ICONIC SOUL | Geração Beat: A geração da vida e da liberdade que se tornou o maior ícone de Lana Del Rey

por / sábado, 02 agosto 2014 / Publicado emColunas, Iconic Soul

Por Raphaella Paiva

IMAGEM POST LDRAç

“Porque os únicos que me interessam são os loucos; os loucos por viver, loucos por falar, loucos por serem salvos, que desejam tudo ao mesmo tempo e nunca bocejam ou dizem coisas clichês, mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício pela noite.” On The Road, Jack Kerouac.

“Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura.” Howl, Allen Ginsberg.

“My boyfriend’s in a band, he plays guitar while I sing Lou Reed; I’ve got feathers in my hair, I get down to Beat poetry.”(Meu namorado está numa banda, ele toca violão enquanto eu canto Lou Reed; eu tenho penas em meu cabelo, eu me envolvo na poesia da geração Beat) Brooklyn Baby, Lana Del Rey.

Geração Beat, uma das maiores influências da história que deu um tapa na sociedade pacata e cheia de mocismos dos EUA dos anos 50, a geração que deu lugar às minorias e levantou a voz dos que eram calados pela sociedade por não seguirem as regras ridículas do que era certo ou errado. A geração do mundo e a geração carregada por Lana Del Rey.

Mas primeiramente, o que foi a Geração Beat? Ela foi um movimento literário iniciado com o escritor Jack Kerouac e o poeta Allen Ginsberg (ambos ícones de Del Rey, os quais ela cita em inúmeras entrevistas como suas maiores influências para a era Ultraviolence e que foi o que a salvou de um mundo regado a vícios).

Os escritores dessa geração eram verdadeiros nômades que estavam cansados da vida extremamente imposta pelo governo pós-Segunda Guerra Mundial, onde todos estavam em busca somente de uma vida pacata de trabalho maquinário e riqueza, no consumo desenfreado gerado pelo American Way of Life (“modo de vida americano”, o tão citado “sonho americano” que parece uma perfeição escondida por uma vida vazia de aparências).

“Estou entediado com a minha vida e quero começar uma revolução.”

Kerouac, Ginsberg e outros amigos do subúrbio da suja Nova York iam à contramão, levando uma vida boêmia, nômade, jogados na estrada e deixando a vida lhes mostrar o que havia de melhor no mundo. Eles estavam em busca da vida intensa, da liberdade da estrada, da liberdade de sentimentos, da liberdade de expressão – uma vida em que ser homossexual não era considerado crime, em que apreciar intensamente o suor do sexo, das bebidas e da escrita enlouquecida por suas vidas geravam histórias autobiográficas completamente insanas e que pareciam não ter fim. Era o início de uma nova era – a era que, anos depois, seria o pai do hippie.

Na época, os escritores mais aclamados eram Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald (autor do livro “O Grande Gatsby”, que foi readaptado pelos cinemas em 2012 e contou com Young And Beautiful, da Lana, na trilha sonora, lembram?). Ambos ainda são uns dos maiores escritores de todos os tempos, mas o que eles escreviam era algo impessoal, histórias inventadas sobre personagens que pareciam ter medo da verdadeira vida. O Beat veio para quebrar isso.

E era o fim da pobreza espiritual.

A palavra “beat” significa “batida”, mas no inglês também possuía a conotação de “cansado” e, quando colocado na frase “beat it”, significava “cai fora”. Entretanto, o senhor desse novo sentido foi Jack Kerouac, que acrescentou à palavra os significados de “upbeat” (otimista, movimentado) e “beatific” (beatífico, um sinônimo de algo feliz, lindo, iluminado pela vida insana) – mas a verdadeira significação para Kerouac era do “beat” de “na batida”, associado à batida da música, à batida do jazz que regava os uísques, as cervejas, as conversas infinitas e intelectuais de mentes que não param e pensam e pensam sem parar nas noites ensandecidas do escrever e do viver.

“I’m talking about my generation, talking about that newer nation and if you don’t like it you can beat it, beat it, baby.” (Eu estou falando sobre a minha geração, falando sobre essa mais nova nação e se você não gosta disso você pode cair fora, cair fora, amor.) Brooklyn Baby, Lana Del Rey.

