ICONIC SOUL | T. S. Eliot: O poeta metafísico que inspirou Lana Del Rey de ‘Lune de Miel’ a ‘Burnt Norton’ – Parte 1

por / sábado, 29 agosto 2015 / Publicado emAnálises, Colunas, Iconic Soul

IMAGEM POST LDRA

        Não é novidade para os fãs de Lana Del Rey o quanto ela é uma grande fã de poesia, desde Walt Whitman a Allen Ginsberg, grandíssimos poetas que ela já fez questão de exaltar em suas obras — como a canção ‘Body Electric’ inspirada no poema de Whitman chamado “Eu Canto o Corpo Elétrico” e que inclusive é recitado por ela em seu curta-metragem TROPICO, onde ela também declama “Uivo”, o poema mais famoso e importante da carreira de Ginsberg e de toda a Geração Beat. Mas foi um certo poeta… esse grande poeta norte-americano que foi tomando aos poucos um espaço na carreira e na vida pessoal de Lana, explorando magnitudes cósmicas e humanas que fez dele um dos maiores expoentes do século XX e, por que senão, um mago metafísico. Estamos falando de Thomas Stearns Eliot, mais conhecido como o queridíssimo T.S. Eliot.

Eu estudei filosofia e metafísica. Eu devo essa paixão pelas palavras ao meu melhor amigo Gene, meu professor de inglês na época. Ele me apresentou, aos 15 anos, os livros de Jack Kerouac, Allen Ginsberg… De repente, eu não tive mais a impressão de estar sozinha, perdida em meus sonhos. — Lana Del Rey em 2012 para a Les Inrockuptibles

            Com uma longa vida que se estendeu de 1888 a 1965, o senhor Eliot foi poeta, dramaturgo, crítico literário e possuidor de — sim! — um Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1948. Nascido em uma abastada família do interior dos EUA, ele se considerava um verdadeiro inglês que tinha paixão pelo Reino Unido, tendo primeira formação em Artes pela Universidade de Harvard e, mais tarde, aumentando seu grande currículo acadêmico ao se tornar doutor em Filosofia, cheio de títulos e condecorações ao longo de sua carreira. Não tem muito o que dizer… O cara era um prodígio!

            E o maior trabalho de sua carreira com toda certeza foi o eterno poema The Waste Land (ou A Terra Desolada/Devastada), que muito provavelmente você já ouviu falar — e mais provavelmente ainda, em duas canções de Lana Del Rey! Ela brinca com esse termo “wasteland”, que ficou justamente conhecido com o poema de Eliot, nas unreleaseds ‘Prom Song (Gone Wrong)’ e ‘Dynamite’, em que ela compara o lugar em que ela está com uma terra desolada, totalmente sem esperanças, respectivamente: Let’s get out of this place / ‘Cause you’re starting to waste / Within this teenage wasteland” (Vamos sair daqui / Porque você está começando a desolar / Dentro dessa terra desolada da adolescência) eSpeeding through the wasteland, sparkling in the lights / Roll up the boardwalk, derelict delight” (Acelerando pela terra desolada, brilhando nas luzes / Deslize pelo calçadão, prazer abandonado).

            O termo foi usado pelo escritor como um grito de desespero sobre a terra abandonada que a Inglaterra havia se tornado após o período da Grande Guerra, cheia de pessoas alienadas, deixadas à míngua, seguindo o fluxo robótico da humanidade que se afundava cada vez mais no capitalismo… Uma poesia extremamente complexa e repleta de interpretações profundas que ajudou a consolidar o New Criticism e a teoria e crítica da poesia pós-guerra, entrando para o hall dos 10 melhores poemas do século XX e um dos maiores dos últimos 200 anos. E antes de passarmos para o grande e próximo tópico, desfrutem um pouquinho da primeira parte do poema.

The Waste Land

T.S. Eliot

  1. O Enterro dos Mortos

[…]

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

[…]

Clique aqui para ler o poema completo.

