ANÁLISES | A aquisição real da liberdade: uma análise do álbum ‘Paradise’ e do curta-metragem ‘Tropico’

por / sábado, 16 agosto 2014 / Publicado emAnálises, Colunas

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O artigo a seguir não tem como intuito avaliar as especificações sonoras que envolvem a produção do EP  ‘Paradise’, mas a verdadeira criação que levou Lana Del Rey a nomear essa sequência de nove músicas de paraíso, uma palavra tão simples, mas cujo poder imagético é capaz de nos transportar a outro mundo.

Agora que o texto está pronto resolvi voltar ao início e escrever essa introdução para vocês. Foi intensamente significativo poder passar para o papel tudo o que penso e reflito acerca do Paraíso de Del Rey e o que ela quis transmitir ao escrever um álbum com esse título. Sei que me estendi mais do que deveria na escrita, mas não queria deixar certos detalhes (e referências, como vocês verão a seguir) esquecidos, pois são essas pequenas coisas que tornaram o álbum a obra de arte brilhante que ele hoje é. Cronometrei o tempo da leitura do texto e ele é aproximadamente o mesmo tempo do álbum, começando em ‘Ride’ e terminando em ‘Burning Desire’. Então antes de começarmos, gostaria que vocês colocassem o EP para tocar. Espero que vocês viagem na leitura como eu viajei escrevendo.

“I’ve been out on the open road…”

O ano de 2012 foi decididamente um dos mais marcantes na vida da – até então – desconhecida Elizabeth Woolridge Grant. Uma cantora já com um álbum de fracasso em sua ficha, mas que, após um inesperado sucesso virtual, foi empurrada do precipício do anonimato em direção a um abismo obscuro de fama, poder e, principalmente, rejeição e críticas. Seu álbum ‘Born to Die’ nasceu no alvorecer de uma apresentação tida como uma das piores da história do programa televisivo norte-americano Saturday Night Live. Seu nome foi massacrado por críticos do mundo todo e o que parecia ser a realização de um sonho foi se tornando, aos poucos, um vívido pesadelo.

Apesar dos ataques, a perseverança de Lana Del Rey em se firmar como a verdadeira artista que é levou a um relançamento de seu álbum – que apesar da pouca divulgação, principalmente nos Estados Unidos, se tornou em poucos meses um dos maiores lançamentos do ano – que passou a incluir oito novas faixas (nove contando ‘Burning Desire’, exclusiva para a compra digital do álbum pela iTunes Store), que constituíam o EP ‘Paradise’.

A evolução e o impacto dos acontecimentos do ano de 2012 refletiram não apenas na sonoridade do novo álbum, mas principalmente em sua escrita e produção. Ao analisarmos a discografia de Lana conseguimos perceber um tema principal que torneia cada álbum, como um desenho trabalhoso, cujas canções vão delineando a forma e acrescentando detalhes e pinceladas àquilo que será no final uma obra de arte única. É uma estrada cujas curvas nos mostram um pouco mais daquele caminho a ser percorrido, as músicas se interconectando e acrescentando as peças faltantes do suntuoso quebra cabeça que é a história e vida de Lana Del Rey.

‘Born to Die’, como o próprio título evoca, nos traz a melancolia da morte, a súplica amorosa e a romantização utópica do amor como sentimento capaz de levar o ser humano às suas antíteses mais extremas: a plenitude e o vazio, a felicidade e a tristeza, e acima de tudo, a realização da vida e, possivelmente, da morte. Esse jogo de paradoxos é uma das características que tornam esse álbum uma poesia tão profunda que chega a aguçar aquela inquietude interior que permanece adormecida, mas que todos temos em nós. Não há dúvidas ser o amor e todas as dualidades que ele carrega consigo o tema principal do álbum. Ao longo das canções a cantora se entrega totalmente a um homem, é abandonada por este homem, deseja estar morta por amar este homem e esfumaça esses constantes conflitos com uma sinceridade tão impressionante que precisamos mesmo respirar fundo para conseguir absorver essa overdose humana que o álbum é capaz de suscitar. ‘Born to Die’ me faz sentir nostalgia de coisas que nunca vivi.

Por ser uma mulher eternamente apaixonada, ‘Ultraviolence’ não poderia ser diferente e a loucura amorosa de Del Rey retorna tão (se não mais) intensamente quanto no álbum que lhe deu a fama. Porém, mais do que isso, composições como ‘Fucked My Way Up to the Top’ e ‘Money Power Glory’ são carregadas com a ironia e o retorno triunfal por cima daqueles que a estigmatizaram como um produto de marketing, uma artista fabricada. Muito mais do que provar seu valor e autenticidade para o mundo, o seu novo álbum constrói um império sonoro que é abrasador e, ao mesmo tempo, tão pessoal que realmente nos dá a certeza de que ela não quer provar nada para ninguém. Ela canta sua vida, sua alma. Com certa frequência me pergunto se compor não seria uma fuga e uma libertação, uma forma de exteriorizar a overdose sentimental que confunde e tortura Lana Del Rey.