Mas a batida cresceu e ganhou uma acepção ainda maior, a batida se relacionava ao modo que esses escritores escreviam, o modo sem parar, que não pensavam em pontos e vírgulas e escreviam e escreviam verdadeiras verborragias de palavras e sentidos que não tinham fim. Era uma verdadeira poesia em prosa, as palavras tinham batida, tinham ritmo, tinham o mesmo movimento que o jazz tinha – as palavras não eram musicadas, mas continham música. Quando lidas em um fôlego só, elas eram absorvidas pelo leitor e parecia que ele estava dentro de uma mente translúcida de desejos e sentimentos que tinham ritmo. Era o ritmo das palavras, a batida que cada som de cada letra que, quando unidas, pareciam ter uma batida só.

E isso ainda continua, basta se perder na boa e velha escrita da geração Beat.

“Algum dia a humanidade compreenderá que, na verdade, estamos em contato com os mortos e com o outro mundo, seja ele qual for; nesse exato instante, se apenas exercitássemos nossa força mental o suficiente, poderíamos prever o que vai acontecer nos próximos cem anos e seríamos capazes de agir para evitar todas as espécies de catástrofes. Quando um homem morre, seu cérebro passa por uma mutação sobre a qual não sabemos nada agora, mas que será bastante clara algum dia, se os cientistas se ligarem nisso. Só que por enquanto esses filhos da puta estão interessados unicamente em ver se conseguem explodir o planeta.” On The Road, Jack Kerouac.

O livro “On The Road” (Pé Na Estrada) foi escrito em duas semanas e meia com um Kerouac movido a benzedrina narrando a sua jornada de sete anos na estrada ao lado de Neal Cassady – seu nome no livro sendo Dean Moriarty e do de Jack, Sal Paradise – e as duas esposas desse amigo insano que hipnotizava Kerouac com suas longas conversas intelectuais e uma vida sem tempo para dormir, apenas transando loucamente com uma mulher à tarde, outra à noite e então voltava para sua Marylou de madrugada até a manhã, seguindo Kerouac para que ele lhe ensinasse a ser um escritor. Um livro completamente extasiante e que, quando se começa, não quer nunca mais parar a não ser que seja para pegar a primeira carona rumo à Rota 66 para também atravessar os EUA sem qualquer tostão no bolso.

E esse livro é considerado em todo mundo como a “Bíblia Hippie”.

E enquanto Jack foi o escritor, Allen Ginsberg foi o poeta, o maior ícone de Lana Del Rey e que ela cita ter sido sua libertação.

“Eu devo esta paixão pelas palavras ao meu melhor amigo Gene, meu professor de inglês na época. Ele me apresentou, aos 15 anos, os livros de Jack Kerouac, Allen Ginsberg… De repente, eu não tive mais a impressão de estar sozinha, perdida em meus sonhos. Finalmente eu sabia que havia pessoas como eu, um pouco bizarras, meio fora do padrão. Fui verdadeiramente salva por esses poetas, eles abriram uma imensa janela para mim e me tranquilizaram sobre minha saúde mental. Em Lake Placid não havia muitas pessoas com quem eu pudesse compartilhar meu mundo: os livros se tornaram meus amigos íntimos. Eles me falavam de Nova Iorque, de pessoas de quem me tornei íntima. Percebi isso quando estudei filosofia, cercada de pessoas que não tinham vergonha de fazer perguntas do tipo ‘Por que nós existimos?’ ao invés de ‘Como estará o tempo amanhã?’.” Lana Del Rey para a revista francesa Les Inrockuptibles, em 2012.

Kerouac e Ginsberg não escreviam para se tornarem famosos, eles escreviam porque queriam. Eles só queriam tomar velocidade e ficar a noite toda conversando sobre tudo e nada porque achavam agradável.” Del Rey para a revista também francesa L’Officiel, em 2013.

