O significado de Lana Del Rey: A cultura pop, pós-feminista e as escolhas enfrentadas por jovens mulheres hoje em dia

por / segunda-feira, 29 dezembro 2014 / Publicado emAnálises

O significado de Lana Del Rey

A cultura pop, pós-feminista e as escolhas enfrentadas por jovens mulheres hoje em dia

 

A crítica elevada contra a cantora pop Lana Del Rey na internet e no jornalismo em massa gera um número de perguntas sobre jovens mulheres escolhendo se conformarem com sua imagem requisitada pelas mídias corporativas em função de alcançar o sucesso, e sobre as condições sob qual sucesso pode ser alcançado na indústria de culturas, e em qualquer outro lugar. Isso gera as seguintes perguntas: sobre o poder das mídias corporativas e a capacidade de controlar produtos culturais e estabelecer normas, e sobre as escolhas apresentadas às jovens – sendo elas para explorar suas habilidades sexuais com o objetivo de alcançar o topo, ou negar essas pressões e arriscar no ambiente desconhecido. Essa pressão também é enfrentada por jovens mulheres tentando encontrar um trabalho ou criar uma carreira em outras áreas. Relações pessoais são apertadas e colocadas sob pressão também, e relações satisfatórias são difíceis de manter enquanto os dois, homem e mulher, precisam aliviar a difícil competição do mercado de trabalho.

Este trabalho irá discutir que a música de Lana Del Rey nos dá alguma expressão sobre a experiência vivida por seu público, e aos anseios desse público. Durante uma análise das músicas e clipes de Del Rey, também serão discutidos se ela representa e fala por uma contradição enfrentada por milhares de jovens mulheres hoje em dia, mulheres que seguiram a receita para o sucesso da sociedade no que se tem no chamado mundo pós-feminista, mas que acha que a verdadeira liberação e uma satisfação genuína estão lhes escapando.

Trabalhando por longas horas e pouco salário e ainda tendo responsabilidade de cuidar da casa, várias mulheres têm pouco tempo livre ou dinheiro, Imagens que sugerem que o romance e o escape sejam extremamente atrativos.

 

A ascensão e o sucateamento de Lana Del Rey

 

Em 2011, uma aspirante à cantora e compositora chamada Lizzie Grant abandonou seu nome e seu estilo provocante e encenou um relançamento que a permitiu subir ao estrelato. A cantora, nascida na cidade de Nova York e criada em Lake Placid, começou sua carreira cantando em bares. Depois de várias tentativas fracassadas de entrar para o mercado da música popular, ela assinou um contrato com a Stranger Records em Junho de 2011. Seu single de estreia foi chamado de “Video Games”, e foi seu clipe caseiro dessa música que se tornou um vídeo viral no YouTube e a trouxe para o sucesso da noite para o dia.

Ela, agora Lana Del Rey, foi imediatamente contratada pela Polydor Records e pela Interscope, gravadoras de Madonna e Lady Gaga. Seu álbum, Born To Die, foi lançado em Janeiro de 2012 e liderou as paradas em 11 países, incluindo França, Reino unido e Austrália, e ao longo do caminho ganhou como Artista Revelação no Reino unido no Brit Awards de 2012.

A reação contraria esse sucesso – reação contrária vindo de bloggers e usuários da internet, mas também significantemente do New York Times e outros jornais – focaram nos lábios aumentados cirurgicamente e seu falso look retrô, que ultrajou vários que acreditam que arte é sinônimo de autenticidade. Os argumentos eram que a carência de talento de Lana Del Rey era produto de uma corporação de mídia. Seu pai milionário, Robert Grant, foi acusado de patrocinar sua carreira e levá-la à fama.

À primeira vista, a crítica da música de Grant-Del Rey parece ecoar os argumentos feitos por Theodor Adoro da Frankfurt School, escrito em 1940. Adorno apontou para a maneira que cada interesse das corporações era controlado e definido à produção da música e outras artes populares. A música popular é padronizada e pré-planejada com o intuito de extrair uma série de respostas previsíveis e controláveis da parte do consumidor, ele discutiu. O pessimismo de Adorno cresceu enquanto a experiência do socialismo nacional escureceu sua perspectiva na capacidade humana de resistir a propagandas ofensivas dos complexos militares-industriais que dominavam os governos ocidentais. Em 1944, ele e seu colega, Max Horkheimer, sugeriram que a cultura já havia assumido o papel de proporcionar a coesão social, que anteriormente tinha sido fornecida pela religião.

