Lana Del Rey fala sobre dificuldades em ser uma figura pública, críticas e seu relacionamento com Barrie para a Fashion Magazine canadense

por / sábado, 09 agosto 2014 / Publicado emEntrevistas

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Ultra Lana: Em um humor rebelde com seu último álbum, os modelos de romance obscuro da Lana Del Rey caem na tendência.

 

Enquanto ela se curva contra a parede revestida em hera da Casa Loma – a marca da revivência gótica mais famosa de Toronto – Lana Del Rey se parece com a pintura “Mary Magdalene in Ecstasy” de Caravaggio. Enquanto a câmera tira uma foto depois de fotografá-la acariciando as paredes do castelo durante seu photoshoot para a FASHION de setembro, a cantora/compositora de 28 anos encara melancolicamente a lente. Sua presença parece personificar a pintura italiana de técnica chiaroscuro, tanto quando a forma que suas músicas de seu recente álbum no topo da Billboard, Ultraviolence, oferecem uma ressonância de brilho escuro e contraste alto de uma vez só.

“Meu trabalho é lidar com extremos”, Del Rey diz assim que a última tomada do dia é feita e ela se recompensa ao se sentar do lado de fora, encarando a vista dos jardins da construção da Casa Loma. Com um Marlboro pendendo de sua boca, ela casualmente começa a se abrir sobre as dificuldades que ela encara como uma figura pública que é – salvas para entrevistas de mão-cheia – escolhidas para manter sua quietude e privacidade. “Eu tive tantos altos e baixos na minha vida”, ela diz antes de dar uma longa tragada. “Eu acho que eu posso ter feito as pazes com algumas coisas”, ela diz, fitando um punhado de flores silvestres secas. “Mas esperar que as pessoas entendam a mensagem de Ultraviolence é uma esperança impossível”.

Cheia de frases provocantes como “ele me bate e é como um beijo” (letras que são citadas numa canção lançada em 1962 pelos Crystals), assim como referências à traição, sexo, drogas e figuras do rock n’ roll (há uma canção que dizem ser sobre seu suposto ex, Axl Rose, chamada “Guns And Roses”), o último álbum gravado de Del Rey tem investidas de todas as maneiras possíveis: socialmente, sexualmente, politicamente e, o mais importante, pessoalmente. O álbum tem sido um redentor de classes para aqueles que ainda não tiveram o bastante de Del Rey quando foram rodeados com seu álbum de estreia muito mais pop, numa grande gravadora em 2012, Born To Die, ou seu sucessor, o jazz e cheio de influências hip-hop, Paradise. Ultraviolence reflete um rock e um pouco de folk ascendido em sua arte, algo que o crítico musical, Jon Pareles, do The New York Times, apropriadamente descreveu como um trabalho que “alcança profundamente seu senso de tempo slow-motion, sua combinação de sofisticação retrô e aparentemente inocente candura.”

Isso faz com que sua presença aqui, ao redor do resistente castelo de arenito e mármore rachado, seja ainda mais apropriada. Afinal, essas paredes foram construídas em 1911 por um dos românticos mais infames do Canadá, Sir Henry Pellatt, um multi-multimilionário. Diferente de Del Rey, Pellatt foi um desonesto que frequentemente roubava seus livros e pegava dinheiro emprestado apenas para fazer sua vida e lar como uma realidade épica. Como Del Rey, Pellatt era envolto por ser um sonhador e uma fraude.

Apesar do fato de que Born To Die tenha permanecido no top 200 da Billboard desde sua estreia – e com um mínimo apoio das rádios – ela está bem consciente dos críticos anti-Lana que julgam sua música antes que ela seja lançada (isso sem mencionar aqueles que continuam escrevendo tediosamente sobre sua apresentação extremamente aérea do Saturday Night Live dois anos atrás). Sobre a falta de conhecimento dos abutres que a escolheram para falar mal, ela usou as feridas que eles lhe causaram para criar um poderoso “chega” chamado “Money Power Glory” – a fascinante peça central do Ultraviolence. Melhor do que interpretar a canção como um hino de ambição – o que muitos acham que é – a artista nascida em Lake Placid oferere “Money Power Glory” como uma reação espirituosa aos seus detratores.

