TEXTOS | Seis meses sem Ultraviolence

por / quinta-feira, 30 julho 2015 / Publicado emColunas, Textos

American Beauty blue petals

Creio que quando idolatramos algo, somos fanáticos por algo, nos tornamos parciais a favor do nosso ídolo. E parcialidade nunca é algo bom, na minha opinião. Decidi então fazer uma experiência: passar seis meses sem escutar Lana Del Rey, ou mais precisamente, o álbum Ultraviolence, que considero seu pico artístico até então. Mas… Por quê? Bom, primeiramente, não foi voluntário, tive que ficar sem acesso às minhas músicas por seis meses, o que desencadeou toda essa experiência.

Com as repetidas reproduções das músicas que amamos, algo se perde. Talvez seja o sentimento da primeira vez, ou da segunda. Do reconhecimento de cada linha melódica, da produção vocal etérea ou completamente crua, do estalar no coração ao escutar cada bateria, tão importantes para a levada de todo o álbum.

Ultraviolence é, em sua grande maioria, um álbum de rock. Um álbum de rock clássico no molde dos grandes, Led Zeppelin, Black Sabbath, Bob Dylan, David Bowie, The Beach Boys e The Beatles. O lirismo de Lana é algo sem precedentes, conseguindo sem esforço algum cantar sobre sua vida passada, presente e futura, seus desejos, anseios e necessidades, e ainda assim cantar nossa vida passada, presente e futura. Nossos próprios desejos, anseios e necessidades. Só um grande artista consegue se comunicar com seu público com tanta destreza e despretensão.

Destaco meus sentimentos ao escutar minhas favoritas de seis meses atrás, que continuam sendo as favoritas seis meses depois. “Cruel World” é um festival de guitarras elétricas e acústicas, com uma bateria que quase demora demais para seguir a batida, como se estivesse com preguiça. “Ultraviolence” é composta por pianos em contratempo, em crescendo, que parece alçar nossos pés do chão (ou nossas bundas das cadeiras, no meu caso).

“Shades of Cool” soa… Azul. Seu riff principal remete à clássicos do rock setentista, que servem como um prólogo do que virá a seguir numa grande canção antes de alcançar o refrão, sua grandiosidade. E como é grande! “Shades of Cool” soa como se pétalas azuis estivessem sendo derramadas a cada refrão. Meio que como em Beleza Americana. “Brooklyn Baby” é a música que melhor define o trabalho de Lana. Sua letra menciona homens mais velhos, jazz, anfetaminas, penas no cabelo, liberdade e Nova York. E sua sonoridade também, com um riff leve de guitarra, uma bateria presente e vocais etéreos saturados de reverb.

“West Coast” é uma obra-prima. Sua primeira grande música, que pode ser colocada ao lado de clássicos de The Beach Boys e The Beatles e não perder nada em termos de sonoridade e originalidade. Com um riff de baixo em descendo, Lana inclusive reverencia os Beatles, e através da temática e da imagética que a canção imprime, reverencia também os Beach Boys. Tudo é muito bem colocado aqui, a guitarra, o baixo, a bateria, e até o sintetizador que poderia soar fora de lugar, funciona. Seis meses atrás eu não gostava tanto desta, vejam só.

“Pretty When You Cry” utiliza do mesmo recurso musical já usado em “Cruel World” e “Shades of Cool”, mas aqui o tom menor grita a dor de Lana, e a nossa dor, por consequência. Ultraviolence foi definido pela própria Lana como um álbum de jazz, mas a única música que imprime alguma característica musical do jazz é “Old Money”. E como soa cheia de esperança! Soa como alguém que está desolado a um canto e se levanta para receber um abraço.

Nunca algo me remeteu tanto às bandas alternativas dos anos oitenta como “Guns and Roses”. E senti isso desde que escutei o álbum pela primeira vez. Talvez a inspiração tenha sido mesmo The Cure, Siouxsie and the Banshees e . Talvez ela seja fã mesmo de Sofia Coppola e desejou fazer uma música que coubesse exatamente em Maria Antonieta. Talvez sim, talvez com certeza sim. Essa é minha favorita de todo o álbum. Me soa como amor, como um beijo apaixonado, e um abraço apertado. Como corpos quentes em profusão ao virar um.

Ultraviolence é, ainda hoje, na minha opinião, o melhor álbum de Lana. Confesso que tive de deixar de fora mais algumas músicas, senão todo o álbum seria meu favorito! Agora só nos resta aguardar para mais um banho de lirismo e sentimento com Honeymoon.

Por Lucas Almeida

Lucas Almeida
Leonino, paulistano, escritor, tradutor, poeta, atua em teatro musical por sonho, canta para espantar a tristeza. Apaixonado por cinema, música, literatura e moda, conheceu a Lana no início de 2012, quando assistiu o clipe de Blue Jeans. Acredita que Carmen foi escrita para Miley Cyrus em um ato de clarividência de Lana Del Rey. Está em busca de um Humbert Humbert para, finalmente, poder exercitar o papel de Lolita.
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  • Pedro Henrique

    Falou, falou e falou e não chegou nem perto do que o título do texto sugeria.

  • Daniel Correa

    Quanto poder em palavras. Fico tão surpreso lendo os textos quanto ouço a Lana cantar. Parabéns, viu!

  • Lily

    Eu só tenho um obs: Eu acho que você acabou levando o ultraviolence para um lado bem mais do “rock classico” do que do pop, que é basicamente o que ele é. Mas adorei o texto e tive uma experiencia semelhante com o Paradise (e algumas unreleaseds) e foi muito legal também.

    • Arthur Andrade

      Também tenho um obs: nenhum crítico musical considerou Ultraviolence como um album pop. O ritmo do album é TODO jazz/rock, banhado de guitarras elétricas e baterias. Inclusive, no Itunes, Ultraviolence está tageado como Alternativo e Rock.
      Talvez seja exatamente por isso que as novas músicas de Lana estão sendo tão criticadas pelos “fãs”: as pessoas acreditam que Lana é uma musicista pop quando, na verdade, ela está muito mais pro jazz/rock/blues.

      • Nicole Sapelli

        Concordo plenamente!

      • Carlos Eduardo

        Também concordo. Riu de alguns que são mergulhados na falsa ilusão de que a Lana é dessas divas pop por aí que fazem músicas o mais comercial e inautêntico possível apenas pra vender o máximo e se manterem no mainstream e ficam esperando isso dela. Ela tem um diferencial que notei desde a primeira vez que a ouvi. E o que me faz ser fã dela, como sou hoje, foi com certeza o Ultraviolence. Que pra mim é a melhor fase e o ápice da sua música. Torço pra que ela continue assim. E sei que vai. <3

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