ANÁLISE | “Ultraviolence é também sobre o homem que precisa da mulher” – Uma análise de ‘Cruel World’

por / domingo, 03 agosto 2014 / Publicado emAnálises, Colunas

CRUEL-WORLD-analise

Lana Del Rey já declarou em diversas entrevistas que ‘Cruel World’ é sua música preferida do álbum ‘Ultraviolence’. Segundo a cantora, o início calmo e suave se choca com o refrão caótico e controverso criando uma atmosfera ao mesmo tempo ambígua e paradoxal, cujas guitarras tremidas refletem diretamente os acontecimentos de sua vida. Em um dia, ela se sente bem, capaz de controlar seu próprio destino; no dia seguinte, as coisas fogem de seu controle e ela se sente perdida no furacão de seu próprio mundo, procurando a bússola que apontará o caminho a seguir.

Desde o anúncio oficial do lançamento do novo álbum, Del Rey havia relatado que havia um novo conceito impregnado em sua produção. Alguns fãs se preocuparam com o fato, apreensivos de que a cantora poderia estar sendo manipulada pela indústria a produzir grandes hits para as rádios e, assim, sendo influenciada a modificar a originalidade de sua arte para alcançar grandes números de vendas. É interessante como ‘Cruel World’ abre o álbum quebrando completamente essa ideia.

As guitarras pesadas, mas simultaneamente suaves que iniciam a composição mostram um lado obscuro da artista que alçou a fama ladeada pelo glamour de violinos harmoniosos e por batidas de hip-hop rítmicas e viciantes. Mais do que isso, sua voz está mais sólida e forte, com uma certeza e confiança espetaculares. É assim que, já nos primeiros segundos, a faixa se mostra uma canção madura, apaixonante, e principalmente capaz de impressionar, introduzindo de forma magistral a nova fase da arte de Lana Del Rey.

“Deixe-me falar dessa forma, cada faixa que eu coloco no disco e o nome de cada faixa e a ordem em que elas estão conta uma história que é importante para mim. Na minha cabeça, a narrativa deste álbum termina com a última canção, não as músicas da versão deluxe e essas coisas. A narrativa termina com o cover de ‘The Other Woman’ da Nina Simone. Segundo Del Rey, ‘Cruel World’ é a faixa que abre essa nova história. Segue então, uma análise de ‘Cruel World’ com o intuito de entender um pouco o significado que essa canção teve na vida de Lana Del Rey e o porquê de ter sido a escolhida para iniciar esse novo capítulo de sua história.

Antes de continuar a leitura, coloque ‘Cruel World’ para tocar.

Pronto? Então vamos.

“Shared my body and my mind with you
That’s all over now
Did what I had to do
‘Cause you’re so far past me now”

Os versos iniciais da canção introduzem o fim de um relacionamento significativamente profundo. Lana compartilhava toda a sua existência com outro ser humano: não apenas seu corpo, mas seus ideais, sua concepção da vida, sua mente. Em recentes entrevistas, Lana mencionou que todas as faixas de ‘Ultraviolence’ são baseadas em relacionamentos passados, tornando o álbum completamente autobiográfico. Além disso, já foi atestado também que suas composições se dirigem a um alguém específico de seu passado, cujas feridas permaneceram em sua mente e são revividas por meio de suas músicas. Se tomarmos como referência canções como ‘Blue Jeans’ e ‘Off to the Races’, ambas do álbum ‘Born to Die’, é possível inferir que essa pessoa se envolvia em crimes – possivelmente tráfico de drogas – e teria fugido ou até mesmo sido assassinada, terminando de forma trágica seu relacionamento com Lizzy, e por isso, não há nada que ela possa fazer a respeito.

Shared my body and my life with you
That’s way over now
There’s not more I can do
You’re so famous now

Os versos são basicamente repetidos, continuando a afirmação do término e como o eu-lírico está inconformado com os últimos acontecimentos. Infelizmente, não há nada que Lana possa fazer a respeito.

O último verso da estrofe suscita diversas interpretações. Em uma das entrevistas para divulgação do novo álbum, Del Rey afirmou ter se relacionado por vários anos com um produtor de uma gravadora famosa, mas se recusou a relatar a identidade do homem. Talvez ela esteja mencionando esse relacionamento específico, e por isso diga que esse indivíduo hoje é famoso demais para que a história possa vir à tona. Afinal, por muito tempo ela foi acusada de ser uma cantora fabricada, fruto de manipulações de marketing e ainda é frequentemente atacada pela crítica como uma imagem à venda.