            Mas vamos seguir ao ponto que interessa. Alguém já parou para pensar de onde Lana poderia ter tirado a inspiração da música ‘Honeymoon’? A canção obscura sobre um amor triste e minguante pode ter tido uma lufada de ar num antigo poema de Eliot — um dos poucos escritos por ele em francês — chamado Lune de Miel. Ele é curtinho, então vamos lê-lo antes de prosseguirmos. Ah, se vir qualquer semelhança com algum clipe mais antigo de Lana, pode não ter sido mera coincidência…

Lune de Miel (Honeymoon)

Lua de Mel

Eles viram os Países Baixos, eles estão retornando a Terre Haute;

Mas uma noite de verão os encontra em Ravenna, à vontade

Entre dois lençóis no lar de duzentos percevejos,

O suor do verão, e o aroma de uma cadela no cio,

Eles deitam de costas e espalham os joelhos

De quatro pernas grudentas todas engolidas por mordidas.

Eles levantam o lençol para poderem arranhar melhor.

A menos de uma milha daqui está Saint Apollinare em Classe,

A basílica conhecida pelos entusiastas

Por suas colunas de acantos nas quais o vento bate.

Às oito horas eles pegarão o trem

A fim de prolongar suas tristezas de Pádua a Milão

Onde eles encontrarão A Última Ceia, e um barato

Restaurante. Ele calculará a gorjeta com um lápis.

Eles terão visto a Suíça e atravessado a França.

E Saint Apollinare, direita e devota,

Velha usina abandonada de Deus, ainda mantém

Em suas desmoronadas pedras a precisa forma de Bizâncio.

Honeymoon

We both know that it’s not fashionable
to love me, but you don’t go ‘cause
truly there’s nobody for you but me
We could cruise to the blues Wilshire Boulevard If we
choose
Or whatever you want to do we make the rules

Our honeymoon
Our honeymoon
Our honeymoon
say you want me too
say you want me too
Dark blue
Dark blue

We both know the history of violence that
surrounds you
But I’m not scared, there’s nothing to lose now
that I’ve found you
We could cruise to the news
Pico Boulevard in your used little bullet car if we
choose
Mr. Born to lose

Our honeymoon
Our honeymoon
Our honeymoon
say you want me too
say you want me too
Dark blue
Dark blue

There are violets in your eyes
there are guns that blaze around you
There are roses between my thighs and fire that surrounds you
It’s no wonder every man in town had neither fought not
found you
everything you do is elusive to even your honeydew

Our honeymoon
Our honeymoon
Our honeymoon

Dreaming away your life
Dreaming away your life
Dreaming away your life

Lua de Mel

Nós dois sabemos que não é de bom gosto
você me amar, mas você não me deixa porque
Sinceramente não há ninguém pra você, a não ser eu
Nós poderíamos atravessar a Wilshire Boulevard ao som de blues se nós quisermos
Ou o que você quiser fazer, nós criamos as regras

Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Diga que você me quer também
Diga que você me quer também
Azul escuro
Azul escuro

Nós dois conhecemos a história da violência que
cerca você
Mas eu não estou assustada, não há nada pra perder agora que encontrei você
Nós poderíamos atravessar em busca de notícias
A Pico Boulevard em seu pequeno e usado carro veloz se nós quisermos,
Sr. Perigo

Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Diga que você me quer também
Diga que você me quer também
Azul escuro
Azul escuro

Há violetas em seus olhos
Há armas que ardem em chamas ao redor de você
Há rosas entre minhas coxas e fogo que rodeia você
Não é de se admirar que nenhum homem na cidade lutou ou encontrou você
Tudo o que você faz é indescritível para compensar sua loucura

Nossa lua de mel
Nossa lua de mel
Nossa lua de mel

Tendo fantasias com a sua vida
Tendo fantasias com a sua vida
Tendo fantasias com a sua vida

Ultraviolence

He used to call me DN
That stood for Deadly Nightshade
‘Cause I was filled with poison
But blessed with beauty and rage
Jim told me that
He hit me and it felt like a kiss
Jim brought me back
Reminded me of when we were kids

With his Ultraviolence
Ultraviolence
Ultraviolence
Ultraviolence
I can hear sirens, sirens
He hit me and it felt like a kiss
I can hear violins, violins
Give me all of that Ultraviolence

He used to call me poison
Like I was poison ivy
I could have died right there
‘Cause he was right beside me
Jim raised me up
He hurt me, but it felt like true love
Jim taught me that
Loving him was never enough

With his Ultraviolence
Ultraviolence
Ultraviolence
Ultraviolence
I can hear sirens, sirens
He hit me and it felt like a kiss
I can hear violins, violins
Give me all of that Ultraviolence

