ANÁLISES | Uma viagem pelos Estados Unidos ao som de ‘Ultraviolence’

por / quarta-feira, 13 agosto 2014 / Publicado emAnálises, Colunas

EUA-LANA-DEL-REY

O novo álbum de Lana Del Rey – definido pelo próprio produtor, Dan Auerbach, como um verdadeiro monstro sonoro – é provavelmente um dos seus trabalhos mais pesadamente influenciados pela cultura e estilo de vida norte-americano.
Muitos dos que agora começam a conhecer o trabalho da cantora têm dificuldade em absorver os mistérios profundamente significativos que se escondem por trás de suas composições.

A música de Del Rey é impregnada com os conceitos que levaram à formação da sociedade atual, permeada por questionamentos da origem da existência, por contra-imposições às regras aos quais estamos submetidos e pregando, acima de tudo, o auto-conhecimento que todos devem buscar; o único caminho que possuímos para alcançar o orgasmo da existência: a mais crua e verdadeira liberdade. Afinal, o que Lana busca mais do que tudo e tenta gritar para o mundo por meio de suas músicas é o verdadeiro significado do que é ser humano. A racionalidade alcançada a partir da evolução acabou por subtrair o sentimentalismo da nossa existência, e numa sociedade entremeada por guerras políticas, radicalismo religioso e preconceitos violentos, ela busca o romantismo perdido, o se entregar inteiramente, a honestidade e a pureza do nosso ser: sensações que apenas o amor em toda sua magnitude é capaz de nos fazer sentir. Quem não se lembra como é se apaixonar?

Ao longo dos anos em que viveu em New York, se apresentando em bares noturnos e trabalhando como babá, Elizabeth Grant, que mais tarde se tornaria famosa sob o nome de Lana Del Rey, foi capaz de adentrar um mundo de liberdade e de experiências que lhe modificaram tão profundamente e em um êxtase tão completamente insano que hoje, anos depois, esse mundo tornou-se um dos principais ventres de onde nascem suas composições mais pessoais.

E em meio a esse tornado emocional violentado por momentos de surpreendente calmaria na vida de Del Rey nasceu ‘Ultraviolence’. A própria já atestou ser esse um álbum mais pessoal e introspectivo quando comparado aos seus antecessores ‘Born to Die’ e ‘Paradise’. Com o intuito de entender como a nação americana influenciou na escrita desse novo trabalho artístico da cantora, vamos passar por alguns acontecimentos especiais de sua vida, destacando o porquê de a própria América ser hoje uma das principais musas de Lana Del Rey.

Lana não exita em declarar que sempre se sentiu diferente do mundo ao seu redor. Uma garota com um sonho e uma vontade de liberdade tão expressivos que se sentia como uma verdadeira rainha solitária enjaulada em uma sociedade classista e hipócrita que não media forças para moldar sua personalidade por meio de suas arbitrárias e tendenciosas regras. Mas quando você nasce um artista, nada se pode fazer a não ser aceitar o fato e ser um artista. Desde a adolescência, ela se empenhou em procurar descobrir a verdadeira essência do existir. Afinal, o que estamos fazendo aqui? E por que precisamos nos sujeitar às realidades que nos são impostas?

Com o passar dos anos, Lizzy começou a se sentir enlouquecida pelos próprios pensamentos. Como explicar para os outros aquilo que você sente como a sua verdadeira realidade? Como se tornar aquilo que você quer mais profundamente ser?

“I get high on hydroponic weed”, ela canta em ‘Brooklyn Baby’

Após problemas que envolveram álcool e, provavelmente, drogas, ela foi enviada por seus familiares a um internato em Connecticut quando tinha 15 anos. Com o objetivo de afastá-la de tais substâncias e cura-la de seus vícios. Foi lá que ela começou a ter contato com aquilo que tornaria em breve uma de suas principais inspirações: o icônico Estados Unidos.

Vale lembrar que o primeiro clipe super-produzido de sua carreira, feito para a música ‘Born to Die’ é aberto com a cantora se abraçando a um homem na frente de uma gigantesca bandeira americana que tremula ao vento. Lana sempre coloca em palavras todo o seu nacionalismo e o sentimento que possui em relação aos habitantes de seu país, um orgulho por aqueles que, como ela, buscam tornar a vida algo único e surpreendente.

Na escola, Lana começou a ter contato com os escritores da geração Beat (leia uma matéria completa sobre isso clicando aqui), como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, poetas e escritores norte-americanos que como ela, viam um significado maior na vida, na simplicidade de apenas existir sem se importar com o amanhã e vivendo um dia após o outro, sem saber o que irá acontecer. Acima de tudo, aprendendo a abraçar os diversos acontecimentos e as reviravoltas da vida ao invés de apenas lutar contra ser quem você é. Pela primeira vez, Lana viu sanidade e paz nos conflitos que a mantinham num plano de loucura total. Afinal, houveram outros, antes dela, que foram capazes de enxergar outro horizonte e criar uma trajetória mais artística para suas vidas. A partir de então esse seria seu maior objetivo: viver a vida intensamente tornando sua existência uma verdadeira obra de arte.