Got your bible, got your gun
And you like to party and have fun
And I like my candy and your women

A ponte que liga os versos iniciais ao refrão é incrementada com batidas graves que dão o tom que a música irá seguir. Ou ao menos, o que se espera ouvir.

Os antônimos utilizados no primeiro verso funcionam como paradoxos claros na identificação do caráter do amante do eu-lírico – que, podemos dizer, é a própria Elizabeth – da história. Seu homem é aquele que carrega a bíblia e a arma, aquele que lida com a dualidade do certo/errado, do claro/escuro, reforçando a ideia de uma vida de crimes estilo Bonnie e Clyde – casal que Lana sempre busca em suas músicas para descrever a apaixonante vida ilegal e perigosa de seu amante. Uma pessoa cujo projeto de vida é viver intensamente, aproveitar o presente, estando disposta a correr todos os riscos para fazer de sua vida um projeto de arte.

Lana apresenta-se confusa em relação a seus próprios sentimentos concernentes à igreja e à existência de Deus. Em ‘Body Electric’, música do EP ‘Paradise’, ela entoa ‘Jesus is my bestest friend’. Já em ‘Gods and Monsters’, canção do mesmo álbum, ela afirma que “God’s dead, I said ‘baby, that’s alright with me” (‘Deus está morto, eu disse “Amor, está tudo bem para mim’).

A bíblia, livro sagrado dos cristãos é um instrumento de proteção corporal e espiritual, enquanto o revólver é um símbolo claro de violência física produzida pelo homem. Talvez não consigamos praticar tudo o que pregamos? Talvez a natureza violenta do homem não possa ser purificada pelo divino.

A palavra ‘candy’, remete à doce e pode ser interpretada como droga. O passado de alcoolismo de Lana Del Rey é amplamente divulgado na mídia e a própria afirma ter tido sérios problemas com bebidas durante sua adolescência. Apesar de nunca ter sido atestado publicamente, diversos indícios em suas músicas apontam que as drogas também foram um vício da cantora. Na época desse relacionamento conturbado, a cantora pode ter sido usuária de drogas e desfrutava desses momentos com seu amante. É interessante destacar que, quando a estrofe retorna após o refrão, o verso “and I like my candy and your women” é substituído por “and I love your women and all of your heroin”, reafirmando a ideia do vício de drogas impregnado na relação. Afinal, “I get high on hydroponic weed”, ela canta em ‘Brooklyn Baby’.

 

‘Ultraviolence’ é um álbum que trabalha com temas fortes que se esfumaçam ao longo das 11 belíssimas canções do álbum. Dentre os principais, temos: como a personalidade pública de Lana Del Rey e as ácidas críticas sobre suas composições impactaram em sua vida pessoal – ‘Fucked My Way Up to the Top’ -, sua adoração pelos Estados Unidos em seus diferentes aspectos e estilos de vida – ‘Brooklyn Baby’ e ‘West Coast’ – e, principalmente, como é ser a outra mulher, a amante, aquela – ‘Sad Girl’, ‘The Other Woman’ e ‘Cruel World’.

Nessa estrofe ela afirma ser consciente da existência de outras mulheres na vida de seu homem e ela não se importa de ser a outra. Mais do que isso, ela aprecia as outras mulheres da vida de seu amante. A autobiografia e a importância desse tema na vida de Del Rey é impressionante. Em seu último EP, nas canções ‘Cola’ e‘Ride’  ela expressa de forma profunda como se sente sendo a outra e como aprecia esse fato. Afinal, ‘I was born to be the other woman’, ela afirma no monólogo do videoclipe de ‘Ride’. Até então, ‘Cruel World’ é apenas uma continuação de seus trabalhos anteriores: o término cruel, a vida intensa, a bela amante. Por que, então, essa canção tem o poder de iniciar o conto de uma nova história?

I’m finally happy now that you’re gone

No verso que aproxima a música do refrão, a atmosfera da música sofre uma drástica reviravolta. As guitarras crescem, os vocais se tornam ríspidos e a cantora surpreendentemente aterrissa nesse território completamente desconhecido. O território da autoconfiança, da superação, do verdadeiro adeus. Lana Del Rey tornou-se famosa pelo tom bucólico e romantizado de suas canções. Alguns chegaram a chama-la de antifeminista e submissa a seus homens. A cantora Lorde afirmou que as músicas de Del Rey não fariam bem às garotas adolescentes que se veriam presas sentimentalmente a homens, ao invés de pregarem o amor próprio e a independência feminina.