“É basicamente sarcástico”, ela diz sobre a faixa que tem um profundo significado. “Eu tinha chegado a um ponto onde eu me sentia como se tudo o que eu fosse permitida a ter – melhor do que respeito – fosse notoriedade e fama.” Ao invés de lastimar e esperar a indústria aceitá-la, Del Rey encontrou conforto de outra forma, com alguns amigos em panelinhas variadas de surfistas e motociclistas ao redor de sua casa em LA.

“A melhor lição que eu aprendi é que você pode fazer o que você ama pelo tempo que você quiser”, ela diz, citando o tatuador Mark Mahoney – que foi responsável por tatuar Johnny Depp e Rihanna – como um tipo de guru. Del Rey amava ter o homem de 57 anos ao seu redor tanto que ela o escalou para os vídeos de dois de seus singles recentes, “West Coast” e “Shades of Cool”. Era através de pessoas como Mahoney e seu amor pela cultura dos motociclistas Hells Angels da Califórnia (“O critério principal da comunidade deles é a liberdade”, ela diz) que Del Rey começou a acordar sua rebeldia interior. “Críticas pesadas são libertadoras porque elas não deixam outra rota além de ser inteiramente você mesmo”, ela diz sobre o processo de escrita para as novas canções como “Cruel World” – uma ode ao rock psicodélico de viver a vida de maneira selvagem. “Há menos pressão [dessa forma] porque você é deixado com seus próprios artifícios.”

Com essa recém-descoberta confiança, Del Rey se gerenciou para obter a coragem de fazer o que ela sempre quis fazer: cantar com um genuíno herói. Ela compôs uma música chamada “Brooklyn Baby” e foi para Nova York encontrar seu ídolo, e então ele poderia gravar os vocais com ela. “Eu estava viajando para ver Lou Reed e tocar com ele essa música. Eu o queria na faixa, e eu estava falando com a agente dele há meses”, ela diz, olhando para algum lugar com lágrimas nos olhos. “Eu estava cansada do voo e então, às 7 da manhã, eu estava indo tocar ‘Brooklyn Baby’ com ele. Ele morreu na manhã que eu cheguei lá.”

Em termos de outros instigadores criativos, Del Rey teve montes de disfunções durante o processo de gravação. Seu relacionamento tenso com Barrie James O’Neill – ex-vocalista da banda alt-folk escocesa Kassidy – lhe deu o tipo de obsessão, temas de amores difíceis que Ultraviolence é recheado.

“Tem sido três anos tênues e tumultuados”, ela diz sobre seu romance com O’Neill. “Era muito gratificante, mas muito difícil. Tentar ter consistência e normalidade dentro da dinâmica desse relacionamento estava impossível. Ele estava indisposto e eu estava indisposta em alguns dias, e psicologicamente nós passamos por muitas coisas juntos. Seu processo poético é muito profundo. Ele pode passar meses sem dizer coisa alguma porque ele está pensando, então havia muita quietude lá.”

Aparte das velhas chamas assombrando seus refrões, Del Rey é franca sobre a forma que sua própria sensualidade abastece seu trabalho. “Há conotações sexuais pesadas na música”, ela diz, dispensando a ideia de que o álbum nomeado Ultraviolence foi tirado de Laranja Mecânica – livro de 1962 do Anthony Burgess sobre a juventude rebelde. “Eu apenas amo o som suntuoso da palavra ‘ultra’ justaposta ao significado da palavra ‘violência’”, ela diz. “E eu amo a ideia de que duas palavras possam viver dentro de um universo sônico. Eu [também] sou atraída por pessoas com força física. Eu me sinto liberta através dos meus relacionamentos com homens que eu acho interessantes”. Os romances ruins não extinguiram seu desejo por um futuro convencional com um marido e família. “Eu adoraria encontrar alguém que eu pudesse compartilhar minha vida e me casar”, ela diz. “Eu adoraria crianças também. Esperançosamente elas não são tão ruins quanto eu”.

