‘Para mim, ganhar dinheiro nunca foi prioridade’, leia a entrevista concedida à revista WISH

por / sexta-feira, 08 agosto 2014 / Publicado emEntrevistas

Wish

 

O Lana Portugal transcreveu a entrevista que Lana concedeu à revista WISH e foi publicada na edição de Portugal no dia 8 deste mês. Confiram abaixo:

Lana fala da mesma maneira que canta. Com ritmo pausado, tom lânguido e com uma aura de mistério. Ela acompanha a sua fala com o lento borboletear dos cílios postiços que coroam os seus olhos, de uma cor entre verde e cinza realmente perturbadora. Por trás deles, está Elizabeth Grant, o seu verdadeiro nome e o seu verdadeiro “eu”. Ela mudou de identidade aos 21 anos. Depois de sofrer um fracasso com o seu primeiro álbum – assinado com o seu nome real – ela apagou tudo e recomeçou do zero: eliminou os seus rastos na internet e se rebatizou como Lana Del Rey. Parece que o pseudónimo deu-lhe sorte (e talvez o também o seu visual renovado, um híbrido entre pin-up e cowgirl), porque desde então permanece no pódio das rainhas musicais. A sua segunda vida decolou em 2012 com Born To Die, um disco que vendeu mais de um milhão de cópias. Ele nasceu acompanhado pela polêmica que ainda pesa sobre esta americana de 28 anos, acusada de ser pouco autêntica, fazer marketing demais e até mesmo antifeminista. Também não ajudam as gafes que de vez em quando ela deixa escapar. “Queria estar morta” é uma das pérolas pronunciadas pelos seus lábios volumosos, que com certeza encarnam perfeitamente a vertigem com que Lana enfrenta a sua vida. Uma vertigem que também está presente no palco, onde normalmente sobe descalça “para ficar mais baixa e evitar o enjoo”. Embora a sua utilidade seja questionável, este e qualquer e outro truque são válidos para decorar a apresentação do seu novo álbum: Ultraviolence, que só na primeira semana de lançamento teve 182.000 cópias vendidas. Quatorze temas marcados pela indecisão, poder, admiração pelos ícones americanos e autodestruição: a marca da sua música e da sua personalidade.

Verónica Zumalacárregui: Em 2012 você disse que não lançaria mais álbuns porque já tinha dito tudo o que tinha a dizer. Então, por que Ultraviolence?
Lana Del Rey:
Depois de Born To Die, os jornalistas perguntaram-me se eu ousaria lançar outro disco, já que havia muita gente que não gostou da minha música. Eu disse que não sabia porque me senti um pouco agredida; havia críticas e fofocas demais. Além disso, eu nunca faço nada que não queira fazer e, afinal de contas, já estava contente com o Born To Die, que me encantava. Mas saí em tour durante anos, primeiramente na Europa e depois nos Estados Unidos e, de repente senti-me pronta para fazer outro álbum.

VZ: Um disco novo no qual você trocou o toque hip-hop do seu pop por um pouco de rock, inclusive de jazz. 
LDR:
Certo. 

VZ: Você precisava se reinventar? 
LANA:
Bom, eu sou fã de muitos gêneros musicais diferentes. Born To Die no começo era mais rock, mas o meu produtor que veio do hip-hop dos anos 90 e que tinha trabalhado com o Eminem e com o Kid Cudi, deixou-o mais renovado e de rua. Quando gravei Ultraviolence, ele estava fora da cidade e eu deixei o disco exatamente como ele tinha sido feito: com o meu estilo pessoal, com influência do rock clássico e do jazz. Para ser sincera, o meu coração é mais voltado para o jazz. É disso que eu realmente gosto.

VZ: Várias de suas novas músicas foram vazadas antes do lançamento. O que acontece com Lana Del Rey e os computadores?
LDR:
Tenho uma relação muito ruim com os computadores. Sou azarada. Com tudo. Com tudo, de verdade. Cada vez que tento controlar o que acontece na minha vida, algo explode. E neste caso o que aconteceu foi que quando eu estava num hotel, alguém acessou o meu disco rígido remotamente, fora do hotel, e copiou tudo o que havia nele. 

VZ: É normal que você se sinta mal, mas isso pode ser visto como alguém que te admira tanto que não pode esperar para ouvir as suas canções.
LDR:
Sim, mas na verdade isso me preocupa. Sou muito reservada e fico muito nervosa ao saber que há pessoas que têm os meus arquivos, as minhas informações médicas e até mesmo dados sobre a minha família. Um dia ligaram para o meu avó, que tinha demência (alzheimer), e depois apareceram na casa dele e perguntaram por mim. Parece que quanto mais eu tento manter algo em segredo, mais público isso se torna.

VZ: Já que mencionou a sua família, quantas vezes por dia você manda whatsapps para eles quando está numa tour? 
LDR:
(Risos) Eu deveria usar o WhatsApp, mas eu só mando SMS. Vou à falência com as mensagens. Falo muito ao telefone com meu pai e com minha mãe, provavelmente a cada dois dias. E também com os meus irmãos.

VZ: Você comentou antes que tudo aquilo você toca fica complicado. Como é que isso afetou a sua música? 
LDR:
Boa pergunta. O certo é que o estilo deste álbum foi marcado pelo tumulto que ultimamente tem acontecido. Não que seja um disco triste, mas sim mais intenso. Porque na minha vida tudo aquilo que teoricamente deve ser doce e bonito acaba arruinado por um aspeto do meu mundo particular que chega e perturba. É agridoce… (silêncio). Quando escrevi Ultraviolence todo mundo queria que fosse maior e melhor e a única coisa que eu queria é que fosse mais pessoal, mais amplo e expansivo. Estou tentando colocar ordem na minha vida através da minha música e dos meus shows. É mais psicológico que pop. 

