ICONIC SOUL | Endless Summer Tour: um cenário de Beach Boys, David Bowie, Alfred Hitchcock e, claro, Jessica Rabbit

por / quinta-feira, 21 maio 2015 / Publicado emColunas, Iconic Soul

IMAGEM POST LDRA1

A nova turnê de Lana Del Rey mal começou e já está dando o que falar — e inspirar! A intitulada Endless Summer Tour (Verão Sem Fim) teve sua estreia no dia 7 de maio em The Woodlands, Texas, e conta com ninguém mais ninguém menos que a roqueira Courtney Love como show de abertura. E estranhamente contrário ao título “endless summer”, essa é supostamente a turnê de divulgação do álbum “Ultraviolence”, lançado no ano passado — embora conte com uma setlist que não diz exatamente isso, mostrando o quanto Lana está longe dos artistas mainstream que lançam turnês mundiais magnânimas para divulgar um único CD. Mas e então, estão preparados para explorar esse mundo veraneio? Preparem-se para surpresas e uma ótima dose de artistas que vocês irão conhecer ou simplesmente reconhecer aqui.

Assim que “Ultraviolence” foi lançado em junho de 2014, os fãs de Del Rey já se mostraram prontos para uma Ultraviolence Tour rodando todo o globo, mas inusitadamente — ou não — a cantora estava calma e não se ateve a um marketing exploratório para seu álbum, dando tempo para finalizar sua antiga turnê, a Paradise Tour, para voltar só em 2015 com shows totalmente novos. E voltou! Rapidamente foi anunciada uma nova turnê de nome diferente do que todos esperavam: a Endless Summer Tour. De onde Lana supostamente teria tirado esse título? Afirmadamente não se sabe, até porque nenhuma de suas entrevistas recentes abordou esse assunto, mas podemos tirar a conclusão de que seria uma inspiração de um dos maiores álbuns de uma de suas bandas preferidas, The Beach Boys.

A banda californiana de surf rock dos anos 60 e 70 se tornou mundialmente conhecida por suas músicas suaves de tons praianos que, além de levar garotas à loucura, levou também influências do rock que serviriam para formar muitas outras bandas e gêneros musicais adiante. E uma de suas palavras preferidas para estampar títulos de álbuns e músicas era justamente “summer” — o que fez com que um álbum com compilações de seus maiores hits fosse chamado de “Endless Summer” em 1974.

Minha música cai no gênero surf noir. Parece 4 de Julho [dia da independência dos EUA]. Foi influenciada por Elvis, Beach Boys e Nirvana. As letras são inspiradas pelo amor verdadeiro e pelo ditado de nascer mau. — Lana Del Rey (Lizzy Grant) para o Blog Ideel, em 2009

Segundo algumas entrevistas de Lana, ela cresceu ouvindo aos Beach Boys por ser uma das bandas preferidas de seu pai, o que acabou culminando no próprio gosto musical dela. E não é pra menos! Basta ouvir alguns segundos de qualquer uma de suas canções para se sentir calmo e quase respirar o aroma da maresia havaiana pela janela. Se você está aí pensando — ou não — qual música deles já deve ter ouvido, dê aí um play e dança comigo.

Então [Ultraviolence] é um álbum que foi inspirado pelo estilo de vida da Costa Oeste dos EUA?

Sim, é uma homenagem ao jazz underground, àquele senso idealizado de liberdade nos anos 70, aos Eagles, aos Beach Boys e ao relaxamento e às grandes melodias daquela era. — Lana Del Rey para o Deutsch Presse-Agentur, em 2014

E assim como o Ultra foi inspirado por essa banda maravilhosa, é claro que Lana não deixaria de homenageá-la no nome de sua turnê, ficando então como uma referência suave e amistosa ao ritmo e calor de um verão sem fim. Ela inclusive gravou recentemente uma canção chamada ‘The Last Song’ com Brian Wilson, um dos músicos principais da antiga banda, mas que — apesar de mixada e finalizada — acabou não entrando para o álbum dele. Mas vamos torcer pra ela ser lançada algum dia!

