‘O que me dá mais consolo e conforto é ter algo tangível para me segurar’, leia a entrevista concedida à revista irlandesa In Tallaght

por / sábado, 02 agosto 2014 / Publicado emEntrevistas

In Tallaght

No seu revolucionário álbum de 2012, “Born To Die”, ela se estabeleceu como uma estrela do pop trágica de uma era passada.

 

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Lana Del Rey é uma figura com algumas controvérsias com suas músicas sugestivas e seu talento para a publicidade. Ela recentemente causou uma grande repercussão quando deu uma entrevista para o jornal “Guardian” do Reino Unido onde dizia “eu queria já estar morta” e atraiu críticas de, entre outros, a filha de Kurt Cobain, Frances Bean.

A mídia parecia obcecada com tudo que tinha a ver com ela, exceto sua música: O supostamente desastroso inicio de carreira musical sob seu nome real, Lizzy Grant, seu suposto pai multimilionário que estava financiando sua carreira ou a apresentação fortemente ridicularizada no Saturday Night Live que a fez ser um nome comentado.

Lana cativou o mundo com seu single “Video Games”. Seu álbum Born To Die vendeu mais de 6 milhões de cópias e ela já vendeu 12 milhões de singles globalmente, incluindo seu lançamento “Young and Beautiful” feito para a trilha sonora do filme de sucesso “O Grande Gatsby”, seu enorme hit de sucesso “Summertime Sadness” e sua versão assustadora de “Once Upon A Dream”, feito para o filme da Disney, “Malévola

Seus vídeos geraram mais de um bilhão de visualizações no youtube, fazendo dela um dos artistas mais procurados do site.

Em 2012, Del Rey se mudou do Brooklyn para Los Angeles, e um ano depois começou a trabalhar no álbum posterior ao Born To Die. Lançado em Junho e produzido pelo integrante do The Black Keys, Dan Auerbach, Ultraviolence marca um distanciamento das melodias pop de Born To Die para um som mais ousado com solos pesados de guitarra e intros despojadas de piano.

Liricamente Lana permanece a mesma, com títulos como “Money, Power, Glory” and “F*cked My Way Up To The Top” referenciando explicitamente sua imagem, e tendo como alvo seus inimigos, alguns dos quais agora mudaram o tom de suas críticas.

Apesar das modestas execuções nas rádios do primeiro single “West Coast”, o álbum estreou como nº1 na lista da US Billboard, vendendo 182,000 cópias em sua primeira semana (mais que o dobro de Born To Die), um testamento para seu crescente numero de fãs e sua chegada como uma das rainhas da música popular do século 21.

Padraig Conlon: Parabéns pelo seu novo álbum Ultraviolence, é um excelente CD. Você sentiu uma pressão muito grande após o sucesso de Born To Die?
Lana Del Rey: Muito obrigada. Curiosamente, eu realmente senti menos pressão porque ao final de dois anos após o Born To Die ser lançado, eu realmente senti que eu tinha lido tudo que havia sido escrito e nunca iria ser escrito, então definitivamente isso me fez sentir mais livre para fazer o que diabos eu quisesse, porque eu sabia esperar o inesperado e por isso na verdade foi mais fácil, mas a resposta é sempre parecida, então nunca é fácil uma vez que está feito, mas o processo é sempre espontâneo, eu acho.

PC: Quando você ouve o Ultraviolence você percebe que não é tudo sobre violência. Por que você escolheu um álbum com um título tão polarizador?
LDR: Não, não é. A razão de eu ter escolhido foi porque eu amo palavras, eu amo palavras com muito impacto, então o som da palavra “ultraviolence” apenas falou comigo. Do mesmo jeito que a palavra “tropical” falou comigo quando eu estava fazendo meu pequeno filme, mesmo que não tenha uma tradução real exótica em inglês eu senti como se esta justaposição das palavras ultra e violence meio que encaixava no que eu estava passando, muitos fluxos e refluxos. Eu me sinto conectada com duas emoções – agressividade e suavidade. Eu gosto desse som luxuoso da palavra “ultra” e o som malvado da palavra “violence” juntos. Eu gosto do fato que dois mundos podem viver em um.

PC: É sobre as suas experiências de vida dos últimos dois/três anos ou antes disso?
LDR: Sim, eu diria que definitivamente nos últimos dois anos e antes disso também.

PC: É difícil acreditar que você teve quaisquer baixos nos últimos dois anos?
LDR: Bem, eu estava falando sobre isso com os meus amigos antes de eu pensar que tem sido de alguma forma tumultuoso, como todas as vezes que algo realmente doce aconteceu lá, tem também sido algo um pouco amargo, saindo das margens, algo inesperado e então apenas, você conhece muitos fluxos e refluxos, altos e baixos, mas você conhece totalmente a coisa maravilhosa que é ter um CD e amar isso.