We could go back to New York
Loving you was really hard
We could go back to Woodstock
Where they don’t know who we are
Heaven is on Earth
I would do anything for you, babe
Blessed is this union
Crying tears of gold like lemonade

I love you the first time
I love you the last time
Yo soy la princesa, comprende mis white lines
Cause I’m your jazz singer
And you’re my cult leader
I love you forever
I love you forever

With his Ultraviolence
(Lay me down tonight)
Ultraviolence
(In my linen and curls)
Ultraviolence
(Lay me down tonight)
Ultraviolence
(Riviera Girls)
I can hear sirens, sirens
He hit me and it felt like a kiss
I can hear violins, violins
Give me all of that Ultraviolence

Ultraviolência

Ele costumava me chamar de AB
Que representava a Atropa Belladonna
Porque eu estava cheia de veneno
Mas abençoada por beleza e raiva
Jim me disse que
Ele me bate e é como um beijo
Jim me trouxe de volta
Lembrando-me de quando éramos crianças

Com a sua ultraviolência
Ultraviolência
Ultraviolência
Ultraviolência
Eu posso ouvir sirenes, sirenes
Ele me bate e é como um beijo
Eu posso ouvir violinos, violinos
Dê-me toda essa ultraviolência

Ele costumava me chamar de veneno
Como se eu fosse a hera venenosa
Eu poderia ter morrido ali mesmo
Porque ele estava ao meu lado
Jim me levantou
Ele me machuca, mas parece amor verdadeiro
Jim me ensinou que
Amá-lo nunca é o bastante

Com a sua ultraviolência
Ultraviolência
Ultraviolência
Ultraviolência
Eu posso ouvir sirenes, sirenes
Ele me bate e é como um beijo
Eu posso ouvir violinos, violinos
Dê-me toda essa ultraviolência

Nós poderíamos voltar a Nova York
Amar você era muito difícil
Nós poderíamos voltar a Woodstock
Onde eles não sabem quem nós somos
O Paraíso está na Terra
Eu faria qualquer coisa por você, baby
Abençoada é essa união
Chorando lágrimas de ouro como limonada

Eu te amo pela primeira vez
Eu te amo pela última vez
Eu sou sua princesa, compreenda minhas carreiras brancas
Porque eu sou sua cantora de jazz
E você é meu líder de culto
Eu te amo eternamente
Eu te amo eternamente

Com a sua ultraviolência
(Coloque-me para deitar essa noite)
Ultraviolência
(Em minhas curvas e linho)
Ultraviolência
(Coloque-me para deitar essa noite)
Ultraviolência
(Garotas da riviera)
Eu posso ouvir sirenes, sirenes
Ele me bate e é como um beijo
Eu posso ouvir violinos, violinos
Dê-me toda essa ultraviolência

            O poema, que tem como cenário a Itália e outros países europeus, faz com que seja praticamente impossível não o assimilarmos ao clipe da canção ‘Ultraviolence’, gravado nesse exato país enquanto Lana Del Rey estava viajando com seu namorado italiano, Francesco Carrozzini. Com um ar extremamente nostálgico e retrô, esse poema que tem a paisagem de ‘Ultraviolence’ e o título de ‘Honeymoon’ fez com que coisas ao longo do caminho pudessem ser aos poucos despistadas…

            De acordo com o dicionário Oxford, a original referência da palavra “honeymoon” não simbolizava algo positivo como nos dias de hoje – muito pelo contrário. Antigamente o termo se referia, na verdade, ao declínio inevitável do amor, a esse sentimento que de cheio se torna minguante, assim como a fase da lua — e, para quem não sabe, “honeymoon” é um dos termos em inglês para “full moon” (lua cheia). Somente anos depois o termo começou a ser utilizado para casais felizes que acabam de unir matrimônio.

            E isso se torna extremamente em conta quando observamos que, tanto no poema Lune de Miel quanto na canção ‘Honeymoon’, nós não vemos um casal feliz que tem toda uma vida pela frente; nósiconics2 somos colocados frente a frente a um casal que luta contra o destino que insiste em separá-los, porque eles não são certos juntos. Inclusive, podemos observar essa interpretação do termo “lua
de mel”
ou “lua cheia” com uma belíssima canção chamada ‘The Waning Honeymoon’ que, traduzido, seria algo como “a lua cheia que se esvai”, “a lua cheia minguante” (novamente, o amor em declínio). E ainda vale ressaltar que, no Instagram @honeymoon, Lana usou como primeira foto de perfil a imagem de uma lua minguante! Interessante, não é?