De qualquer forma, em seus anos como uma simples cantora na cena underground de Williamsburg Del Rey costumava definir seu som como “surf noir”, difundido pelo surf rock dos Beach Boys e, anos antes, pelos irmãos instrumentistas Santo & Johnny que saíram do Brooklyn para conquistar os EUA dos anos 60. Santo & Johnny, aliás, são os compositores da música ‘Sleepwalk’, que é justamente a intro da Endless Summer Tour. Apesar de os irmãos jamais terem gravado a versão com letras composta por eles (apenas a instrumental), ela se tornou extremamente famosa na voz de Betsy Brye, e o jornalista da The Quietus chega a fazer uma brincadeira ao narrar sua entrevista de 2011 com Lana ao montar uma espécie de mini-roteiro noir para apresentá-la:

Uma garota entra num bar. Você olha outra vez. É o demônio.

Você a está observando, ou você está sendo observado?

Uma moeda é colocada na fenda [de uma jukebox] e o mundo se move outra vez.

É ‘Sleepwalk’ de Santo e Johnny. […]

[A cena escurece]

“Alô? John? Sou eu… Lana”.

Um palco, uma cortina vermelha, um único holofote em Lizzie Grant,

conhecida pelo mundo com a Srta. L. Del Rey.

E é essa a versão instrumental tão suave e melódica dos irmãos que pode ser ouvida minutos antes da entrada de Lana Del Rey no palco da nova turnê.

E falando no palco da nova turnê… Que prédios chiquíssimos são esses ao fundo? Com esse efeito cartoonizado e levemente cubista, Lana extrapolou os índices de produções de seus concertos. Adeus às palmeiras da costa oeste e aos candelabros barrocos, a Era Ultraviolence trouxe ao topo a cidade de Nova York e seus arranha-céus. E sua maior inspiração, sem sombra de dúvidas, foi David Bowie e sua magnânima e conceitual Diamond Dogs Tour, lá em 1974.

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Cenário “Diamond Dogs Tour”

Não é novidade que a imprensa adora comparar Del Rey e Bowie pelo simples fato de ambos terem abandonado seus nomes de nascença para incorporarem seus nomes artísticos, mas ninguém esperava que o cenário de sua turnê pudesse ter uma referência quase direta ao que ele fez há tantos anos e, ainda assim, ficou tão marcada na indústria da música. Hoje com 68 anos, o “camaleão do rock” foi um marco dos anos 70 e 80, e que realmente se mostrou pronto para ficar assim que lançou seu ambicioso projeto inspirado no livro homônimo de George Orwell, “1984”, intitulado “Diamond Dogs”. Originalmente escrito para ser uma adaptação musical para a Broadway sobre o romance apocalíptico de Orwell, os direitos autorais acabaram barrando o projeto para o teatro, mas com certeza não impediu Bowie de levá-los à música.

Heróis da moda? Divine. David Bowie. Estátua da Liberdade. Britney Spears. — Lana Del Rey para o Blog Ideel, em 2009.

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1 – David Bowie e Courtney Love. 2 – Bruce Springsteen. 3 – David Lynch. 4 – Lou Reed.

E quando ele iniciou a turnê do álbum, todos souberam que uma nova definição de shows estava sendo deslanchada — Bowie revolucionou o que chamavam de “concertos de rock”, introduzindo o conceito de cenários, iluminação, músicas inspiradas em livros e poesias lidas entre versos, dança, cinema e teatro — e “Diamond Dogs” se tornou um álbum conceitual de rock que se assemelhava ao que as bandas The Who e Pink Floyd já estavam fazendo através de seus musicais e shows superproduzidos. David Bowie referenciava e reverenciava a poesia Beat (principalmente William Borroughs, Allen Ginsberg e Jack Kerouac, grandes escritores da geração que se tornaram seus amigos pessoais), além de fazer uma ponte entre seus amigos e parceiros de carreira e profissão como Lou Reed, Bruce Springsteen, Chris Isaak e inclusive Courtney Love e seu falecido marido e vocalista do Nirvana, Kurt Cobain, além obviamente do cineasta David Lynch — todos esses também amigos e/ou ídolos de Lana Del Rey.