Como antes, os tablóides têm seguido Del Rey que aparece para um estiloso homem novo em sua vida, filho de Franca Sozzani, editor-chefe da Vogue italiana (ele regularmente tira fotos para a capa). “Francesco tem sido uma grande inspiração pra mim ultimamente”, Del Rey diz, nada de que ela tenha somente passado o dia anterior com ele e seu amigo de longa data, A$AP Rocky (Carozzini dirigiu o clipe de “Phoenix”, de Rocky). Sua profunda ligação com a Vogue italiana não termina aí. Durante nossa entrevista, ela se vira para o as fotos em seu celular e revela outtakes do ensaio pra capa de Ultraviolence, uma vívida pintura sua pelo controverso artista de LA, Mr. Brainwash (“Ele fez um retrato e o deu pra mim”), conforme um estoque de ensaios passados para a Vogue da Itália e capas. As imagens que inspiram alguns arrulhos e suspiros de Del Rey são a capa digna de realeza de Steven Meisel em março de 2007 com a modelo Jenny Sweeney e uma capa de 1990 com Isabella Rosellini estilizada para parecer como uma mistura de Elizabeth Taylor e Gina Lollobrigida.

A própria imagem de Del Rey mudou com seu novo som experimental, o qual ela descreve como um coquetel musical “inspirado na liberdade do início dos anos 70 com os tons do jazz underground de baixa qualidade e um pouco da fusão da costa oeste.” Ela está apoiada por uma variedade de delicadeza de violões de Dan Auerbach, o produtor do álbum e líder do duo de rock The Black Keys, e sua aparência reflete seu lado roqueiro. O cabelo com laquê, a homenagem a Lana Turner e as referências às pin-ups de Hollywood dos anos 50 foram trocados pelo jeito dos anos 60 e 70 que envolve a força de Anita Pallenberg e Marianne Faithfull.

“Eu amo a ideia de ser capaz de subir no palco usando meus shorts de brim preferidos e minha camiseta favorita com alguma frase e acompanhá-los com um anel de ouro e diamantes”, ela diz. “Quando eu subi no palco pela primeira vez, quatro anos atrás, eu sentia como se tivesse que colocar um vestido e estar apresentável de alguma forma”, ela continua, admitindo que Ferragamo, Brooks Brothers e Ralph Lauren RRL ainda são ótimos. “Eu gosto do jeito orgânico das mulheres que se sentem como se elas não tivessem que estar extravagantes ao se apresentarem”.

As estéticas em seus álbuns têm sido tão potentes que ela tem sido explorada com olhar acadêmico por professores como J. Paul Halferty (que rotineiramente se protege e discute o vídeo de Del Rey pra “National Anthem” com seus alunos de teatro na York University) e é mencionada em publicações como The Paris Review e Artforum. O último ensaio de revista onde Del Rey questiona se ela está sendo enganosa pra todos nós, criando apresentação artística ou sátira.

“Meu trabalho deveria ser definido como pessoal”, ela diz quando perguntada sobre a teoria. “Nunca é uma paródia. Às vezes é sarcástico. Mas se não é isso, então sou tudo eu.”

A voz de Del Rey – a qual parece ter ficado mais forte através dos anos – é tanto quanto enigmática. Ela vai de sussurros (“Pretty When You Cry”) à voz de bebê (“Florida Kilos”) e atinge alturas comparadas à ópera (“Sad Girl”), e sua entrega também parece ter alcançado outro nível. As notas sussurradas na vigorosa canção de Ultraviolence, “Fucked My Way Up To The Top”, soa como se ela estivesse se comunicando com fantasmas. Muito tem sido falado sobre as origens da música (a saber se Del Rey realmente viveu a música – isto é, se ela dormiu com alguém para ter sucesso), mas a artista sorri quando é perguntada sobre essa nova conspiração.

“Você nunca saberia”, ela oferta. “Quero dizer, você realmente não saberia. As coisas interessantes que têm acontecido comigo, as pessoas nunca realmente vão saber, porque a coisa real se perdeu na mistura”.

Por Elio Lannacci
Traduzido por Raphaella Paiva

 

Veja em nossa galeria os scans da revista clicando na primeira foto e as fotos tiradas pelos fotógrafo Chris Nicolls para a publicação clicando na segunda:


Redação LDRA
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