‘Ninguém sabe, mas eu adoro dançar’ – Lana Del Rey fala sobre sua vida, indústria musical e ídolos em entrevista para BH Magazino

por / terça-feira, 05 agosto 2014 / Publicado emEntrevistas

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O novo álbum de Lana Del Rey, ‘Ultraviolence’, confirma o seu talento na composição melancólica pop orquestral, sem cair na armadilha da mídia e otimistas de músicas que combinam com o som que está na moda (como foi feito na estréia) e sem letras com ela dizendo que sua vagina tem gosto de Pepsi-Cola, fato que preocupou sua mãe – embora seu pai tenha achado engraçado. Com Dan Auerbach, guitarrista do The Black Keys, na posição de produtor, o novo disco traz uma atmosfera encantadora, sem perder tempo e intensidade. O BH Magazino esteve entrevistando Lana Del Rey e obteve umas respostas interessantes. Confira tradução abaixo:

BH Magazino: Suas músicas parecem colocar constantemente a melancolia em um ambiente de opulência. Esta é a sua intenção ou isso acidentalmente acontece?
Lana Del Rey: Eu sinto que eu faço canções felizes, mas quando as outras pessoas ouvem, dizem que soa triste. Eu não posso fugir da minha vida, que tem sido turbulenta. Três anos após o meu primeiro álbum, ainda estou atormentada pela dúvida e tristeza. Diante de mim só há incerteza e uma sensação de vazio. E, eu não gosto de não saber para onde estou indo. Minha vida amorosa e familiar é tão frágil – Eu não tenho certeza de nada.

BHM: O Ultraviolence dá a impressão de que poderia ter sido escrito na década de 60 em Laurel Canyon, o bairro que Los Angeles, que criou uma comunidade informal de artistas como Frank Zappa e Jim Morrison.
LDR: Sim, eu amo muito essa época, especialmente o Johnny Mitchell, que minha mãe adorava. Enquanto vivia em Nova York está à procura de um sentido de comunidade, bem como o que foi feito com Jeff Buckley na década de 90 ou Bob Dylan nos anos 60. Mas eu nunca encontrei a minha gang, a minha família.Uma vez, eu cheguei em Los Angeles eu conheci pessoas com as quais eu poderia tocar, conversar, todos aqueles que têm uma maneira reavivar a Laurel Canyon, como o Father John Misty e Jonathan Wilson, com quem eu comecei a escrever o álbum. Tudo o que eu estava procurando, em Nova York, eu encontrei na Costa Oeste. Eu estava sempre dirigindo meu velho Mercedes de uma casa para outra, eu me senti como se estivesse no colégio novamente. A cada sete anos, o centro de gravidade da indústria da música muda-se de uma costa para a outra. Hoje em dia, é, definitivamente, na Costa Oeste.

BHM: O que os seus fãs nem imaginam sobre a sua vida? 
LDR: Ninguém sabe, mas eu adoro dançar. Enquanto estávamos gravando em Nashville,  quando finalizamos, ouvimos tudo que tínhamos feito novamente e nós dançamos como loucos. Chamamos umas pessoas que conhecemos em uma loja próxima e nossos amigos, como Juliette Lewis ou Harmony Corrine. Eu nunca tinha trabalhado dessa formam. Foi a primeira vez que eu estava com tantas pessoas criativas no mesmo estúdio. Eu aprendi muito. Agora eu posso me isolar, para experimentar, sem esforço, mesmo com muitas pessoas no estúdio. Há um vasto universo em minha mente onde eu vou encontrar abrigo.  Eu posso não ter muita sorte na minha vida diária, mas em relação ao trabalho, eu sou abençoada. No estúdio, eu estou sempre rodeado de pessoas boas. Lá, meu humor é sempre bom.

BHM: Você passou por muita coisa até lançar o seu primeiro  álbum. Quando você soube que deveria insistir?
LDR: Durante a gravação de ‘Born to Die’. Eu nunca vou esquecer da visita do meu pai. Ele ficou surpreso quando me viu tão confiante e determinada, pedindo um acorde ao meu produtor. Ele não tinha ideia do que estava fazendo por seis anos, enquanto eu construía pacientemente meu pequeno mundo. Meus pais nem sabiam que eu estava fazendo música. Mas quando meu pai me viu no estúdio, ele me disse que foi um dos dias mais felizes da sua vida. Ele ficou chocado, ele percebeu que a música era a minha paixão. Minha família insistiu para eu não deixar os estudos para a música, e eu terminei meus estudos em Filosofia, porque eu sabia que eu poderia alimentar as minhas músicas. Quando eu vi que meu pai compreendia, os meus seis anos de trabalho valeram a pena.