Eu ouço sempre o “Nevermind” do Nirvana de novo e de novo, este é provavelmente um álbum único. O resto é uma lista de cinquenta músicas com as quais eu martirizo o meu ambiente, porque eu posso literalmente passar a vida escutando às mesmas músicas constantemente [ela abre seu iTunes]: Eagles, Beach Boys, Elvis Presley, Chris Isaak, Bruce Springsteen… — Lana Del Rey para a Les Inrockuptibles, em 2012

 

Musicalmente, eu procuro alguma coisa diferente, com coros majestosos, os refrões, as orquestrações, as atmosferas que evocam os anos 50 com um toque de soft grunge […] Gosto muito de misturar tudo isso. No ano que vem eu vou fazer turnê nos Estados Unidos. Eu fiz isso uma vez antes e me tocou muito, especialmente em cidades como Detroit, onde eu sinto a importância da História. Eu vou fazer isso de novo, dessa vez com Courtney Love, de maio a junho. — Lana Del Rey para a Grazia francesa, em 2014

Isso explica o porquê de Courtney fazer sim sentido em ser apost3 apresentação de abertura de sua turnê, trazendo a velha-guarda que experienciou o que ela tanto tenta demonstrar em suas canções — canções essas em que vocês podem sentir uma conexão quase direta a esse antigo rock e ao próprio Bowie, como na música ‘Candidate’ (de “Diamond Dogs”) que usa termos semelhantes a músicas de Lana, como ‘On Our Way’, ‘1949’ e ‘Prom Song’ e ‘Us Against The World’ com a ideia de juventude desperdiçada, uma rota de fuga, uma viagem insana à base de drogas e lollipops, o medo do futuro, o casal unido até o fim de suas vidas contra tudo e todos.

Candidate
Well, I guess we’ve must be
Looking for a different kind
But we can’t stop trying
‘Til we break up our minds
‘Til the sun drips blood
On the seedy young knights
Who press you on the ground
While shaking in fright
I guess we could cruise down
One more time
With you by my side
It should be fine
We’ll buy some drugs
And watch a band
Then jump in the river
Holding hands

Tradução
Bem, eu acho que você deve estar
Procurando por um tipo diferente
Mas nós podemos parar de tentar
Até mudarmos nossos ideais
Até o sol gotejar sangue
Sobre os decadentes jovens cavaleiros
Quem te pressionar contra o chão
Enquanto trememos de medo
Acho que nós podemos atravessar
Mais uma vez
Com você ao meu lado
Seria tranquilo
Nós compraremos um pouco de drogas
E veremos um show
Então pularemos no rio
De mãos dadas

Rebel Rebel
We like dancing
And we look divine
You love bands when
They’re playing hard
You want more and
You want it fast
They put you down
They say I’m wrong
You tacky thing
You put them on
Rebel, rebel
You’ve torn your dress
Rebel, rebel
Your face is a mess
Rebel, rebel
How could they know?

Tradução
Nós gostamos de dançar
E parecemos divinos
Você ama bandas quando
Elas tocam com vontade
Você quer mais e
Você quer velozmente
Eles te deixam pra baixo
Eles dizem que estou errado
Sua melosa
Você os deixa pra cima
Rebelde, rebelde
Você arruinou seu vestido
Rebelde, rebelde
Seu rosto é uma bagunça
Rebelde, rebelde
Como eles poderiam saber?

E, claro, a clássica ‘Rebel Rebel’ que se assemelha absurdamente à música ‘Cruel World’ e sua voz de garota bagunçada que adora seu vestido de festa e só quer perigo. E é com ela que Lana Del Rey dá início a Endless Summer Tour e somos jogados ao mundo nova-iorquino de prédios de cores azuis e violetas com um nascer do dia lá atrás. O telão que projeta o céu da cidade desenvolve o conceito do desenvolvimento do próprio dia ao longo da duração do show — brincando com uma abertura “de manhã” conforme as músicas seguintes vão entardecendo o concerto até o anoitecer na última canção.

