ANÁLISE | Honeymoon: A sombria e fantasiosa história de uma lua de mel

por / terça-feira, 14 julho 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

IMAGEM POST LDRA

Foram meses de uma espera que parecia nos consumir, mas finalmente, o carro chefe de “Honeymoon” — single de mesmo nome — da nossa rainha Lana Del Rey foi apresentado ao público.

Lizzy Grant, vulgo Lana Del Rey, cantora e letrista que teve que dar tudo de si para conseguir vingar com o seu belíssimo “tudo ou nada”, “Born to Die“, que podemos contemplar como uma ode a suas vivências de juventude, sentimentos amorosos mal resolvidos e uma vida de luxo muitas vezes vazia, prosseguiu o sucesso com “Ultraviolence“, um álbum mais simples em termos de produções artísticas, mas extremamente rico em musicalidade. Tanto em “Born To Die” quanto em “Ultraviolence“, Lana teve algo a provar ao público e aos críticos, e isso me leva a acreditar que “Honeymoon” será um trabalho mais pessoal e menos regado a pressões — e a música de mesmo nome confirmou essa impressão.

Lana disse, em seu instagram, que a música Honeymoon é como o álbum começa e termina, e foi exatamente o que eu pensei quando escutei a música pela primeira vez. O instrumental embasado por violinos chorosos, quase derramando lágrimas vivas, que inicia a canção, tem um ar gótico e sombrio que lembra inícios de filmes de suspense ou terror das décadas passadas. Isso confirma que a influência de um passado obscuro, um dos principais traços de Lana Del Rey, deixado um pouco de lado em “Ultraviolence“, está mais vivo do que nunca.

Ao contrário de amores ostensivos, “daddys” fenomenais e homens milionários, o amor em Honeymoon é mais simples e pueril, porém denso, sofrido e, apesar de não parecer em primeira instância, tão difícil de lidar como o amor de ‘Shades of Cool’. Melancólica, Lana inicia a canção constatando que por mais ridícula que essa relação pudesse ser, o Sr. “Nascido Para Perder” não a deixa, porque sabe que ela é tudo o que ele possui. Logo na primeira estrofe, Lana se coloca em uma posição visivelmente solitária, pertencente a um mundo que apenas ela e o “Sr. Nascido Para Perder” pertencem e compreendem, e é por isso que ambos podem criar regras para o que quer que forem fazer sem a interferência de ninguém: são apenas os dois e mais ninguém. Como em uma lua de mel (Honeymoon).


O refrão, grudento e repetitivo, é proposital: Lana reforça a ideia de lua de mel apresentada na primeira estrofe. É como se ela estivesse refletindo, em um estado de solidão e melancolia, sobre aquela lua de mel tão característica (e azul escura) a que está acometida. “Our Honeymoon”. “Nossa lua de mel” Trata-se mais uma vez de uma reflexão sobre o estado de não ter quase nada a perder, e de uma única pessoa ser tudo o que você possui na vida.
Na terceira estrofe, um pouco mais da história desse amor “perdedor” de Lana, tão diferente dos “daddys” citados anteriormente, nos é revelada. Trata-se de alguém acostumado a um mundo de violência, e mais uma vez, a cantora se afirma na posição de ser ele tudo o que ela possui. Por isso, ela não tem nada a perder: nem medos, nem ilusões. Percebemos uma Lana Del Rey muito mais madura do que aquela que nos é lindamente apresentada em “Off to the races”. É, também, nessa estrofe, que ela nomeia o homem da canção de “Mr. Born to Lose”, ou seja, “Sr. Nascido Para Perder”. Um perdedor, como vezes ela pode se sentir? Talvez.


A ponte da música (o ápice do trabalho para mim) traz o mundo onírico de Lana que tanto faz parte de sua essência. Olhos de violeta, armas queimando (o fogo, tanto literal quanto metafórico, sempre faz parte do trabalho da cantora de forma notável), rosas entre suas pernas… Elementos cinematográficos e imagéticos que criam com perfeição uma espécie de desenho mental. Dessa vez, Lana cutuca o “Sr. Perdedor”, uma vez que ninguém nunca lutou com ele ou sequer o viu, por ser evasivo (ou apático demais). É nessa estrofe que podemos cogitar a hipótese desse amor ser apenas uma invenção do triste e melancólico eu-lírico (Lana, no caso), em busca de alguém que se sinta exatamente da forma que ela se sente. Perturbador, não?

Para finalizar, as estrofes “dreaming away your life” tornam, mais uma vez, frases de Lana Del Rey ambínguas. O que ela quis dizer com dreaming away your life? As traduções literais variam de diversas formas, mas não podemos nos esquecer de que não há nada de literal quando se trata dela. “Sonhando sobre sua vida”? Quente. “Fantasiando sobre sua vida?” Talvez mais quente. Nessa estrofe, a ideia de que esse amor quase fracassado, e essa lua de mel azul escura são muito mais representantes do estado de espírito do eu-lírico do que algo que aconteceu de fato, fica ainda mais plausível, por se tratar de uma vida sobre a qual ela está fantasiando. FANTASIANDO.

Temos, em Honeymoon, uma sombria história de amor que não podemos constatar se é verdadeira nem na própria canção, mas temos, sem sombra de dúvidas, o humor soturno, obscuro, melancólico e, por alguns momentos, gótico no qual a música foi concebida.

A partir do início dessa nova era, acredito que podemos esperar uma Lana ainda mais autêntica realizando um tipo de trabalho que vem lá do âmago, bem profundo e onírico, sem explicações plausíveis ou interpretações óbvias, já que ela não tem que provar nada a ninguém mais. É perceptível que esse ar de mistério e ambiguidade, detalhes que tanto aprecio no trabalho de Del Rey desde o começo, e que parece vir com força total nessa era que está começando.

Por Maria Luísa Lembrança a.k.a Astronauta Frustrada

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
Tagged under: ,
  • Raphaella Paiva

    Que análise linda! Adorei <3

  • Carolina Russo

    Gostei da análise, parece ser bem fiel ao que a música representa, porém achei que Honeymoon fosse ter outro ar… e essa atmosfera melosa demais, apesar de aparentar ser proposital, como citado, deixou a música muito pesada.

    Mas Lana é Lana. Eu espero sempre o melhor dela.

  • Vinicius Lectter

    Parabéns pela análise bem elaborada!

  • luna

    Analise maravilhosa. Gosto da maneira musica começa, e como ela vai mudando ao passar do tempo. Tem uma cantora folk que sou fã de seu trabalho Linda Perhacs, maravilhosa por sinal, que lembrou um pouco de uma musica dela The soul of all natural things, que muda através do tempo . A musica é tão maravilhosa, que nossa a tom da voz dela vai mudando ao poucos. E é uma das canções mais cinematográficas dela. Nossa, um filme perfeito, cabe em qualquer trilha. Nossa me surpreendi, para ser sincera, não esperava tudo isso. Até porque sou daquelas pessoas que acho que cada album tem sua essências, é praticamente uma ofensa ao ver, tentar comparar Ultraviolence com Born To Die, são tão diferentes, são albuns que se completam. E nessa musica não senti nada dos dois, o que eu gostei, quero coisas novas e não antigas. Artista se renova, e a essência fica, Lana é vintage e nostálgica e em todos os seus álbuns, você vai encontrar isso, nostalgias diferentes para cada momento da vida, e cada dia tipo de momento.

TOPO