ANÁLISES | A vulnerabilidade e beleza do amor: uma análise de “Pretty When You Cry”

por / segunda-feira, 15 dezembro 2014 / Publicado emAnálises, Colunas

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P.S.: Escrevi este texto e reli tudo ao final. Fico triste ao perceber que não sei usar as palavras para transmitir exatamente o que sinto. Elas são limitadas demais e sentimentos são simplesmente inexplicáveis. Tudo o que escrevi é apenas uma ínfima parte do que realmente sinto ouvindo “Pretty When You Cry”. Espero que com minhas ínfimas palavras, eu seja capaz de alcançar uma ínfima parte da alma de vocês.

As guitarras lânguidas que abrem o sétimo tomo de “Ultraviolence” nos introduzem àquela que é, provavelmente, uma das canções mais delicadas desta história. Lana Del Rey expõe sua feminilidade e beleza por meio de palavras e versos extremamente metafóricos, cantando ao mundo, mais uma vez, que no interior e acima desta incrível cantora, reside uma verdadeira poetisa.

Pretty When You Cry” trata, mais do que nunca, do sofrimento, da vulnerabilidade e da eterna beleza do verdadeiro amor.

“All the pretty stars shine for you, my love
Am I the girl that you dream of?”

A voz sinesteticamente adocicada de Lana Del Rey entoa, já nos primeiros versos da composição, a perfeição e idealização de seu amor. Em meio à escuridão da noite, as cintilações ofuscantes que invadem o céu brilham por aquele que se tornou seu Narciso, a forma mais perfeita de seus olhos, aquele que invade seus pensamentos a cada segundo com sua graciosidade e beleza. A comparação com as estrelas, seres tão delicados, que só se tornam visíveis à noite (durante a escuridão) metaforizam ser este amor de Lana Del Rey, aquele que a libertou e salvou nos momentos de obscuridade de sua vida, dando continuidade à história contada por todo o álbum, mas principalmente expressa na canção “Ultraviolence”. Todas as estrelas mais bonitas brilham por ele.

Ao mesmo tempo, durante essa volúpia emocional, é possível sentir tons de sofreguidão na voz de Del Rey. Não são as estrelas, apesar de inebriantes, inalcançáveis? Astros que nos extasiam e embebedam, mas que nos deixam em um estado de angústia e nostalgia por estarem, apesar de tão próximas, tão distantes? Seria ela a mulher dos sonhos deste homem? Seria ela capaz de preencher seus pensamentos e saciar seus desejos? Por meio das palavras, ela expressa seu amor incondicional, descrevendo a vulnerabilidade que a invade e sufoca, num continuum de insegurança por jamais ter a certeza de ser aquela capaz de torná-lo realmente feliz.

 “All those little times I spent with you, my love
You make me feel, like your whole world”

A ideia expressa na canção “Video Games” retorna por meio da simplicidade da vida. Lana já afirmou em entrevistas que “Video Games” retrata a idealização da relação amorosa; trata-se de como ela imaginou o passar dos tempos caso as coisas houvessem dado certo. Em “Pretty When You Cry” ela nos traz de volta a esse ideal, descrevendo que foram nos momentos cotidianos, no acordar, no sorriso e na simples presença do outro que ela se realizou. É no compartilhar dos momentos mais simples que o fio de energia que une duas pessoas torna-se o amor verdadeiro.

Afinal, apenas o simples desejo de ver o outro alguém, a ânsia por um toque, e a força de um olhar são capazes de transformar a alma. E é nesses momentos que você é capaz de se sentir completo. Somos espíritos errantes em uma eterna busca por plenitude e apenas aqueles momentos nos quais o se entregar inteiramente por outro alguém torna-se uma realidade, somos capazes de sentir o calor e o toque da perfeição da vida.

“I’ll wait for you, babe, that’s all I do, babe
You don’t come through, babe, you never do”

A medida que a canção avança em direção ao refrão, o sofrimento de Lana torna-se ainda mais sensível. As batidas tornam-se mais graves, os arpejos das guitarras mais fortes e o que parece inicialmente um choque sonoro impressiona ao evidenciar ainda mais a delicadeza da composição.

O eu-lírico (que podemos quase afirmar ser o verdadeiro eu de Lana Del Rey) expressa um emocional completamente devastado por esse amor. Lana vive uma espera contínua e torturante, aguardando a vinda deste amor perfeito. Ele preencheu sua existência de todas as formas, invadiu seu coração e mente, e a própria certeza de quem ela é de verdade não existe mais.

Se lembrarmos de “Blue Jeans”, canção do álbum “Born to Die”, especialmente nos versos “We were dancing all night /Then they took you away / Stole you out of my life” (Nós dançávamos por toda a noite / E então eles te tiraram de mim / Lhe roubaram de minha vida) podemos criar uma relação cronológica entre as duas criações. Lana aguarda incessantemente o retorno deste amor que provavelmente não existe mais e nunca voltará. Mas, apesar da realização da impossibilidade deste retorno, este homem elevou seu espírito a níveis tão extraordinários e inalcançáveis de felicidade que viver por ele tornou-se sua única realidade. Não há cura para a memória e ele não abandonará seus pensamentos.