Pode ser notado um cenário semelhante às animações do filmepost4Howl” (2010), onde o ator James Franco interpreta o poeta Beat Allen Ginsberg durante o processo criativo do poema de mesmo nome. A animação dos prédios em si, as imagens jogadas no telão durante a passagem de ‘Cruel World’ com as cenas da Lana dançando (do clipe de ‘Shades of Cool’), as luzes das janelas dos prédios sendo acesas, a cidade se iluminando ao fundo, tons vermelhos que invadem o cenário, a melodia caótica da canção… Tudo parece uma encenação da alma também caótica que envolve a turnê, o álbum e a própria Lana Del Rey. As ilustrações musicadas e intensas de seu próprio show são como as ilustrações também musicadas e intensas do filme citado — que, sinceramente, não seria novidade caso fosse proposital, já que o poema ‘Howl’ é exatamente um dos poemas narrados por ela no curta-metragem Tropico.

E então, como uma conclusão absurdamente perfeita que elucida ainda mais o caos, a partir do minuto 06:27 (mesmo vídeo da intro acima) aparecem ao fundo cenas velozes de frases de um suposto livro de Filosofia — e, pra quem não sabe, Del Rey é formada em Metafísica, um dos ramos dessa disciplina. Existencial, confuso e absolutamente intenso, conforme as palavras “ilusão do tempo”, “existência humana”, “matéria”, “doutrina”, “realidade” e “existência da mente” são jogadas na tela, podemos ser levados à ideia de que essas frases sejam a respeito da concepção filosófica do Solipsismo. E o que seria isso? Em termos simples e diretos, é a ideia da solidão existencial de que tudo aquilo que esteja fora da sua própria mente seja uma mera ilusão.

Tendo como base a definição solipsista da negação, “a concepção do termo leva em conta até mesmo a inexistência do mundo”, já que só pode ser provado aquilo que você mesmo experienciou através de sua mente de acordo com a doutrina de que “nada se pode conhecer a não ser os próprios conteúdos mentais”. Em exemplificação, “não posso saber que ao meu lado está uma janela; tudo o que sei é que tenho na minha mente a ideia ou imagem da janela, o que é bem diferente”.  Coisa de louco, não é? Mas não é tanto assim se você lembrar que os olhos humanos são capazes de enxergar apenas 3 das 11 dimensões existentes no universo (e como “universo” quero dizer desde Netuno até esse sofá em que você está sentado), e que essa realidade 3D que você vê é simplesmente algo formulado na mente humana através dos sentidos, que tem muito mais nesse nosso ambiente do que nós podemos ver, mais 8 dimensões passando por nossos olhos sem serem enxergadas (pense só nos índios durante o período do descobrimento que, como só eram acostumados a ver coisas “simples” e jamais viram embarcações ou qualquer representação semelhante, simplesmente não enxergaram, à primeira vista, as caravelas se aproximando). Assim, negando tudo aquilo que esteja além dele mesmo, aceitando o tempo e a realidade como ilusões, o solipsismo metafísico é o extremo ideário dessa doutrina por alegar o indivíduo como um “ser único”, pondo como única realidade o “eu absoluto”. Em termos nietzschianos, a frase “penso, logo existo” nunca foi tão real.

Mas retornando a ‘Cruel World’, o suposto solipsismo mostrado no telão faria todo o sentido com o tão repetido verso Shared my body and my mind with you/That’s all over now” (Compartilhei meu corpo e minha mente com você/Isso está acabado agora) já que ela simplesmente desistiu dessa ideia de se compartilhar a vida, de se compartilhar a mente com alguém. Somos apenas nós mesmos, nosso amor próprio, nossa própria bagunça interna, nossa própria busca pelos sentidos e pela verdade num mundo solitário. Todo o resto é ilusão, e é sobre isso o que se trata toda a canção: o “abrir de olhos”, o despertar de que o tempo e a realidade não são como parecem. O nascimento do dia, o nascimento de uma nova pessoa.