E é nesse âmbito de sua vida, na confusão mental e na loucura, que temos a construção de ‘Paradise’. Ao invés de falar em poucas linhas minhas visões acerca dos temas do álbum, convido-os a percorrer as canções comigo para que, juntos, possamos entender e absorver aquele que é o verdadeiro paraíso de Lana Del Rey.

Os barulhos da chuva caindo enchem os ouvidos e é com uma profunda inspiração que ‘Ride’ abre essa nova história. Com essa inspiração tenho a impressão que ela está tomando fôlego para tomar a estrada novamente. É o fôlego da angústia, da desistência. O fôlego que tomamos quando as coisas não estão bem, mas não temos outro caminho a não ser seguir em frente. É a força interior que precisamos buscar para simplesmente não sucumbirmos às dificuldades da vida que, por vezes, chegam tão próximo de destruir quem somos que quase podemos sentir o vazio invadindo nossa existência. Após ter sido odiada por todos, ela toma fôlego para não desistir e continuar escrevendo sua arte para o mundo.

‘Ride’ por si só é uma história dentro de uma história. O videoclipe chega a ser tão importante quanto o áudio em si, principalmente pela existência do monólogo que é uma explosão nas dimensões que a música já possui. Poderia escrever páginas e páginas sobre a construção desse filme mágico, mas prefiro deixar os detalhes e análises mais profundas da música para um possível artigo que eu venha a construir especialmente para ela.

Não é possível, entretanto, analisar ‘Paradise’ sem levar em consideração essa que é provavelmente uma das composições mais importantes para o significado que o álbum possui. Em ‘Ride’, Lana inicia relatando estar a muito tempo numa estrada… É possível pensar em diversos significados para essa estrada, mas…  Não seria a estrada da vida? A estrada que nos leva por caminhos desconhecidos e tortuosos? A vida é um jogo cujo tabuleiro é virado todos os dias e por mais que tentemos planejar nosso destino, os acontecimentos sempre irão se chocar contra nossa vontade nos momentos que menos esperamos.

“Life doesn’t always work out, like we planned it. / They say ‘make lemonade out of lemons’, but I tried and I just can’t understand it. / All this trying for no good reason / Man makes plans and God laughs… Why do I even bother to ask?”
(“A vida nem sempre acontece como planejamos. / Eles dizem ‘faça limonada a partir dos limões’, mas eu tentei e eu simplesmente não consigo entender. / Todo esse esforço por nada / O homem faz planos e Deus ri… Por que eu ainda me importo em perguntar?”)

 

– Starry Eyed, canção que caiu na internet em 2013, provavelmente composta para o EP ‘Paradise, mas excluída na montagem da tracklist.

O refrão estrondoso da música é entoado por uma cantora absorvida pelos conflitos que invadem sua personalidade. O verso “Been trying hard not to get into trouble, but I… I’ve got a war in my mind” (“Tenho tentado arduamente não entrar em problemas, mas eu… Eu tenho uma guerra em minha mente”) expressa com uma dor que chega a ser palpável toda essa confusão interior que permeia os pensamentos da cantora. Quantas vezes tentamos fazer as coisas da forma correta, mas nos vemos envoltos por situações e circunstâncias tão maiores e alheias ao nosso controle que simplesmente não conseguimos fazer o certo? E nesse contexto, o que seria verdadeiramente o certo?

A guerra existente na mente de Lana Del Rey se deve, em grande parte, exatamente a essa sua oposição em simplesmente aceitar o que é imposto pela sociedade como correto ou errado. Não é a toa que na maioria de seus clipes, ela se associa a homens cuja aparência física destoa completamente daquilo tido como ‘belo’. Em ‘Ride’, a gangue de motoqueiros que acompanha a cantora por todo o clipe é composta por homens que jamais seriam aceitos dentro do padrão de beleza valorizado pela sociedade normativa em que vivemos. E a cantora, muito mais do que apenas compartilhar sua companhia com eles, divide seu corpo, sua alma, sua verdade mais interna. Não é infrequente ler em diversos fóruns virtuais, pessoas criticando suas escolhas para homens e companheiros em seus vídeos, afirmando que ela deveria escolher homens ‘mais bonitos’ para realizar as filmagens.