A insistência de Adorno e Horkheimer na homogeneidade de tantos produtos culturais, no fato que dificilmente podemos distinguir propaganda de um texto editorial, parece ser particularmente verdade hoje. Ainda há uma dificuldade com essa ênfase no poder esmagador das indústrias culturais. A cultura popular, com objetivo de ser bem sucedida e conquistar o público, deve se expressar de alguma maneira o que as pessoas tenham vivido. Mesmo na religião, se é para canalizar os anseios das pessoas em direção ao futuro, deve-se dar expressão aos sentimentos da injustiça, angústia e desejo de um mundo melhor. Assim, a cultura popular é a mais complexa que Horkheimer e Adorno chegaram a ser.  As estrelas que são pescadas pela indústria musical também são particularmente adeptas a expressar os sentimentos dos ouvintes – e geralmente em canalizar esses sentimentos em tomadas inofensivas, como a busca do amor romântico. No entanto, às vezes em alguns aspectos, a música popular pode desafiar as formas estabelecidas de ver, sentir e pensar sobre a vida. Isso pode acontecer independentemente das intenções dos artistas, como é sugerido pela hostilidade de Bob Dylan para a ideia de que ele representou ou expressou as ambições de um movimento social ou de uma geração.

Isso não quer dizer que a música é necessariamente revolucionária. Cantores podem expressar a profunda infelicidade ao abraçar as condições que dão origem a essa infelicidade. Então, por exemplo, Greil Marcus argumenta que a música country nunca poderia ser um símbolo da mudança social na América de 1950. Para Marcus, a música country expressou o fatalismo dos brancos pobres e os ajudaram a se sentirem mais confortáveis com a aceitação do seu status. Da família Carter para Hank Williams e Patsy Cline, música country só poderia acompanhar o sofrimento dos pobres, só traziam alívio momentâneo, sem qualquer esperança de mudança.

Por outro lado, e não querendo sugerir que a música de Del Rey é radical ou progressiva (o que eu não acredito que seja), eu diria que é a expressão de algumas das insatisfações profundas que as mulheres continuam a sentir. Em particular, ela fala sobre um sentimento de que a liberdade realmente não foi alcançada e, em particular, a ambivalência sobre os tipos de relacionamentos que parecem requeridos pelas mulheres por causa da necessidade de apoio econômico ou emocional.

Enquanto o efeito contrário contra a música de Del Rey tem ganhado forma de questionar sua autenticidade, acusando-a de ser um produto de uma corporação da música pop, é difícil ver porque ela tem sido apontada dessa maneira. Todos os produtores de música popular são obrigados a assinar contratos com grandes gravadoras que ditavam os compromissos a fim de serem comerciais.  Isso foi o caso dos Beatles em 1960 e ainda é para bandas que querem ser conhecidas hoje em dia. O fato é que aqueles que mantêm e expandem sua popularidade trabalham para continuar expressando algo que é sentido pelo seu público, mesmo tendo que vender aquele sentimento voltado para produtos culturais que fazem de tudo, menos desafiar o status. O que mais impressionou sobre a reação contrária da mídia, que começou antes do lançamento de seu álbum, foi como isso era opinião internacional. Le Figaro, uma revista conservadora, citou comentários desfavoráveis sobre Del Rey escritos em jornais franceses de diferentes infuências – Le Parisien, Le Monde e Le Point – e também do jornal britânico Telegraph e o Guardian e até mesmo o jornal estudantil Michigan Daily. Uma das criticas da Figaro foi citada dizendo que “Video Games” deu “a luz a um monstro.” O escritor da revista ainda adicionou os pontos positivos do álbum de Del Rey “que podem ser contados com os dedos de uma mão,” mesmo que ela tenha potencial para se tornar uma grande artista. Uma antiga foto na revista L’Express foi acompanhada pela informação útil de que Del Rey era conhecida como “Duckface*” para iniciantes.

*Duckface: Estúpida expressão facial forçada por uma mulher burra que não sabe como sorrir.

 

Nostalgia por empoderamento?