PC: É verdade que você já havia começado a trabalhar no álbum posterior de Born To Die sozinha quando o Dan Auerbach do The Black Keys entrou em cena?
LDR: Eu estava fazendo o Ultraviolence em dezembro do ano passado no Electric Lady Studios e eu mesma o estava produzindo com um baterista, e o guitarrista do Black Keys e Dan ouviram a gravação e gostaram muito, e ele pensou que eu deveria ir a Nashville com ele e começar de novo para me aproximar dessa visão que eu tinha desse tipo de influencia da fusão da costa oeste e jazz underground, então ele meio que trouxe à vida essa ideia sonora que eu tinha.

PC: Você tinha alguma preocupação sobre o fato de que Dan Auerbach é muito conhecido por ser um produtor minimalista, o que pode ser visto como o oposto da sua música?
LDR: Acho que talvez nós fôssemos considerados um casal estranho, mas eu acho que a maior parte disso tem a ver com algum tipo de equívocos gerais sobre eu no meu fim apenas porque, você sabe, antes do Born To Die ter sido inteiramente produzido as demos eram mais enraizadas com cantor/compositor e então quando eu conheci Emile Haynie elas meio que ficaram desenvolvidas, especialmente porque ele não só adicionou as batidas, mas ele me apresentou ao Larry Gold, da Orquestra da Philadelphia. Então foram camadas e camadas e camadas adicionadas nesse tipo de última sessão, mas eu acho que tudo meio que começou de uma apreciação à música Folk, Clássica, Rock n’ Jazz e Blues. Com isso, a razão de eu ter gostado do Dan foi porque ele manteve as coisas simples e ele sabia para que eu estava lá, então para mim, ele foi sempre uma ótima opção de produtor.

PC: Com Dan como produtor, seu álbum soou mais psicodélico. Isso tem a ver com a sua influência única?
LDR: Era um tema comum que ambos gostávamos. Eu senti que Dan tinha suas raízes no Funk e Soul, mas não me cite nisso! Quer dizer, eu não sei realmente o que ele ama ouvir mas eu sei que ele prefere esse tipo de Soul Blues Funk e eu gostava mais desse jazz antigo, fácil como um sentimento de costa oeste. Eu acho que no final do dia, uma vez que nós estávamos com a banda no primeiro dia, nós dois sabíamos exatamente o que queríamos escutar, um tema que ambos gostávamos.

PC: Tem-se a impressão de que você se encontrou no Ultraviolence.
LDR: Sim, no fim do dia eu penso que quando você vem de uma experiência mais ou menos “faça você mesmo”, que quando você está escrevendo, você não se censura tanto; então quando eu estou escrevendo eu apenas tento fazer músicas que eu gostaria de ouvir quando eu estou dirigindo ou quando estou em casa. Eu amo músicas antigas com texturas ricas, talvez não com estruturadas composições.

PC: Outra importante característica distintiva do Born To Die é o fato de que não há mais batidas de Hip Hop?
LDR: Sim, isso é verdade. Quer dizer, eu amava as batidas, você sabe, eu aprecio as influências do inicio dos anos 90 e tudo que Emile trouxe para a mesa. Foi legal voltar atrás e fazer algo um pouco mais casual.

PC: É verdade que você estava no estúdio com uma nova banda?
LDR: Quando eu decidi viajar e ver Dan em Nashville, ele atraiu todos os seus bons amigos do Brooklyn, New York e de Nashville, então eram sete de nós que estávamos envolvidos e nós realmente nos demos bem.

PC: Bem, até agora o som se conecta com as músicas. E as letras? Todos querem saber, o quão autobiográficas elas são?
LDR: Eu fiz entrevistas nos últimos três meses e muitas delas focaram nas letras e eu devo dizer principalmente no lado negativo, o que foi difícil apenas porque eu nem sequer pensei sobre o que eu estava colocando para fora lá até já estar feito. Como eu não estava visível por sete anos, fiz música pra mim mesma, mas não pensando muito nisso, ou nas repercussões ou no que as pessoas diriam, os comentários, mas agora eu penso mais nisso e é autobiográfico e algumas são retrospectivas e outras são um pouco fantasiosas, algumas são insinuantes, referências, mas a maior parte é conduzida por influências ou conhecer pessoas que têm personalidades muito impactantes, que meio que me atingiram e me inspiraram liricamente, quer elas fossem breves ou de longa duração.

PC: Nós já a conhecemos um pouco na entrevista. Você é alegre, gosta de rir, você é feliz. O oposto da sua música. Você já havia notado isso?
LDR: Sim, eu pude ver isso agora. Eu estava em um lugar feliz e eu tenho uma disposição naturalmente calma, mas eu acho que emocionalmente eu tenho sido influenciada por circunstâncias alem do meu controle e elas meio que inspiraram o tom dos CDs que eu fiz nos últimos cinco anos.