E, é exatamente aí que reside toda a verdade de Lana Del Rey. Aquilo que nos foi imposto como ‘correto’ não deve jamais ser nossa realidade. Porém, lutar contra isso pode se tornar um fardo impressionantemente pesado, principalmente quando estamos sozinhos em um mundo massacrado por padrões e conceitos excludentes e que desvalorizam a diferença. Nesta canção, ela desconstrói inteiramente essa definição, expondo as dificuldades que esse desprendimento pode trazer. Uma guerra tão forte que a leva à loucura todos os dias, mas que ela insiste em travar com um único intuito: ser livre.

A imagem em que Lana aponta um revólver para sua cabeça ao entoar ‘I’ve got a war in my mind’ chega a ser arrepiante, principalmente pelos sentimentos simultâneos de vazio e desespero que invadem seu olhar. A loucura às vezes pode ser tão intensa e dominar com tamanha voracidade nossos pensamentos que o suicídio se apresenta como a única saída. A única estrada em direção à paz.

E, é nesse turbilhão de emoções que começamos a entender o real significado por trás do álbum ‘Paradise’. O álbum não é aberto com uma idealização amorosa, um romantismo utópico. ‘Ride’ preenche os ouvidos como um clamor esplendoroso que, em meio a conflitos tão poderosos, grita desesperadamente por um dos sentimentos mais esquecidos pelo homem: liberdade. É emocionante enxergar as magnitudes e as várias vertentes que Lana usa para gritar para as pessoas que elas precisam se desprender de suas correntes mentais, mesmo que uma guerra seja necessária para isso. É a liberdade o único caminho para a verdadeira plenitude da vida.

Who are you? Are you touch with all your darkest fantasies? Have you created a life for yourself where you’re free to experience them? I have. I am fucking crazy.
But I am free.”  – Ride

‘American’ começa como uma calmaria para a tempestade que avassala o início do álbum. Como suscitado pelo título, Lana exalta na canção seu patriotismo e todo o seu amor pelos Estados Unidos, tema recorrente em suas canções. Afinal, ‘Born to Die’ é repleto de referências ao país, desde a cantora se abraçando a Bradley Soileau em frente à bandeira norte-americana até sua pose como Jackie O’ ao lado de um presidente negro em ‘National Anthem’.

“Be young, be dope, be proud
Like an american”

 

A menção à Bruce Springsteen no verso “Springteen is the king, don’t you think? I was like ‘hell, yeah, that guy can sing” reitera o orgulho à pátria, sendo este um dos temas de várias composições do cantor. Mas mais do que isso, Bruce é famoso por pregar em suas canções a exaltação às situações cotidianas e o ideal de liberdade que é a própria essência de ‘Paradise’.

Bruce_Springsteen_1988

Bruce Springsteen em 1988

Ao cantar “I drive fast, I can almost taste it now” ela retorna à ideia do dirigir como fuga da realidade. O vento, a velocidade, o pensamento que a estrada à sua frente pode te levar a qualquer lugar e que o mundo inteiro está ao seu alcance. Ao dirigir rápido, Lana quase pode provar dessa liberdade incondicional que é seu maior desejo. A impressão que passa ao cantar cria a imagem de que quanto maior a velocidade, mais próximo dessa plenitude ela é capaz de chegar. A velocidade alucina e é como se a própria estrada estivesse a levando em direção à liberdade. E quando ela está indo muito rápido, essa sensação a aproxima tanto desse ideal, que ela é quase capaz de agarrá-lo. Mas a felicidade é um pássaro que pousa na nossa frente e num piscar de olhos alça voo para satisfazer outras almas.

Em ‘American’ temos o regresso do conhecido romantismo de Lana Del Rey e as cordas suaves deslizam em um ritmo envolvente criando uma atmosfera que chega até mesmo a sugerir uma imagem do paraíso. O final calmo é apenas um preparo para as batidas fortes da música seguinte, cujo hip-hop pesado é um retorno a ‘Off to the Races’, ‘Blue Jeans’ e ‘Dark Paradise’, canções de seu primeiro álbum de sucesso.

E assim se inicia ‘Cola’, uma música que mesmo antes de seu lançamento já era envolvida pela polêmica do verso “My pussy tastes like Pepsi Cola” e abordando temas que seriam mais tarde retratados em canções como ‘Sad Girl’ e ‘Shades of Cool’ de seu álbum ‘Ultraviolence’.

A quebra de conceitos e estratagemas é mais sutil em ‘Cola’ quando comparada com as duas primeiras canções que abrem o álbum. Ou talvez o aspecto da liberdade abordado aqui seja apenas diferente daqueles cantados anteriormente. O verso “I know your wife, that she wouldn’t mind” é um choque para a camada monogâmica da sociedade que acredita apenas na existência de relações amorosas baseadas na manutenção do outro e na exclusividade. Indivíduos que se esforçam em pregar e condenar fortemente o significado por trás da palavra ‘adultério’, impossibilitados de enxergar outras formas de amor. Justamente o amor baseado em liberdade.

