reflexão:
Então as trevas devem ser a luz, e a quietude a dança.
O sussurro dos riachos, o relâmpago invernal.
O despercebido tomilho silvestre e o morango silvestre,
A risada no jardim, o êxtase ressoado
Não perdido, mas requerido, apontando para a agonia
Da morte e do nascimento.

Você diz que eu estou repetindo
Algo que eu disse antes. Eu devo dizer outra vez.
Eu devo dizer outra vez? A fim de chegar até lá,
A fim de chegar aonde você está, para ir além de onde você não está,
Você deve seguir por um caminho no qual não haja êxtase.
A fim de chegar ao que você não sabe
Você deve seguir por um caminho que seja o caminho da ignorância.
A fim de possuir o que você não possui
Você deve seguir pelo caminho do desapossamento.
A fim de chegar ao que você não é
Você deve atravessar o caminho no qual você não esteja.
E o que você não sabe é a única coisa que você sabe
E o que você possui é a única coisa que você não possui
E onde você está é onde você não está.

IV

O cirurgião ferido trabalha com o aço
Que luta com a parte enferma;
Por debaixo das mãos sangrentas nós sentimos
A afiada compaixão do curador de arte
Resolvendo o enigma dos traços.

Nossa única saúde é a doença
Se nós obedecemos a enfeirmeira à beira da morte
A qual cuidado constante não é para agradar
Mas para nos lembrar da maldição nossa, e de Adão
E que, para ser restaurada, nossa enfermidade deve piorar.

A terra inteira é nosso hospital
Dotada pelo milionário arruinado,
Onde, se nos beneficiarmos, nós devemos
Morrer de absoluto cuidado paterno
Que não irá nos abandonar, mas nos guiar em qualquer lugar.

O calafrio sobe dos pés para os joelhos,
A febre canta em conexões mentais.
Se para ser aquecido, eu preciso congelar
E estremecer em um frígido fogo purificador
Em que a chama são as rosas, e a fumaça são os espinhos.

O sangue pingando nossa única bebida,
A carne sangrenta nossa única comida:
Apesar de que gostamos de pensar
Que nós somos som, carne substancial e sangue-
Novamente, apesar disso, nós a chamamos de sexta-feira santa.

V

Então aqui eu estou, no meio do caminho, tendo tido vinte anos-
Vinte anos vastamente desperdiçados, os anos do período entreguerras-
Tentando usar as palavras, e cada tentativa
É um começo inteiramente novo, e um tipo diferente de fracasso
Porque somente aprendeu a tirar o melhor das palavras
Porque a coisa não precisava mais ser dita, ou então
Ela não está mais disposta a dizê-la. E então cada risco
É um novo começo, um ataque ao que não foi dito,
Com equipamento maltrapilho sempre se deteriorando
Na bagunça completa imprecisão de sentimento,
Indisciplinados esquadrões da emoção. E o que há para conquistar
Pela força e submissão, já foi descoberto
Uma ou duas vezes, ou diversas vezes, pelos homens que não puderam esperar
Para competir – mas não há competição –
Há somente a luta para recuperar o que foi perdido
E encontrado e perdido novamente e novamente: e agora, sob condições
Que parecem desfavoráveis. Mas talvez nem ganhar nem perder.
Para nós, há somente a tentativa. O resto não é da nossa conta.

Lar é onde está a linha de partida. Conforme nós envelhecemos
o mundo se torna mais estranho, o ideal mais complicado
De morrer e viver. Não o intenso momento
Isolado, sem antes ou depois,
Mas uma vida inteira ardendo a todo momento
E não a vida inteira de um homem somente
Mas das velhas pedras que não podem ser decifradas.
Há um tempo para a noite sob a luz das estrelas,
Um tempo para a noite sob a luz da lâmpada
(A noite com o álbum de fotografias).
O amor está mais perto de si mesmo
Quando o aqui e o agora deixam de importar.
Os idosos devem ser exploradores
Aqui ou lá não importa
Nós precisamos ficar parados e parados movermos
Para dentro de outra intensidade
Por uma união que vai além, uma comunicação mais profunda
Através do frio escuro e da vazia desolação,
A onda chora, o vento chora, as vastas águas
Do petrel e do golfinho. Em meu fim está meu começo.

Tradução livre
Lana Del Rey Addiction

I

In my beginning is my end. In succession
Houses rise and fall, crumble, are extended,
Are removed, destroyed, restored, or in their place
Is an open field, or a factory, or a by-pass.
Old stone to new building, old timber to new fires,
Old fires to ashes, and ashes to the earth
Which is already flesh, fur and faeces,
Bone of man and beast, cornstalk and leaf.
Houses live and die: there is a time for building
And a time for living and for generation
And a time for the wind to break the loosened pane
And to shake the wainscot where the field-mouse trots
And to shake the tattered arras woven with a silent motto.

In my beginning is my end. Now the light falls
Across the open field,, leaving the deep lane
Shuttered with branches, dark in the afternoon,
Where you lean against a bank while a van passes,
And the deep lane insists on the direction
Into the village, in the elctric heat
Hypnotised. In a warm haze the sultry light
Is absorbed, not refracted, by grey stone.
The dahlias sleep in the empty silence.
Wait for the early owl.

In that open field
If you do not come too close, if you do not come too close,
On a summer midnight, you can hear the music
Of the weak pipe and the little drum
And see them dancing around the bonfire
the association of man and woman
In daunsinge, signifying matrimonie˜
A dignified and commodious sacrament.
Two and two, necessarye coniunction,
Holding eche other by the hand or the arm
Whiche betokeneth concorde. Round and round the fire
Leaping through the flames, or joined in circles,
Rustically solemn or in rustic laughter
Lifting heavy feet in clumsy shoes,
Earth feet, loam feet, lifted in country mirth
Mirth of those long since under earth
Nourishing the corn. Keeping time,
Keeping the rhythm in their dancing
As in their living in the living seasons
The time of the seasons and the constellations
The time of milking and the time of harvest
The time of the coupling of man and woman
And that of beasts. Feet rising and falling.
Eating and drinking. Dung and death.

Dawn points, and another day
Prepares for heat and silence. Out at sea the dawn wind
Wrinkles and slides. I am here
Or there, or elsewhere. In my beginning.

II

What is the late November doing
With the disturbance of the spring
And creatures of the summer heat,
And snowdrops writhing under feet
And hollyhocks that aim too high
Red into grey and tumble down
Late roses filled with early snow?
Thunder rolled by the rolling stars
Simulates triumphal cars
Deployed in constellated wars
Scorpion fights against the Sun
Until the Sun and Moon go down
Comets weep and Leonids fly
Hunt the heavens and the plains
Whirled in a vortex that shall bring
The world to that destructive fire
Which burns before the ice-cap reigns.

That was a way of putting it – not very satisfactory:
A periphrastic study in a worn-out poetical fashion,
Leaving one still with the intolerable wrestle
With words and meanings. The poetry does not matter.
It was not (to start again) what one had expected.
What was to be the value of the long looked forward to,
Long hoped for calm, the autumnal serenity
And the wisdom of age? Had they deceived us,
Or deceived themselves, the quiet-voiced elders,
Bequeathing us merely a receipt for deceit?
The serenity only a deliberate hebetude,
The wisdom only the knowledge of dead secrets
Useless in the darkness into which they peered
Or from which they turned their eyes. There is, it seems to us,
At best, only a limited value
In the knowledge derived from experience.
The knowledge inposes a pattern, and falsifies,
For the pattern is new in every moment
And every moment is a new and shocking
Valuation of all we have been. We are only undeceived
Of that which, deceiving, could no longer harm.
In the middle, not only in the middle of the way
but all the way, in a dark wood, in a bramble,
On the edge of a grimpen, where is no secure foothold,
And menaced by monsters, fancy lights,
Risking enchantment. Do not let me hear
Of the wisdom of old men, but rahter of their folly,
Their fear of fear and frenzy, their fear of possession,
Of belonging to another, or to others, or to God.
The only wisdom we can hope to acquire
Is the wisdom of humility: humility is endless.

The houses are all gone under the sea.

The dancers are all gone under the hill.

III

O dark dark dark. They all go into the dark,
The vacant interstellar spaces, the vacant into the vacant,
The captains, merchant bankers, eminent men of letters,
The generous patrons of art, the statesmen and the rulers,
Distinguished civil servants, chairmen of many committees,
Industrial lords and petty contractors, all go into the dark,
And dark the Sun and Moon, and the Almanach de Gotha
And the Stock Exchange Gazette, the Directory of Directors,
And cold the sense and lost the motive of action.
And we all go with them, into the silent funeral,
Nobody’s funeral, for there is no one to bury.
I said to my soul, be still, and let the dark come upon you
Which shall be the darkness of God. As, in a theatre,
The lights are extinguished, for the scene to be changed
With a hollow rumble of wings, with a movement of darkness on darkness,
And we know that the hills and the trees, the distant panorama
And the bold imposing facade are all being rolled away-
Or as, when an underground train, in the tube, stops too long between stations
And the conversation rises and slowly fades into silence
And you see behind every face the mental emptiness deepen
Leaving only the growing terror of nothing to think about;
Or when, under ether, the mind is conscious but conscious of nothing-
I said to my soul, be still, and wait without hope
For hope would be hope for the wrong thing; wait without love,
For love would be love of the wrong thing; there is yet faith
But the faith and the love and the hope are all in the waiting.
Wait without thought, for you are not ready for thought:
So the darkness shall be the light, and the stillness the dancing.
Whisper of running streams, and winter lightning.
The wild thyme unseen and the wild strawberry,
The laughter in the garden, echoed ecstasy
Not lost, but requiring, pointing to the agony
Of death and birth.