Quando ‘Cola’ estoura nos alto-falantes do show, o delírio e os sorrisos danadinhos são sempre certeiros! E pra combinar com tudo isso, os mesmos tons violetas colorem os prédios enquanto no telão são projetadas as mesmas imagens em preto e branco da Paradise Tour, com palmeiras sendo empurradas pelo vento, pássaros voando confusos em um clássico sinal de catástrofe natural (a traição, o perigo da personagem cantada) até que, a partir de 03:55, o caos é substituído por belas imagens de flores coloridas se abrindo (a aceitação dessa personalidade) ao passo em que os prédios iluminam as cores com o cinza anterior, demonstrando a dualidade entre o bem e o mal que domina o eu-lírico de Del Rey.

Em ‘Blue Jeans’ se vê os comuns tons acinzentados e azuis que relembram o videoclipe (com os prédios ganhando o tom preto ao final da música que, assim como no clipe, simboliza a morte espiritual ou moral da personagem), e então vem ‘West Coast’ para aprimorar o tom em preto e branco da costa oeste americana, mais palmeiras, praias e ondas no telão enquanto as luzes dos prédios brigam entre o melancólico e aquecido azul para o vermelho e laranja cheios de luxúria e mistério.

1 – Us Against The World. 2 – Born to Die

A partir de ‘Us Against The World’ retornamos ao singelo violeta iluminando o anfiteatro e os prédios; então vem a clássica ‘Born To Die’ e o patriotismo norte-americano com a bandeira dos EUA tomando conta do palco, e logo chega ‘Ultraviolence’, o carro-chefe da turnê cheia de prédios cinzas e imagens surrealistas que quase lembram sonhos — mostrando luzes sem corpo definido e estrelas em forma de fogo que fluem de um lado para o outro no espaço e dão a sugestão de ser uma fênix, a ave mitológica do renascimento, que de repente dá forma à imagem de Lana no clipe da canção, mostrando daí belas cenas de florestas e novamente o fogo. Bem sutilmente essa jogada de cenas me lembrou o filme “A Árvore da Vida”, o qual mostra o surgimento da vida de modo extremamente poético desde sua divagação pelo universo até sua chegada magnânima na Terra.

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Summertime Sadness

A famosa ‘Summertime Sadness’ chega multicolorida com o “entardecer” do show, cheio de cores que remetem ao por do sol somente preparando a entrada calma e deliciosa do cover ‘Chelsea Hotel No. 2” — extremamente simples num azul discreto se misturando à noite, aludindo ao cantor original dessa canção, Leonard Cohen, e seu tempo em que cantava na antiga NYC dos anos 70 e 80 que só se importava com o verdadeiro significado da música (por isso só um único holofote e o letreiro “Del Rey” atrás de Lana). E é ela que carrega o conceito de “nova-iorquismo” presente em todo show e provado através do próprio cenário e da setlist; Del Rey parece fugir do conceito orquestral de Los Angeles e suas palmeiras que figuravam a Era Paradise, dando a Endless Summer Tour uma definição do que representa Nova York, sua cidade natal e a cidade em que, por tantos anos, ela viveu. Talvez seja esse conceito que também trouxe as nova-iorquinas unreleaseds ‘Us Against The World’ e ‘You Can Be The Boss’, além de ‘Off To The Races’ que encerra o show – elas falam da cena de NYC, ela compõe todo esse regionalismo que podemos ver no álbum “Ultraviolence” com a maioria de suas músicas (desde a própria ‘Ultraviolence’ até ‘Brooklyn Baby’ e ‘Old Money’). O Ultra e sua turnê resgatam a velha cidade da cena underground, a cidade que esteve tão próxima de Woodstock, que abriga o Hotel Chelsea — o qual hospedou os maiores nomes da música da velha rock n’ roll; Cohen, Joplin, Dylan, Sid e Nancy…

Bob Dylan a inspirava, ela disse, “O jeito que ele criava suas próprias histórias que o deixavam criar seu próprio futuro… Eu me mudei para West Village (Nova York) porque eu amava essa era na década de 1960 quando eles estavam criando um novo mundo”. — Lana Del Rey para o site Inquirer, em 2015