Ouça e veja a letra e tradução da música na voz da bela Kay Starr.

Honeymoon (The Waning Honeymoon)

Honeymoon, honeymoon

Wonder why you set so soon

Hearts are broken when you die

Honeymoon

Sader maids, wiser men

Watch you fade away and then

Know you’ll ne’er return again

Honeymoon

Sader maids, wiser men

Watch you fade away and then

Know you’ll ne’er return again

Honeymoon

Lua cheia, lua cheia

Eu me pergunto por que você se pôs tão cedo

Corações se partem quando você morre

Lua Cheia

Donzelas mais tristes, homens mais sábios

Assistem você desaparecer e então

Sabem que você não voltará outra vez

Lua cheia

Donzelas mais tristes, homens mais sábios

Assistem você desaparecer e então

Sabem que você não voltará outra vez

Lua cheia

Nas três histórias temos a mesma interpretação do amor que, por algum motivo, é desvanescente e frágil — e podemos até perceber semelhanças líricas e sonoras tanto na canção de Starr quando de Del Rey, como as melodias compostas por valsa (e que, divertidamente no bridge de ‘Honeymoon’, é trocada por uma marcha que lembra a marcha nupcial). Nas três histórias temos um casal triste que parece aproveitar seus últimos dias viajando — seja pela Europa como no poema, por Los Angeles como em ‘Honeymoon’, por Nova York na música ‘Ultraviolence’, ou em suas próprias memórias — e desfrutando seus momentos finais. O declínio inevitável do amor. Observe as semelhanças:

Eles viram os Países Baixos, eles estão retornando a Terre Haute;

Mas uma noite de verão os encontra em Ravenna

Nós poderíamos atravessar a Wilshire Boulevard ao som de blues se nós quisermos

Ou o que você quiser fazer

Nós poderíamos voltar a Woodstock

Onde eles não sabem quem nós somos

Às oito horas eles pegarão o trem

A fim de prolongar suas tristezas de Pádua a Milão

Nós poderíamos atravessar em busca de notícias

A Pico Boulevard em seu pequeno e usado carro veloz se nós quisermos

Nós poderíamos voltar a Nova York

Amar você era muito difícil

Entre dois lençóis no lar de duzentos percevejos,

O suor do verão, e o aroma de uma cadela no cio,

Eles deitam de costas e espalham os joelhos

Há armas que ardem em chamas ao redor de você

Há rosas entre minhas coxas e fogo que rodeia você

(Coloque-me para deitar essa noite)

Ultraviolência (Em minhas curvas e linho)

Ultraviolência (Coloque-me para deitar essa noite)

E até mesmo o verso “Ele calculará a gorjeta com um lápis” que, na verdade, é uma conotação às lembranças que o homem tem enquanto ele pondera — coloca no lápis — os pontos positivos e negativos daquela relação, fantasiando… Ou “Tendo fantasias com a sua vida”.

            Muitos sabem que Lana Del Rey, antes de publicar o videoclipe de ‘Ultraviolence’, mostrou indícios de ter gravado uma outra versão dele, mas, quando chegou a Itália, acabou mudando de ideia e gravou essa versão onde vemos um casamento que não acontece. Casamento, lua de mel… Em nenhum dos dois o amor prevaleceu e a dor é sentida em ambas as músicas e em ambos os vídeos — mesmo com os poucos segundos divulgados do clipe de ‘Honeymoon’. Teria essa mudança de ideia algo a ver com o poema do Eliot? Lana teria tido essa epifania de escrever uma sequência que casasse com as palavras e o conceito de Lune de Miel?

            Disso tudo infelizmente não sabemos, mas faria todo o sentido do mundo já que no álbum “Honeymoon”, Lana continuou a mergulhar nas palavras de T.S. Eliot ao usar nada mais nada menos que um dos maiores trabalhos de sua carreira como a faixa de número 8 do LP: ‘Burnt Norton (Interlude)’. Esse poema es-plen-do-ro-so é o primeiro dos Quatro Quartetos, um conjunto de quatro poemas escritos por Eliot num período de seis anos — maioria deles entre a Segunda Guerra Mundial — sendo eles East Coker, The Dry Salvages e Little Gidding. A coletânea aborda uma sequência que discute a definição do tempo e a transcendência do ser humano em sua trajetória por sabedoria e redenção, onde cada um dos poemas é permeado por um dos quatro elementos fundamentais da natureza — ar, terra, água e fogo respectivamente.