 

A imprensa alegou estar apenas repetindo o que foi dito na internet por certos bloggers, mas a extensão da reação levanta questões sobre qual é realmente o problema com Del Rey? Um dos problemas é que, depois de uma década em que as mulheres foram informadas de que elas tinham tudo o que precisavam para chegar à frente, e que o campo de jogo se nivelou de alguma forma no nosso novo mundo pós-feminista, era perturbador para muitos ver uma mulher se reformular como uma fantasia masculina à moda antiga e aparentemente abraçar a submissão, e se vestir como se ela fosse nostálgica para a época anterior à libertação das mulheres. (Embora naqueles tempos uma estrela pop não pudesse tirar a roupa para uma revista – GQ – quando era votada para mulher do ano.) Submissão, nostalgia e uma tendência a ter um comportamento autodestrutivo são as marcas da persona de Del Rey. Às vezes, isso vem até das roupas que ela usa. O crítico de música do Observer, Kitty Empire, escreveu que “As calças largas que ela usa não são vistas desde as convenções de esposas de Stepford na década de 60, varrendo o chão para que pareça que a sedutora e enfurecida Lana Del Rey está andando no ar.” A Empire concluiu dizendo que Del Rey “toma como seu modelo estilístico uma espécie de americana pré-feminista, no meio do caminho entre a perfeição suburbana e o estacionamento de traileres”.

Apesar de a submissão feminina, especialmente da variedade sexual, ter tido um retorno em várias formas de cultura pop (por exemplo, na história sadomasoquista Cinquenta Tons de Cinza), Del Rey tem sido particularmente criticada por esse aspecto de sua persona. Vários críticos argumentaram que ela enfraquece a noção de que as mulheres podem ser poderosas se elas usarem suas habilidades e recursos para sua própria vantagem. A idéia de empoderamento foi articulada durante o feminismo conservador nos anos 90 e se tornou um tanto influenciador. Em seu livro “Fire With Fire”, lançado em 1993, Naomi Wolf argumentou que o que as mulheres precisavam era abraçar o “poder do feminismo”. As mulheres precisavam mostrar seu poder e, se elas fossem suficientemente fortes individualmente, elas poderiam alcançar a igualdade. Isso significava aprender com as estrelas famosas, pessoas como Madonna, Spike Lee ou Bill Cosby. Se você não gostasse da imagem do seu grupo na mídia, você tinha que decidir mostrar outra imagem e entender o significado de produzi-la. A libertação da mulher aparentemente se tornou uma série de escolhas sobre imagem, estilo de vida e expressão sexual. Como escrito pela jornalista Charlotte Raven no The Guardian:

Neste modelo, o poder pode ser assumido, como um financiamento, depois de devida avaliação. Todo mundo poderia se inscrever nisso. Aquelas que escolheram não participar podem ter tido algumas ligações ruins com seu status de “humilhada” e “triste vítima”. O resto optaria por uma vida como uma mulher “risonha, independente, otimista e ambiciosa.”

O que importava era expressar uma imagem confiante e abandonar qualquer imagem que sugerisse vitimismo. Como escrito pelo crítico musical Pau Rice, na revista on-line Slant:

Até os casuais ouvintes do top 40 se tornaram condicionados ao quase florescente senso de autoempoderamento na música pop de hoje… Jovens em nenhum outro lugar na cultura de massa, principalmente mulheres, têm sido permitidas a não se sentirem tão exasperadas por seus desejos, mesmo que estes desejos estejam restritos a uma relativa superficialidade respingada de glitter de uma impulsiva canção festiva da Ke$ha: “We’re taking control/We’ve got what we want/We do what you don’t [Nós estamos no controle/Nós temos o que nós queremos?/Nós fazemos o que você não faz].”

Del Rey não se encaixa neste modelo. Para Rice, isso acontece porque Del Rey canta como uma mulher que não sabe o que quer. Para alguns, isso é uma negação do “poder feminino”. Conforme comentado por Hallie Chen em um blog de São Francisco, “Existe uma linguagem visual particular que seu estilo ‘Lolita perdida no gueto’ tenta mostrar, que é saturado de nostalgia por desempoderamento”.

Os críticos mais cruéis de Del Rey a acusaram de ser anti-feminista. A crítica Ann Powers disse que a personalidade da cantora é baseada na sedução de uma femme fatale, mas sem a “atualização do poder feminino”. As mulheres acharam Del Rey perturbadora, ela discute, porque viram nela os piores aspectos de ser uma garota. Spencer Kornhaber, editor de entretenimento do The Atlantic, viu Del Rey como uma pessoa única e singular, em seu “evangelho retrô de uma estereotipada, codependente, frívola e cheia de feminilidade”. Ele continua a acrescentar que enquanto a música pop não abandonou o sexismo ou uma visão de mundo de gêneros, seus maiores ícones femininos têm representado as mulheres mais cheias de vontades e, de fato, dando poder a todos os tipos de pessoas a “agir e pensar de maneira independente”.