You say I am repeating
Something I have said before. I shall say it again.
Shall I say it again? In order to arrive there,
To arrive where you are, to get from where you are not,
You must go by a way wherein there is no ecstacy.
In order to arrive at what you do not know
You must go by a way which is the way of ignorance.
In order to possess what you do not possess
You must go by the way of dispossession.
In order to arrive at what you are not
You must go through the way in which you are not.
And what you do not know is the only thing you know
And what you own is what you do not own
And where you are is where you are not.

IV

The wounded surgeon plies the steel
That quesions the distempered part;
Beneath the bleeding hands we feel
The sharp compassion of the healer’s art
Resolving the enigma of the fever chart.

Our only health is the disease
If we obey the dying nurse
Whose constant care is not to please
But to remind us of our, and Adam’s curse,
And that, to be restored, our sickness must grow worse.

The whole earth is our hospital
Endowed by the ruined millionaire,
Wherein, if we do well, we shall
Die of the absolute paternal care
That will not leave us, but prevents us everywhere.

The chill ascends from feet to knees,
The fever sings in mental wires.
If to be warmed, then I must freeze
And quake in frigid purgatorial fires
Of which the flame is roses, and the smoke is briars.

The dripping blood our only drink,
The bloody flesh our only food:
In spite of which we like to think
That we are sound, substantial flesh and blood-
Again, in spite of that, we call this Friday good.

V

So here I am, in the middle way, having had twenty years-
Twenty years largely wasted, the years of l’entre deux guerres-
Trying to use words, and every attempt
Is a wholy new start, and a different kind of failure
Because one has only learnt to get the better of words
For the thing one no longer has to say, or the way in which
One is no longer disposed to say it. And so each venture
Is a new beginning, a raid on the inarticulate,
With shabby equipment always deteriorating
In the general mess of imprecision of feeling,
Undisciplined squads of emotion. And what there is to conquer
By strength and submission, has already been discovered
Once or twice, or several times, by men whom one cannot hope
To emulate – but there is no competition –
There is only the fight to recover what has been lost
And found and lost again and again: and now, under conditions
That seem unpropitious. But perhaps neither gain nor loss.
For us, there is only the trying. The rest is not our business.
Home is where one starts from. As we grow older
the world becomes stranger, the pattern more complicated
Of dead and living. Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that cannot be deciphered.
There is a time for the evening under starlight,
A time for the evening under lamplight
(The evening with the photograph album).
Love is most nearly itself
When here and now cease to matter.
Old men ought to be explorers
Here or there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion
Through the dark cold and the empty desolation,
The wave cry, the wind cry, the vast waters
Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning.

            O poema que repete inúmeras vezes os versos “em meu começo está meu fim” e “em meu fim está meu começo” (a ideia cíclica do mundo e o eterno presente) está inclusive gravado na lápide do escritor com suas cinzas, onde se lê “Em meu começo está meu fim. De sua bondade, reze para a alma de Thomas Stearns Eliot, poeta. Em meu fim está meu começo”. E, diferente de Burnt Norton, aqui nós já podemos identificar a influência que a Segunda Guerra teve na escrita do autor, trazendo esse lado mais sombrio da humanidade, muito parecido com o que temos em The Waste Land — a calamidade universal, a degradação. Mas Eliot ainda luta pela espiritualidade metafísica de se respeitar sua terra, seu lar e poder quebrar seu laço com o tempo para, enfim, se libertarem. E nas palavras de Emily Hale, East Coker é “como seria uma carta enviada por Deus”.

Há dez meses, eu passei por um momento muito difícil e fiz uma visita a Fleur, uma das médiuns mais conhecidas nos EUA. Ela confirmou um monte de coisas que estavam me afligindo. A assistente dela me fez escrever secretamente algumas perguntas que eu desejava fazer a Fleur. A primeira era “Eu sou feita para este mundo? Eu deveria estar aqui?”. Eu teria ficado muito envergonhada em fazer essa pergunta a quem quer que seja, mas por outro lado, eu me sentia totalmente desconectada da minha música, dos meus colegas. Ela imediatamente respondeu: “Porque você está tentando escapar de si mesma? Firme seus pés no chão e diga a si mesma que você nasceu aqui e nesta época por uma boa razão. Ao invés disso, procure conforto na terra, na areia, na água…” E foi lá que eu comecei a me reconectar com os fundamentos do mundo, a caminhar na praia, nadar no Pacífico. — Lana Del Rey em 2014 para a Les Inrockuptibles

            A terceira parte do quarteto é intitulada The Dry Salvages e é uma referência ao nome de uma rocha perto da cidade onde Eliot passou a infância, o que reflete nas lembranças constantes que o poema traz. Ele vai prosseguir com a questão do tempo e o lugar da humanidade dentro dele, fazendo uma descrição metafórica da vida como se ela fosse uma viagem de barco, e que a fixação da humanidade na ciência e nos ganhos futuros é o que mantém os viajantes longe de seu destino final. E ele traz também a bela imagem de Krishna, a deusa hindu que aparece em inúmeras tradições filosóficas e teológicas, como uma maneira de enfatizar a busca pela espiritualidade.

III

[…] Adiante, viajantes! Não escapareis ao passado

Por viverdes outras vidas, ou em qualquer outro futuro;

Não sois os mesmos que deixaram a estação

Ou que a nenhum final de linha alcançarão,

Enquanto os trilhos se tocam e atrás de vós deslizam;

E sobre o convés do álacre navio,

Velando o sulco de espumas que atrás de vós se esgarça,

Não podereis pensar “o passado passou”

Ou o “o futuro a nossa frente se entreabre”.

[…]

Ó viajantes, ó marinheiros

Vós que chegais ao porto, e vós cujos corpos

Do mar processo e julgamento sofrerão,

Do mar ou de outro tribunal, este é o vosso real destino”.

Assim Krishna, quando nos campos de batalha

Arjuna escarmentou.

Boa viagem, não

– Mas adiante, viajantes. […]

I

Não sei muita coisa acerca de deuses; mas creio que o rio
É um poderoso deus castanho – taciturno, indômito e intratável,
Paciente até certo ponto, a começar reconhecido como fronteira,
Útil, inconfidente, tal um caixeiro-viajante.
Depois, apenas um problema que ao construtor de pontes desafia.
Resolvido o problema, o deus castanho é quase esquecido
Pelos moradores das cidades – sempre, contudo implacável,
Fiel às suas iras e épocas de cheia, destruidor, recordando
O que os homens preferem esquecer. Desprezado, preterido
Pelos adoradores da máquina, mas esperando, espreitando e esperando.
Seu ritmo esteve presente no quarto das crianças,
Na álea de ailantos dos quintais de abril,
No aroma das uvas sobre a mesa de outono,
E no halo vespertino dos lampiões de inverno.

O rio flui dentro de nós, o mar nos cerca por todos os lados;
O mar é também a orla da terra, o granito
Que ele penetra, as praias onde arremessa
Indícios de uma criação pretérita e diversa:
A estrela-do-mar, o caranguejo, o espinhado de baleia;
Os abismos onde oferece à nossa curiosidade
As mais delicadas algas e anêmonas marinhas.
Cara ou coroa, ele joga nossos ossos, a rede rasgada,
O covo em pedaços, o remo estilhaçado
E os utensílios de estrangeiros mortos. O mar tem muitas vozes,
Muitos deuses e muitas vozes.
O sal está na rosa silvestre,
A névoa está nos pinheiros.
O uivo do mar,
O ganido do mar, são vozes distintas
Muita vez ouvidas juntas: o queixume do cordame,
A ameaça e o afago da vaga espedaçado sobre as águas,
O distante marulho nos dentes de granitos,
O plangente aviso do vizinho promontório
Tudo são vozes do mar, a boia sibilante
Que ronda os litorais domésticos, e a gaivota:
E sob a opressão da névoa silenciosa
O sino dobra
Medindo um tempo que não é nosso, tocado pela vagarosa
Pulsação da terra, um tempo
Mais antigo que o tempo dos cronômetros, e mais antigo
Que o tempo contado pelas aflitas e aborrecidas mulheres
Em vigília, calculando o futuro
Tentando esfiapar, desmanchar, deslindar
E o passado ao futuro cerzir num remendo inconsútil,
Entre a meia noite e a aurora, quando o passado é todo decepção
E o futuro ao futuro se recusa, antes que a manhã desperte,
Quando o tempo se detém e o tempo jamais se estingue.
E a pulsação da terra, desde o começo em tudo viva,
Tange
O sino.