A rainha do drama de Born To Die não está exatamente morta e enterrada — está mais para esfarrapada e maltrapilha — com suas antigas batidas hip hop substituídas pelos microfones de lojinhas e riffs enlouquecidos em Ultraviolence. Como sempre, seus vocais são adocicados e estranhos, esboçando uma visão de Nova York com cafeterias e bicicletas antigas na terna “Brooklyn Baby” e assustando na aveludada “Cruel World”. — Dazzed e Confused sobre Lana Del Rey, em 2014.

Assim, chega ‘Brooklyn Baby’ que — apesar de sua aparente doçura de letra que venera a Geração Beat com os prédios se misturando aos desenhos da ponte do Brooklyn — retoma a grande inspiração do cenário que já comentamos, David Bowie e seu “Diamond Dogs”. O livro “1984”, o qual foi toda a base de inspiração para o álbum de Bowie, foi escrito por George Orwell em 1949 ao narrar uma sociedade pós-apocalíptica onde o Estado totalitário chamado “O Grande Irmão” (sim, o Big Brother) tem todo o poder sobre a vida e mente dos indivíduos.

Sinopse: A história narrada é a de Winston Smith, um homem com uma vida aparentemente insignificante, que recebe a tarefa de perpetuar a propaganda do regime através da falsificação de documentos públicos e da literatura a fim de que o governo sempre esteja correto no que faz. Smith fica cada vez mais desiludido com sua existência miserável e assim começa uma rebelião contra o sistema.

Esse sistema que tem todo o controle sobre o povo usa como método post8de monitoração as “teletelas” que são basicamente uma espécie de televisor que ficam em todos os lugares, inclusive no aconchego de todos os lares. E esse mundo extremamente opressivo não esconde nada disso — espalhados pelas ruas ficam os cartazes onde se lê o slogan do sistema de autoritarismo absoluto: “O Grande Irmão está
de olho em você”
. E o que isso tem a ver com a Lana? Por acaso ninguém notou que atrás da Ponte do Brooklyn projetada no telão está a figura misteriosa e estranha de um olho? O icônico olho do Grande Irmão que Bowie cantava na Diamond Dogs Tour e aparece aqui. O motivo específico que relaciona justamente ‘Brooklyn Baby’? Talvez seja a máquina autoritária do capitalismo que não se esconde em Nova York, a maquinaria a que tanto era contra a Geração Beat, a sociedade monitorada onde tudo se vê, a região em que o mundo inteiro está sempre de olho (tremendo ou tramando)… As hipóteses são inúmeras, a conclusão fica a você mesmo.

1 – Shades of Cool. 2 – Poster “Endless Summer Tour’

Mas enquanto a turnê tem espaço para as distopias literárias sonhadas por Bowie, Del Rey também se acolhe nos tons azuis de ‘Shades of Cool’ que irradiam tristeza e melancolia, enquanto na tela são jogadas imagens da apresentação ao vivo de Lana com o efeito celofane que está presente lá no pôster da tour. Em ‘You Can Be The Boss’ temos as cores rosadas e violetas conforme o telão simula uma
corrida desenfreada de carro pelas yc
ruas misteriosas e iluminadas de NYC que contrastam com alguns lapsos de cenas de uma bailarina (provavelmente simbolizando o encantamento pelo perigo). Os tons de azul que predominam todo o concerto, inclusive, faz parte do conceito do álbum “Ultraviolence”.

 

“Eu explicava as coisas pra ele [Dan Auerbach, produtor do álbum] em termos de cores e palavras-chave”, ela diz. “Minha palavra para o álbum era ‘fogo’, você sabe, fogo azul, quando a chama fica tão quente que sai do vermelho para o azul. Eu disse a ele que eu queria que tudo soasse como se fosse o tom de azul.” – Lana Del Rey para a Rolling Stone, em 2014.