Em um mundo onde as pessoas tornaram-se individualistas e as relações pessoais apodreceram diante de uma globalização que aproxima os distantes e distancia os mais próximos, Lana retorna às décadas passadas buscando o toque pessoal, o amor verdadeiro, se entregando completamente a outro alguém e vivendo a dependência psicológica que só um amor avassalador é capaz de trazer. Músicas que a tornaram famosa, como ‘Video Games’ e ‘Born to Die’ são impregnadas com a idealização do amor verdadeiro, do sofrimento de Goethe e da prisão sentimental vivida no romantismo do século XIX.

Mas então, ‘Cruel World’ desconstrói o que foi pregado até então. Nessa nova história, Lana está conformada com o adeus. Mais do que a liberdade do amor, ela sente a liberdade da independência, a felicidade por estar livre daquilo que antes a tornava tão completa, mas ao mesmo tempo inebriada e incapaz de controlar os próprios passos. ‘Ultraviolence’ começa com o término de um amor, com a aquisição da liberdade pessoal e a quebra da corrente sentimental que mantinha Lana Del Rey aprisionada a um alguém que preencheu seu passado. A partir daí, e ao longo de todo o disco, Lana mostra sua força como pessoa, como artista, e principalmente, como mulher criadora de uma arte original que é somente sua. Ela decididamente virou a página.

Put my little red party dress on
Everybody knows that I’m the best, I’m crazy
Get a little bit of Bourbon in ya
Get a little bit suburban and go crazy

A atração e a sensualidade da mulher retornam por meio da alegoria do vestido vermelho. Em ‘Summertime Sadness’ e em ‘Off to the Races’ Lana diz estar usando vestidos vermelhos, cujo brilho e glamour tem o poder de atrair o olhar dos homens, e deixá-los hipnotizados. O vestido vermelho, muito mais do que realçar a beleza feminina, é capaz de representar o poder que a mulher possui sobre a fraqueza dos homens. Afinal, para ela, a definição de uma feminista é aquela capaz de fazer suas escolhas e de se sentir livre.

“I just wanted you to know, that baby, you’re the best”, dizia ‘Summertime Sadness’. Em ‘Cruel World’, temos o antídoto, o reconhecimento da liberdade. Além de estar feliz por estar livre, Lana atesta que todos sabem ser ela a melhor. Ela é livre, independente, decidida e não mais aquela garota perdida que foi massacrada pela crítica mundial. Por mais que isso a tenha afetado – como a própria já declarou -, ela agora tem certeza de quem é e de seu potencial. Com sua voz adocicada e legião de fãs, Lana Del Rey conquistou o mundo e é adorada por muitos. Ela é mesmo a melhor e agora, mais do que ninguém, é capaz de reconhecer seu valor.

A ideia de liberdade e felicidade continua nos próximos versos, onde é mencionado uísque e ela diz ser louca. A loucura é sempre abordada por Lana em suas composições. Talvez porque na sociedade devemos seguir tantos padrões e nos adequar a tantas normas e conceitos que seguir uma linha diferente de vida pareça loucura até para nós mesmos.

‘Cause you’re young, you’re wild, you’re free
You’re dancin’ circles around me
You’re fuckin’ crazy

No monólogo de ‘Ride’ ela atesta que ser jovem, viver de forma selvagem e se sentir livre é um dos lemas de sua vida. Na faixa em que estamos analisando, ela demonstra a origem de tais sentimentos. Ela vê em seu amante uma inspiração, um retrato de como ela gostaria que sua vida fosse, já que ele é aquele que possui as características que tanto a inspiram. Vemos que, temporalmente, esse verso ocorreu em um período anterior da vida de Lana do que o mesmo verso cantado na primeira pessoa em ‘Ride’. É incrível como podemos ver a construção pessoal de Elizabeth ao longo da composição de suas músicas. É quase como se conseguíssemos traçar uma linha do tempo e ir encaixando as músicas de acordo com os acontecimentos e a evolução de sua personalidade. Em ‘Cruel World’ ela enxerga e se inspira em seu amante para construir sua vida. Em ‘Ride’ ela afirma para o mundo que finalmente conhece a si mesma. Talvez por isso o relacionamento tenha sido tão profundo. Muito mais do que outro alguém, Lana viu nesse homem aquele que ela sempre buscou, a direção de sua vida, uma figura tão única e com um senso de liberdade tão fascinante que a mudou completamente.