            Allen Ginsberg, no entanto, era O poeta e talvez tenha gerado um pouco mais de polêmica do que Kerouac quando lançou “On The Road” e deixou a sociedade certinha horrorizada. Ginsberg escreveu o poema “Howl” (Uivo) que foi uma verdadeira autobiografia endereçada ao seu amigo também Beat, Carl Solomon – o uivo do desespero, o uivo do socorro, o uivo do homem enjaulado que se libertou para um mundo livre de medos e livre de arrependimentos com a vida boêmia hedonista que seus outros companheiros, como Kerouac, Cassady, William Burroughs, Gregory Corso e tantos outros, levavam.

E por que gerou tanta polêmica? Por ele não ter tido medo ao admitir em seus versos biográficos de que era homossexual, de usar palavrões e se expressar tão abertamente. Pra se ter uma pequena ideia, ele chegou a ser processado por seu primeiro livro “Uivo e Outros Poemas”, sendo levado à justiça inúmeras vezes por seus temas tão visionários e livres de medo ou preconceito.

“Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura, esfomeadas, histéricas, nuas,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,

hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

que pobres, esfarrapados de olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,

que despiram seus cérebros ao Céu sob El e viram os anjos de Maomé cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,

que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos de guerra,

que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,

que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o Terror através da parede,

que foram apanhados pelas suas púbicas barbas no regresso por Laredo com um cinto de marijuana para Nova Iorque,

que comeram fogo em hotéis pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus troncos noite após noite

com sonhos, com drogas, com pesadelos vividos, álcool e caralho e colhões sem fim,” Howl, Allen Ginsgerg.

Alguém, por acaso, reconheceu esse poema de Ginsberg de algum lugar? Ele é exatamente o mesmo poema que Lana Del Rey utilizou para narrar a segunda metade de seu curta-metragem, TROPICO, lançado em dezembro de 2013. Um poema absolutamente lindo e divertido e doloroso e cheio de uivos reais por um pedido por alguma coisa. Um uivo por liberdade.

“que morderam detetives no pescoço e guincharam com prazer nos carros de polícia por terem cometido crime algum para além da sua própria pederastia selvagem e intoxicação,

que uivaram ajoelhados no metrô e foram arrastados para fora do telhado agitando genitais e manuscritos,

que se deixaram enrabar por virtuosos motociclistas, e gritaram com prazer,

que chuparam e foram chupados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor do Atlântico e Caribenho,

que ejacularam pela manhã pelo entardecer em roseirais e gramados de parques públicos e cemitérios espalhando livremente o seu sêmen a qualquer um que viesse,

que soluçaram sem parar tentando rir mas acabando com um suspiro atrás de uma divisão num Banho Turco quando o louro & nu anjo surgia para os penetrar com uma espada,

que perderam os seus amantes para as três velhas víboras do destino, a víbora de um só olho do dólar heterossexual, a víbora de um só olho que pisca fora do ventre e a víbora de um só olho que nada faz, mas que se senta sobre o seu rabo e cortaram os dourados fios intelectuais do tear do artesão,

que copularam absortos e insaciáveis com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de tabaco, uma vela e caíram da cama, e continuaram pelo chão e através do corredor e acabaram desfalecidos na parede com a visão da última cona e vinham iludindo o último lampejo da consciência,” Howl, Allen Ginsberg.

Sentiram um pouquinho do por que a sociedade daquela época ficou tão chocada? Até nossa ignorante sociedade atual esconde esses magnânimos escritores por ainda os acharem polêmicos e ignoram essa quantidade de vida, essa quantidade de experiência, essa quantidade de sentimentos e altivez e mistério e vida infinita que os Beats carregaram e continuam carregando para as influências atuais.

E falando em influências… Uma das grandes influências de, não somente Allen Ginsberg, como também Jack Kerouac foi ninguém mais ninguém menos que Walt Whitman, um poeta anterior à geração Beat, mas que nós também já ouvimos falar.

Whitman é o autor de “Eu Canto o Corpo Elétrico”, o poema que influenciou Lana Del Rey a compor a música Body Electric, a qual canta no refrão “I sing the body electric, I sing the body electric, baby” (eu canto o corpo elétrico, eu canto o corpo elétrico, amor) e em seguida canta “Whitman is my daddy, Monaco’s my mother, diamonds are my bestest friend” (Whitman é meu paizinho, Mônaco é minha mãe, diamantes são os meus melhores amigos). E exatamente por isso que ela utilizou esse mesmo poema de Whitman para recitar na primeira-metade do curta TROPICO, logo depois de cantar a música Body Electric e ser expulsa do Jardim do Éden, na história.