II

Onde fim para isso tudo, para o surdo lamento,
Para o silente agonizar das flores outonais
Que as pétalas gotejam e imóveis permanecem;
Onde fim para o termo ponha ao torvelinho do naufrágio,
A súplica do osso nas areias, à insuplicável
Súplica para a calamitosa anunciação?

Não há fim, mas adição: a repisada trilha
De tantas horas mais e mesmos sempre dias,
Enquanto o coração reclama os impassíveis
Momentos da existência, entre as ruínas
Do que se acreditou fosse o mais íntegro
– O mais capaz, portanto, de abnegação.

Há uma adição final: o malogrado orgulho
Ou o despeito ante poderes malogrados,
A fria devoção que poderá passar por indevota,
Num barco à deriva e a meio naufragar,
O tácito escutar do irrecusável clamor
Do sino que anuncia a última anunciação.

Como alcançá-los, aos pescadores do mar a afora
Cauda do vento adentro, onde a bruma se enrodilha?
Não poderemos conceber um tempo inoceânico
Ou oceano algum não recamado de despojos
Ou futuro que não esteja, como o passado,
Sujeito a nunca possuir destinação.

Nós os conceberemos sempre baldeando as águas,
Traçando e orçando rumos quando sopra o Noroeste
Sobre os baixios que a erosão não desfigura
Ou cavando sua paga, secando ao cais o velame
– Não como vítimas de um périplo impagável
Por arrasto incapaz de resistir a uma inspeção.

E fim não há que termo ponha a isso tudo, ao mudo
Lamento, à infindável agonia das flores agonizantes,
Ao movimento de dor que indolor e imóvel se consuma,
Aos descaminhos do mar e ao torvelinho do naufrágio,
À súplica do osso e seu Deus-Morte. Apenas a somente, penosamente suplicável
Súplica da única Anunciação.

Parece, quando alguém se torna mais velho,
Que o passado assume outra forma, e deixa de ser uma simples sequência
– Ou mesmo um desenvolvimento: este, aliás, uma parcial falácia
Endossada por noções superficiais de evolução
Que se convertem, na mente do povo, em pretexto para renegar o passado.
Nos momentos e felicidade – não a sensação de bem-estar,
Fruição, plenitude, segurança ou afeto,
Ou mesmo a de um soberbo jantar, mas a súbita iluminação –
Vivemos a experiência mas perdemos o significado,
E a proximidade do significado restaura a experiência
Sob forma diversa, além de qualquer significado. Como já disse,
A experiência vivida e revivida no significado
Não é a experiência de uma vida apenas
Mas a de muitas gerações – não esquecendo
Algo que, provavelmente, será de todo inefável:
O olhar para além da certeza
Da História documentada, a olhadela
Por cima dos ombros, ao terror primitivo lançada.
Agora, chegamos a descobrir que os momentos de agonia
(Se eles são devidos à má compreensão,
Após esperar-se pelo equívoco ou por ele haver temido,
Não vem ao caso) são a rigor permanentes,
Tocados dessa permanência que trespassa o tempo. Apreciamos isto melhor
Na agonia dos outros – experimentada de perto,
E que a nós mesmos nos envolve – do que em nossa própria.
Pois em nosso próprio passado cruzam correntes de ação,
Mas o tormento dos outros perdura como experiência
Inqualificada, incorrompida por subsequente atrito.
As pessoas mudam, e sorriem, – mas a agonia permanece.
O tempo que destrói é o tempo que preserva.
Tal o rio com sua carga de negros mortos, vacas e gaiolas,
A maçã amarga e a marca da dentada.
E o rochedo apunhalado nas águas incansáveis,
As vagas o lavam, as brumas o agasalham;
Num dia alciônico, ele é apenas um monumento,
Em tempos à navegação propícios, sempre um marco
A indicar o rumo – mas na estação das sombras,
Ou em meio a repentina fúria, ele é o que sempre foi.

III

Às vezes me pergunto se isto é o que Krishna quis dizer
– Entre outras coisas – ou apenas um meio de dizer a mesma coisa:
Que o futuro é uma canção esmaecida, uma Rosa Real ou um borrifo de alfazema
De nostálgico pesar por aqueles ainda ausentes daqui para o pesar,
Esmagado entre as folhas amarelas de um livro jamais aberto.
E toda subida é uma descida, todo retorno uma partida.
Não o podes encarar face a face, mas isto é certo:
O tempo não cura, e aqui já não está mais o paciente.
Quando parte o trem, e os passageiros se acomodam,
Com frutas, revista e cartas comerciais
(E os que vieram despedir-se já deixaram a plataforma)
Suas faces relaxam da tensão para o alívio,
Ao sonolento ritmo de muitas horas.
Adiante, viajantes! Não escapareis ao passado
Por viverdes outras vidas, ou em qualquer outro futuro;
Não sois os mesmos que deixaram a estação
Ou que a nenhum final de linha alcançarão,
Enquanto os trilhos se tocam e atrás de vós deslizam;
E sobre o convés do álacre navio,
Velando o sulco de espumas que atrás de vós se esgarça,
Não podereis pensar “o passado passou”
Ou o “o futuro à nossa frente se entreabre”.
Ao anoitecer, nos cordames e antenas
Uma voz balbucia (não aos ouvidos, todavia,
Murmurante búzio do tempo, ou em qualquer linguagem viva)
“Adiante, vós que julgais estar de viagem;
Não sois aqueles que viram o porto se afastar
Ou que jamais um dia à terra tocarão.
Aqui, entre as praias de cá e de lá
Enquanto o tempo se retira, considerai o futuro
E o passado como um juízo equidistante.
Neste momento, que de inércia não é e nem de ação,
Podeis aceitar isto – ‘em que qualquer esfera do ser
A mente humana pode estar atenta
À hora da morte’ – esta é a única ação
(E a hora da morte preside cada instante)
Que haverá de frutificar na vida dos outros.
E não penseis no fruto da ação.
Adiante.
Ó viajantes, ó marinheiros
Vós que chegais ao porto, e vós cujos corpos
Do mar processo e julgamento sofrerão,
Do mar ou de outro tribunal, este é o vosso real destino”.
Assim Krishna, quando nos campos de batalha
Arjuna escarmentou.
Boa viagem, não
– Mas adiante, viajantes.

IV

Senhora, cujo santuário se alteia sobre o promontório,
Orais por aqueles que se fazem ao mar, por aqueles
Que do peixe seus sustento tiram, por aqueles
Que aos lícitos negócios se dedicam
E por aqueles que os conduzem.

Rezai outra oração pelas mulheres
Que assistiram seus filhos e maridos
Partirem para nunca mais voltar
Fligia del tuo fligio
Rainha do Céu.

Rezai também uma oração pelos que estavam nos navios,
E cujo périplo findou sobre as areias, entre os lábios do mar,
Ou na escura garganta que nunca os devolverá
Ou num abismo onde do mar jamais o som dos sinos ouvirão
Angelus perpétuo.

V

Comunicar-se com Marte, conversar com espíritos,
Historiar a conduta do monstro marinho,
Traçar o horóscopo, aruspicar ou bisbilhotar o astral,
Observar anomalias grafológicas, evocar
Biografias pelas linhas da mão
Ou tragédias pelos dedos, lançar presságios
Através de sortilégios, ou folhas de chá, adivinhar o inevitável
Com cartas de baralho, embaralhar pentagramas
Ou ácidos barbitúricos, ou dissecar
A trôpega imagem dos terrores pré-conscientes
– Sondar o fundo, a tumba, ou os sonhos; tais coisas são apenas
Passatempos e drogas usuais, ou manchetes de imprensa:
E sempre o serão, sobretudo alguns deles,
Quando há nações em perigo e perplexidade
Seja nas costas da Ásia, seja na Edgware Road.
A curiosidade humana esquadrinha passado e futuro
E a tal dimensão se apega. Mas apreender
O ponto de interseção entre o atemporal
E o tempo, é tarefa para um santo
– Ou nem chega a ser tarefa, mas uma coisa dada
E tomada, na morte de uma vida vivida em amor,
Fervor, altruísmo e renúncia de si própria.
Para a maioria de nós, há somente o inesperado
Momento, o momento de dentro e fora do tempo,
O cesso de distração, perdido num dardo de luz solar,
O irrevelado tomilho selvagem, ou o relâmpago de inverno,
Ou a cascata, ou a música tão profundamente ouvida
Que aos ouvidos se furtou, mas vós sois a música
Enquanto a música perdura. Tudo isto não passa de hipótese e conjectura,
Hipótese e depois conjectura; o resto
É prece, observância às normas, disciplina, pensamento e ação.
A hipótese em parte conjecturada, o dom parcialmente compreendido, é Encarnação
Aqui se atualiza a impossível
União de esferas da existência,
Aqui passado e futuro estão
Conquistados e reconciliados,
Onde qualquer ação fosse,
De outro modo, movimento
Do que apenas é movido
Sem possuir matriz de movimento
– Guiado por demônios, ctônicos
Poderes. E a justa ação será
Livrar-se do passado e do futuro.
Para a maioria de nós, este é o alvo
Que aqui jamais se alcançará;
Nós, que imbatidos só somos
Porque em tentar perseveramos;
Nós, satisfeitos ao final
Se nosso regresso temporal nutrir
(Não muito longe do teixo)
A vida de uma terra em plenitude.

