‘Eu não vivi a época dos anos 50, mas eu tenho a impressão de tê-la vivido’, leia a entrevista concedida à Grazia Magazine

por / sexta-feira, 19 dezembro 2014 / Publicado emEntrevistas

Grazia entrevista

 As sombras de uma menina em flor

Em poucos anos, Lana Del Rey conquistou uma notoriedade imensurável. Ainda em tempo para uma rara e exclusiva entrevista, ela revê seu ano de 2014 para a Grazia e evoca o futuro, seu próximo álbum e as armadilhas da fama em tempos de Instagram. Uma estrela discreta.

Qualquer coisa de estranho em seus olhar, um brilho que às vezes corre por suas mãos, torcendo a costura de seu jeans rasgado nos joelhos, um ar de despreocupação estende-se de seu corpo, um charme irresoluto que emana dela, de sua quietude, de sua presença. Impossível dizer o que você verdadeiramente passa quando Lana Del Rey está à sua frente. Ela te encanta como se não fosse nada demais, é claro. Mas isso não é tudo.

Uma hipótese aparece, vê-la posar para o fotógrafo de Grazia, graciosa mas determinada, frágil mas segura: Lana é uma grande tímida que habita (ou assombra?) o corpo de uma popstar dos anos 2010. E essa dualidade a torna capaz de tudo. E faz dela a única estrela capaz de responder instantaneamente ao nosso chamado um pouco louco de encontrá-la antes do fim do ano. Um pedido feito no fechamento de uma sexta-feira via SMS e que resultou alguns dias depois em um encontro em uma cidade a meio caminho entre Los Angeles (onde ela vive), Nova Iorque (onde ela vivia quando adolescente) e Paris. Em Londres. Essa é a estranha liberdade desta cantora: a capacidade de controlar seu percurso e desviá-lo, se assim desejar. Ela pediu um tempo, subitamente, para (se) questionar e discutir. E deu bastante de si mesma, sem objeções,  a partir do momento em que a confiança se estabeleceu.

O encontro podia ter durado uma noite, uma semana, um mês, uma vida. Na discussão, Lana se lembrou que em um encontro anterior, há dois anos, nós falamos de suas mãos e de suas unhas, que estavam muito longas. E mostra que elas encurtaram. Ela desenha, então, palmeiras no livro que se encontra diante dela,  enquanto nos faz escutar em seu telefone dois projetos de canções, nos pergunta em seguida nossas datas de nascimento, diz que somos do mesmo signo, fala do escritor americano Joan Dildion… No entanto, apesar de tudo isso, Lana jamais se revela plenamente. Isso é sem dúvida o que a torna ainda um paradigma de uma garota moderna. Com menos de 30 anos, típico de sua geração (que nós não sabemos mais como nomear, X, Y ou Z), ela sabe ser pública e se preservar, aparecer nas redes sociais e continuar sendo ela mesma, cantar a intimidade de seus amores e (tentar) esconder sua vida familiar. A entrevista seguinte, rara, revisa tudo isso, seu ano de 2014, o lançamento de seu álbum Ultraviolence e o anúncio de um lançamento para 2015. É a primeira que ela concede após um longo tempo.

 

Joseph Ghosn: Como foi o seu ano?
Lana Del Rey: Incomum. Eu fiz tudo ao contrário: uma turnê, de abril a junho, antes de lançar o álbum, e depois, nada. Fiquei muito feliz com o álbum “Ultraviolence”. Mas quando eu o escuto novamente, ouço algumas coisas, e me arrependo de tê-las escrito, me mostram agora que eu fui longe demais. Elas me colocaram em situações que eu não controlo mais, e nem quero. Especialmente com os jornalistas, como da Rolling Stones, do The Guardian e todos os outros que me fazem as mesmas perguntas: “Você realmente quer se suicidar?”, “Você realmente transou para ter fama?”. Claramente, ao escrever canções como Fucked My Way Up To The Top, eu deveria saber que essas perguntas surgiriam e eu deveria respondê-las mantendo uma distância, apenas dizer não e seguir em frente. 