 

Libertação e autoexploração no mundo pós-feminismo

 

A ideia de empoderamento de Wolf, a qual sugere que a libertação é uma questão de dispor-se vantajosamente das habilidades de alguém, seja intelectual, social, sexual ou outros, vai de mão em mão com a ideia de que a única coisa que impede a verdadeira igualdade para a mulher é a sua própria falta de iniciativa e sua incapacidade de aproveitar as chances oferecidas a ela. Isso se encaixa bem com o ‘boom’ de gastos dos consumidores dos anos 90 e início dos 2000; e essa ideia de vestir a liberdade como um sinônimo da libertação da mulher tem sido usada por neoconservadores como Laura Bush para justificar a incansável intervenção do governo ocidental no Oriente Médio e em qualquer outro lugar, em parte com a finalidade de “libertar” as mulheres cuja opressão é simbolizada por suas roupas. Mulheres ocidentais, por outro lado, são ditas como as que possuem toda a liberdade necessária. A consequência disso é que a mulher que falha ao competir com o homem nos termos de igualdade e que exige direitos como licença-maternidade paga é considerada aproveitadora. Essa atitude foi refletida no retorno da antiga ministra francesa Rachida Dati às reuniões do ministério apenas alguns dias depois de dar à luz por cesariana. O recado implícito foi que mulheres não precisam de licença-maternidade.

Essa impaciência com “garotas femininas” e “vítimas” é perfeitamente descrita por Ariel Levy em seu livro “Female Chauvinist Pigs”, lançado em 2006. As mulheres que querem ter sucesso são incentivadas a se identificarem com homens, para verem a si mesmas como exceções de uma regra, assim como aquelas que por pura força de vontade não vão ser traídas pela sua feminilidade, mas que irão ter sucesso nos termos de igualdade com os homens, se necessário ao se juntar a eles para ridicularizar outras garotas. Essa visão de mundo incentiva o desprezo por mulheres que surgem como vítimas (por exemplo, as pessoas a quem Ronald Reagan chamou de “rainhas da assistência social”), mas também pode ser estendida às mulheres que reclamam do sexismo. O sucesso da Madonna nos anos 80 coincidiu com um determinado esforço de algumas feministas para transferir o feminismo em direção ao empoderamento pessoal e com foco no individual, opondo-se ao progresso coletivo. Essa posição foi também colocado à frente por críticos culturais conservadores e anti-feministas como Camille Paglia, que argumentou em um artigo no New York Times que “Madonna era o futuro do feminismo”.

O sucesso de Madonna também coincidiu com a liberação da indústria pornô, que inundou as nossas vidas com um constante fluxo de imagens de comportamento sexual em seu ponto máximo. Madonna poderia afirmar estar no ponto de corte da liberação sexual, já que ela estava aparentemente se libertando ao quebrar todos os velhos tabus que haviam impedido as pessoas de desfrutarem do sexo antes. Você não precisava mais ser feminista para alcançar a liberação. Tudo o que você precisava era expressar sua sexualidade. Nisso vinha junto a vantagem de se ser uma maneira de chegar à frente. As mulheres que eram celebridades estavam ganhando maior reconhecimento social do que, por exemplo, as que eram atletas ou cientistas. Como apontado por Ariel Levy, a mulher bem sucedida tinha que sexy também se ela quisesse reconhecimento. A fronteira entre libertação sexual e autoexploração desapareceu. Enquanto a abertura sobre questões sexuais era obviamente uma coisa boa, isso incentivava a ideia de que nada mais era necessário. Nós poderíamos falar agora sobre a sociedade pós-feminista na qual a mulher poderia competir igualmente com o homem.

No trabalho de Lana Del Rey, no entanto, apesar da liberdade sexual expressada em seus vídeos, há um persistente senso de frustração, insatisfação e anseio. Ela pessoalmente foi bem sucedida, mas ao representar uma perdedora em suas músicas e clipes. O que vários ouvintes tiraram da triste e assombrosa melodia de “Video Games” é a maneira que ela se arruma para o seu namorado quando ele a visita, e como ele, todavia, a ignora e se foca em seu vídeo game. Nós entendemos que ambos seus desejos sexuais e desejo de ser notada são frustrados, e podemos notar que sexo recusado é uma forma de comportamento sádico em alguns tipos de relacionamentos. Claramente, ela está tentando arduamente conseguir a atenção no clipe, mas tem pouco poder, seja sexual ou qualquer outro. Isso é disfarçado pela nostalgia que parece ser a marca registrada da música de Del Rey.