“Because I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry”

A feminilidade e a vulnerabilidade emocional aparecem em meio ao ecoar dos vocais por meio da metáfora das lágrimas. Quantos de nós somos belos ao chorarmos? O chorar é uma das maiores demonstrações de fraqueza do ser humano. Demonstrar tal sentimento em público chegou a tornar-se inaceitável na nossa sociedade, devendo ser escondido para que outros não vejam o quão frágeis e humanos nós verdadeiramente somos.

E por meio de suas palavras doces, o romantismo uma vez esquecido e abandonado, é resgatado impecavelmente por Lana Del Rey.

Ao invés de esconder suas lágrimas – a representação física mais clara de sofrimento – Lana mostra-se ainda mais humana e sensível ao entoar que chorar a torna bela. Acho que nunca ouvi uma frase que conseguisse tocar de forma tão profunda a delicadeza interior existente em cada um de nós. Todos temos sentimentos e o amor com suas garras é capaz de nos fazer descobrir partes de nós mesmos que eram anteriormente desconhecidas.

Como mencionei em outro texto, Lana coloca em palavras compassadas sua verdadeira história, despejando seus sentimentos e sensações mais íntimos. Ao acompanhar essa trajetória narrada em palavras tão belas, a nostalgia desse coração ferido é capaz de nos invadir e arrepiar; quase posso sentir o gosto salgado das lágrimas que ferem o rosto delicado de Lana Del Rey.

“All those special times I spent with you, my love
They don’t mean shit compared to all your drugs”

Drogas. Álcool. Ideias recorrentes em quase todas as músicas de Lana Del Rey. Mas aqui, podemos ver um aspecto diferente… Aparentemente a relação com as drogas foi o que destruiu o relacionamento de Lana com este homem tão intenso. Os momentos felizes e especiais que eles passaram juntos não são capazes de substituir todas as merdas que aconteceram devido a essas substâncias alucinantes.

Por tudo o que já foi dito e cantado, Lana provavelmente já foi usuária de drogas. A própria já afirmou ter sido o álcool um problema de sua adolescência (que inclusive culminou em sua transferência para um colégio interno distante de sua cidade natal), mas o uso de drogas nunca foi abordado publicamente. E, sinceramente, isso nem chega a ser necessário. Cocaína, heroína, crack, todas já foram mencionadas – e até mesmo endeusadas? – em grande parte das composições da cantora. “Yayo” e “Florida Kilos” exploram este tema como nenhuma outra canção.

Em “Pretty When You Cry” podemos ver a destruição emocional que elas causaram.

Drogas são substâncias incrivelmente libertadoras. Vivemos em uma grande caixa na qual estamos impostos a padrões pré-determinados por uma sociedade excludente e opressora. “Ride” não trata de forma impressionante sobre a busca intensa pela liberdade? (leia meu texto sobre o EP “Paradise” clicando aqui). As drogas são capazes de mudar padrões mentais, libertando aqueles que delas fazem uso das barras de ferro do pensamento. Você se sente livre e percebe mais do que nunca a sua energia como ser humano único e insubstituível nesse mundo. Não há ninguém igual a você (por favor, nada disso é apologia às drogas, é apenas o motivo pelo qual acredito que Lana entoe de forma tão divina as drogas em suas músicas) e isso é magnífico.

Entretanto, com o passar do tempo, a liberdade que podia, em momentos, se assemelhar ao verdadeiro paraíso, se torna uma nova e mais gradeada prisão com a dependência física que essas substâncias são capazes de gerar. E a partir daí as coisas desandam como um trem descarrilhado praticamente impossível de parar. E os momentos de alegria se tornam mais do nunca, vívidos pesadelos.

Esse verso quase nos dá a certeza que esse é o mesmo homem mencionado em “Blue Jeans”. Nesta última canção Lana deixa claro o envolvimento de seu homem com drogas, um provável traficante que aparentemente foi morto (“Caught up in the game, it was the last I heard” – “[Ele] Foi pego no jogo, foi a última coisa que ouvi”) devido à sua vida dupla. Em “Blue Jeans” ela afirma que irá amá-lo eternamente. Em “Pretty When You Cry”, sofre por ter se envolvido tão profundamente com esse homem que a fez e ainda a faz sofrer. A visualização nítida do crescimento pessoal e interior faz com que eu me sinta extremamente próximo de Lana.

“And I don’t really mind, I’ve got much more than that
Like my memories, I don’t need that”

E essa superação (um dos principais temas de “Ultraviolence” – leia aqui minha análise de “Cruel World”) continua nos próximos versos, nos quais Lana afirma que não precisa de uma vida dessa. Ela possui suas memórias e os momentos felizes que eles passaram juntos é o suficiente para mantê-la viva. Ela não deseja voltar para os momentos de incertezas e angústia que permeavam sua vida durante esse relacionamento tão doentio. Ela é hoje uma mulher incrivelmente mais forte do que aquela desconhecida de lábios carnudos que impressionou o mundo ao gravar um clipe em sua webcam para “Video Games”.