T.S. Eliot
Tradução de Ivan Junqueira.

I

I do not know much about gods; but I think that the river
Is a strong brown god – sullen, untamed and intractable,
Patient to some degree, at first recognised as a frontier;
Useful, untrustworthy, as a conveyor of commerce;
Then only a problem confronting the builder of bridges.
The problem once solved, the brown god is almost forgotten
By the dwellers in cities – ever, however, implacable.
Keeping his seasons, and rages, destroyer, reminder
Of what men choose to forget. Unhonoured, unpropitiated
By worshippers of the machine, but waiting, watching and waiting.
His rhythm was present in the nursery bedroom,
In the rank ailanthus of the April dooryard,
In the smell of grapes on the autumn table,
And the evening circle in the winter gaslight.

The river is within us, the sea is all about us;
The sea is the land’s edge also, the granite,
Into which it reaches, the beaches where it tosses
Its hints of earlier and other creation:
The starfish, the horseshoe crab, the whale’s backbone;
The pools where it offers to our curiosity
The more delicate algae and the sea anemone.
It tosses up our losses, the torn seine,
The shattered lobsterpot, the broken oar
And the gear of foreign dead men. The sea has many voices,
Many gods and many voices.
The salt is on the briar rose,
The fog is in the fir trees.
The sea howl
And the sea yelp, are different voices
Often together heard: the whine in the rigging,
The menace and caress of wave that breaks on water,
The distant rote in the granite teeth,
And the wailing warning form the approaching headland
Are all sea voices, and the heaving groaner
Rounded homewards, and the seagull:
And under the oppression of the silent fog
The tolling bell
Measures time not our time, rung by the unhurried
Ground swell, a time
Older than the time of chronometers, older
Than time counted by anxious worried women
Lying awake, calculating the future,
Trying to unweave, unwind, unravel
And piece together the past and the future,
Between midnight and dawn, when the past is all deception,
The future futureless, before the morning watch
Whem time stops and time is never ending;
And the ground swell, that is and was from the beginning,
Clangs
The bell.

II

Where is there an end of it, the soundless wailing,
The silent withering of autumn flowers
Dropping their petals and remaining motionless;
Where is there and end to the drifting wreckage,
The prayer of the bone on the beach, the unprayable
Prayer at the calamitous annunciation?

There is no end, but addition: the trailing
Consequence of further days and hours,
While emotion takes to itself the emotionless
Years of living among the breakage
Of what was believed in as the most reliable-
And therefore the fittest for renunciation.

There is the final addition, the failing
Pride or resentment at failing powers,
The unattached devotion which might pass for devotionless,
In a drifting boat with a slow leakage,
The silent listening to the undeniable
Clamour of the bell of the last annunciation.

Where is the end of them, the fishermen sailing
Into the wind’s tail, where the fog cowers?
We cannot think of a time that is oceanless
Or of an ocean not littered with wastage
Or of a future that is not liable
Like the past, to have no destination.

We have to think of them as forever bailing,
Setting and hauling, while the North East lowers
Over shallow banks unchanging and erosionless
Or drawing their money, drying sails at dockage;
Not as making a trip that will be unpayable
For a haul that will not bear examination.

There is no end of it, the voiceless wailing,
No end to the withering of withered flowers,
To the movement of pain that is painless and motionless,
To the drift of the sea and the drifting wreckage,
The bone’s prayer to Death its God. Only the hardly, barely prayable
Prayer of the one Annunciation.

It seems, as one becomes older,
That the past has another pattern, and ceases to be a mere sequence-
Or even development: the latter a partial fallacy
Encouraged by superficial notions of evolution,
Which becomes, in the popular mind, a means of disowning the past.
The moments of happiness – not the sense of well-being,
Fruition, fulfilment, security or affecton,
Or even a very good dinner, but the sudden illumination—
We had the experience but missed the meaning,
And approach to the meaning restores the experience
In a different form, beyond any meaning
We can assign to happiness. I have said before
That the past experience revived in the meaning
Is not the experience of one life only
But of many generations – not forgetting
Something that is probably quite ineffable:
The backward look behind the assurance
Of recorded history, the backward half-look
Over the shoulder, towards the primitive terror.
Now, we come to discover that the moments of agony
(Whether, or not, due to misunderstanding,
Having hoped for the wrong things or dreaded the wrong things,
Is not in question) are likewise permanent
With such permanence as time has. We appreciate this better
In the agony of others, nearly experienced,
Involving ourselves, than in our own.
For our own past is covered by the currents of action,
But the torment of others remains an experience
Unqualified, unworn by subsequent attrition.
People change, and smile: but the agony abides.
Time the destroyer is time the preserver,
Like the river with its cargo of dead negroes, cows and chicken coops,
The bitter apple, and the bite in the apple.
And the ragged rock in the restless waters,
Waves wash over it, fogs conceal it;
On a halcyon day it is merely a monument,
In navigable weather it is always a seamark
To lay a course by, but in the sombre season
Or the sudden fury, is what it always was.

III

I sometimes wonder if that is what Krishna meant-
Among other things – or one way of putting the same thing:
That the future is a faded song, a Royal Rose or a lavender spray
Of wistful regret for those who are not yet here to regret,
Pressed between yellow leaves of a book that has never been opened.
And the way up is the way down, the way forward is the way back.
You cannot face it steadily, but this thing is sure,
That time is no healer: the patient is no longer here.
When the train starts, and the passengers are settled
To fruit, periodicals and business letters
(And those who saw them off have left the platform)
Their faces relax from grief into relief,
To the sleepy rhythm of a hundred hours.
Fare forward, travellers! not escaping from the past
Into different lives, or into any future;
You are not the same people who left that station
Or who will arrive at any terminus,
While the narrowing rails slide together behind you;
Watching the furrow that widens behind you,
You shall not think “the past is finished”
Or “the future is before us”.
At nightfall, in the rigging and the aerial,
Is a voice descanting (though not to the ear,
The murmuring shell of time, and not in any language)
“Fare forward, you who think that you are voyaging;
You are not those who saw the harbour
Receding, or those who will disembark.
Here between the hither and the farther shore
While time is withdrawn, consider the future
And the past with an equal mind.
At the moment which is not of action or inaction
You can receive this: ‘on whatever sphere of being
The mind of a man may be intent
At the time of death’ – that is the one action
(And the time of death is every moment)
Which shall fructify in the lives of others:
And do not think of the fruit of action.
Fare forward.
O voyagers, O seamen,
You who came to port, and you whose bodies
Will suffer the trial and judgement of the sea,
Or whatever event, this is your real destination.”
So Krishna, as when he admonished Arjuna
On the field of battle.
Not fare well,
But fare forward, voyagers.

IV

Lady, whose shrine stands on the promontory,
Pray for all those who are in ships, those
Whose business has to do with fish, and
Those concerned with every lawful traffic
And those who conduct them.

Repeat a prayer also on behalf of
Women who have seen their sons or husbands
Setting forth, and not returning:
Figlia del tuo figlio,
Queen of Heaven.

Also pray for those who were in ships, and
Ended their voyage on the sand, in the sea’s lips
Or in the dark throat which will not reject them
Or wherever cannot reach them the sound of the sea bell’s
Perpetual angelus.

V

To communicate with Mars, converse with spirits,
To report the behaviour of the sea monster,
Describe the horoscope, haruspicate or scry,
Observe disease in signatures, evoke
Biography from the wrinkles of the palm
And tragedy from fingers; release omens
By sortilege, or tea leaves, riddle the inevitable
With playing cards, fiddle with pentagrams
Or barbituric acids, or dissect
The recurrent image into pre-conscious terrors-
To explore the womb, or tomb, or dreams; all these are usual
Pastimes and drugs, and features of the press:
And always will be, some of them especially
Whether on the shores of Asia, or in the Edgware Road,
Men’s curiosity searches past and future
And clings to that dimension. But to apprehend
The point of intersection of the timeless
With time, is an occupation for the saint—
No occupation either, but something given
And taken, in a lifetime’s death in love,
Ardour and selflessness and self-surrender.
For most of us, there is only the unattended
Moment, the moment in and out of time,
The distraction fit, lost in a shaft of sunlight,
The wild thyme unseen, or the winter lightning
Or the waterfall, or music heard so deeply
That it is not heard at all, but you are the music
While the music lasts. These are only hints and guesses,
Hints followed by guesses; and the rest
Is prayer, observance, discipline, thought and action.
The hint half guessed, the gift half understood, is Incarnation.
Here the impossible union
Of spheres of evidence is actual,
Here the past and future
Are conquered, and reconciled,
Where action were otherwise movement
Of that which is only moved
And has in it no source of movement—
Driven by daemonic, chthonic
Powers. And right action is freedom
From past and future also.
For most of us, this is the aim
Never here to be realised;
Who are only undefeated
Because we have gone on trying;
We, content at the last
If our temporal reversion nourish
(Not too far from the yew-tree)
The life of significant soil.