O sucesso de “Video Games” deve ser, em parte, relacionado à maneira que ele mostra um passado despreocupado – no qual jovens não estão fazendo algo ou se esforçando, mas estão simplesmente dando umas voltas por aí, na piscina, andando de skate e dirigindo uma motocicleta. Eles não estão arrumados e obviamente não estão encenando para a câmera. Eles estão apenas desfrutando eles mesmos.

É importante lembrar que vídeo games são jogados por homens e mulheres, apesar de eles serem um paralelo do mundo real na maneira como se tem que lutar constantemente para chegar a um nível mais elevado e competir com outros jogadores, as penalidades por causa do fracasso não são tão dramáticas quanto as encontradas no mundo do trabalho. Embora vídeo games e nostalgia não sejam as únicas formas de se afastar da dura realidade do dia-a-dia. A chave é a procura por um relacionamento pessoal que vai compensar por todas as falhas e frustrações encontradas em outros lugares. Os temas de procura por liberdade e pelo relacionamento que irá salvá-la são evidentes no mais recente lançamento de Del Rey, “Ride” (outubro de 2012). No vídeo de 10 minutos de duração, ela é vista com uma roupa de cowgirl, balançando em um pneu no meio do interior, que pode ser identificado como típico do Oeste Americano. Ela nos conta uma história de vida imaginária em seu monólogo introdutório, explicando, “Era o inverno da minha vida e os homens que eu conheci na estrada eram meu único verão”.

Nós a vemos adotar inúmeros papéis e poses em sua procura pela união com um objeto amoroso masculino. Diferentes homens aparecem para preencher essa vaga. Ela toma poses de uma prostituta e de uma motociclista. Seus amantes, aliás, são homens consideravelmente mais velhos que ela. Del Rey tem uma propensão a explorar o poder das relações sem tipos específicos de relacionamentos sexuais, e representa o papel da mulher como a mais fraca. Contudo, Del Rey afirma que “minhas memórias com eles eram meus únicos momentos felizes”. De fato, ela parece mais feliz ao lembrar e desejar, ao invés de realmente viver o presente. Talvez por causa disso, a cantora retorna repetidamente ao seu outro tema, que no começo de uma loucura, age como se fosse louca, movimentando uma arma e a segurando contra sua têmpora. Seu aviso para os fãs na estreia de Ride em Santa Monica foi esse:

 

As pessoas dizem que sua imaginação é sua maior ferramenta para o sucesso, e eu acho que é porque as coisas se manifestam na vida real através de visões que você tem em sua mente. Ou seja, a coisa mais importante é ter um mundo interno rico, e morar lá, porque a realidade nunca irá conhecer as suas expectativas.

 

Isso resume as contradições no trabalho de Lana Del Rey: a luta contínua pelo sucesso, aquela parte essencial do Sonho Americano, a qual é destacada pela sua disposição em se enrolar na bandeira americana e afirmar a crença “no jeito que a América costumava ser”. Por outro lado, ela sugere, nós podemos lutar e certamente nós devemos lutar, e ainda assim encarar a decepção. Apenas um mundo interior rico pode garantir felicidade, aparentemente.  Um problema é que ter um mundo interior rico e viver lá pode ser equivalente à loucura. O outro problema é que o consumo de álcool e drogas, incluídos em suas canções, pode remover inibições, mas isso também significa reforçar impulsos autodestrutivos. Ela mesma batalhou contra o alcoolismo quando adolescente, e fala abertamente dos problemas do abuso de drogas e álcool. “No começo está tudo bem, e você acha que você tem um lado obscuro – é excitante – e depois você percebe que o lado obscuro ganha toda vez que você se satisfaz neles”.

É importante dizer que não é possível existir libertação “na cabeça”, se a sociedade não mudou de forma similar ao mesmo tempo. Há um enorme preço a pagar pelo refúgio dentro de um mundo interno rico que Lana Del Rey está defendendo.