“I’ll wait for you, babe, you don’t come through, babe
You never do, babe, that’s just what you do”

O retorno da ponte expressa novamente a força desta ausência e espera, que a deixam num estado de eterno torpor; ela se torna incapaz de seguir com sua vida, uma prisioneira de seus próprios sentimentos, implorando para sempre pelo retorno deste que é a única salvação para seu eterno vazio. Retorno este que jamais acontecerá.

E assim, ela permanece neste interlúdio, neste devaneio esfumaçado, nesta ultraviolência que se prolonga sem perspectiva de cura. Porque não há violência mais intensa do que a dependência psicológica e a realização de que seu eu só existe em companhia de outro é mortal. Só vale a pena viver, se você é amado.

“Because I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry”

“Don’t say you need me when, you leave and you leave again
I’m stronger than all my men, except for you”

E então, temos o retorno do antagonismo que é chave forte em “Ultraviolence”. Na canção “Sad Girl”, Lana se exalta por ser a amante, mas logo em seguida confessa sua tristeza por assumir tal posição na vida do seu homem. A canção “The Other Woman”, que fecha o álbum, trata da mesma dúvida: a outra mulher é inicialmente vangloriada, mas os versos finais demonstram o sofrimento e a solidão vivenciados apenas por aquela tida como a amante, aquela que nunca terá seu homem para si de verdade.

Os versos da ponte de “Pretty When You Cry” mostram uma Lana decidida, com uma certeza e força nunca antes vistas em suas canções. Tais ideais são completamente destruídos pelos versos que precedem o refrão final. Por mais que, em alguns momentos, ela acredita ter superado este grande amor, a tristeza por não ter mais este homem contigo a assombra e, de forma veloz, é capaz de mudar seus sentimentos. Talvez porque ela queira se convencer de que não o ama mais, pois é esse o único caminho para seguir em frente. Porém, apesar de todas as forças para esquecê-lo, por mais que ela se esforce para não pensar mais naquele que mudou de forma tão radicalmente sua vida e existência, a presença está sempre rodeando-a, silenciosa, mas com um poder fatal de colocá-la no estado de espera eterna novamente.

Espera do retorno de momentos que foram um dia tão felizes. E é desesperador não conseguir fugir de seus próprios sentimentos, de sua própria loucura, sabendo que tais momentos jamais voltarão.

Ela superou todos seus amores, todos os seus homens.

Ela é mais forte do que todos eles. Exceto você.

“Don’t say you need me when, you leave fast, you’re leaving
I can’t do it, I can’t do it, but you do it well”

E a música então cresce, as guitarras invadem e é quase uma explosão de sensações a medida que o último refrão aparece com um vocal extremamente agudo e melancólico. Este homem a deixa alucinada, hipnotizada, perdida. Um amor avassalador demais, louco demais, que tira seu fôlego e a afoga num mar de angústia.

Ele diz que precisa dela, mas sempre se vai, deixando-a na incerteza do adeus, da ausência, do retorno. Um furacão de sentimentos que a impede de respirar. Será que ela vai vê-lo de novo? Ela pede para que ele fique e ele diz que precisa dela, mas ela sempre termina nesse estado de desespero sufocante por ver seu homem partindo novamente sem perspectiva de volta. Todos falam para ela que está tudo bem, mas ela preferia simplesmente não existir dessa forma.

Ela não consegue mais viver assim.

“Because I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry
I’m pretty when I cry”

Porque ao chorar, ela é extremamente bela.

 

Texto escrito por Wesley Lima

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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  • http://instagram.com/senhor_radio Raphael Maitam

    ”Somos espíritos errantes em uma eterna busca por plenitude e apenas aqueles momentos nos quais o se entregar inteiramente por outro alguém torna-se uma realidade, somos capazes de sentir o calor e o toque da perfeição da vida.”
    Citação pra vida <3

  • Michael Ribeiro

    Cara como eu amo essas análises que vocês fazem das músicas da Lana, são sempre tão perfeitas e tocantes. Depois quando ouço as músicas tema dos textos sempre enxergo coisas a mais, sentimentos aparecem e sei lá, é meio que se eu enxergasse as músicas de uma forma completamente diferente, como se os textos complementassem e mostrassem partes que eu ainda não havia enxergado nas músicas. Excelente trabalho de vocês. Parabéns pelo texto Wesley Lima.

  • Igor Fernando

    Ja me conformei que essa música nunca vai ser single. Lana não jogaria essa obra de arte na roda da mídia,assim sem mais nem menos. Perfeita demais!!!

  • Ian Holland

    Eu estou tipo.. “Meu deus que perfeição foi essa que acabei de ler?” Lindo o texto, com algumas passagens tão tocantes que vou até escrever em algum lugar para poder me lembrar sempre.

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