“Eu canto o corpo elétrico

Os exércitos daqueles que amo me envolvem e são por mim envolvidos,

Eles não me deixarão em paz até que eu os atenda ou os responda

E descarregue-os e carregue-os por completo com a carga da alma.

A feminilidade e tudo o que é da mulher — e o homem que provém da mulher,

O ventre, os seios, os mamilos, o leite materno, as lágrimas, os sorrisos, o pranto, olhares amorosos, perturbações do amor e excitações,

A voz, a dicção, a linguagem, o murmúrio, os gritos altos,

Comida, bebida, pulso, digestão, suor, sono, passeios, natação,

O equilíbrio dos quadris, os saltos, as flexões, os braços que se curvam para abraçar as pernas,

As modificações contínuas dos movimentos da boca e em torno dos olhos,

A pele, o bronzeado que o sol lhe causa, as sardas, o cabelo,

A curiosa sensação que se tem quando se apalpa a carne desnuda de um corpo,

Os círculos recorrentes da respiração, aspirando e expirando,

A beleza da cintura, e logo dos quadris, e ainda para baixo em direção aos joelhos,

Os pequenos glóbulos vermelhos dentro de ti ou de mim — os ossos e a medula dentro deles,

A fantástica conscientização da saúde;

Oh, eu digo que estas não são partes e poemas do corpo apenas, mas também da alma,

Oh, eu digo agora, essas são da alma!”Eu Canto o Corpo Elétrico, Walt Whitman.

Cativante, profundo e inspirador. E por isso Whitman é considerado também como um dos maiores poetas de todos os tempos, por abranger temas tão íntimos, embora de uma forma que soa geral e tão extensa. O influenciador de Lana e o influenciador dos escritores da geração Beat principalmente por seu poema “The Song of The Open Road” (A Canção da Estrada Aberta), um dos pontos de partida que ligaram o interruptor para a grande geração que abalou os Estados Unidos da América e toda a história de sua literatura.

A pé e de coração leve eu pego a estrada aberta

Saudável, livre, o mundo diante de mim,

A longa trilha diante de mim conduzindo-me

aonde quer que eu escolha.”The Song of The Open Road, Walt Whitman.

Dá pra sentir a pegada Beat apenas nessa primeira estrofe. O desejo por uma vida realmente vivida, sem pensar em coisas supérfluas e sem temer o futuro preso a uma rotina estabelecida pela sociedade. Apenas um desejo pela vida, a vida que os Beats tornaram real. E com o seguinte trecho da estrofe final desse poema de Whitman, pode-se perceber avidamente a influência transferida à segunda parte de “Uivo”, do Ginsberg.

“Vocês, calçadas lajeadas das cidades! Vocês, robustos meio-fios

nas beiras!

Vocês, barcas! Vocês, pranchas e postes do cais! Você, lado delineado

de madeira! Vocês, navios distantes!

Vocês, fileiras de casas! Vocês, fachadas recortadas por janelas!

Vocês, telhados!

Vocês, varandas e entradas! Vocês, beirais e grades!

Vocês, janelas, cujas conchas transparentes deveriam expor muito!

Vocês, portas e altas escadarias! Vocês, arcadas!

Vocês, pedras cinzentas de pavimentos intermináveis! Vocês,

cruzamentos tão pisados!

De tudo que tem tocado vocês eu acredito que vocês tem comunicado a

Vocês mesmos, e agora comunicariam o mesmo secretamente para mim,

De vivos e de mortos vocês povoaram suas superfícies impassíveis,

E os espíritos destes e daqueles serão evidentes e amistosos comigo.”The Song of The Open Road, Walt Whitman.

“Que esfinge de cimento e alumínio arrombou os seus crânios e comeu seus cérebros e imaginação?

Moloch! Solidão! Imundice! Fealdade! Caixotes de lixo e dólares inobtíveis! Crianças gritando sob as escadarias! Rapazes soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!

Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o sem amor! Moloch mental! Moloch o duro juiz dos homens!