 

As opções abertas às mulheres hoje em dia

 

Em seu livro de 2007, chamado After Dark, Haruki Murakami constrói uma história ao redor da vida de duas irmãs. A principal, Mari, é estudiosa e intelectual. Ela se senta em um café 24h lendo um livro e não parece terrivelmente interessada em homens. Mas ela tem uma bela irmã que foi criada para o sucesso na moda e modelar e tem se dado muito bem. A irmã, no entanto, tem problemas que a leva a consumir drogas e álcool. Conforme a história se desenrola, a irmã cai em um profundo sono numa espécie de coma. Seu corpo opta por se excluir da vida a qual foi submetida.

A clara distinção feita por Murakami entre a jovem modelo que toma pílulas e se retrocede em um coma, e a estudiosa e competente mulher, que é capaz de agir de forma efetiva e exercer controle sobre seu destino, não é tão claro no mundo real. Na realidade, mulheres estudiosas também estão sob pressão para serem glamurosas, a usarem sua sexualidade como uma habilidade de crescer na vida, mesmo se isso for apenas para dar a elas um mínimo avanço na competitividade. Sexo no mundo pós-feminista não é mais uma atividade recreativa como uma forma de crescer na vida. Como Nina Power, professora de filosofia na Univerdiade de Roehampton no Reino Unido, enfatiza:

 

A sexualização da mulher contemporânea, a partir do qual nem os homens estão isentos, reflete menos uma escolha livre de desejo para expressar a si mesma como um ser rodeado de sensualidade e menos ainda o desesperado desejo, mesmo sendo compreensível, de se inserir da maneira que puder na cruel estrutura econômica que irá seletivamente usar e avaliar os “melhores” de seus trabalhadores assim que precisarem. Nós não deveríamos estar “culpando” as mulheres por sua cumplicidade em tal lógica, como se culpar fosse sequer uma categoria política útil, mas tentar entender melhor isso. A sexualidade hiperreal da cultura atual tem um pouco a ver com a emancipação da verdadeira libido do mesmo jeito que um trabalho “flexível” da contemporaneidade tem a ver com a verdadeira realização humana.

 

Fugir parece a melhor opção quando não parece ter nenhum outro jeito de mudar a situação. A personagem de Murakami cai em um sono profundo, mas outras formas de fuga estão em alcance para aqueles que tentam conciliar a autorrealização com a frustração do mundo real. Nostalgia por outro tempo é uma das formas menos danosas de fuga do presente.

Com a intensa competitividade no mercado de trabalho, as mulheres estão começando a se acostumar com a ideia de que tudo o que elas têm – inclusive sua sexualidade – vem da venda de si mesmas. Essa ideia é reforçada pelas imagens que nós temos sobre as bem-sucedidas mulheres executivas. Como Power nos lembra:

 

Apesar disso, imagens de um certo tipo de mulheres bem-sucedidas se proliferam – a trabalhadora da cidade grande em salto alto, a flexível empregada de agência, a hedonista que dá duro e pode se dar ao luxo de bancar vibradores e vinho – e querem nos fazer acreditar que – sim – o capitalismo é o melhor amido das garotas. A demanda de ser uma trabalhadora “adaptável”, de ser constantemente “ligada a todos os assuntos”, “vendendo a si mesma”, na realidade se torna um tipo de “curriculum vitae ambulante” que é sutilmente sentido por ambos os sexos no mundo desenvolvido.

 

Mas as escassas recompensas em oferecer por tanto – e o fato de que o trabalho se torna compulsório para a classe trabalhadora e muitas mulheres da classe média desde que seus parceiros masculinos não lucram mais o que costumamos chamar de renda familiar – significa que o trabalho da maioria das mulheres não é nem de perto tão realizador ou atrativo quando poderia ser, e é frequentemente visto como um lugar de fuga do que um lugar do qual se fugir. Antigamente a família fornecia o refúgio para qual o trabalhador macho retornaria após um dia duro de competição e estresse no local de trabalho. Se uma mulher quer um refúgio desses, ela tem que fazer por ela mesma. Na música “Born to Die” nós ouvimos Del Rey perguntar ao namorado se ele poderia a fazer se “sentir como se estivesse em casa”, porque ela se sente só numa noite de sexta. A família nuclear e os relacionamentos monogâmicos ganham sua força e apelo vindos da aspereza do mundo e da vida trabalhadora tanto para o homem e para a mulher. Até mesmo na era do chamado pós-feminismo, nós ainda podemos sentir a atração da família como um refúgio em um mundo sem coração.