BHM: Você acredita em talento?
LDR: Eu sinto que eu tenho um dom: fazer música. No entanto, nos últimos anos, houve longos períodos em que eu não escrevi uma única palavra que eu amava e orava para minha inspiração voltar. E, de repente, no inverno passado, uma canção como “Old Money” veio a mim como inspiração (com uma pequena ajuda de Nino Rota). Fato que aconteceu também com “Carmen”, foi composta enquanto eu caminhava. Naquela época, eu fazia longas caminhadas, era o meu ritual. Agora, eu dirijo e vou dar um  mergulho no Oceano Pacífico. E a inspiração nasce nestes rituais diários. Eu me gravo no carro, cantando em voz alta. 

BHM: Que parte de seu trabalho é um prazer, e o que é um sofrimento?
LDR: O prazer começa e termina com a gravação do álbum. Após isso, a dor começa, turnês, divulgação, coisas difíceis. Porque não importa o quanto eu tente me convencer do contrário, mal-entendidos ou idéias distorcidas sobre quem eu sou, ainda vão ser compartilhada. E eu sinto que devo defender-me, desculpe-me, e eu não preciso, minha música é boa o suficiente para não ter de fazer isso. Profundamente dentro de mim, eu prefiro ficar em silêncio.

BHM: O quão focada você é enquanto trabalha?
LDR: Eu posso enlouquecer o meu produtor, porque eu tenho uma visão muito clara para as minhas músicas e no final, quero ouvir exatamente o que eu ouço na minha cabeça. O mesmo acontece com vídeos. Eu preparo storyboards técnicos na minha mente. Você deve ter enlouquecido o (Dan) Auerbach neste ano, mas ao final do dia, um nome vai continuar na capa do álbum e este é o meu. Eu tenho que proteger.

BHM: Na canção Brooklyn Baby, você menciona o Lou Reed.
LDR: Eu estava sonhando em compartilhar a música com ele, pensando que ele iria achar a letra divertida, escrevi pensando nele. No dia em que desembarquei em Nova York para encontrá-lo, eu soube de sua morte.

BHM: Muitos dos seus ídolos morreram cedo, como: Elliott Smith, Amy Winehouse, Marilyn Monroe, Jeff Buckley …
LDR: Nós não os amamos porque eles morreram jovens, mas este parece ser o destino daqueles que eu admiro. Felizmente, tenho o exemplo de Leonard Cohen para negar isso. Eu não consigo encontrar algo romântico para quem morre jovem. Artistas são mais úteis quando estão vivos do que mortos.

BHM: Você dá a impressão de que não gosta de grandes concertos. Isso é verdade?
LDR: Estou em turnê nos Estados Unidos desde o início de abril, e é a primeira vez que faço isso e tudo está indo surpreendentemente bem. Nos últimos dois anos eu não me sinto muito bem fisicamente, sofro de úlcera gástrica, mas minha voz consegue suportar estes grandes concertos em lugares que cabem até 9.000 pessoas. Eu fumo, eu bebo muito café, como chocolate e pizza, meu estilo de vida não é o mais aconselhável para quem vive viajando a trabalho. Toquei no mesmo ano no no Coachella e Glastonbury, dois grandes e importantes festivais de música, é uma grande honra. Quando terminar com a turnê gostaria de trabalhar com o cinema, recebi algumas propostas interessantes e eu estou realmente tentada a dizer “sim”. Quando eu era pequena, eu sonhava com o festival de Cannes, glamour e tapete vermelho. Eu cantei lá em Maio, pelo terceiro ano consecutivo. Na adolescência, sonhava em viver na França, como uma poeta exilada. Eu era louca pela cultura francesa., especialmente por Serge Gainsbourg. 

Por BH Magazino

Traduzido por Mauricio Sousa

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Redação LDRA
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