ICONIC SOUL | Lou Reed: Um feat perdido e uma das inspirações mais selvagens de Lana Del Rey

por / sábado, 10 janeiro 2015 / Publicado emColunas, Iconic Soul

  “Yeah, my boyfriend’s in a band, he plays guitar while I sing Lou Reed…” Músico, poeta, uma alma selvagem perdida em Nova York que se tornou um dos maiores artistas de todos os tempos.

            Nascido e criado no Brooklyn desde a década de 1940, Lou Reed foi muito mais do que uma mente criativa e um coração selvagem ao melhor estilo David Lynch – foi vocalista e guitarrista de uma das bandas de rock que mais influenciou outros artistas e bandas de rock, The Velvet Underground. Se hoje você se enlouquece ouvindo Nirvana, The Strokes, Radiohead ou David Bowie, agradeça a Lou Reed e sua genial banda de que é reverenciada pela crítica por ser um dos poucos grupos realmente essenciais na história do rock ‘n roll. Sentiu o nível?

Mas qual aspecto essencial tornou Lou Reed e sua banda uns dos ícones mais reconhecidos e respeitados na cultura pop/rock ocidental? Nada mais, nada menos que a mistura entre música e arte proporcionada pela poesia enlouquecedora de Reed e os talentos de artista plástico de Andy Warhol, empresário da banda de rock. A mistura de talentos, a voz indiferente e grave de Lou Reed, os solos de guitarras, suas letras tão intimistas… Eram uma verdadeira overdose de Pop Art que movimentava as ruas do Brooklyn, os bares de New York City e iluminava os corações desse conhecido rockeiro maldito.

E foi assim que ele passou a dominar as mentes dos jovens não somente de sua época, mas das épocas dos que poderiam ser seus filhos e depois seus netos, e foi quando ele fisgou a alma de Lana Del Rey. Cantando com uma poeticidade jamais tão estabelecida e apreciada no universo da música, Reed não tinha medo de falar e cantar sobre os esquecidos – os marginalizados pela sociedade, a pobreza, os viciados, a mente daqueles jovens que, como dizia o clássico poeta Allen Ginsberg, estavam apenas “em busca de uma dose violenta de qualquer coisa”.

David Nichtern, que assinou [Lana] à sua pequena gravadora indie quando ela ainda estava na faculdade, viu nela um “aspecto exterior de Marilyn Monroe com o interior de Leonard Cohen”: ela pode até parecer um pouco com Nico [também vocalista de The Velvet Underground], mas é sua própria Lou Reed. Ela é ansiosa e centrada quando está nos palcos, mas destemida em suas letras. – Brian Hiatt para a Rolling Stone, em 2014.

E se muitos acham que Lana Del Rey apenas citou Lou Reed em sua música Brooklyn Baby, estão mais que enganados. Ainda em 2012, em seu primeiro álbum oficial, “Born to Die”, ela já recitava muito bem os tão conhecidos versos do cantor em suas melodias sombrias e arranjadas. “Come and take a walk on the wild side…” [Venha e caminhe pelo lado selvagem] foi inspirada pelo álbum e música mais aclamadas de Reed, “Walk On The Wild Side”, uma delícia divertidíssima de se ouvir, com aquela pegada do velho rock ‘n roll dos anos 60 que era experimental e psicodélico e chega a nos lembrar de Beatles ou Pink Floyd.

Jackie is just speeding away

Jackie está dirigindo muito rápido

Thought she was James Dean for a day

Pensou que ela era James Dean por um dia

Then I guess she had to crash

Então acho que ela tinha que bater o carro

Valium would have helped that bash

O Valium deveria ter ajudado nessa doideira

Said, “Hey, babe

Ela disse, “Ei, querido

Take a walk on the wild side”

Caminhe no lado selvagem”

I said, “Hey, honey

Eu disse, “Ei, querida

Take a walk on the wild side

Caminhe no lado selvagem”

And the colored girls say, “Doo do doo do doo”

E as garotas de cor dizem, “Doo do doo do doo”

            James Dean, lado selvagem… Não é a cara da Lana? Blue Jeans e Born To Die lembram bastante a canção tão suave e poética de Lou Reed, derramando uma melodia carregada de poesia. Mas a inspiração não acaba por aí… E chegam a extrapolar outras melodias e os próprios nomes das canções, como a Coney Island Baby, música e também título de um dos álbuns do cantor. E é claro que você já deve ter se lembrado de pelo menos uma ou duas músicas de Del Rey.