Um dos conselhos que Lana dá em entrevistas para seus fãs é sempre buscar as pessoas que os inspiram. “Descubra quem são aqueles que tem a vida que você quer ter e depois descubra como eles fizeram para consegui-la.” E persevere para que isso seja sua própria realidade.

Nos anos seguintes, Lana mudou para New York, sempre buscando aqueles cujas almas vibravam na mesma freqüência da sua. A estrada se tornou um estado de espírito. Dirigir sem destino uma vontade suprema. E enquanto isso, todo o tropicalismo da Costa Oeste com suas palmeiras paradisíacas e praias de areia branca tremiam em sua mente, inspirando-a a sempre se voltar às origens do ser humano. De momentos como este surgiram músicas como ‘West Coast’. As batidas surf-noir da música se misturam com a letra que exalta as diferentes facções que vivem naquela ponta do mundo, com seus estilos de vida, inspirações e esforços para alcançar a liberdade.

É aí que reside o choque sonoro que torna ‘Ultraviolence’ o mais espetacular álbum já escrito por Lana Del Rey. Enquanto vivia na Costa Leste, Lana relata ter sofrido momentos difíceis e passado por situações que foram demasiado sofridas. Escrever sobre elas é como se livrar um pouco dessa dor que ainda a machuca e preenche suas memórias. A influência da Costa Leste aparece nas músicas ‘Cruel World’ com as batidas graves e urbanizadas, ‘The Other Woman’ – cover da cantora Nina Simone e, provavelmente, uma das canções mais significativas do álbum – e, principalmente, na composição ‘Brooklyn Baby’, cujo próprio nome já exalta um dos principais bairros do subúrbio norte-americano.

Em ‘Brooklyn Baby’, assim como em ‘Body Electric’ – canção do EP ‘Paradise’ – Lana retorna à vivacidade dos anos 70 criada pela geração Beat, um dos berços da liberdade do século XX. Já no início ela entoa “They think I don’t understand the freedomland of the seventies”, um verso que já direciona a música completamente para as influências de liberdade tão expressas no videoclipe de ‘Ride’, música também do EP ‘Paradise’. As menções, “My jazz collection’s rad” e I’m talking about my newer nation, and if you don’t like it, you can beat it, baby”, mostram a força que o país apresenta na música da cantora. Essa é provavelmente uma das músicas que mostram com maior clareza a riqueza do trabalho de Del Rey; uma trama que envolve a cultura norte-americana em um de seus momentos mais críticos e com uma importância histórica tão valorizada que chegou até mesmo a ser uma das influências para a montagem do revolucionário festival musical de Woodstock.

Em ‘The Other Woman’, a cantora Nana Simone que cantava em cabarés – batidas rítmicas que lembram essas casas noturnas estão presentes também na canção ‘Sad Girl’ – de New York e Atlantic City (mais uma vez na Costa Leste dos Estados Unidos) conseguiu expressar todo o poder e a tristeza de uma amante que vê no passar dos anos a melancolia da solidão. Posicionada especialmente para encerrar esse capítulo de sua história, Lana Del Rey não poderia ter escolhido uma composição mais apropriada ao seu estilo de vida. Ela é a amante, a outra, aquela que está sempre do lado de fora esperando solitária o retorno de um homem que nunca será inteiramente seu.

Por meio das onze faixas do álbum, a viagem sonora que se é capaz de fazer pelo país é impressionante. Músicas como ‘Old Money’ direcionam o álbum para a simplicidade das coisas, mencionando pores do sol e cidades pequenas, um verdadeiro retorno às raízes da humanidade, onde a simplicidade e o cotidiano são a real arte da vida. Em ‘Ultraviolence’, Lana é mais uma vez um espelho que reflete a fragilidade do ser humano, o interior que a sociedade tenta cada vez mais arduamente destruir.

É interessante destacar que o álbum foi gravado na cidade de Nashville, localizada no centro dos Estados Unidos. Um álbum que busca unir e diferenciar, mostrando as peculiaridades da vida em seus extremos terrestres, mas produzido no centro de tudo, no coração da América. Chega a parecer proposital, mas foi apenas o correr dos acontecimentos. Como a própria Lana já declarou, “quando você apenas aceita seu destino e quem você é, as coisas vem até você naturalmente.”

Por fim, aqueles que enxergam apenas a superficialidade das canções sem procurar o significado real por trás dos versos metafóricos escritos pela cantora deveriam realmente repensar suas idéias. Lana Del Rey é um poço de conhecimento, interpretação e, mais do que tudo, um furacão cultural que tira o ar de quem absorve seus pensamentos. É uma aula de história, uma visita a um museu, um toque de amor, uma sinfonia de desejo. É uma viagem pelos Estados Unidos em sua mais natural essência. É colocar os fones de ouvido e sentir as cores azul, vermelha e branca pulsando nas veias daquela que é uma das maiores cantoras da atualidade.

Escrito por Wesley Lima

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
TOPO