Ultraviolence e hortênsias: a simbólica conexão entre o álbum e as flores

por / domingo, 12 abril 2015 / Publicado emAnálises, Colunas

Hydrangeas 1

Quando Lana Del Rey divulgou o álbum Ultraviolence no ano passado (2014), houve um detalhe que chamou muito a minha atenção e que até hoje me encanta: o tema de fundo do álbum, caracterizado pelo uso da flor Hydrangea macrophylla, popularmente conhecida como hortênsia. Quando eu escutei Old Money pela primeira vez, me deparei com elas novamente já no primeiro verso da canção: “Blue hydrangeas, cold cash divine”… certamente não deveria ser algo apenas visual. Desde então, eu sempre me questionei se poderia haver uma relação entre o álbum de Lana e essas flores, sabendo que ela dificilmente escolhe algo somente pela estética daquilo.

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Primeiramente, eu imaginei que pudesse apenas ser uma ideia visual de Neil Krug, o fotógrafo que fez todo o ensaio referente ao Ultraviolence. Neil é realmente genial, pois consegue absorver os conceitos e a personalidade de Lana Del Rey e transformar tudo isso em uma imagem, mas eu ainda não estava satisfeito com a ideia de que ele pudesse ter imaginado tal conexão. Para mim, isso vinha de Lana. Da mesma forma que ela disse para Dan Auerbach que o álbum deveria transmitir a intensidade de chamas azuis, ela deve ter dito para Neil que as hortênsias expressam visualmente a alma de Ultraviolence e que por isso deveriam ser o tema de fundo de seu álbum. Particularmente eu sempre achei essas flores lindas, já que moro no sul do Brasil e há uma grande quantidade delas por aqui, porém, eu nunca parei para pensar se pudesse haver algum significado por trás dessa planta arbustiva.

Ao pesquisar sobre isso, deparei-me com dezenas de informações interessantes. As hortênsias possuem variações nas cores, e isso pode ser observado na imagem em que Lana aparece deitada sobre hortênsias de cores diferentes. Assim, cada uma delas têm um significado que, em geral, representam obstinação, dignidade, honra e os mais sinceros e profundos sentimentos.

Nesse sentido, as hortênsias azuis e brancas estão associadas à calma, tranquilidade, conforto, paz, serenidade, esperança, devoção, e estabilidade, o que me leva a crer que essas tonalidades representam a Lana antes e durante a gravação do álbum, já que para ela foi um trabalho satisfatório ter escrito as músicas e gravado o álbum, mesmo que esse conjunto não tenha sido interpretado pela mídia de forma tão serena. Já as hortênsias rosas representam, além de pensamentos puros e intensos, extrema vaidade, e é aí que encontramos grande parte da essência de Ultraviolence, disco composto de canções fortes com uma sonoridade pesada e que mesmo assim não deixa de ser belo. As canções Money Power Glory e The Other Woman (canção originalmente cantada por Nina Simone) expressam diretamente essas características, pois em seu terceiro álbum de estúdio, Lana Del Rey encarna uma mulher vaidosa, que sabe que jamais deve perder a sua coragem e personalidade feminina para conseguir aquilo que quer: o sucesso, a fama e a felicidade, mesmo que isso tenha que lhe deixar cicatrizes no coração.

Old MoneyDiante dessas conexões, podemos perceber que Ultraviolence é um álbum notavelmente emocional e sentimental, não se tratando apenas de música, mas sim de lágrimas interiores sendo derramadas em cima de pianos e saxofones. Essa emoção é transmitida através das canções de forma pura e profunda.

As hortênsias também são símbolos de beleza e presença, e em alguns locais como Japão e China (seus países de origem), são consideradas flores invasoras por se reproduzirem rapidamente. Ultraviolence é um disco que possui sonoridade deslumbrante e de forte presença, sem haver a necessidade de um tratamento especial, sendo que o álbum se tornou um sucesso de vendas mesmo não havendo um eficiente trabalho de divulgação. Eis mais uma forte relação entre as flores e o álbum. Lembrando que a invasão das hortênsias nem sempre agrada a todos, assim como a sonoridade de Ultraviolence, que pode não ser compreendida igualmente por todas as pessoas que o escutam.

De qualquer maneira, mesmo que não haja nenhuma conexão relevante, as hortênsias são únicas e belas, assim como o álbum Ultraviolence. Se realmente foi Lana quem teve essa ideia, ela foi muito sábia quando escolheu esse tema, pois é capaz de transmitir visualmente a sonoridade e a composição de seu álbum de forma genial. São como as rosas vermelhas em Born To Die, que representam o amor puro e o romance, ou as rosas negras de Paradise, que remetem ao obscuro e ao impossível: sempre há um significado. Já quero hortênsias na minha futura casa.

Alexandre Krause
Catarinense com muito orgulho e amante de uma boa música. Adora viajar, ler, assistir séries, e tem um profundo amor pelo inverno. Conheceu a Lana em 2012 ouvindo Ride. Ama a canção Radio, pois sempre que escuta essa música, pondera que a vida pode ser muito melhor do que ela já é.
  • Ian Holland

    Lana ama flores <3 Além das rosas que decoram o disco de BTD, há estrelícias no Paradise Box Set! Mas sem dúvida as mais especiais são as hortênsias amei o texto

  • Luna

    Gostei bastante do texto. Bem valor, e sim, concordo com o texto. Eu acho Born To Dei bem mais sombrio, eu sei que pode soar como loucura, mas busquei o CD sem a voz da Lana, escutando apenas a sonoridade do album. Não acho um melhor que o outro, acho que são composições, que chegam a lugares diferentes, com tonalidades diferentes. Mas ao escutar Ultraviolence sem voz da Lana e Born To Die, born to die, assusta mais, pela misturas de sons reis. BTD em seus vocais mais tímidos, atravessam melodias sonoras reais, como sonidos reais do nosso cotidiano, misturados ao som dos violinos fortes, enquanto Ultraviolence, os vocais de Lana explodem, e o aspecto sonoro é mais baixo, em Brooklyn Baby, ela praticamente canta sozinha, tanto quanto Old Money. Eu encontrei a obscuridade do primeiro album em Fucked My Up to The Top e Ultraviolence mesmo, é possível achar sonoridades semelhantes a musica Born To Die em Ultraviolence, e também Fucked my way up to the top em algumas outras canções de Born To Die. A guitarra parece que dá uma sonoridade mas obscura, o que na verdade, eu senti que no final, ela deixa o CD mais leve. Enquanto os violinos de Born To Die deixam a atmosfera do album obscura só que escondida. Não sei se consegui expressar bem.

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