God, I’m so crazy, baby

Deus, eu estou tão louca, baby

I’m sorry that I’m misbehaving

Desculpe por estar me comportando mal

I’m your little harlot, scarlet

Eu sou sua pequena prostituta, pequena estrela

Queen of Coney Island

Rainha de Coney Island

Raising hell all over town

Causando um inferno por toda a cidade

Sorry about it

Desculpe por isso

Off To The Races, Lana Del Rey.

Carmen, Carmen, staying up till morning

Carmen, Carmen, ficando acordada até de manhã

Only seventeen, but she walks the streets so mean

Só 17 anos, mas ela anda tão malvada pelas ruas

It’s alarming truly how disarming you can be

Honestamente é alarmante como ela consegue nos desarmar

Eating soft ice cream, Coney Island queen

Tomando sorvete cremoso, rainha de Coney Island

Carmen, Lana Del Rey.

Lana e Lou Reed cresceram e viveram praticamente nos mesmos lugares de Nova York, ambos moraram por anos e anos no Brooklyn, passeavam por Coney Island e Manhattan e Chinatown, e ambos sentiam essa paixão inconfundível pela cidade que tanto amavam, cravando-a assim em muitas e muitas de suas canções.

“Eu não preciso de um lugar específico para receber [minha inspiração], porque tenho meu próprio jeito secreto há oito anos. Começa na rua 59 (em Nova York), seguindo pelas docas até o Canal Street, passando por Chinatown e pelo bairro italiano, e depois volto pelo East Side… Percebi que para minha mente viajar, meu corpo deve estar se movendo. Eu encontrei Lou Reed várias vezes, ele aparentemente usa a mesma técnica!” Lana Del Rey para a Les Inrockuptibles, em 2014.

Oh, my Coney Island baby, now

Oh, minha garota de Coney Island, agora

I’d like to send this one out for Lou and Rachel

Eu gostaria de mandar essa música pra Lou e Rachel

And the Lord appeared and He has one made of two

E Deus apareceu e Ele tinha uma feita para pra dois

Coney Island baby

Garota de Coney Island

Man, I swear, I’d give the whole thing up for you

Cara, eu juro, eu daria tudo por você

Coney Island Baby, Lou Reed.

            É adorável, não é? É como se ele estivesse falando sobre a Lana, descrevendo-a em cada uma de suas palavras e decifrando seu amor por ela. É simplesmente amável.

Além disso, há pequenas semelhanças de canções de Lou Reed com “Ride” e tantas e tantas outras músicas de Del Rey. É como se a lista fosse infinita e estivesse ali exposta aos ouvidos sensíveis, como as comuns frases do cantor em versos como “When you’re all alone and lonely in your midnight hour” (Quando você está completamente sozinho e solitário à meia noite), “It’s not your time or way of confusion, ride, Sally, ride” (Não é hora ou momento de confusão, dirija, Sally, dirija) com os versos de Lana em “I am alone at midnight” (Eu me sinto sozinha à meia noite) e “I’ve got a war in my mind, so I just ride, just ride” (Eu tenho uma guerra em minha mente, então eu dirijo, eu só dirijo).

Sem contar pequenos jogos de palavras com “wild”, “child” e adjetivos que eles compartilham em suas letras.

She’s a wild child, and nobody can get at her

Ela  é uma criança selvagem, e ninguém pode pegá-la

Sleepin’ out on the street, oh, livin’ all alone

Dormindo na rua, oh, vivendo completamente sozinha

Without a house or a home and then she asked you, “please

Sem uma casa ou um lar e então ela perguntou a você, “por favor

Hey, baby, can I have some spare change?

Hey, querido, eu posso pegar alguns trocados?

Oh, can I break your heart ?”

Oh, posso partir seu coração?”

She’s a wild child, she’s a wild child

Ela é uma criança selvagem

Wild Child, Lou Reed.

            Ah, mas ela é uma criança selvagem e é exatamente assim como Lana sempre refere a si mesma, seja em American quando canta “You make me crazy, you make wild; just like a baby, spin me round like a child” (Você me deixa louca, você me deixa selvagem; assim como um bebê, me gire como uma criança), em Young And Beautiful com “When you and I were forever wild, the crazy days, the city lights, the way you’d play with me like a child” (Quando você e eu éramos para sempre selvagens, os dias loucos, as luzes da cidade, o jeito que você brincava comigo feito uma criança) ou como uma personagem igualzinha a da música de Lou Reed em Because of You:

I was a young girl, selfish and wild

Eu era uma jovem garota, egoísta e selvagem

Like a fire in LA

Como um fogo em Los Angeles

Hot like the summer and mean like a child

Quente como o verão e malvada como uma criança

Who keeps crying ‘till she gets her way

Que fica chorando até conseguir o que quer

            Sempre emocionante, sincera, loucamente jovem e selvagem, é como se Lana fosse o par perfeito de Lou Reed, e não digo isso somente em aspectos musicais, mas suas almas eram pares e os sentimentos incompreendidos e incompletos que eles tentavam afastar de si mesmos, mas jamais conseguiam. Ambos são duas pessoas más tentando ser boas, perguntando aos Céus por que nasceram assim.