É incrível como um único verso é capaz de trazer tantas ideias e pensamentos considerados errados no mundo de hoje. Lana se considera a amante e não se sente culpada por isso. Não há julgamentos, não há vergonha e, muito pelo contrário, existe um certo orgulho e exaltação no verso. Os vocais chegam a entoar certo poder e Lana se sente extremamente bem por estar na posição externa da relação.

Posição externa?

Isso me faz pensar se não seriam os ensinamentos da sociedade gravados na minha inconsciência que me fazem pensar na palavra ‘externa’. Afinal, a esposa do homem da canção é completamente ciente da relação que ele mantém com Lizzy e ela não se importa com isso. Assim, elas estariam ocupando posições iguais em sua vida, sem inferiorização ou prioridades, algo incabível para a grande maioria das mulheres da sociedade atual.

É, realmente a liberdade Lana-Del-Rey-Tropicoé algo que nos é tão privado que precisamos trabalhar todos os dias para tornar essa palavra uma realidade em nossas vidas.
E então em ‘Body Electric’, somos transportados para o Jardim do Éden. As folhagens descobrem um John Wayne que interpreta o próprio Deus criador do céu e da Terra. Com uma espingarda na mão e os trajes típicos dos filmes que produziu, John é ladeado por Jesus, Elvis Presley e Marilyn Monroe.

John Wayne foi um produtor cinematográfico norte-americano, considerado por muitos como um dos pais do cinema. Atuou por décadas e é um dos maiores ganhadores de estatuetas e prêmios, além de ser amplamente conhecido por simbolizar a defesa dos ideais e valores americanos. Seus papeis no cinema, por exemplo, nunca comprometiam sua imagem externa. Se ele achasse que algo era extremamente degradante para a figura humana na vida real ele jamais o faria num filme. Lana Del Rey escolhe Wayne para interpretar o pai da humanidade em seu curta-metragem ‘Tropico’ e é incrível toda a simbologia existente por trás disso.

john tropico

A imagem de Jesus usando a clássica coroa de espinhos descrita na Bíblia e uma expressão de sofrimento no rosto é completamente destoante da inocência representada pelas imagens do Jardim do Éden. No alvorecer do dia, Marylin Monroe e Elvis Presley acordam e observam um casal que aos poucos se aproxima. Usando folhagens nos seios e nas partes íntimas, Lana aparece pela primeira vez com um sorriso de surpresa no rosto, uma expressão de alegria e realização. Ao seu lado vemos um rapaz branco cujas feições podem diferir daquilo que muitas vezes erroneamente chamamos e consideramos como belo. Adão, Eva e toda a inocência descrita no livro de Gênesis.

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Marilyn Monroe: prostituta e amante. No Jardim do Éden, o local do nascimento da humanidade, onde foram criados por Deus os seres humanos; o local da mais pura inocência já descrito pela religião ocidental. A inversão de valores é mais uma quebra conceitual do álbum ‘Paradise’, principalmente quando o diálogo cessa e a canção ‘Body Electric’ aos poucos preenc
he o silêncio com o verso “Elvis is my daddy, Marylin is my mother, Jesus is my bestest friend.” Será que Marylin, apesar de todos
os seus pecados também teria um lugar ao lado de Deus e de seu filho após a morte?

E então caímos numa das principais questões do curta-metragem que se estende por aproximadamente trinta minutos.

O que é o pecado?

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Marilyn Monroe

O pecado nada mais é do que a forma mais cruel de manipulação e obstrução da liberdade já existente. Por meio da palavra ‘pecado’ a Igreja controlou por séculos os pensamentos e as ações do povo, gerando um pensamento temeroso em relação ao paradigma certo/errado e a ideia do Inferno como local de sofrimento eterno e penitência. Você deve aprender um padrão pré-determinado, se adequar a ele e segui-lo, independente de suas vontades ou crenças. Porque caso o contrário, você estará pecando e, ao morrer, será julgado por todas as suas falhas e enviado a um local de onde jamais sairá e onde cada dor tem a duração temporal do infinito.

E assim a liberdade foi caçada e destruída. Marylin jamais se encaixaria nesses padrões e se eles estivessem ao menos remotamente corretos, ela já estaria ardendo a uns bons 40 anos. Em ‘Tropico’, Lana coloca em Monroe a expressão da mais pura inocência no surgir da humanidade. É interessante notar que até então o amor, tema tão amplamente retratado anteriormente por Del Rey, apesar de estar presente em todas as canções do álbum, é deslocado para um segundo plano, enquanto a libertação – e principalmente a quebra dos obstáculos necessários para que possamos alcançar esse estado de espírito – é entoada e exaltada de todas as formas.