E por isso, mesmo não estando presente e mesmo com toda a felicidade adquirida após o término e a superação, Lana afirma que ele está em volta dela constantemente. O verso “you’re dancing circles around me” mostra como essa presença mental – e até mesmo espiritual – a acompanha onde quer que ela vá. Como esquecer alguém que moldou sua vida, alguém que você amou mais do que a si mesmo? Por mais que a superação e a felicidade existam, a lembrança é sentimento impresso com tamanha nitidez que nada pode apaga-lo.

Oh, you’re crazy for me

E então, pela primeira vez, os papéis se invertem. O verso que quebra o refrão tem vocais alucinantes que mostram a força de uma Lana Del Rey jamais vista e tem um significado tão explosivo que pode até mesmo justificar o título do álbum. Com agudos de perder o ar a cantora afirma que seu homem é louco por ela. Após o término e a separação ela é outra pessoa, mas seu homem continua apaixonado por ela de todas as formas. Del Rey abre ‘Ultraviolence’ de uma forma tão madura que chega a ser arrepiante.

A garota que se filmava na webcam desejando fortemente um amor perfeito simplesmente se transformou numa mulher decidida cujo relacionamento insuperável ficou para trás. O jogo está virado. Enquanto ela está em outra, seu homem continua apaixonado com ela, um paradoxo quando olhamos para sua carreira e vemos todo o sofrimento amoroso que foi a fonte de composições maravilhosas. “Ultraviolence é também sobre o homem que precisa da mulher”, disse Lana em entrevista para Libération Next. Nenhuma canção consegue expressar tal sentimento de forma tão cristalina.

Em ‘Cruel World’, Lana Del Rey é capaz de tirar o fôlego.

I shared my body and my mind with you
That’s all over now
I did what I had to do
I found another anyhow

A segunda estrofe chega com um ritmo mais suave, retomando o tema de introdução da música com uma leve substituição de versos que reafirma sua força como mulher. O relacionamento terminou e ela foi devastada pela tempestade sentimental pela qual passou. Mas, de alguma forma, ela achou outro alguém.

Shared my body and my life with you
That’s all over now
I did what I had to do
I could see you leaving now

Ela fez tudo o que pôde e ainda é capaz de vê-lo abandonando-a. Afinal, ela está feliz com outro alguém hoje, mas devido à intensidade da relação que viveu, ele para sempre estará em seus pensamentos e o fim de seu relacionamento irá assombrá-la por onde quer que ela vá.

 

Got your bible and your gun
And you love to party and have fun
and I love your women and all of your heroin
And I’m so happy now that you’re gone

Put my little red party dress on
Everybody knows that I’m a mess, I’m crazy, yeah
Get a little bit of bourbon in ya
Go a little bit suburban and go crazy

Em ‘Ride’, Lana transparece para o mundo seus mais delicados pensamentos e parece finalmente ter abraçado sua liberdade e aceitado a confusão que permeia sua mente.

Afinal, ela está cansada de se sentir louca apenas por ser algo que ela sempre foi interiormente. Não é o que todos seríamos capazes de fazer? Aceitar completamente a nossa essência e ser quem somos. E assim…. Ser louco não seria apenas ser feliz?

‘Cause you’re young, you’re wild, you’re free
You’re dancin’ circles around me
You’re fuckin’ crazy
Oh, you’re crazy for me

Quando ouvimos a canção ‘Born to Die’ que abre o primeiro álbum de sucesso da cantora e a comparamos com o furacão que é ‘Cruel World’ conseguimos entender um pouco porque essa foi a canção escolhida para iniciar essa era tão sonoramente obscura na música de Lana Del Rey. Com uma letra tão madura, pessoal e significativa, Elizabeth Woolridge Grant reafirma seu lugar como uma das maiores cantoras da música atual, infiltrando temas amplamente significativos em suas canções. As guitarras de Dan Auerbach criam a atmosfera perfeita para um show vocálico cuja liberdade de expressão está presente em cada verso entoado por Del Rey.

Liberdade, independência e poder. É assim que ‘Cruel World’ nos introduz ao trabalho mais surpreendente que Lana poderia nos trazer: ‘Ultraviolence’.

Escrito por Wesley Lima

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • Bruna Damásio

    Incrível!

  • Isabela

    pqp, Wes! Destruiu! Brilhante análise!

  • Nathalie Moreira

    Show essa análise Wes

  • João Vitor

    In love pelo texto…

TOPO