JG: Como você está atualmente?
LDR: Eu tenho medo que o álbum se perca. Eu sempre tive medo que boas coisas se percam… Musicalmente, eu procuro alguma coisa diferente, com coros majestosos, os refrões, as orquestrações, as atmosferas que evocam os anos 50 com um toque de um pouco de soft grunge. Desde o último mês de  março, eu comecei a escrever com uma veia mais clássica, mais convencional – os dísticos, os coros, com uma influência a partir da grande época do jazz. Gosto muito de misturar tudo isso. No próximo ano, eu vou fazer turnê nos Estados Unidos. Eu fiz isso uma vez antes e me tocou muito, especialmente em cidades como Detroit, onde eu sinto a importância da História. Eu vou fazer isso de novo, dessa vez com Courtney Love, de maio à junho. Quanto ao meu novo álbum, ele deve sair no fim de agosto.

JG: Sua escrita mudou para o próximo álbum?
LDR: Ela ainda é fiel à minha personalidade, meu humor. Mas eu tentei a partir de agora fazer algo mais surreal, mais colorido. Eu me sinto agora mais inspirada por artistas que por escritores – pessoas como Mark Ryden, mas também Fellini ou Picasso. Eu estou louca pelo documentário Fellini, je suis un grand menteur, que explica que cineasta estava cansado de sua cidade natal e que cada um de seus filmes tenta evocar uma faceta dela. Eu gosto da ideia de dizer que não devemos deixar que a verdade fique no caminho de uma boa mensagem (ela sorri) e que podemos nós mesmos reinventar nosso passado.

JG: Algumas de suas canções evocam de fato a época dos grandes estúdios dos anos 50, as cantoras apoiadas por uma grande orquestra tarde da noite…
LDR: Sim, eu adoro isso, estes ambientes noturnos, essa textura de gêneros. É por esta razão que eu me encontrei com Mark Ronson: eu o fiz escutar dez canções que compus para este próximo álbum. Não para que ele coloque sua assinatura habitual, soul e funk. Mas sim para que ele explore um som próximo da grande época do jazz… Eu não vivi a época dos anos 50, mas eu tenho a impressão de tê-la vivido. E depois, quando eu morava em Nova Iorque, eu tinha esse sonho idealizado, compartilhado com algumas garotas, sem dúvida: ter uma residência em um clube, onde eu cantaria qualquer clássico e também minhas próprias músicas. Eu tinha, então, uma visão muito romântica do que era ter uma vida de cantora. Eu sonhava em poder fazer uma tour pela Europa como fez Chat Baker, por exemplo.

JG: O gênero de história dramática, não? O drama te atrai?
LDR: Não é o drama que me atrai. Eu “entrei no jogo” sem nenhum drama em mim. Mas apesar de tudo, as situações foram pesadas.

JG: Você evoca bastante os anos cinquenta. Não é estranho se sentir nostálgica por um período que você não conheceu?
LDR: Sim, é por isso que eu não tenho mais que poucos amigos – unicamente aqueles que se sentem, como eu, conectados com o passado e o futuro ao mesmo tempo. E nós não somos muitos. É por esta mesma razão que eu sou amiga de James Franco: uma das raras pessoas que eu sinto verdadeiramente conectada aos atores do passado, à Califórnia dos anos sessenta, à Nova Iorque dos anos setenta.

JG: Você cresceu em uma pequena cidade, nas proximidades de Adirondack. Você sente saudade do lugar de sua infância?
LDR: Sim… Minha casa está cheia de lembranças.É difícil voltar lá… Eu estive lá há duas semanas, fiz a rota partindo de Nova Iorque pela primeira vez em quatro anos. Meu quarto não mudou. Ainda estão lá todos os mesmos pôsteres, apesar de tudo me parecer menor.