A construção imagética dos primeiros capítulos da Bíblia é importante fator na cronologia do entendimento da liberdade como forma de expressão, pois é a origem ocidental de seu aprisionamento, principalmente quando se trata da figura da mulher. À medida que ‘Body Electric’ desvanece e a serpente (metaforizando o demônio, a origem de todo o mal) encontra E
va
, a maçã do conhecimento – único fruto proibido de todo o Jardim do Éden – é oferecida à mulher que a toma nas mãos, morde e é automaticamente transportada para o mundo atual: um mundo de pecado, perdição e morte.

Mais do que a cassação da liberdade, a inferiorização da mulher é também representada nesse início da vida segundo a bíblia. A mulher foi feita secundariamente ao homem e a partir de uma de suas costelas, sendo assim, existente apenas graças a ele. A mulher foi seduzida pela serpente e, por ter cedido aos desejos impulsivos do conhecimento, condenou a humanidade a um estado eterno de depravação. Por ter feito a escolha de ter o conhecimento da vida eterna, a mulher foi culpada por todo o sofrimento do mundo.

A canção ‘Body Electric’ é referência direta ao poema ‘I sing the Body Electric’, do autor Walt Whitman. Whitman, mais um dos ícones da história norte-americana foi revolucionário no mundo da poesia por questionar os padrões da sociedade e se desprender dos conceitos pré-existentes, abordando de forma absurdamente clara temas até então considerados tabu, como a homossexualidade e as relações sexuais resultantes do simples contato humano.
04Mais tarde, Whitman seria conhecido como o pai da Geração Beat, uma coletânea de escritores e poetas que também se sentiam insatisfeitos por estarem sujeitos a uma verdade absolutamente arbitrária ditada por outros, impossibilitando-os de seguirem o instinto humano de liberdade. Em composições posteriores, como ‘Brooklyn Baby’, Lana irá retornar a essa época, reiterando seu amor por aqueles que, como ela, viam que ser livre é a aquisição da própria felicidade da vida (Leia uma matéria completa sobre a Geração Beat e as influências que ela possui nas composições de Lana Del Rey clicando aqui).

As metáforas bíblicas são material sempre presente nas obras de Del Rey, mas não antes tão intensamente como em ‘Paradise’. E é aqui que conseguimos ter um vislumbre da alma da cantora, com sua arte intensa e pensamentos extremamente visionários. Acredito que ter se graduado em filosofia e estudado metafísica posteriormente tenha aberto seus horizontes e iluminado um pouco a escuridão de sua confusão mental. Apesar disso, ainda me pergunto quais as crenças religiosas de L130819-lana-del-rey-tropicoana.

Em ‘Body Electric’, ela canta “Jesus is my bestest friend”, intimando uma proximidade com aquela que é uma das maiores figuras religiosas dos últimos dois mil anos. Essa relação é possivelmente ligada à inocência e ao sofrimento passados por Jesus no Novo Testamento. Um homem que perdeu completamente a liberdade de seu destino ao ser enviado por seu pai com o objetivo de salvar a humanidade dos pecados e da perdição. No decorrer da história, essa ideia será ligeiramente modificada como veremos, mas por hora, vamos pausar ‘Tropico’ para retornar à tracklist original do álbum.

‘Blue Velvet’, é uma canção que não era para estar originalmente no EP, sendo incluída após o convite da empresa mundial H&M para Lana trabalhar em uma campanha de divulgação cantando a música. Após a gravação no estúdio a música foi incluída no relançamento de ‘Born to Die’ ocupando a quinta posição na tracklist. Vejo a canção como um verdadeiro interlúdio entre ‘Body Electric’ e ‘Gods and Monsters’, como uma pausa na contagem dessa história que chega a ter uma aura pesada em certos momentos. As informações são tantas e se chocam com tanta violência contra aquilo a que fomos ensinados, que precisamos piscar os olhos e respirar para continuar.

A maçã do conhecimento transporta Adão e Eva para o mundo de hoje. Um mundo de violência, pecado e em meio a imagens de mulheres dançando seminuas e entretendo homens por dinheiro, Lana declama trechos do poema épico ‘I sing the Body Electric’, escrito por Whitman e citado acima. O poema é composto por nove partes e é interessante analisar os trechos que Lana escolheu especialmente para compor essa parte de seu filme ‘Tropico’.

 

“Womanhood, and all that is woman – and the man that comes from woman
The womb, the tits, nipples, breast-milk, tears, laughter, weeping, love-looks, love-perturbations and rising,
[…]
O I say, these are not the parts and poems of the Body only, but of the Soul
O I say now these are the Soul!”