            O poema da “água e da esperança”, como é descrito, traz essa belas imagens e metáforas como se fosse uma oração, trazendo belíssimas alusões do mar e do homem, falando que é necessário se pensar na morte e então na vida eterna num próximo mundo — no Outro Lado, o que Lana comumente cita em suas canções. E, ao evocar imagens que remetem ao pecado original que provocou a queda de Adão, é impossível não lembrarmos do clássico A Divina Comédia que foi grande fonte de inspiração nos Quatro Quartetos — e, é claro, no curta-metragem TROPICO, em que Lana Del Rey brinca com toda essa alusão, superando as limitações individuais e as limitações do tempo em busca do poder divino.

            Mas vamos para a parte final dos Quartetos? Adiante, viajantes!

V

[…] Não deixaremos de explorar

E no fim do nosso explorar

Será começar onde começamos

E conhecer o lugar pela primeira vez

Através do desconhecido portão relembrado

Quando o último pedaço de terra a descobrir

É aquele que foi o começo; […]

Depressa, agora, aqui, agora sempre —

Uma condição de completa simplicidade

(Custando não menos que tudo)

E tudo estará certo e

Toda a espécie de coisas estarão certas

Quando as línguas da chama estão dobradas para dentro

Em direção aos nós coroados do fogo

E o fogo e as rosas são só um.

I

A Primavera do meio do Inverno é uma época em si
Sempiterna embora encharcada para o pôr do Sol,
Suspensa no tempo, entre pólo e trópico,
Quando o curto dia está mais brilhante, com geada e fogo
O sol breve arde no gelo, na poça de água e nos fossos da estrada
Refletindo num espelho aquático
Um clarão que é cegueira no começo da tarde.
E um brilho mais intenso que o lume do ramo, ou o braseiro,
Agita o espírito baço; nenhum vento, mas fogo de Pentecostes
Na época escura do ano. Entre degelo e gelo
A seiva da alma estremece. Não há cheiro de terra
Ou cheiro de coisas vivas. Este é o da época da Primavera
Mas a cláusula do tempo. Agora, a baia de buxo
Se embranquece uma hora com flores transitórias
De neve, uma eflorescência mais súbita
Que aquela do Verão, nem florescendo nem se fanando,
Não no esquema de uma geração.
Onde está o Verão, o inimaginável
Verão zero?

Se viestes por este caminho
Tomando o caminho que naturalmente tomarias,
Do lugar de onde naturalmente virias,
Se vieste dum lugar na época de Maio, encontrarias os buxos,
De novo brancos, em Maio, com doçura voluptuária.
Seria o mesmo no fim da jornada
Se viesses à noite como um rei quebrado,
Se viestes à noite, não sabendo porque viestes
Seria a mesma coisa, quando deixamos a estrada branca
E nos viramos para trás, para o chiqueiro dos porcos, para a fachada desbotada
E a pedra tumular. E aquilo que pensastes que procuráveis
É apenas uma concha, uma escória de significado
Cujo propósito se quebra somente quando é realizado,
Quando muito. Ou não tinha propósito
Ou o propósito está talvez para além do que pensavas
E é alterado na realização. Há outros lugares
Que também estão no fim do mundo, alguns nas faces do tempo
Ou por cima de um lago escuro, num deserto ou numa cidade
Agora e na Inglaterra.

Se viestes por este lado,
Tomando qualquer caminho, começando onde quer que seja,
Em qualquer tempo ou em qualquer estação,
Seria sempre a mesma coisa, teríamos de afastar
O sentido e a moção. Não estais aqui para verificar,
Instruir-vos, uma informação de curiosidade,
Ou levar relatório. Estais aqui para ajoelhar
Onde a oração é válida. E a oração é mais
Do que uma ordem de palavras, a ocupação consiste
Do espírito que reza, ou o som da voz que reza
E aquilo para que os homens não tinham palavra, quando vivos,
Podem dizer-vos, estando mortos: a comunicação
Dos mortos tem a língua-de-fogo para além da linguagem dos
Aqui, vivos, a intenção do momento eterno
É a Inglaterra e nenhures. Nunca e sempre.
II

Cinzas na manga de um velho
É toda a cinza que as rosas queimadas deitam
A poeira no ar suspensa
Marca o lugar onde uma história acabou.
A poeira inspirada por uma casa –
A parede, o lambrim e a ratazana.
A morte de esperança e do desespero,
Isto é a morte do ar.

Há sangue e seca
Sobre os olhos e sobre a boca
Aqui morte e areia suspiram.
O solo sem tripas e enrugado
Boceja com o espetáculo do esforço,
Ri-se sem alegria.
Isto é a morte da terra.

A água e o mar sucederam
À cidade, à pastagem e à erva.
A água e o fogo zombam
Do sacrifício que negamos.
A água e o fogo apodrecerão
Nos alicerces delapidados que esquecemos
De santuário e do coro.
Esta é a morte da água e do fogo.

Na hora incerta antes da manhã
Perto do fim da noite interminável
No recorrente fim do interminável
Depois que a escura pomba de língua flamejante
Passou por baixo do horizonte do seu lar
Enquanto as velhas folhas faziam barulhos de lata
Sobre o asfalto onde não havia outro som
Entre três distritos de onde nascia o fumo
Encontrei encontrei um que ia a caminho, parando e outras vezes com pressa,
Como se fosse soprado para mim com as folhas metálicas
Antes de vento da última madrugada, que não resistia.
E como que fixo com o rosto virado para baixo
Que apontava o escrutínio com o qual desafias
O estranho que acabamos de conhecer no crepúsculo que desmaia
Reparei no olhar sombrio dalgum mestre morto
A quem eu já conhecera, esquecido, meio lembrado
Tanto um como muitos; nas feições castanhas e queimadas
Os olhos de um compósito fantasma familiar
Tão íntimo quanto inidentificável.
Então assumi um duplo papel, e gritei
E ouvi a voz do outro chamar: – O quê! Vós estais aqui?
Embora não estivéssemos. Eu era ainda o mesmo
Conhecendo-me e contudo sendo algo de outrem –
E ele com um rosto ainda em formação; contudo as palavras foram suficientes
Para compelir o reconhecimento que precediam.
E assim, fazendo a vontade ao vento comum,
Demasiadamente estranhos um para o outro para não se parecerem,
De acordo com esta intenção no tempo
De não nos encontrarmos em nenhum lugar, nem antes nem depois
Pisamos o empedrado numa patrulha muda.
Eu disse: – O espanto que eu sinto é fácil,
E contudo a facilidade é causa do espanto. Portanto fala:
Posso não compreender, não me lembro.
E ele: – Não estou ansioso de ensaiar
O meu pensamento e a minha teoria que esqueceste.
Essas coisas serviram o seu propósito: deixa-as estar.
O mesmo se diz das vossas, e rezai para que sejam perdoadas
Pelos outros, como rezo para que perdoeis
Tanto o mal como o bem. A fruta da época passada está comida
E o animal saciado dará pontapés no balde vazio
Pois as palavras do próximo ano esperam outra voz
Mas, como a palavra agora não apresenta nenhum obstáculo
Ao espírito não saciado e peregrino
Entre dois mundos tornados parecidíssimos,
Assim eu encontro palavras que nunca pensei dizer
Em ruas que nunca pensei revisitar
Quando deixei o meu corpo num país longínquo.
Dado que a nossa preocupação era a palavra, e a palavra nos impelia
A purificar o dialeto da tribo
E preparar o espírito a um relance para o passado e para o futuro,
Deixai-me revelar os dons reservados para a idade
Impor uma coroa sobre o esforço de uma vida.
Primeiro, a ficção fria de um sentido moribundo
Sem encanto, não oferecendo nenhuma promessa
A não ser a amarga insipidez do fruto fantasma
Quando a alma e o corpo começam a separar-se.
Em segundo lugar, a consciente impotência da raiva
Perante a loucura humana, e a laceração
Do riso ao que deixa de nos divertir
Por último, a dilacerante dor de reviver
Tudo quanto haveis feito, e sido; a vergonha
Dos motivos revelados tarde, e a consciência
Das coisas mal feitas e feitas para prejuízo dos outros
Que uma vez tomaste por exercício de virtude.
Então a aprovação dos tontos fere, e a honra mancha-se.
De erro em o exasperado espírito
Continua, a não ser restaurado pelo fogo refinado
Onde deves mover-te com medida, tal na dança.
O dia estava a nascer. Na rua desfigurada
Ele deixou-me, com uma espécie de benção,
E desvaneceu-se ao som de uma trompa.
III