            Obviamente você já se lembrou do tema se teve a oportunidade de telefonar para a Honeymoon Hotline, linha telefônica que Lana disponibilizou para divulgar seu quarto álbum, “Honeymoon”, o qual tem a ligação iniciada pela voz da Lana justamente narrando Burnt Norton, o mesmo que será um interlúdio na metade do LP. 4 quartetos, 4º álbum, 14 músicas, ‘Burnt Norton’ é a faixa número 8, cuja metade é 4, a faixa número 12 se chama ‘24’, hm…

            Mas retornando a Eliot, os Quatro Quartetos envolvem esse sincretismo filosófico-poético-religioso que já se podia notar desde The Waste Land e até Lune de Miel, mas que toma forma justamente aqui, sendo esse, inclusive, um de seus melhores trabalhos na própria opinião do autor.

O segundo é melhor do que o primeiro, o terceiro é melhor do que o segundo, e o quarto é o melhor de todos. De qualquer forma, esse é um trabalho do qual eu me orgulho. — T.S. Eliot para a Paris Review.

1 - "No ponto morto do mundo em rotação. Nem carne nem espírito; nem 'de' nem 'para'; no ponto morto, aí está a dança." | 2 - "As rosas tinham a aparência de flores contempladas."

1 – “No ponto morto do mundo em rotação. Nem carne nem espírito; nem ‘de’ nem ‘para’; no ponto morto, aí está a dança.” | 2 – “As rosas tinham a aparência de flores contempladas.”

            E essa fusão de misticismo, filosofia e religião faz com que esse seja o poema mais metafísico de Eliot, tema que faz Lana Del Rey se identificar tanto com as palavras do poema — inclusive Burnt Norton — e atualizar constantemente a bio de suas redes sociais com trechos do mesmo.

Um rapaz me deu uma caixinha de joias prateada, e nela estava gravado um poema do T. S. Eliot que tem sido a minha bio no Twitter. Era essa frase sobre uma rosa que tinha a aparência de uma flor que era sempre contemplada. Então ele sabia que essa era uma das minhas citações favoritas e eu achei esse gesto muito carinhoso. — Lana Del Rey em 2014 a Radio.com

— Você estudou Metafísica na universidade. De onde surgiu esse interesse?

— Com 11 anos eu descobri que todos nós iríamos morrer… E me angustiei. Os conceitos de infinito e eternidade também me torturavam. No internato, tive aulas de Metafísica. Era a primeira matéria, além de Literatura, que me interessava. Pela primeira vez, eu me senti em boa companhia, ainda que os pensadores antigos tivessem desaparecido há séculos. — Lana Del Rey em 2014 ao XLSemanal

            E o que, de fato, há de tão interessante nesses poemas? Ah, meus caros… As maiores discussões do universo! Mas isso é assunto pra segunda parte da coluna que vai ao ar amanhã (30/07)! Prometo muitas novidades que vão muito além do novo álbum de Lana Del Rey — vocês ficarão surpresos ao descobrirem qual clipe da Era Ultraviolence utilizou da mesma inspiração inscrita em Burnt Norton.

            Fiquem ligadinhos.

“E um radiante olhar impressentido

trespassou o espaço, porque as rosas

tinham a aparência de flores contempladas”.

Burnt Norton

Clique aqui para ler a PARTE 2.

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
  • Ana Cristina

    Meu Deus, Rapha! Impecável!!!
    E esse clipe também inspirado em burnt norton é shades of cool? Amanhã nunca pareceu tão longe!!