(“A feminilidade e tudo o que é da mulher – e o homem que provém da mulher,
O ventre, os seios, os mamilos, o leite materno, as lágrimas, os sorrisos, o pranto, olhares amorosos, perturbações do amor e excitações,
[…]
Ó eu digo que estas não são apenas partes e poemas do Corpo, mas também da Alma,
Digo mesmo que eles são a própria Alma!”)

 

– I sing the Body Electric, Walt Whitman

Por meio deste trecho específico, Lana Del Rey exalta de todas as formas a mulher que foi desde a criação da humanidade segundo a Bíblia oprimida e cuja liberdade foi assassinada de todas as formas. Mais do que isso, ela exalta o corpo feminino em todas as suas formas. Vejam como Whitman coloca as palavras ‘corpo’ e ‘alma’ em maiúsculo, tratando-as como verdadeiros nomes próprios. É a exaltação do corpo, fonte de pecado, fonte de privação, fonte de desejo. É a exaltação da alma, espírito livre incrustado no corpo e dependente deste para sua satisfação. Ao narrar ‘I sing the Body Electric’ num mundo de tormento, Lana mais uma vez desconstrói a ideia do pecado, naturalizando o instinto humano e tentando retornar nossa existência às origens. Não existe pecado. Não existe certo/errado. Só existe o corpo. Só existe a alma.

Só existe a liberdade.

‘Gods and Monsters’, é para mim a canção mais forte de todo o álbum. Assim como ‘Ride’, a música é preenchida com o pensamento de loucura e os conflitos internos que enlouquecem Lana Del Rey diariamente.

gods and monsters

“In the land of gods and monsters, I was an angel living in the Garden of Evil.” Os paradoxos atormentadores estão presentes desde o verso que abre a canção. Ao se declarar um anjo, Lana evoca a inocência e o instinto humanos sempre apagados pela racionalidade da sociedade. Os deuses e monstros desta terra são aqueles que tentam destruir nossos ideais, que perseveram374b24a41463b07c17960a3265237658 em nos dizer quem devemos ser e o que devemos fazer. A possibilidade de seguir nossas vontades, de trilhar um caminho diferente do padrão simplesmente deixou de existir. Estamos no Jardim do Mal (percebam o jogo entre “Garden of Eden” e “Garden of Evil”. Expressões tão próximas e ao mesmo tempo tão opostas) e a possibilidade de escolher uma realidade diferente foi arrancada de nossas entranhas.

“Some poets called it [Los Angeles] the entrance to the Underworld, bun on some summer nights, if could feel like Paradise, Paradise Lost”
(“Alguns poetas a chamavam [Los Angeles] de entrada para o Submundo, mas em algumas noites de verão, poderia sentir como o Paraíso, Paraíso Perdido”)

 

– Monólogo de Lana Del Rey em ‘Tropico’

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Em seguida, Lana relata que ela e Deus não se dão bem. Mais tarde na música ela retorna a isso com o verso “God’s dead, I said ‘baby, that’s alright with me”, opondo “Jesus is my bestest friend” cantado em ‘Body Electric’. Ela e Deus não se dão bem, pois esse Deus castigou-a por ter comido a maçã do conhecimento. Esse Deus culpa-a diariamente e condena as belezas de seu corpo e sua sensualidade. Se Deus não existe… Qual a força do pecado? Sem Deus não há inferno, sem Deus não há culpa. Sem Deus não há o tormento cotidiano de ter que escolher um caminho por ser o correto, o caminho divino.

Deus está morto e isso é a aquisição mais pura da liberdade.

É importante destacar que esse Deus não é o verdadeiro criador da Terra (independente das crenças individuais) e sim um instrumento utilizado pela sociedade com o intuito de manipular as escolhas alheias e estabelecer um estilo de vida a ser seguido. Por séculos (e até hoje) o nome dele é utilizado como forma de controle.

Deus está morto, e está tudo bem para mim.

Logo após, Lana prega a perda da inocência e usa o termo ‘fuck’ repetidas vezes com o intuito de chocar e valorizar o contato humano, assim como frisa o trecho do poema de Whitman declamado pouco antes do início da canção em ‘Tropico’. A Igreja, mais uma vez, vulgarizou o sexo e usou o nome de Deus para controlar esse contato tão íntimo que as pessoas deveriam ter. O sexo deixou de ser o contato do corpo com o corpo e se tornou instrumento de controle. Não se deve fazer sexo antes do casamento. Não se deve experimentar diferentes tipos de sexo. O que era pra ser o contato mais íntimo entre dois mundos diferentes foi encoberto com sentimentos de culpa, como algo sujo. Mas o que Lana quer é ser fodida, porque isso é o paraíso. O que ela realmente quer. É a inocência perdida.