Há três condições que muitas vezes são parecidas
E contudo divergem completamente, florescem no mesmo buxo;
Ligação ao próprio e às coisas e às pessoas, separação
Do próprio e das coisas e das pessoas: e, crescendo entre eles, a indiferença
Que é parecida com os outros como a morte se parece com a vida,
Estando entre duas vidas, sem florir, entre
A urtiga viva e a morte. É esta a utilidade da memória:
Para a libertação — não menos do amor mas expendido
O amor está para além do desejo, e a sua libertação
Do futuro como do passado. Assim, o amor de um país
Começa como uma ligação e o nosso centro de ação
E chega a achar que a ação tem pouca importância
Embora nunca diferente. A história pode ser servidão
A história pode ser libertação. Repara, agora, como desaparecem,
Os rostos e os lugares, com o próprio que, se pudesse, os amava,
Para se renovar, transfigurado, noutro perdão.
O pecado é inelutável, mas
Tudo estará certo, e
Toda a espécie de coisas estará certa.
Se eu pensar, outra vez, neste lugar
E no povo, não inteiramente recomendável,
Sem imediato parentesco ou gentileza.
Mas um qualquer de gênio peculiar,
Todos tocados por um comum gênio
Unidos na luta que os dividiu;
Se eu me lembrar de um rei
De três homens, e de mais ainda, no patíbulo
E de alguns que morreram esquecidos
E de um que morreu cego e mudo
Por que razão deveríamos celebrar
Mais estes homens do que os moribundos?
Não é tocar o sino de trás para frente
Nem é encantamento
Evocar o espírito de uma rosa
Não podemos reviver velhas feições
Não podemos restaurar velhas políticas
Ou seguir um tambor antigo
Estes homens, e aqueles que os opuseram
E aqueles a quem eles se opuseram
Aceitaram a constituição do silêncio
E estão dobrados num só começo
Seja o que for que herdamos dos desafortunados
Tomamos dos vencidos
O que eles tinham para nos deixar — um símbolo:
Um símbolo aperfeiçoado na morte
E tudo estará certo e
Toda a espécie de coisas estará certa
Pela purificação do motivo
No terreno da nossa súplica.
IV

A pomba a descer corta o ar
Como chama de terror incandescente
Da qual as línguas declararam
A única descarga do pecado e do erro.
A única esperança, ou então o desespero
Jaz na escolha de pira ou da pira
Ser redimido do fogo pelo fogo.

Quem então concebeu o tormento? O amor
O amor é o Nome não familiar
Por trás das mãos que teceram
A camisa intolerável da chama
Que o poder humano não pode remover
Apenas vivemos, mal suspiramos
Consumidos pelo fogo ou pelo fogo.
V

O que chamamos de começo é muitas vezes o fim
E fazer um fim é fazer um começo.
O fim é donde começamos. E cada frase
E período que estão certos (onde cada palavra está em casa,
Tomando o seu lugar para suportar os outros,
A palavra nem difícil nem ostensiva,
Um comércio fácil do velho com o novo
A palavra comum exatamente sem vulgaridade,
A palavra formal precisa mas não pedante
Os consortes completos dançando juntos)
Cada frase e cada período são um fim e um começo,
Cada poema um epitáfio. E qualquer ação
É um passo para o cadafalso, para o fogo, pela garganta do mar abaixo
Ou para uma pedra ilegível: e é aí que começamos.

Morremos com os moribundos:
Repara, eles vão-se embora, e nós vamos com eles.
Nascemos com os mortos:
Repara, eles regressam, e trazem-nos com eles.
O momento da rosa e o momento do teixo
São de igual duração. Um povo sem história
Não é redimido do tempo, pois a história é um padrão
De momentos sem tempo. Assim, enquanto falha a luz,
Numa tarde de Inverno, numa capela secular
A história é agora e na Inglaterra.

Com a atração deste Amor e a voz deste Chamamento

Não deixaremos de explorar
E no fim do nosso explorar
Será começar onde começamos
E conhecer o lugar pela primeira vez
Através do desconhecido portão relembrado
Quando o último pedaço de terra a descobrir
É aquele que foi o começo;
Na fonte do rio mais longo
A voz da queda-d’água escondida
E as crianças na macieira
Desconhecido, porque não cuidada
Mas ouvida, meio ouvida, na quietude
Entre duas ondas do mar.
Depressa, agora, aqui, agora sempre –
Uma condição de completa simplicidade
(Custando não menos que tudo)
E tudo estará certo e
Toda a espécie de coisas estarão certas
Quando as línguas da chama estão dobradas para dentro
Em direção aos nós coroados do fogo
E o fogo e as rosas são só um.

T. S. Eliot, Antologia Poética, Estudo prévio, selecção e tradução de José Palla e Carmo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988

I

Midwinter spring is its own season
Sempiternal though sodden towards sundown,
Suspended in time, between pole and tropic.
Whem the short day is brightest, with frost and fire,
The brief sun flames the ice, on pond and ditches,
In windless cold that is the heart’s heat,
Reflecting in a watery mirror
A glare that is blindness in the early afternoon.
And glow more intense than blaze of branch, or brazier,
Stirs the dumb spirit: no wind, but pentecostal fire
In the dark time of the year. Between melting and freezing
The soul’s sap quivers. There is no earth smell
Or smell of living thing. This is the spring time
But not in time’s covenant. Now the hedgerow
Is blanched for an hour with transitory blossom
Of snow, a bloom more sudden
Than that of summer, neither budding nor fading,
Not in the scheme of generation.
Where is the summer, the unimaginable
Zero summer?

If you came this way,
Taking the route you would be likely to take
From the place you would be likely to come from,
If you came this way in may time, you would find the hedges
White again, in May, with voluptuary sweetness.
It would be the same at the end of the journey,
If you came at night like a broken king,
If you came by day not knowing what you came for,
It would be the same, when you leave the rough road
And turn behind the pig-sty to the dull facade
And the tombstone. And what you thought you came for
Is only a shell, a husk of meaning
From which the purpose breaks only when it is fulfilled
If at all. Either you had no purpose
Or the purpose is beyond the end you figured
And is altered in fulfilment. There are other places
Which also are the world’s end, some at the sea jaws,
Or over a dark lake, in a desert or a city—
But this is the nearest, in place and time,
Now and in England.

If you came this way,
Taking any route, starting from anywhere,
At any time or at any season,
It would always be the same: you would have to put off
Sense and notion. You are not here to verify,
Instruct yourself, or inform curiosity
Or carry report. You are here to kneel
Where prayer has been valid. And prayer is more
Than an order of words, the conscious occupation
Of the praying mind, or the sound of the voice praying.
And what the dead had no speech for, when living,
They can tell you, being dead: the communication
Of the dead is tongued with fire beyond the language of the living.
Here, the intersection of the timeless moment
Is England and nowhere. Never and always.

II

Ash on an old man’s sleeve
Is all the ash the burnt roses leave.
Dust in the air suspended
Marks the place where a story ended.
Dust inbreathed was a house-
The walls, the wainscot and the mouse,
The death of hope and despair,
This is the death of air.

There are flood and drouth
Over the eyes and in the mouth,
Dead water and dead sand
Contending for the upper hand.
The parched eviscerate soil
Gapes at the vanity of toil,
Laughs without mirth.
This is the death of earth.

Water and fire succeed
The town, the pasture and the weed.
Water and fire deride
The sacrifice that we denied.
Water and fire shall rot
The marred foundations we forgot,
Of sanctuary and choir.
This is the death of water and fire.