Why can’t I be good?

Por que eu não posso ser bom?

I don’t want to be weak

Eu não quero ser fraco

I want to be strong

Eu quero ser forte

Not a fat happy weakling

Não um débil feliz

With two useless arms

Com dois braços inúteis

A mouth that keeps moving

Uma boca que fica se movendo

With nothing to say

Com nada a dizer

An eternal baby

Um eterno amor

Who never moved away

Que nunca se afastou

Why Can’t I Be Good, Lou Reed

I know that he’s right, but I don’t care tonight

Eu sei que ele está certo, mas eu não me importo

I want to be bad, I want to be bad

Eu quero ser má, eu quero ser má

I can’t stop

Eu não posso parar

I keep running ‘round the same town, knocking you down

Eu continuo correndo em volta da mesma cidade, derrubando você

I’m fucked!

Eu estou fodida!

How can I get out when there’s no where to go for miles around?

Como eu posso cair fora se não há lugar algum pra ir a quilômetros de distância?

Tired of Singing The Blues, Lana Del Rey.

E provavelmente por isso Lana escolheu justamente Lou Reed para fazer uma participação especial na sua música Brooklyn Baby, quando ainda estava gravando o álbum “Ultraviolence” – segundo a cantora, ela escreveu a música pensando nele e queria muito cantá-la junto de um dos seus maiores ídolos vivos.

“E em Brooklyn Baby eu volto pra costa leste, mas ainda meio que tem essa sensação casual musicalmente. Eu estava apenas lembrando dos meus dias no Brooklyn, meus dias com meu namorado na South 8th Street, no quanto eu era feliz ouvindo seus vinis vintage e sendo uma grande fã da poesia da geração Beat e Jack Kerouac e Lou Reed.” Lana Del Rey para a MTV alemã, em 2014.

Essa parceria, no entanto, infelizmente resultou em um trágico final que almas gêmeas sempre ganham. E foi com lágrimas nos olhos que Lana fez a seguinte entrevista com a Rolling Stone em agosto do ano passado, poucos meses depois do lançamento do álbum:

Del Rey se gerenciou para obter a coragem de fazer o que ela sempre quis fazer: cantar com um genuíno herói. Ela compôs uma música chamada “Brooklyn Baby” e foi para Nova York encontrar seu ídolo, e então ele poderia gravar os vocais com ela. “Eu estava viajando para ver Lou Reed e tocar com ele essa música. Eu o queria na faixa, e eu estava falando com a agente dele há meses”, ela diz, olhando para algum lugar com lágrimas nos olhos. “Eu estava cansada do voo e então, às 7 da manhã, eu estava indo tocar ‘Brooklyn Baby’ com ele. Ele morreu na manhã que eu cheguei lá.” – Lana Del Rey para a Fashion Magazine, em 2014.

Lana ficou arrasada com a notícia e teve que pôr de volta na caixa o sonho de gravar uma bela música com um grande ídolo, chamando assim Seth Kaufman para a parceria que faz apenas um delicioso backing vocal na estrofe final da canção – e que muitos ainda confundem com a voz do ex-namorado da cantora, o também cantor Barrie O’Neal.

De qualquer forma, Brooklyn Baby se tornou uma das melhores músicas do álbum “Ultraviolence”, transmitindo todo o amor de Lana Del Rey pela sua antiga casa, suas antigas ruas, seus antigos poetas e antigos músicos. Um tributo à velha Nova York, onde ainda tínhamos odes à paz e amor, jovens apaixonados buscando por arte, músicos e escritores ensandecidos ao som de jazz e histórias sobre o Chelsea Hotel, transformando sonhos em realidade, misturando arte e vida e tendo como cenário as cores completamente irresistíveis do bom e velho rock ‘n roll de Lou Reed.

Que descanse em paz.

“Há um pouco de magia em tudo, e alguma perda para equilibrar as coisas.”
Lou Reed.

Por Raphaella Paiva

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
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