  • Leonardo Colato

    Nossa, que incrível! Muito interessante! Estou louco por amanhã haha

  • Oliver Devacelli

    Lembro quando li TS pela primeira vez… ele é simplesmente incrível, assim como Lana <3

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  • http://www.soumatroxa.com.br Luna

    Eu vejo Ultraviolence de outro geito, o simbolismo por trás do vídeo … Eu entendo totalmente isso. O simbolismo por trás deste vídeo é realmente bonito … O simbolismo desta canção, por que Lana escreveu ela, por que ela fez o vídeo da música desta forma é tudo parte de sua história de Jim Morrison e Pamela Courson. Ela é uma fã de Morrison como a maioria de vocês deve saber, ela deve saber a história por trás do relacionamento com Jim namorada Pamela Courson. Ele estando no local Pamela fora de seus pés aos 18 anos de idade e praticamente “levantou-a”. Jim era um poeta brilhante e grande cantor para as portas, mas ele também foi um mulherengo e quando Jim bebeu ele poderia ser brutalmente violento. Pamela poderia ter sido descrito como Nightshade mortal ou Poison Ivy para a forma como ela tratou os homens para se vingar de Jim. Letras de Lana descreve seu relacionamento perfeitamente especialmente esta parte: “Nós poderíamos voltar para Nova York, amar você foi muito difícil, nós poderia voltar para Woodstock, onde eles não sabem quem somos ..” Amar Jim Morrison era extremamente difícil de tudo o que li ao longo dos anos. Leia qualquer livro bio sobre ele. Em seguida, adicione a fama de Jim com as portas que tornou ainda mais difícil para o seu relacionamento. Outra coisa neste vídeo que chamou a minha atenção foi que Pam Jim pediu para casar com ela. Eles sempre teve a licença de casamento e têm que pronto para ir, mas Jim teria cinto de segurança e nunca passar com ele. No final, eles nunca se casaram. Jim morreu de uma overdose de heroína com a idade de 27 anos de idade. Em sua última Will ele deixou tudo para Pam. É por isso que Lana aparece sozinho neste vídeo vestindo vestido de noiva estilo anos 60. Lana tem um olhar muito frágil ao longo de todo o vídeo. Muito pouco de maquiagem. Branco. Cabelo reto e descendo. Reminiscente da maneira Pam olhou durante as fotos Bronson Caves. Como Pam, Lana está sozinho no final do vídeo. Ela alcançou o alter e ninguém está lá. Jim morreu. Ela está sozinha. Na vida real, Pam morreu 3 anos depois de um overdose de heroína também. Ela também tinha 27 anos. Agradeço a Lana por colocar tantos pensamentos e esforço em seus vídeos. É por isso que eu sempre amo seu trabalho. Espero que os fãs poderiam apenas cavar-los um pouco mais, em seguida, apenas arranhando a superfície.

    • Guilherme

      Lana Del Rey said in a Kulturnews interview that the song was about a cult leader she met as a member of underground group in New York. An excerpt from an interview: “I used to be a member of an underground sect which was reigned by a guru. He surrounded himself with young girls. He thought that he had to break people first to build them up again. At the end I quit the sect.” (Lana Del Rey). It is speculated that she is talking about Atlantic Group, a part of Alcoholics Anonymous, which she joined in the past. They were notorious for their cult behaviour and poor treatment of older men and young women. The Pacific Group (which AG is a branch of) is partly run by a man named Jim, which is name of the character referenced in the song.

      • http://www.soumatroxa.com.br Luna

        Could you pass me the link in the interview ?

    • Raphaella Paiva

      A música é uma referência principal ao alcoolismo de Lana em sua adolescência, Jim é uma famosa bebida alcoólica. Ela faz o mesmo tipo de referência como na música Bel Air. Outros tipos de inspirações, como Eliot, Jimmi Gnecco e Morrison, como alguns dizem, são exceções interpretativas.

      • http://www.soumatroxa.com.br Luna

        Como você disse, é questão de interpretação. Mas a verdadeira história atrás disso só Lana sabe

  • ♡ ARTTRASH ♡

    Maravilhosa essa análise sobre o termo ‘honeymoon’,bem desconfiei que nao tinha algo muito bom em relaçao a esse album hahah tava ‘positivo’ demais pra ser verdade.

  • Guilherme

    Gostaria de saber de que fonte procede a definição “arcaica” de honeymoon (o declínio inevitável do amor) mencionada no texto?

    • Raphaella Paiva

      Dicionário Oxford, está na análise.

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  • https://facebook.com/wel.mascarenhas Well Mascarenhas

    Gente do céu, eu tô perplexo! Preciso de um tempo pra processar tudo isso. Lana sempre esteve em bastante sintonia com tudo o que eu vivi / vivo, e essa nova ótica que estou tendo de Honeymoon faz todo o sentido! Um amor fadado a minguar… Vou ler a segunda parte AGORA!

    Obrigado Rapha!!!! <3

TOPO