JG: Você regravou um clássico já interpretado por Nina Simone, The Otther Woman, que fala de um triângulo amoroso. Mas você a cantou sem que nós soubéssemos que ponto de vista você adotou verdadeiramente. Quem é você: a mulher enganada, a amante escondida ou mesmo o marido?
LDR: Eu sempre quis interpretar essa canção, eu há conheço há anos. É interessante observar sua ambiguidade… (Ela a cantarola no microfone) Creio que eu sempre me vi como a outra mulher (“the other woman”), eu me sinto sempre como a outra. Eu não quero estar à periferia das coisas mas eu estou, de fato. Eu me situo ao exterior dos círculos. Mesmo em minhas relações amorosas, eu me sinto sempre por fora do que acontece verdadeiramente. Dito isso, eu já interpretei o papel da mulher normal, da esposa legítima.

JG: Você se sente como uma espectadora de sua vida?
LDR: Cada vez mais. Com a internet, atualmente, quando você está com outras pessoas, a situação mudou: as pessoas não estão mais com você apenas quando estão no mesmo ambiente, elas estão com aquilo que sabem de você, aquilo que elas leram, viram, entenderam a seu respeito. Isso fica evidente quando eu me encontro com alguém pela primeira vez.

JG: Você ainda é fiel?
LDR: Eu quero ser e fui sempre em meu coração. Se eu encontro qualquer um que eu ame, eu o amarei provavelmente para sempre. Eu sou fiel, emocionalmente. Eu dou minha confidência. Mas cuidadosamente. Porque eu vejo imediatamente “sinais vermelhos” aparecendo quando conheço uma pessoa nova. No fundo, eu amo pessoas que têm o humor constante, que não mudam de personalidade subitamente. Eu não gosto de ter muitas surpresas em minha vida.

JG: Você é muito controladora?
LDR: Não, não realmente… Ok, sim, sou controladora. (Ela ri) Quando eu tenho um som ou um “clima” em mente, mesmo que para uma canção bem simples, às vezes eu tenho que lutar para conseguir exatamente o que eu quero. Assim, o risco é de não seguir o meu humor e acabar em algo já feito, de “reinventar a roda”. E isso não me interessa.

JG: Você já se sentiu sobrecarregada por seu perfeccionismo?
LDR: O tempo todo. Durante a turnê, por exemplo. É doloroso cantar as mesmas canções todas as noites…

JG: Você já quis desistir, recomeçar tudo do zero?
LDR: Sim, algumas vezes. Mas eu não posso, eu sou famosa.

JG: A fama é um fardo?
LDR: Ela torna as coisas mais complicadas que costumavam ser. À parte de minha relação familiar privada, irmão, irmã e pais, toda a minha existência a partir disso é pública. Até mesmo meus telefonemas: eu não tenho certeza de que eles não são ouvidos. Você não tem idéia do que que poderiam roubar de mim… Basicamente, tirando minha complexa imaginação e minha mente, não restou mais nada de muito íntimo (ela dá gargalhadas por um curto instante) Eu sou de uma natureza muito tímida, patologicamente tímida, e a fama não ajuda nada nisso. Eu amo sair para jantar, mas isso se tornou impossível para mim. Todo mundo tem um telefone, uma câmera… É estranho dizer, mas é meu cotidiano: ele me fotografam mesmo quando estou comprando uma aspirina. Eu deveria saber que isso ocorreria, evidentemente. Mas é verdade que quando eu comecei nisso aos 20 anos, o mundo era diferente. É difícil ficar tranquilo hoje em dia. Eu não sofro com isso, mas eu devo ser prudente. Há muitas pessoas estranhas lá fora (ela ri de novo). Eu sou prudente. Eu nado com cautela em águas novas.

 

Por Joseph Ghosn
Tradução por Carol P. Carrasco e Mateus Santana

 

Em nossa galeria você pode encontrar os scans da revista (clicando em uma das três primeiras imagens) e o ensaio fotográfico completo feito por Thomas Nutzl (clicando em uma das três últimas):



Redação LDRA
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