“Fuck, yeah, give it to me
This is heaven, what I truly want
It’s innocence lost.”

 

– Gods and Monsters

Os versos “I don’t really wanna know what’s good for me” e “No one’s gonna take my soul away” exprimem essa busca pela liberdade em um mundo onde isso nos foi tirado. Ela não quer saber o que é bom pra ela, não precisa de alguém lhe dizendo o que fazer. Ninguém vai levar sua alma embora.

A partir do momento que a liberdade preenche completamente seu ser, esse medo deixa de existir.

“You tell me ‘life isn’t that hard”

 

– Gods and Monsters

Entre tomadas com mulheres simbolizando prostituição, uso de drogas, violência física por meio de armas e uma Lana
posando como uma stripper e dançando envolvida por dinheiro em suas peças íntimas, o poema ‘Howl’ do autor Allen Ginsberg começa a ser declamado. Ginsberg é figura expressiva da Geração Beat supracitada e uma das principais faces da construção da poesia literária dos Estados Unidos.

O poema tem uma amplitude temática que abrange a exclusão e marginalizaç
ão de muitas pessoas comuns que não foram capazes de desenvolver todas as suas potencialidades como seres humanos e acabaram arrastados à loucura, ou a um beco sem saída na sociedade. Ele expõe, de fato, o sofrimento de uma geração em um tom confessional, trazendo a
demonstração da força contra uma sociedade opressora com relação às minorias. No universo marginal retratado aparecem claramente os comportamentos libertários e espirituais que formariam a base da contracultura Beat, que em breve transformaria em muito os padrões de comportamento no mundo inteiro.

Segue alguns trechos declamados por Lana Del Rey em ‘Tropico’.

“I saw the best minds of my generation destroyed by madness,
Starving hysterical naked
Dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix […]
Who were expelled from the academies for crazy & publishing obscene odes on the windows of the skull […]
With dreams, with drugs, with walking nightmares.”
(“Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura,
Esfomeadas histéricas nuas
Arrastando-se através das ruas dos negros de madrugada procurando uma violenta dose […]
Que foram expulsos das academias por loucura e publicação de odes obscenas nas janelas do crânio […]
Com sonhos, com drogas, com pesadelos vividos”)

 

-Howl [Uivo], Allen Ginsberg

Em seguida, a violência física é retratada por meio da utilização das mulheres como objeto. Para comemorar o aniversário de um amigo, um grupo de indivíduos aparentemente bem-sucedidos por suas vestimentas contrata mulheres que usam o corpo como alimento de vida. O filme segue com um ‘assalto’ a esse clube privado e a violência psicológica sofrida pelos reféns reflete toda a realidade de nosso mundo atual. A partir daí, a aura obscura do filme irá se transformar e, assim como no álbum, o tornado furioso que assolava as composições se vai e Lana parece finalmente ter alcançado a tão desejada paz.

‘Yayo’, é uma das composições mais pessoais de Lizzy Grant, composta exclusivamente por ela, diferentemente de outras canções que foram compostas com seu produtor, David Kahne, para seu primeiro álbum de estúdio ‘Lana Del Ray A.K.A. Lizzy Grant’.

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John Wayne

Durante os anos que cantou nos pubs noturnos de New York City, Lana recitou a canção de diferentes formas e com várias alterações nos ritmos e versos da canção. A escolha para a canção integrar o EP ‘Paradise’ é provavelmente devido ao significado que teve por anos na vida de Del Rey. Em termos líricos é a canção mais romantizada do álbum e os instrumentais suaves harmonizam incrivelmente com os vocais que revelam um se entregar de corpo e alma com a valorização dos mínimos detalhes.

Luzes se acendem e a atmosfera se transforma. Lana e Shaun Ross, o Adão de ‘Body Electric’ e assaltante de ‘Gods and Monsters’ estão vestidos de branco e seguem em um Chevrolet Bel Air que nomeia o último capítulo de nossa história. John Wayne reaparece como Deus e declama a maior parte de seu poema ‘America, why I Love her’ (América, porque eu a amo), um dos maiores tributos já compostos para os Estados Unidos.

“Have you ever seen a Kansas sunset or an Arizona rain?
Have you ever drifted on a bayou down Louisiana way?
Or watched a cold fog come drifting in over San Francisco Bay? […]
You ask me why I love her? I’ve got a million reasons why:
It’s my beautiful America, beneath God’s wide, wide sky.”