VZ: Você usa a música como terapia? 
LDR:
De certo modo sim, porque a música me faz feliz. Quando gravei com Dan Auerbach (guitarrista do The Black Keys e produtor do seu disco), tudo estava perfeito. Saíamos por aí, gravamos canções de jazz simplesmente por prazer, como The Other Woman, de Nina Simone… E isso é como uma terapia porque quando se está na intimidade ninguém pode te criticar. É depois, quando o que você gravou é publicado e a imprensa diz coisas horríveis de você, é quando a parte ruim chega. 

VZ: Dizem que você encarna o protótipo da mulher capitalista, que se destaca mais que os homens, que tem êxito e, apesar disso, não está totalmente satisfeita. Você se identifica com esta definição? 
LDR:
Se não estou satisfeita é porque as minhas circunstâncias escapam do meu controle, a minha vida pessoal tem sido muito turbulenta. Mas quanto à minha carreira, fico contente quando escrevo algo que eu goste. Para mim, ganhar dinheiro nunca foi prioridade, porque na realidade eu não o gasto comigo, então não preciso dele. A minha ideologia é que a arte só deveria ser feita por amor à arte, e não tem nada a ver com os negócios. A minha gravadora sabia que Ultraviolence seria mais jazzístico, mais da costa oeste, mais…

VZ: Menos comercial?
LDR:
Sim, e eles estavam totalmente de acordo com isso. Eles respeitam a minha abordagem e eu deixei que eles fizessem a sua parte. Quando é necessário tratar de questões de marketing eu fico à margem porque não contribuo com nada, não tenho nada a ver com isso.

VZ: Você cantou no noivado de Kanye West e Kim Kardashian, e agora George Clooney quer contratá-la para cantar no dele… 
LDR:
É mesmo? Eu não sabia disso!

VZ: Foi publicado em vários veículos. Se ele pedir você o fará? 
LDR:
Claro! Fico muito feliz por ele, a sua mulher é preciosa. E foi tão bom no casamento de Kanye e Kim que repetiria a dose. Conheci Kanye um ano antes e ele disse-me que quando ouviu minha música ‘Young & Beautiful’ (incluinda na trilha sonora de “O Grande Gatsby”) percebeu que a canção simboliza o que ele sente por Kim, porque sabe que sempre vai amá-la, porque ela é o seu verdadeiro amor. E isso me tocou. 

VZ: Você disse uma vez que viveu muitas vidas e foi muitas pessoas diferentes. Lana Del Rey, a cantora, é só mais uma destas identidades, que vai acabar dando lugar a outra? 
LDR:
Boa pergunta. Não, sou eu mesma Vivi vidas diferentes porque morei em cidades e países diferentes, mas durante os últimos dez anos a minha autenticidade e a minha personalidade não mudaram nada. O que acontece é que quando eu estou preocupada preciso fazer algo que está fora da minha zona de conforto para me sentir viva outra vez. Não é tanto para me tornar uma pessoa diferente, mas ter novas experiências. Quando embarco em coisas diferentes das que faço normalmente, me sinto mais ‘eu mesma’ do que nunca.

VZ: O que você gosta é de adrenalina. 
LDR:
Exato, sou viciada em adrenalina. (Risadas). E isso é complicado, porque faz com que a sua vida pessoal seja inconsistente e caótica. É o que acontece comigo no momento, cada dia é imprevisível. Um dia uma música minha é vazada, no outro, todo mundo sabe a minha vida pessoal… É duro e suponho que, no fundo, a causa disso sou eu. 

VZ: Te deram o papel de Annie quando você tinha três anos, as suas letras continuamente mencionam Marilyn Monroe, e agora você grava um curta, Trópico. É um pedido para conseguir um papel como atriz? 
LANA:
(Risos). Não, mas se me oferecerem algo, aceitaria. Consentiria mais facilmente se fosse um filme alternativo. Algo liberal e diferente. Eu gostaria de trabalhar com um diretor que fosse muito artístico.

VZ: E porque é que o cinema está tão presente nas letras das suas canções?
LDR:
Sempre tive uma inclinação pela arte, seja cinema, literatura ou poesia. As pessoas do meu ambiente não queriam transformar a sua vida em algo artístico, mas eu pelo contrário sempre tive uma veia artística, fazendo vídeos, cantando em países diferentes… Os filmes são sonhos e sou uma grande sonhadora. Identifico-me com esse desejo de criar uma realidade alternativa.

ESTILO DE VIDA – LANA DEL REY

– Carro perfeito para liberar adrenalina
LANA: Um Jaguar, e sair estrada afora!

– Sua marca de roupa favorita
LANA: Sou uma grande fã dos desenhos de Ralph Lauren.

– Seu destino de férias predileto
LANA: Eu adoro relaxar no Sul de França.

– Seu capricho mais caro.
LANA: Os Diamantes!

– O Gadget sem o qual você não pode viver
LANA: O meu smartphone, sou viciada!

– Uma obra de arte para colocar na sua sala de estar
LANA: O retrato que Mr.Brainwash fez de mim.

– Seu café da manhã de domingo
LANA: Waffles belgas com morangos e cinco cafés.

– O esporte para ficar em forma
LANA: A natação, porque deixa o corpo forte e musculoso.

– A moto ideal para levar alguém
LANA: Não tenho dúvidas, uma Harley Davidson.

– Uma tática para livrar-se do stress
LANA: Vestir uma legging, um tênis e sair para correr.

 

Texto por Verónica Zumalacárregui
Transcrição por Nuno Costa/Lana Portugal
Revisão por Mateus Santana

Redação LDRA
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