PC: O que faz você se sentir feliz?
LDR: Boa pergunta. Muitas coisas, quero dizer, eu fico feliz quando as coisas não estão ruins, eu fico feliz quando as coisas estão meio que calmas. Eu amo ir para o oceano. Eu amo dirigir. Eu amo ir a shows. Ficar com pessoas que realmente me divertem. Eu amo o verão. Eu fico feliz no verão. Amo calor, clima quente. Eu fico feliz quando estou fazendo um CD, na maioria das vezes.

PC: Nas suas músicas, você lida com temas amorosos, o mundo, dinheiro, mágoa. O que te consola?
LDR: Agora eu acho que o que mais me consola e me conforta é ter algo tangível para me segurar. Algo que é certeza no meu mundo é que ele é inseguro, as coisas têm sido pesadas, sobre sentimentos que eu não tenho muita certeza, em termos, sobre o que outras pessoas pensam sobre mim. A sua própria mortalidade, tendo todas as suas experiências, mas não tendo certeza se a memória delas irá permanecer quando você se for. Se você se lembrará delas. É apenas um modo de todo o mundo se englobar que também influencia o que eu acabo de escrever e as melodias que eu escolho.

PC: Alguma vez alguma das suas músicas já a fez chorar ao vivo no palco?
LDR: Eu já chorei antes, na Irlanda. Eu estava cansada e muita coisa veio entre mim e o que eu fiz, então eu não senti como se estivesse cantando minha própria história e isso foi o que realmente foi decepcionante porque o que me dava prazer no começo era documentar minha própria história apenas para o meu próprio bem, pela diversão disso. Eu apenas não estava sentindo aquela diversão, mas eu acho que trazer novas faixas do Ultraviolence exalou uma nova vida dentro do meu cenário, eu amo cantar West Coast.

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Del Rey recentemente fez um show esgotado para um forte público de 5000 pessoas em Marquee in Cork. As faixas-título do album foram particularmente bem recebidas. No final de “Ultraviolence” ela deixou o palco e foi para o espaço em frente, dando autógrafos e posando para selfies para o que pareceu toda a primeira fila.

PC: Foi largamente retratado a dois anos atrás que você não gostava de cantar ao vivo e que você sofria de medo do palco, isso ainda afeta você?
LDR: Sim, está melhorando (risos)! Eu acho que eu estava tão nervosa no começo que eu senti que muitas pessoas observadoras estavam indo para o show apenas para ver se ele era bom ou ruim, ao invés de ir apenas para apreciá-lo. Eu não me sinto tão nervosa subindo no palco agora.

PC: Você teve muitas críticas na mídia recentemente pelos comentários que você fez em um jornal britânico. Isso te incomoda?
LDR: Sim, na America e na Grã-Bretanha eles não vêm sendo muito educados! Em partes, foi quase como se a minha história tivesse sido escrita para mim e isso foi uma estranha transição de sentir como se minha vida fosse minha e eu estava levando isso para o sentimento de que eu estava no banco de trás e apenas lá para o passeio e talvez o passeio não iria ser bom. E isso continuou a ser duro e muitas vezes eu senti como se a música não fosse escrita para ser música popular e portanto, não seria música pop. Isso veio mais de um fundo alternativo e um lugar autobiográfico como se de alguma maneira eu estava apenas planejando a minha vida através de músicas então eu poderia ver o porquê. Se as pessoas pensaram que isso seria motivacional ou popular, seria perturbante, é como se eles estivessem olhando para alguém que fosse inspirador mas não estivessem entendendo isso.

PC: Você também provocou a ira de alguns grupos feministas com a letra de Video Games. Isso te surpreendeu?
LDR: Sim, eu não entendi como isso incitou qualquer tipo de comentário feminista, porque tudo que eu estava dizendo era “Eu fico tão feliz quando chego em casa, e o paraíso é um lugar na terra com você. Eu nunca estive tão feliz” Eu não entendi por que isso soou submisso. Na verdade, eu pensei nisso quando era muito jovem, eu fui abençoada por encontrar alguém que me fazia tão feliz. E eu apenas não entendi por que amor verdadeiro não deveria ser o fim-tudo, ser-tudo. Eu tenho algo mais, entende? Mas obviamente, em outras músicas, isso segue um rumo diferente. E isso são apenas experiências diferentes, sério.

PC: Finalmente Lana, considerando todas as críticas agressivas que você recebeu na sua carreira. Você se sente restituída agora?
LDR: Eu sinto uma sensação de alívio, mas eu não me sinto restituída. Eu não sinto que as coisas têm corrido bem. Não é o caminho que eu escolhi para elas irem. Então não é como se eu sentisse que tudo a minha volta se tornou bom e isso é ótimo. Mas minhas motivações são as mesmas agora: apenas documentar o que aconteceu e tentar e me sentir bem a respeito disso.

 

Por Padraig Conlon
Traduzido por Bruna Barcelos

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Redação LDRA
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