Mas, por causa da persistência do sexismo, a maioria das mulheres ainda acaba ficando em segundo lugar. Em “This Is What Makes Us Girls“, Del Rey fala sobre garotas se unindo porque elas colocam o amor em primeiro plano – e sofrem por isso. O sofrimento as faz “odiar aqueles garotos”. Mas sofrer também pode ser prova do investimento em um relacionamento, uma forma de autossacrifício. Os críticos de Del Rey têm-na acusado de se exibir ao ser estrangulada pelo namorado, espancada ou sangrando ou possivelmente violentada. Obviamente, é extremamente doentio desejar ser atacada fisicamente ou imaginar que isso é algo normal num relacionamento. Ser totalmente absorvida por uma relação a ponto de se isolar de todo o resto, ser obcecada com alguém que claramente é uma escolha errada não é uma coisa boa. Mas quando Del Rey canta “Você não é bom pra mim/mas eu quero você”, ela pode muito bem expressar os sentimentos paradoxais de várias mulheres, e talvez de homens também.

Nós precisamos perguntar por que tantas mulheres escolhem aceitar relacionamentos abusivos e sofrimento. Parte da resposta, pelo menos, pode estar na falta de alternativas verdadeiras. A mulher pode sentir que a montanha-russa emocional que faz parte de relacionamentos emocionalmente abusivos é uma opção melhor do que estar sozinha ou ser abandonada, para não mencionar a violência que algumas mulheres podem encarar quando decidem ir embora.

Mas falar de uma sociedade pós-feminista deixa espaço para reconhecer a persistência da opressão feminina. Ainda hoje, há uma tendência da sociedade em dizer que se a mulher está sujeita à violência, ela é a responsável por isso. Nós não podemos dizer que as mulheres com tendências de dependência mórbida são responsáveis pelo comportamento daqueles que fazem isso com elas. É importante se lembrar das palavras da psicanalista Karen Horney: dependência mórbida “é um resultado de inúmeros fatores e não a raiz deles.” Pode-se discutir que esses fatores são sociais e culturais da mesma forma que também são psicológicos.

Em particular, numa sociedade onde as escolhas encaradas pelas mulheres estão tirando partido delas mesmas ou coisa pior, nós não deveríamos estar surpresos por ver tantos sintomas chocantes aparecendo. De acordo com um artigo sobre “Hospitalizações por envenenamento por causa de receitas médicas de drogas, sedativos e tranquilizantes”, nas taxas de morte por drogas nos EUA, as overdoses mais que dobraram para homens e triplicaram para mulheres entre 1999 e 2007. As referências a relacionamentos com dependência mórbida, vício, autodestruição, problemas mentais, que aparecem constantemente em músicas de Lana Del Rey ou Rihanna, são um reflexo do que está se passando pelas mentes e corpos de jovens mulheres.

Nem todo mundo se torna viciado ou se envolve em relacionamentos violentos e abusivos. Mas várias pessoas têm dificuldade em enfrentar os problemas da vida, e isso cresce de diferentes formas em seus relacionamentos pessoais. A escritora feminista Susan Faludi tem documentado amplamente em como a queda da economia pode levar homens a se sentirem fracassados, e como isso pode causar hostilidade contra mulheres e às vezes violência. A atual crise econômica, a qual atingiu mais homens do que mulheres no mercado de trabalho, somente pode agravar a ilusão de que mulheres são mais fáceis, que elas podem usar suas vantagens sexuais e habilidades comunicativas, por exemplo, para conseguir empregos enquanto os homens estão os perdendo. Quando fenômenos sociais e econômicos vão para as vidas íntimas, os resultados podem ser desastrosos, especialmente quando jovens são encorajados a não estarem conscientes dessas influências em suas vidas e escolhas pessoais.

Os neoconservadores argumentam que são até as próprias mulheres quem superam as dificuldades que enfrentam. Soluções individuais são constantemente priorizadas e as coletivas são deixadas de lado. É quase surpreendente que tantas jovens mulheres (e homens) escapam rumo ao álcool, automutilação e outras formas de autodestruição. O trabalho deles é chato e rotineiro, e seus relacionamentos oferecem ainda mais estresse e problemas do que prazer. A psicologia tem nomeado diversas novas condições e distúrbios causados a mulheres desproporcionalmente afetivas, de distúrbios incertos de personalidade ao masoquismo, mas há um pequeno questionamento do tipo de sociedade que dão caminho para esses distúrbios mentais ao sabotar oportunidades para o verdadeiro autodesenvolvimento e crescimento humano. Do contrário, até discutir as possíveis alternativas à sociedade capitalista e seus mecanismos destrutivos desencorajados.