1 - Livro "Psicose". 2 - Serial Killer live

1 – Livro “Psicose”. 2 – Serial Killer live

Mas foi ‘Serial Killer’ que acabou me chamando um pouco mais a atenção pelos prédios tomarem um tom todo enegrecido que quase lhes dá um efeito de “serras”, com as luzes avermelhadas e o céu cinza que, olhando o prédio ao fundo, parece até uma mansão mal assombrada… O que é extremamente semelhante ao cenário do clássico filme “Psicose” na capa de uma das edições do livro que o originou (dirigido por Alfredo Hitchcock em 1960 e que motivou a incrível série de TV atual, “Bates Motel”). Lana já se afirmou fã do diretor, agora independente de ter sido uma pequena inspiração ou não, acaba fazendo todo o sentido pelo único fato de a história narrar exatamente a vida de um serial killer.

E se por um lado a canção ‘Video Games’ se segue doce e discreta em meio ao cenário, é o cover de ‘Why Don’t You Do Right’ que chama toda a atenção como a penúltima apresentação do concerto. Antes conhecida na voz e ritmo de jazz agitado de Peggy Lee nos anos 50, ela voltou em uma dose turbinada de sedução em 1988 quando a voluptuosa e sexy personagem de desenho animado, Jessica Rabbit, encena uma performance lenta no filme “Uma Cilada Para Roger Rabbit”. Produzido por Steven Spilberg, o longa-metragem, que faz uma homenagem ao estilo noir do cinema da década de 40, foi um imenso sucesso pela ideia inovadora de se misturar live-action e animação — fazendo uso de um efeito especial jamais visto na época. E a partir do momento em que as pernas de Jessica Rabbit apareceram por entre as cortinas vermelhas, ela entrou para sempre no hall das personagens mais admiradas de todos os tempos.

Com o telão atrás de Del Rey projetando a mesma cortina vermelha do filme e a melodia lenta e sexy ao piano, ela encena a versão da música da personagem — mas isso não seria novidade alguma já que na canção ‘Puppy Love’, Lana diz que “todos sabem que ela é como a Jessica Rabbit” (“Everyone knows I’m like Jessicapost5 Rabbit/I’m your leading lady/I gotta have it, baby”). E claro que esse mesmo filme também deve ter servido de inspiração básica para o estilo “cartoonesco” que têm os prédios do cenário do palco – o cover e esse efeito de desenho com certeza não foram escolhidos despretensiosamente — e podemos até brincar ao dizer que a área VIP dos shows lembra o cenário do clube em que Jessica se apresenta.

E por fim temos a adorada ‘Off To The Races’ que costumava ser tão renegada na Paradise Tour e então chegou de repente como o encerramento da Era Ultraviolence! A melodia trip hop casa perfeitamente com as cenas retrôs de desenho animado, dançarinos, holofotes de Vegas, presídios, jogos, dinheiro, figuras importantes, poder, fogos de artifício e todo o conceito surrealista que Lana adora e costumava pregar em seus videoclipes caseiros. A letra que narra um amor perigoso entre ladrões e almas perdidas é personificada nas luzes intensas e misteriosas que se alteram assim como a personalidade da voz cantada e das imagens ao fundo. O som orquestral do final, a grandiosidade de uma apresentação tão simples se dá em toda a sua força e beleza no ato final que relembra Lolita e a família Kennedy.

A Endless Summer Tour, portanto, é uma bela surpresa filosófica, histórica, musical, literária e teatral que com certeza ainda será fruto de muitas outras inspirações — seja com Beach Boys, David Bowie, Courtney Love, Leonard Cohen, Hitchcock ou filmes antigos hollywoodianos, nós sabemos que Lana Del Rey é sempre uma caixinha de surpresa repleta de conteúdo para nos ensinar. De fato, uma alma antiga. Uma mente de um suave “retrô futurista” e surrealista que amamos tanto e nos sentimos conectados. Somos todos raízes de uma mera ilusão de realidade e, enquanto nossa realidade for apreciar o mito Del Rey, nós iremos continuar na nossa jornada eterna rumo a um verão sem fim.

Por Raphaella Paiva

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
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