(“Você já viu o por do sol no Kansas ou a chuva no Arizona?
Você já adentrou a baía pelo caminho da Louisiana?
Ou observou a névoa fria que paira sobre a baía de São Francisco? […]
Você me pergunta porque eu a amo? Eu tenho um milhão de razões:
É a minha maravilhosa América, sob o grande, grande céu de Deus.”)

 

– America, why I love her – John Wayne

Lana e Shaun são purificados de todos os seus pecados por meio do simbolismo do batismo. John joga água por sobre a testa de dela e em seguida mergulha sua cabeça no rio, eliminando as impurezas da alma. É interessante que duas formas de batismo são vistas no filme, numa tentativa explícita de excluir o teor religioso do ato, que deve ser visto como um símbolo de purificação e não como a introdução a qualquer seita religiosa. As cores brancas do vestido de Lana e o campo de grama que se estende até onde a vista alcança contribuem para o brilho e as sensações de paz que são transmitidas ao espectador em contraste com a loucura e o ambiente pesado que reinava há poucos segundos no filme.

tropico bel air

E é assim que o riso de crianças angelicais enche os ouvidos e somos introduzidos à ‘Bel Air’ cujos vocais de Lana evocam o próprio paraíso.

“Don’t be afraid of me, don’t be ashamed
Walking away from my soft resurrection
Idol of roses, iconic soul, I know your name
Lead me to war with your brilliant direction”

 

– Bel Air

A estrofe acima exprime a ressurreiçTropico-4-Lana-Del-Rey-A-Gambiarraão do espírito após o tormento. Quando Lana canta que ninguém precisa ter medo dela, temos a impressão que mais do que exteri orizar a paz tão arduamente alcançada, ela finalmente convenceu a si mesma da sanidade que invade seu ser e elimina sua loucura. A guerra que se iniciou em ‘Ride’ em sua mente finalmente cessou e não há mais sequer recordação de tais acontecimentos. Afinal, ela ressurgiu das cinzas como uma fênix e tudo o que ocorreu antes disso não existe mais.

Não há lembrança, não há medo. Porque o mundo de sofrimento se foi.

“And God shall wipe away all tears from their eyes; and there shall be no more death, neither sorrow, nor crying, neither shall there be any more pain: for the former things are passed away.”
(“E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.”)

 

Apocalipse [Revelação], 21:4 – A Bíblia

O melhor, entretanto, permanece nos segundos finais do filme. Enquanto ela é erguida abraçada a seu homem no ar, luzes esverdeadas invadem e permeiam o céu, enquanto ambos são contemplados no por do sol. As luzes se acendem e se apagam e o que pareciam ser nuvens vão se tornando cada vez mais nítidos até se tornarem discos voadores. Lana é erguida, a imagem tremula, escurece, reacende e assim, o fade out invade a tela enquanto o som diminui e ‘Bel Air’ cai no vazio.

bel air tropico

É impressionante como a evolução espiritual sofre uma mudança nos segundos finais dessa história. Fomos do Jardim do Éden à Los Angeles e terminamos com uma Lana ascendendo aos céus iniciando contato com criaturas maiores do que nós. Estamos sempre evoluindo, estamos em constante mudança. Não podemos e não devemos sistematizar nossos sentimentos.

Ninguém tem o poder de ditar quem somos.

Ninguém jamais entenderá o universo interior existente dentro de cada um de nós.

Lana Del Rey nos ensina por meio de oito faixas e cerca de quarenta minutos visuais (contando ‘Ride’ e ‘Tropico’) que a liberdade é algo extremamente perturbador, enlouquecedor e capaz de nos levar de um estado de sanidade a outro de completa loucura.

Mas no fim das contas, é apenas a liberdade absoluta a verdadeira estrada capaz de conduzir nossa alma até a felicidade.

E no meio do pecado, na terra de deuses e monstros, na prisão psicológica e na loucura da mente…

… é a liberdade o verdadeiro paraíso.

P.S.: Para mim a criação de ‘Paradise’ termina com a paz alcançada em ‘Bel Air’.

‘Burning Desire’ é um epílogo para toda essa história, um pedacinho do que ocorreu depois de toda essa jornada. Bem, acho que já me estendi o suficiente e prefiro deixar-vos com essa imagem de ‘Bel Air’ na mente. A imagem de que só conseguiremos alcançar a liberdade verdadeira por meio da perseguição aos nossos estigmas.

Questionem-se sobre seus preconceitos. Perguntem-se quem você são. Trabalhem para mudar sua realidade. Por mais que a loucura possa os preencher, perseverem. E vivam o verdadeiro paraíso.

Por que o ‘Paradise’ é, acima de tudo, um verdadeiro ode à liberdade.

 

Texto escrito por Wesley Lima

Edição por Mauricio Sousa

 

Redação LDRA
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