In the uncertain hour before the morning
Near the ending of interminable night
At the recurrent end of the unending
After the dark dove with the flickering tongue
Had passed below the horizon of his homing
While the dead leaves still rattled on like tin
Over the asphalt where no other sound was
Between three districts whence the smoke arose
I met one walking, loitering and hurried
As if blown towards me like the metal leaves
Before the urban dawn wind unresisting.
And as I fixed upon the down-turned face
That pointed scrutiny with which we challenge
The first-met stranger in the waning dusk
I caught the sudden look of some dead master
Whom I had known, forgotten, half recalled
Both one and many; in the brown baked features
The eyes of a familiar compound ghost
Both intimate and unidentifiable.
So I assumed a double part, and cried
And heard another’s voice cry: “What! are you here?”
Although we were not. I was still the same,
Knowing myself yet being someone other—
And he a face still forming; yet the words sufficed
To compel the recognition they preceded.
And so, compliant to the common wind,
Too strange to each other for misunderstanding,
In concord at this intersection time
Of meeting nowhere, no before and after,
We trod the pavement in a dead patrol.
I said: “The wonder that I feel is easy,
Yet ease is cause of wonder. Therefore speak:
I may not comprehend, may not remember.”
And he: “I am not eager to rehearse
My thoughts and theory which you have forgotten.
These things have served their purpose: let them be.
So with your own, and pray they be forgiven
By others, as I pray you to forgive
Both bad and good. Last season’s fruit is eaten
And the fullfed beast shall kick the empty pail.
For last year’s words belong to last year’s language
And next year’s words await another voice.
But, as the passage now presents no hindrance
To the spirit unappeased and peregrine
Between two worlds become much like each other,
So I find words I never thought to speak
In streets I never thought I should revisit
When I left my body on a distant shore.
Since our concern was speech, and speech impelled us
To purify the dialect of the tribe
And urge the mind to aftersight and foresight,
Let me disclose the gifts reserved for age
To set a crown upon your lifetime’s effort.
First, the cold fricton of expiring sense
Without enchantment, offering no promise
But bitter tastelessness of shadow fruit
As body and sould begin to fall asunder.
Second, the conscious impotence of rage
At human folly, and the laceration
Of laughter at what ceases to amuse.
And last, the rending pain of re-enactment
Of all that you have done, and been; the shame
Of things ill done and done to others’ harm
Which once you took for exercise of virtue.
Then fools’ approval stings, and honour stains.
From wrong to wrong the exasperated spirit
Proceeds, unless restored by that refining fire
Where you must move in measure, like a dancer.”
The day was breaking. In the disfigured street
He left me, with a kind of valediction,
And faded on the blowing of the horn.

III

There are three conditions which often look alike
Yet differ completely, flourish in the same hedgerow:
Attachment to self and to things and to persons, detachment
From self and from things and from persons; and, growing between them, indifference
Which resembles the others as death resembles life,
Being between two lives – unflowering, between
The live and the dead nettle. This is the use of memory:
For liberation – not less of love but expanding
Of love beyond desire, and so liberation
From the future as well as the past. Thus, love of a country
Begins as an attachment to our own field of action
And comes to find that action of little importance
Though never indifferent. History may be servitude,
History may be freedom. See, now they vanish,
The faces and places, with the self which, as it could, loved them,
To become renewed, transfigured, in another pattern.
Sin is Behovely, but
All shall be well, and
All manner of thing shall be well.
If I think, again, of this place,
And of people, not wholly commendable,
Of not immediate kin or kindness,
But of some peculiar genius,
All touched by a common genius,
United in the strife which divided them;
If I think of a king at nightfall,
Of three men, and more, on the scaffold
And a few who died forgotten
In other places, here and abroad,
And of one who died blind and quiet,
Why should we celebrate
These dead men more than the dying?
It is not to ring the bell backward
Nor is it an incantation
To summon the spectre of a Rose.
We cannot revive old factions
We cannot restore old policies
Or follow an antique drum.
These men, and those who opposed them
And those whom they opposed
Accept the constitution of silence
And are folded in a single party.
Whatever we inherit from the fortunate
We have taken from the defeated
What they had to leave us – a symbol:
A symbol perfected in death.
And all shall be well and
All manner of thing shall be well
By the purification of the motive
In the ground of our beseeching.

IV

The dove descending breaks the air
With flame of incandescent terror
Of which the tongues declare
The one dischage from sin and error.
The only hope, or else despair
Lies in the choice of pyre of pyre-
To be redeemed from fire by fire.

Who then devised the torment? Love.
Love is the unfamiliar Name
Behind the hands that wove
The intolerable shirt of flame
Which human power cannot remove.
We only live, only suspire
Consumed by either fire or fire.

V

What we call the beginning is often the end
And to make and end is to make a beginning.
The end is where we start from. And every phrase
And sentence that is right (where every word is at home,
Taking its place to support the others,
The word neither diffident nor ostentatious,
An easy commerce of the old and the new,
The common word exact without vulgarity,
The formal word precise but not pedantic,
The complete consort dancing together)
Every phrase and every sentence is an end and a beginning,
Every poem an epitaph. And any action
Is a step to the block, to the fire, down the sea’s throat
Or to an illegible stone: and that is where we start.
We die with the dying:
See, they depart, and we go with them.
We are born with the dead:
See, they return, and bring us with them.
The moment of the rose and the moment of the yew-tree
Are of equal duration. A people without history
Is not redeemed from time, for history is a pattern
Of timeless moments. So, while the light fails
On a winter’s afternoon, in a secluded chapel
History is now and England.

With the drawing of this Love and the voice of this Calling

We shall not cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.
Through the unknown, unremembered gate
When the last of earth left to discover
Is that which was the beginning;
At the source of the longest river
The voice of the hidden waterfall
And the children in the apple-tree
Not known, because not looked for
But heard, half-heard, in the stillness
Between two waves of the sea.
Quick now, here, now, always—
A condition of complete simplicity
(Costing not less than everything)
And all shall be well and
All manner of thing shall be well
When the tongues of flames are in-folded
Into the crowned knot of fire
And the fire and the rose are one.

Clique aqui para ler a versão original e traduzida dos Quatro Quartetos com o audiobook narrado pelo T.S. Eliot.

            O poema final retoma toda a série de discussões levantadas ao longo dos três anteriores, tendo um título que referencia uma pequena igreja anglicana. E utilizando a imagem do fogo, ele enfatiza a purificação e purgação, argumentando que os erros humanos poderiam ser ultrapassados se as lições do passado fossem mais reconhecidas. O eu-lírico chega a ter um encontro com um fantasma que é a combinação de vários poetas importantes da história (de Dante a Yeats), sempre lembrando a unidade de passado, presente e futuro e como ela é essencial para a redenção humana.

            Little Gidding continua ao descrever a eternidade do tempo presente, concluindo a seção final ao explicar como o sacrifício é necessário para permitir que o indivíduo morra dentro da vida e então renasça. E a memória é o que permite a libertação das pequenas coisas terrenas e do tempo linear, liberando o “raciocínio lógico, do saber que rege o mundo e da fé cega” para abrir um “caminho para a via do pensamento poético, pois voltando-se para o ser e suas questões, admite e trilha caminhos que, na lógica mundana, científica e até mesmo cristã seriam considerados paradoxais, incoerentes ou mesmo falsos” — e é isso o que está na seção III do poema: “Esta é a função da memória: / Libertação – não menos amor, mas expansão / Do amor para além do desejo, como também libertação / Do passado e do futuro”.

Eu me formei em metafísica na faculdade, foi nessa área que consegui meu diploma. E escolhi esse ramo porque os Jesuítas que ensinavam não eram apenas teólogos, eles tinham uma base científica. Obviamente a busca por paz, a busca pelo conhecimento de algo maior… é o fim do caminho. É nisso que sou realmente interessada. Mas eu acredito que a tecnologia está nos tornando mais próximos de talvez descobrirmos as respostas para algumas dessas questões, e eu acho que nós temos visto isso nos últimos dez anos. Sou interessada assim como qualquer um é. Eu acho que encontrar pessoas como Elon Musk e pessoas envolvidas no mundo da tecnologia de formas diferentes tem sido um interesse para mim. — Lana Del Rey em 2014 a Radio.com

            Por isso a afirmação de que o sacrifício de todos os desejos traga muito além da sabedoria terrena, ensinando à alma o caminho da transcendência sempre fundindo o saber intelectual com o espiritual — o que já se mostrava lá em Burnt Norton. E nós retornaremos a ele como parte final da coluna para destrinchar seus caminhos obscuros e mostrar o quanto ele já inspirou Lana muito antes do álbum “Honeymoon” sequer ser cogitado.

            Com toda essa discussão da realidade e da “paralisação” do tempo a partir da memória, nós chegamos ao conceito de “devaneio” sendo o único momento em que o agora e o sempre se encontram. Por isso vale dizer que o devaneio poético é também um devaneio cósmico, “a abertura para um mundo belo”. E os seguintes versos de Burnt Norton justificam exatamente isso: “O que poderia ter sido é uma abstração/ Que permanece, perpétua possibilidade,/ Num mundo apenas de especulação”.

            O devaneio é a unidade de tempo tão buscada por Eliot.

Desce mais, desce apenas

Ao mundo da solidão perpétua,

Mundo não mundo, mas aquilo que não é mundo,

Escuridão interna, privação

E destituição de toda a propriedade,

Dissecação do mundo do sentido,

Evacuação do mundo da fantasia,

Inoperância do mundo do espírito;

Este é um dos caminhos, e o outro

É o mesmo, não em movimento

Mas abstenção de movimento; enquanto o mundo se move

Em apetência, nos seus caminhos metalizados

Do tempo passado e do tempo futuro. (Burnt Norton).

            O verso de ‘Honeymoon’, “tendo fantasias com sua vida”, nunca pareceu tão certo.