Uma coisa é certa: as mulheres prosseguem, às vezes à procura desesperada por realização fora do mundo do trabalho reflete a desilusão com as mensagens pós-feministas em que a única coisa segurando as mulheres são os limites de suas próprias ambições. Horney argumenta que a dependência mórbida é uma forma de neurose, assim como a procura pela glória. Os únicos caminhos abertos para jovens mulheres hoje são o modelo agressivo e individualista ao estilo Madonna, ou Del Rey vai pro seu interior que leva à autodestruição e desespero?

Enquanto Del Rey tem sido acusada de produzir lixo retrô, é significante que muitas de suas referências estão mais relacionadas aos anos 1960 do que 1950. Por toda sua identificação com a vítima, se nós ouvirmos o que Del Rey diz, não há volta aos anos 50 e o clima social repressivo que depois foi dominado. A conexão com os anos 60 se torna controversa quando se considera o clipe da música “National Anthem“. Nele, Lana Del Rey primeiramente imita Marilyn Monoe cantando Happy Birthday Mr. President, depois imita Jackie Kennedy em um casal presidencial no qual JFK é substituído por um presidente negro. O cantor e produtor do clipe A$AP Rocky interpreta o oposto de Lana em um remake da família ideia. As brincadeiras das crianças pardas do casal no gramado da Casa Branca e uma sociedade multirracial parecem realmente parte daquela época.

Com esse clipe, Del Rey mostra a lacuna que existe entre o discurso da mídia convencional e o jeito que as pessoas vivem suas vidas todos os dias. Ao menos alguns dos telespectadores que comentaram no vídeo de National Anthem postado no YouTube disseram que Lana Del Rey falou sobre a vida real e não tentou fingir que certas coisas não aconteceram.

Olhar de volta aos anos 60 não é a mesma coisa que olhar de volta aos anos 50. Na França, o ex-presidente Nicholas Sarkozy prometeu acabar com a memória dos anos 60 e, particularmente, da rebelião estudantil e greve geral de 1968. Sonhar com uma sociedade melhor, se sentir melhor e se divertir pode não ser algo ruim. Isso pode nos fazer querer fazer algo sobre isso, e é o que amedronta os neoconservadores.

 

Conclusão

Há mais mulheres procurando por diversão e um relacionamento meio decente, e bebendo e ficando chapada e jogando vídeo games, do que chegando ao topo da escada corporativa sobre saltos altos e roupas de grife. O abraço do feminismo convencional do meio corporativo desde a década de 1980 fez com que ele tenha cada vez menos o que dizer às mulheres que não estão nesse meio. A cultura pop, à dimensão que ela expressa as experiências vividas pelas mulheres e garotas, está mostrando que a sociedade pós-feminista, na qual a mulher faz escolhas da mesma forma que os homens, não existe. No entanto, as imagens das próprias experiências das mulheres como elas se refletem na cultura popular mostra que precisamos urgentemente de uma alternativa para o atual estado de coisas.

A autoexploração ou autodestruição não podem ser as únicas opções abertas às jovens mulheres de hoje. É importante reconhecer que, enquanto as pressões sobre as mulheres no mercado de trabalho permanecerem em seus atuais níveis intensos, as mulheres e os homens serão jogados de volta em formas tradicionais de relacionamentos que muitos esperavam fosse uma coisa do passado. O capitalismo tem um jeito de adaptar as mudanças conseguidas como se tivessem sido lutas, integrando-as e as usando para nos escravizar ainda mais. O capitalismo do século XIX reconstruiu a família da classe trabalhadora para poder reproduzir futuras gerações de trabalhadores. Mas isso aconteceu com o acordo de homens e mulheres que achavam que uma renda familiar era melhor do que uma família inteira trabalhando nas minas ou nos escuros moinhos satânicos.

Quanto mais mulheres são exploradas no trabalho e em suas casas, maior é o apelo ao amor romântico como uma aparente alternativa. Até para as mulheres que consideram a si mesmas inteiramente libertadas e livres.

Por Catherine Vigier para o Zeteo Journal.

Tradução por Kassia Lasarino, Isabela Guiaro e Raphaella Paiva.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
TOPO