Moloch a incompreensível prisão! Moloch a cadeia sem alma de ossos cruzados e Congresso de lamentos! Moloch cujos edifícios são julgamentos! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos admirados!

Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro a correr! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é uma sepultura fumegante!”Howl, Allen Ginsberg.

Chega a ser mágica tantas referências. “Moloch”, portanto, refere-se a um deus de uma etnia de Canaã, os amonitas, que sacrificavam recém-nascidos ao jogá-los na fogueira. Um demônio que, pelas ordens de Deus ao povo hebreu, era proibido de ser adorado; usado no poema por Ginsberg como uma crítica à sociedade capitalista, que é adorada erroneamente por um povo que vê no mal, um bem – aproximando Moloch do Capitalismo, ambos o demônio.

Assim, a geração Beat transporta influências de todo o lugar. Influências de Whitman, influências comunistas, budistas e cristãs. Ginsberg, inclusive, observou os versículos da Bíblia como cada linha possuindo uma identidade rítmica própria, que cada frase é única e cada uma delas deve ser lida num único fôlego.

“De Maneira ideal cada linha de ‘Uivo’ é uma unidade de respiração única. A minha respiração é longa – isto é, a medida é uma inspiração física e mental do pensamento contido no estiramento de uma respiração”. Allen Ginsberg em entrevista.

E a geração Beat tem como seus maiores participantes o ícone Jack Kerouac (por ter escrito a Bíblia Hippie “On The Road” e ter originado esse novo termo para a palavra “beat”), o poeta Allen Ginsberg (com “Uivo e Outros Poemas”), o junkie William Burroughs (com seu livro “Almoço Nu”), o rebelde Gregory Corso (por sua obra intitulada “Bomb”) e, enfim, o editor Lawrence Ferllinghetti. Sem esse último seria praticamente impossível ter nascido a geração Beat, porque foi sua editora City Lights Books que, entre tantos “nãos”, deu o inexplicável “sim” e publicou as obras de muitos desses poetas, principalmente o livro de Ginsberg.

Ferllinghetti, aliás, é o dono daquela voz que fala no início da primeira versão da música Blue Jeans, com seu poema “Loud Prayer” (Oração de Vigor), uma sátira ao “Pai Nosso”.

“Pai nosso, com que arte estais no céu,

sacrificado seja o vosso nome

a não ser que as coisas mudem

Venha e se vá o falso reino

seja desfeita a vossa vontade

assim na terra, como não é o céu

O pão nosso de cada dia nos dai hoje

pelo menos três vezes ao dia

e perdoai as nossas ofensas,

assim como nós perdoaríamos aqueles sedutores

a quem desejamos que nos tivessem ofendido

E não nos deixeis cair em tentação

tantas vezes numa semana

mas livrai-nos do mal

cuja presença permanece inexplicada

no vosso reino de poder e glória

oh mem!”Loud Prayer, Lawrence Ferllinghetti.

“Guerrear por paz é como transar pela virgindade”

 

Mas a Geração Beat não ficou por aí, ela influenciou nomes que são considerados os maiores, principalmente da música. John Lennon se inspirou na palavra “beat” para o nome de sua banda The Beatles, que seria como “quem faz o Beat”, “os propagadores do Beat”; Bob Dylan disse certa vez que o livro “On The Road” mudou sua vida, enquanto Jim Morrison é um Beat assumido fora de seu tempo; e Francis Coppola disse que se ele não tivesse lido a obra de Jack Kerouac, ele com certeza não seria a mesma pessoa.

Foi a Geração Beat que influenciou e fez surgir a cultura hippie, foi a Geração Beat que deu início à contracultura norte-americana (os ideias que iam à contramão da cultura consumista e vazia dos EUA), foi a Geração Beat que potencializou Woodstock em 1969, foi a Geração Beat que serviu de influência à rebeldia da banda Ramones que influenciaria os Sex Pistols, formando a cultura punk, e foi a Geração Beat que deu um basta nos preconceitos e nos parâmetros de certo e errado.

Atualmente ainda podemos ver o mundo Beat nos filmes Clube da Luta, As Vantagens de Ser Invisível, Na Natureza Selvagem e tantos outros. E falando em filmes, os próprios escritores da geração Beat já foram levados ao cinema.