Originalmente foram filósofos tentando rastrear os estudos da origem da alma e como a ordem da realidade veio a ser, tipo, como nós acabamos aqui neste estúdio hoje, entende? Tem a ver com a teoria do Big Bang ou se essa realidade está realmente acontecendo em um tempo real e, você sabe, tem tantos ramos diferentes de estudo… Ele se preenche com perguntas, sem respostas. Mas eu acho que as pessoas que entram na metafísica e vão para universidades para estudá-la, sentam em grupos todos juntos e conversam sobre o porquê de estarmos aqui. — Lana Del Rey em 2012 para a Megan And Menace Mornings

            Deste modo, o mundo do devaneio se transforma em nosso novo mundo, e isso inclui tanto sonhos quanto realidade. Mas aí é11930702_1025162057530652_869198627_n que está: o que é realidade? Del Rey, certa vez, postou em seu Instagram pessoal uma foto do clipe de ‘Ultraviolence’ com a seguinte frase: Is all that we see or seem but a dream within a dream?” (Será que tudo o que vemos ou percebemos não passa de um sonho dentro de um sonho?). A frase, vinda de um poema de mesmo nome, de Edgar Allan Poe mostra o quanto a realidade é uma questão de percepção. Se a realidade é algo criada pela mente humana, o devaneio passa a ser sua própria realidade, enchendo de possibilidades um universo que engrandece nosso ser.

Vai, vai , vai, disse o pássaro: o gênero humano

        Não pode suportar tanta realidade.

O tempo passado e o tempo futuro,

O que poderia ter sido e o que foi,

Convergem para um só fim, que é sempre presente. (Burnt Norton)

            Não sei se é por algum motivo em especial, mas esse trecho sempre me lembra a canção ‘Dark Paradise’, em que Lana se sente à deriva porque seu grande amor morreu, e ela então começa a ter devaneios de quando ele estava vivo, devaneios de seu fantasma a visitando, e devaneios de que ele poderiaiconics não estar a esperando do Outro Lado. Aquilo se torna sua realidade na música/poesia, assim como em ‘Honeymoon’ ela canta maravilhosamente toda a canção e, ao final, revela que tudo não passou de memórias que ainda vivem em seu presente ao dizer que ela está tendo “fantasias”, “sonhando” com a vida de seu parceiro.

            Aliás, alguém já se perguntou o motivo de as rosas parecerem ter um significado especial nessa música? Del Rey publicou, junto do vídeo de ‘Honeymoon’ e depois no nome das faixas do álbum, duas imagens com rosas ao fundo. Ah, sim! O roseiral

Ecoam passos na memória

Sob as galerias que não percorremos

        Em direção à porta que jamais abrimos

        Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras

Em tua lembrança.

                                             Mas pra quê

Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa

Não sei.

                              Outros ecos

No jardim se aninham. Seguiremos?

Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os

Ali no canto. […]

E o pássaro cantou, em resposta

A inescutada música imersa na folhagem.

Um radiante olhar impressentido trespassou o espaço, porque as rosas

 tinham a aparência de flores contempladas. (Burnt Norton)

Segundo estudiosos, “o jardim do poeta é um jardim fabuloso, um passado de lendas que abre mil caminhos ao devaneio” e, então, a rosa é a flor mais simbólica de todo o ocidente, assim como o lótus é no oriente, ambos muito próximos do símbolo da roda, a ciclicidade da vida. Na Índia, ela simboliza a “taça da vida, a alma, o coração e o amor”. Por isso as imagens que Burnt Norton produzem são dessa circularidade, fazendo uma analogia da “taça da vida” com a “taça de pétalas” porque, no devaneio, “as flores são imagens de tudo que pode florescer na alma humana. Além disso, ‘perturbar/agitar’ a poeira que encobre a taça da vida, seria revelar aquilo que jaz no inconsciente”?

Aliás, o pássaro — que também está no poema — é a “representação da alma que se liberta do corpo”, assim como em textos antigos há várias ideias de que “a própria alma é um pássaro”. Ou seja, nos versos acima são o eu-lírico ouvindo a voz da própria alma… E isso tudo, por acaso, te lembrou algum videoclipe cheio de representações escondidas da Lana Del Rey?

            É engraçado como o clipe de ‘Shades of Cool’ parece evocar tudo isso, todo o imaginário de Burnt Norton nas cenas em que o fantasma/espírito de Lana é filmado nesse mundo cósmico. Há imagens de flores — rosas e cerejeiras em especial — há armas, algo de veraneio e há pássaros, os pássaros que simbolizam a alma e a instável imaginação. O devaneio. As “horas na vida de um poeta que o mundo real é absorvido pelo mundo imaginário”. Os ecos, as recordações… O pantempo, a unidade de tempo tão pregada ao longo do poema.

— Qual é a herança da metafísica?

— Não é tão complicada como soa. Existem diferentes ramos então isso depende de qual ramo você está estudando. Se você estudar algo como cosmogonia, você estuda sobre as origens do universo, e como a realidade se torna a realidade. Como esse espaço que nós estamos sentados agora — como nós chegamos a lugares inabitáveis? E por que essa realidade colide com a gente dessa forma. — Lana Del Rey em 2012 para a MTV Hive

            E esse videoclipe evoca ainda a ideia da água (lembra-se da cena em que o espírito de Lana nada na piscina, e o homem faz o sinal da cruz?), que também aparece em Burnt Norton.

Assim, caminhamos lado a lado, com solene postura,

Ao longo da deserta alameda, rumo à cerca de buxos

Para sondar o tanque dessangrado.

Seco o tanque, concreto seco, calcinados bordos,

E o tanque inundado pela água da luz solar,

E os lótus se erguiam, docemente, docemente,

À superfície flamejou no coração da luz,

E eles atrás de nós, no tanque refletidos.

Passou então uma nuvem, e o tanque se apagou. (Burnt Norton)

Em inglês, o termo de tanque é “pool” (piscina), mostrando que o mergulho dá a ideia de suicídio do mundo material rumo ao mundo cósmico, porque antes da água nada existia. “Acima da água, nada existe. A água é o todo do mundo”. Mergulhar os olhos no nível cósmico. Ainda, pode-se ver que, quando o tanque se inunda, “os lótus se erguiam, docemente, docemente”, a imagem deles é refletida — mostrando que, como a rosa, o símbolo da vida se reflete, porque “para um grande sonhador, ver na água é ver na alma, e em breve o mundo exterior é senão aquilo que ele sonhou. Desta vez o real é apenas reflexo do imaginado”.

            Por isso, ao “esvaziar o tanque, esvazia-se também o imaginário”, porque a nuvem irá encobrir a flor e irá encobrir a vida. Mas como é impossível se viver fora do devaneio uma vez que já o vivenciou, o pássaro (ou seja, a alma) diz para se entregar à sensação, complementando-se com um trecho já posto acima: “Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de [crianças] / Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso. / Vai, vai , vai, disse o pássaro: o gênero humano / Não pode suportar tanta realidade”.

            Chega a ser estranha a imagem que o poema transborda quando você se recorda do videoclipe, não é? A imagética é belíssima.

            Assim, Burnt Norton continua com essa ideia cíclica da vida ao iniciar com “o tempo presente e o tempo passado” e finalizar com “o tempo passado e o tempo futuro”, mostrando esse tema nuclear do tempo. Num artigo de mestrado sobre o poema, inclusive, a autora brinca como até o próprio título alude a isso: burnt = queimado, apresentando que essa ciclicidade do “queimar” alude ao conhecido termo “do pó ao pó”.

            E assim finalizamos ao retomarmos a ideia da física quântica de que a realidade não passa de uma percepção pessoal, que o mundo material é apenas “movimento da consciência humana” e que “por meio das escolhas individuais, ou seja, o que acontece no interior de cada um, vai criar o que acontece em seu exterior”. O sair do tempo, então, é sair da ordem cósmica, permitindo a entrada em outra ordem, outro universo e, como já dizia Santo Agostinho, “o tempo é a própria vida da alma que se estende para o passado ou para o futuro” porque a mente é sempre presente.

            Lana se interessa tanto pelo conceito interno de realidade que publicou, há alguns meses em seu Instagram, um vídeo do poeta e filósofo Ralph Waldo Emerson falando exatamente sobre isso: “Cada espírito constrói para si mesmo uma casa; e além da casa, um mundo; e além de seu mundo, um Céu. Saiba, em seguida, que aquele mundo existe pra você: construa, portanto, seu próprio mundo”.

 

            Se ela já brincava com toda essa temática impressa por T.S. Eliot desde ‘Shades of Cool’ e decidiu transpassá-lo para ‘Ultraviolence’, ‘Honeymoon’ e, enfim, o interlúdio ‘Burnt Norton’, nós com certeza não sabemos o que esperar. Basta sonhar que, sem sombra de dúvidas, iremos mergulhar nessa alma transcendental de Lana Del Rey que, tem como maior objetivo, a inspiração da vida.

            E só temos a agradecer ao senhor Eliot por tudo isso.

“O fim precede o começo,

E o fim e o começo estiveram sempre ali

Antes do começo e depois do fim.

E tudo é sempre agora.”

Burnt Norton.

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
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