Em 2012, o filme On The Road foi lançado na direção de Walter Salles (brasileiro que também já dirigiu o filme Diários de Motocicleta, contando a história do jovem médico e humanitário Che Guevara), tendo no papel de Kerouac o ator Sam Riley, além de Garrett Hedlund, Kristen Stewart e Kirsten Dunst no elenco principal. E em 2010, o filme Howl também ganhou adaptação, com James Franco (sim, ele mesmo!) no papel de ninguém mais ninguém menos que Allen Ginsberg.

“Eu ainda amo o modo que eu me senti na primeira vez que descobri Allen Ginsberg e o quanto ele retratou com suas palavras. E ele foi influenciado pelo submundo americano, mas agora, melhor do que ser influenciado pela minha paixão pelo país, eu apenas me sinto bem quando ouço Jim Morrison. Eu me sinto bem quando eu volto e leio alguns poetas da geração Beat. Mas pelo contrário, eu não me sinto tipo, ‘Rah, rah, América!’ Foda-se essa merda [rindo].” Lana Del Rey em entrevista para a Electronic Beats, em 2013.

Influências que atravessam o mundo e com certeza ganham nossos corações. As dicas estão dadas – e, como uma escritora que escreve essa coluna, aprecio a geração Beat de uma forma tão intensa que mal consigo pôr em palavras.

Então temos a geração Beat como uma paixão para a vida, e que aprendemos com ela da mesma forma que tantas outras pessoas já aprenderam. Sem vida supérflua, sem espírito vazio, sem pensamentos apenas formulado pelas verdades e as exatidões. A vida é muito mais do que isso – a vida é curtir, aproveitar e amar cada uma de nossas escolhas e insanidades. Beber, sair, conversar, conhecer pessoas, conhecer almas, nos deixar ser levados por mentes brilhantes e falas monumentais de experiências vividas e experiências a serem vividas. Que a vida não fique somente no “eu queria”, e sim que ela vá além do “eu quero” e “eu vou”. Vamos viver um pouco como os Beats, vamos pôr em prática uma vida cheia de verdades e coisas tão lindas, puras, sujas e suadas que eles escreveram tão intensamente.

Vamos viver.

Aliás, ainda está no monólogo de Ride, escrito por Lana Del Rey: “vida rápido, morra jovem, seja selvagem e divirta-se”.

“Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!

O mundo é santo! A alma é santa! A pele é santa! O nariz é santo! A língua e o caralho e a mão e o buraco do cu são santos!

Tudo é santo! toda a gente é santa! todo o lado é santo! todo o dia está na eternidade! Todo o homem é um anjo! […]

A máquina de escrever é santa, o poema é santo, a voz é santa, os ouvintes são santos, o êxtase é santo!

Santo Pedro, santo Allen, santo Solomon, santo Lucien, santo Kerouac, santo Huncke santo, Burroughs, santo Cassady, santo o desconhecido cansado e o pedinte sofredor, santos os repugnantes anjos humanos!

Santa minha mãe no asilo insane! Santos os caralhos dos antepassados do Kansas!

Santo o saxofone que geme! Santo o apocalipse bop! Santos as bandas de jazz gementes, marijuana, hipsters, paz, peyote, cachimbos & tambores! […]

Santo o solitário destruidor! Santo o vasto cordeiro da classe média! Santos os pastores loucos da rebelião! Quem sabe Los Angeles SÃO Os Anjos!

Santa Nova Iorque, Santa São Francisco, Santa Peoria & Seattle, Santa Paris, Santa Tanger, Santa Moscou, Santa Istambul! […]

Santo o mar, santo o deserto, santo o caminho de ferro, santa a locomotiva, santas as visões, santas as alucinações, santos os milagres, santo o globo ocular, santo o abismo!

Santo o perdão! misericórdia! caridade! fé! Santo! Os nossos! corpos! sofrendo! Magnanimidade!

Santa a sobrenatural extrabrilhante inteligente meiguice da alma!”

Nota de rodapé de Howl, Allen Ginsberg.

“Somos todos girassóis dourados por dentro.” – Allen Ginsberg

Escrito por Raphaella Paiva

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
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